São realmente invisíveis e desprotegidas as crianças do nosso mundo. Isso nos é revelado, doce ou amargamente, pelos diretores do filme “Crianças Invisíveis”.
A divulgação do relatório Situação Mundial da Infância 2006 da UNICEF, intitulado “Excluídas e Invisíveis”, constatou e tentou revelar ao mundo a situação de seus menores habitantes, expondo toda a fragilidade a que estão expostas as crianças do planeta. Foi então que, reunidos pela produtora italiana Chiara Tilesi, oito diretores dos sete curtas que compõe o filme “Crianças Invisíveis” sentiram a necessidade de ampliar a visibilidade do conteúdo desse relatório, chamando a atenção das populações para suas crianças que, se sobreviverem, cuidarão do que chamaremos de mundo daqui a alguns anos.
Sinopses e Impressões
O filme africano, “Tanza”, começa logo com crianças de armas na mão, lutando por ideais que talvez desconheçam; guerras antigas que armam meninos e escondem seus brinquedos em buracos de paredes, onde mora alguma cor. Os olhos infantis fixam no horizonte e, por mais que haja dor, não há lágrimas. Só a falta delas. Os cinco meninos armados observam uma aldeia repleta de crianças brincando. São as mesmas crianças que habitam a escola secretamente admirada por Tanza. Ao identificar-se com o universo ali presente e que lhe foi negado, o menino descalça os sapatos demonstrando conforto e se deixa ninar por suas impressões.
A instituição educacional que consola o menino africano maltrata Blanca nos Estados Unidos. O filme americano de Spike Lee expõe contradições acerca das angústias vividas por uma garota negra, filha de pais viciados em drogas, portadores de HIV e habitantes do subúrbio de Nova Iorque. A princípio, a garota reclama aos pais objetos como celular pré-pago e tênis da moda, argumentando que suas colegas de escola possuem esses bens. São as mesmas amigas que escarnecem logo depois, tanto a doença da menina quanto o vício de seus pais. Desperta assim em Blanca a vontade de viver maior que os caprichos consumistas incentivados pela abundância de propagandas e produtos, ambos esquecidos frente a dificuldade e a vontade que une pai, mãe e filha: viver.
Sobreviver e comprar tijolos para a construção da casa do irmão é o objetivo de Bilu e João, personagens do curta brasileiro de Kátia Lund, co-diretora de Cidade de Deus. Bem humorados, os personagens fazem das ruas de São Paulo um ambiente de trabalho onde tudo é possível. Do jogo improvisado na feira, ao atrevimento de Bilu e a simpatia de João, o cotidiano das crianças vira música nas mãos e bocas dos repentistas na rua. A criatividade dos irmãos ante as adversidades da distância, da fome, do dinheiro escasso e o amor ingênuo de um pelo outro, compõe o que há de melhor na história.
Nada melhor que a utilização da megalômana metrópole para cenário do filme. Ali estão escancaradas as discrepâncias sociais do país, sobretudo na última cena que destaca arranha céus engolindo favelas já comprimidas em pedaços de rua que restaram da ocupação urbana.
É também nas ruas que Ciro, criança que mora em Nápoles, constrói precocemente sua identidade. Embalado por uma bela e diversa trilha sonora, ele projeta sua sombra na parede da entrada de sua casa, cria espectros de personagens infantis, voa, simula suicídio, afasta seus ouvidos das discussões que habitam o mundo doméstico no qual se recusa adentrar. Ao sair às ruas, talvez seu verdadeiro lar, rouba um Rolex dourado de um senhor montado em um grande carro e distraído ao celular. Sai para vender o produto do roubo a um dono de parque de diversões. Quer em troca, além de uma quantidade de dinheiro, algumas fichas que dão acesso aos brinquedos do parque vazio. Posiciona-se diante de um carrossel, mas não brinca, só observa como quem admira uma caixinha de música a que ele próprio pertence.
Mas, nem só da ocasião se faz o ladrão. No caso do iugoslavo Uros, o próprio pai, alcoólatra e impetuoso, organiza os furtos realizados por seus filhos. Um desses roubos cometido pelo garoto o levou a uma casa de detenção. Lá o menino aprendeu a cortar cabelos, ofício que planejava exercer, em sua contígua liberdade, junto ao tio barbeiro por profissão. Esse sonho é descrito aos seus companheiros de dormitório enquanto acende palitos de fósforo e arremessa-os ao teto, formando pequenos pontos de luz. Como quem sonha olhando aleatoriamente as estrelas. Recém liberto, o jovem volta opcionalmente para a casa de detenção, a única espécie de proteção que conheceu durante sua curta infância.
O famoso diretor Ridley Scott, diferencia-se ao escolher um adulto como protagonista de seu filme. Jonathan, fotógrafo de conflitos, sofre com a lembrança do flagelo alheio que sempre o rondou. Ao sair de sua casa no campo, o fotógrafo vê dois meninos em uma floresta. Sua trajetória até eles desorganiza o tempo e lentamente transforma-o em suas recordações infantis. Aqui, após a conclusão de uma experiência imaginária, sentindo-se criança novamente, o repórter consegue entender e suavizar sua consternação construída durante seus anos de observação intra-lentes fotográficas.
Quando o assunto é criança, muitas vezes o uso da sensibilidade é uma forma eficiente de chamar a atenção diretamente aos problemas dessa etapa. John Woo sabe disso e abusa desse recurso ao retratar a história de duas meninas chinesas de classes sociais opostas. Uma possui muitas coisas que o dinheiro pode pagar, além de pais negligentes e em fase de separação conjugal, outra, encontrada no lixo, possui o amor que seu protetor, um simpático velhinho catador de lixo, dedicou-lhe durante a vida. O curta mostra todas as adversidades impostas pela pobreza num país de terceiro mundo e a luta obstinada de um avô para juntar miúdos que pagariam a educação da neta. As histórias são entrelaçadas por uma boneca comum e pela busca da felicidade de ambas.
Ao término do filme, após um passeio por realidades tão distintas e tão próximas simultaneamente, tem-se a impressão de que os diretores tentaram conferir o máximo de visibilidade possível para essas crianças; que olhávamos todos os dias e, simplesmente, não víamos.
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!