Da buchada às telas de cinema

Domínio Público.
Bito, no seu ilustre ponto de encontro.
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lu almeida · Aracaju, SE
11/9/2008 · 154 · 12
 

Praça Nossa Senhora do Amparo. Quarta-feira, dia 3 de setembro, início de noite. Missa terminada, átrio da igreja cheinho de gente, escadaria no improviso de arquibancada, paredão branco estendido como curtume. Ao invés da secagem, pano para muita manga e histórias para contar. Tempo frio, pipoca quente no carrinho, guri no pula-pula e a espera da sessão que aquece as idéias dos quase 20 mil habitantes da cidade à beira do riacho grande, Riachão do Dantas.

Pense num caminhão baú e toda parafernália de equipamentos atípicos naquela pequena praça. Um gigante palco de muito conversê e reencontros. Ali seria visto o personagem da noite, o caprino mais famoso da região, finado Bito. Era o tal projeto “Revelando os Brasis” que aportava para exibir o “Deu Bode”, filme escrito, produzido e dirigido por Fátima Góes. Uma das selecionadas, nas mais de 30 histórias em todo país, no segundo ano de projeto produzido pelo Instituto Marlin Azul e Ministério da Cultura.

E como noite de gala, não podia faltar céu estrelado para primeira exibição. “Gravei o filme nos meses de julho e agosto de 2006, de lá pra cá o pessoal da cidade não teve acesso ao trabalho finalizado. É uma satisfação grande vê-lo ser passado, ainda mais depois do falecimento de Bito em julho de 2007”, explica a realizadora. Pelo que parece, Bito está cada vez mais vivo nas histórias dos riachoenses.

Falando em lembranças, assim que Seu Almeida soube do cinema na praça, saiu do povoado Vivaldo, na companhia do irmão Sebastião, para ver o falecido Tonho de Zé de Antônio. Essa, talvez, única imagem que permanece viva do seu irmão mais velho. “Tentei trazer meu pai, José Antônio de Almeida, mas não deu. Como ele tem 105 anos, fica difícil o deslocamento. Mas quando chegar no sítio conto tudo sobre Tonho e Bito”, proseia o aposentado.

Segundo Seu Almeida e Sebastião, Tonho era um dos enumeráveis amigos de Bito. E nesse grande laço de parceiros, íntimos e admiradores, há também espaço para as moças. Afinal, a fama de Bito era de paquerador. Como explica Terezinha Fiel de Oliveira, mais conhecida como Teteca Fiel, 65 anos de Riachão. “Onde tinha muita gente, de enterro, sentinela, procissão o bode aparecida. Ficava sentado no ponto da rodoviária só na espera de se juntar logo com álguém”, afirma a Senhora Fiel.

Ela e seu marido, o maestro da Lira Nossa Senhora do Amparo, Etevaldo Cândido dos Santos sairam logo de casa para pegar um melhor lugar e ver os filmes. Os seus olhos vidradinhos na tela justificam muito mais que causos engraçados sobre um ilustre filho riachoense, há aquilo que ela diz ser o mais belo: “ver minha cidade retratada não tem coisa melhor”.

Mas não é só de buchadas que vive uma folia, o destino de Bito era para ter terminado na panela. Infalível, o bode inventou sua história e caiu na tela de cinema. É essa memória afetiva que motiva a organização, há dez anos, do Forró do Bode marcado sempre pro segundo sábado de julho. Toda vez que você chegar a Riachão do Dantas, fale com o busto de Bito, na entrada da cidade - com direito a placa com nome e datas da ilustre autarquia caprina. E não fiquei acuado, já virou hábito.

Cabra forte

O filme por onde passa conquista o público. Aliás, só dá bode. Nesse ano a narrativa ganhou o prêmio do júri oficial de melhor vídeo sergipano na 8ª edição do Festival Curta-SE. Abocanhou a premiação R$ 10 mil reais da Prefeitura Municipal de Aracaju e 100 cópias em DVD pela Fundação Aperipê. Com quinze minutos, a história revela as peripécias do animal mais popular no Centro-Sul de Sergipe.

Da dona-de-casa ao ex-prefeito. Do vaqueiro às devotas carolas. Todos revelam , à sua maneira, admiração e causos sobre um animal que “parece gente”. Bito nunca foi afeito aos currais, segundo seu dono, Joélio Araújo, desde novo o bode já “demonstrava sua personalidade”. Para tanto, Fátima Góes explora as vivências do bicho, a partir do fatídico episódio de sua proibição de circular solto por parte de uma juíza. Quem disse que alguém concordou?

Logo, logo a mobilização pró-libertação de Bito vencia as querelas judiciais. Até porque dizem que o caprino era devoto da padroeira da cidade. Tinha forte amparo da santinha. A câmera acompanha o fiel durante a procissão do Sagrado Coração de Jesus, em cortejo de Sete de Setembro e, lógico, no forrobodó. Do lanche na padaria ao banco da rodoviária só dava o cabra forte.

Ali era pé quente. Tanto que no dia 15 de outubro Fátima Góes volta a rodar mais uma produção, agora, sobre episódios da história riachoense. De formação, bibliotecária, de função, funcionária pública e nas horas vagas, realizadora. Ela diz que depois de ter feito o vídeo, tomou gosto pela coisa. Agora, atenta, garimpa personagens e novos assuntos para historiar.

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Marcelo Cabral
 

Grande Bito, ilustre do Riachão!
Parabéns Lu, que história ótima! Parabéns também para Fátima Góes, por realizar o filme, e que ela anime de fazer outros tantos sobre seu lugar! Parabéns também ao Instituto Marlin Azul por realizar o Revelando os Brasis, esse projeto tão importante que tive a oportunidade de acompanhar em Piaçabuçu, aqui nas Alagoas.
Saudações ao povo de Riachão do Dantas! Viva a celebridade caprina, o saudoso, festejado e filmado para posteridade, bode Bito!
Abraços!

Marcelo Cabral · Maceió, AL 11/9/2008 11:09
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Marcelo Rangel
 

Arrasou no texto, Lu! Colocou Sergipe em boa fita nesse concurso!
Sua sensibilidade é nota mil, histórias deliciosas! Parabéns!
Abraços!

Marcelo Rangel · Aracaju, SE 11/9/2008 14:53
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heraldo hb /.
 

SHOW!
:D
votadíssimo! certamente será publicado.

heraldo hb /. · Duque de Caxias, RJ 11/9/2008 15:20
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Lícia Cotrim
 

Lu menina senti muito o clima do lugar com essa tua descrição. Muito legal! Fiquei com vontade de saber mais da história desse bode que era devoto da padroeira da cidade.. ehehe. Vou procurar por aqui. Beijosss

Lícia Cotrim · São Paulo, SP 11/9/2008 16:57
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Nic NIlson
 

Lu Almeida, q bacana! Muito bom este relato e melhor ainda deve ser o filme. Gostaria tanto de velo. Nao tem em DVD? Por gentileza, se tiver, eu compro. Obrigado

Nic NIlson · Campinas, SP 11/9/2008 18:24
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Andre Luiz Mazzaropi
 

Olá Lu Almeida- Parabens pelo projeto, sou filho do saudoso Mazzaropi O Jeca do Cinema, aliaz fiz em 6 de seus filmes o filho do jeca que hoje levo pelo Brasil afora, abraços e quem sabe um dia poderei levar até ai os filmes de Mazzaropi e o show do Filho do Jeca
André Luiz Mazzaropi - O Filho do Jeca
alt@vivax.com.vr

Andre Luiz Mazzaropi · Taubaté, SP 11/9/2008 18:32
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Zezito de Oliveira
 

Lu,
Um dos lugares onde a história do bode bito foi revelada para mim e para outros sergipanos, foi no caderno de cultura do jornal Cinform, assim como a escolha do projeto da Fátima Goes.
Como fiquei empolgado com a revelação da historia do bode através de um video e com a feliz "sacada" do MINC em promover o Revelando Brasis, escrevi uma nota, sendo a mesma publicada no Cinform, dias depois,
Por último, o texto está uma "delicia" e reitero, junto ao pessoal responsável pela coordenação do projeto, a necessidade de editar uma coletânea dos videos premiados e colocá-los a venda para o púbico em geral, em especial professores e educadores ligados a projetos e instituições educativas, sociais e/ou culturais, a fim de serem utilizados em salas de aula ou em rodas de diálogo. Experiência desse tipo acontece com o DOCTV que é comercializado pela Fundação Padre Anchieta (TV Cultura).
Beijos!!!

Zezito de Oliveira · Aracaju, SE 11/9/2008 19:04
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Marcelo Rangel
 

O lançamento em DVD já é previsto no projeto: "Em parceria com a Petrobras, os vídeos do projeto são lançados em DVD com distribuição gratuita entre bibliotecas públicas, secretarias de Cultura e Educação, instituições de preservação da memória audiovisual etc. "
http://www.revelandoosbrasis.com.br

Marcelo Rangel · Aracaju, SE 11/9/2008 19:47
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lu almeida
 

Quem quiser acompanhar o projeto, diariamente, rola o blog .
Mais fotos da exibição em Riachão no álbum.
Cheiro!

lu almeida · Aracaju, SE 12/9/2008 06:34
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Zezito de Oliveira
 

O Brasil (RE) conhecendo o Brasil. Texto publicado no jornal Cinform em dezembro 2006
O modo tradicional de ampliar o acesso das populações do interior e das periferias a produção audiovisual tem sido levar pacotes de filmes para exibição em espaços públicos esse formato é útil e necessário, mas insuficiente porque mantém o conhecimento técnico /artístico concentrado nas mãos de poucos e impossibilita que diferentes visões sobre as pessoas e a realidade possam ter lugar.

Nessa perspectiva o programa Doc-TV e o Revelando Brasis do Ministério da Cultura inova e inclui, ao incorporar como política pública as iniciativas lideradas por ongs e ativistas sociais desde o inicio da década de 90 quando buscaram se apropriar dos meios de produção audiovisual, bastante facilitada pelo desenvolvimento tecnológico e conseqüente redução dos preços dos equipamentos, para mostrar - sem intermediários - como índios, negros, populações camponesas e da periferia, mulheres, jovens etc, gostariam de serem vistos.

Por isso, deixo o meu abraço e o meu reconhecimento ao Minc pela atitude e ao Cinform (matéria “Deu bode no cinema!, do caderno municípios, edição 1228) que tem sempre dado destaque aos prêmios concedidos a Sergipe e a sugestão para que programas com a mesma filosofia e metodologia sejam realizados no âmbito da próxima gestão da secretaria estadual de cultura.

P.S.: Eis a nota publicada na seção carta dos leitores. Ao escrevê-la me veio a mente, uma experiência, que tive em meados dos anos 80, quando fui diretor da Associação de Moradores do Bairro América e solicitamos o empréstimo, via correio, de um video-documentário ( VHS) e que tratava de uma ocupação e posterior reintegração da posse de um conjunto habitacional construido pelo governo do RJ e cujas casas estavam fechadas. O material foi exibido em telão e foi um misto de surpresa e emoção, com a qualidade do roteiro, das imagens e do tema que era muito próximo da realidade a qual estavámos inseridos.
A entidade que produziu o trabalho ainde existe, foi criada nos inicios dos anos 60 e é muito atuante na àrea da educação popular e da luta pelos direitos humanos e sócioambientais.

Zezito de Oliveira · Aracaju, SE 12/9/2008 10:45
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Drigo Garcia
 

eita, que depois de ler esse texto me deu mais vontade ainda de voltar para minha terra querida. São esses causos e esse povo que me fazem amar mais ainda essa terra sergipano.
Feliz também fiquei por ver que audiovisual em SE começa, de fato, a aparecer, levando-nos a conhecer mais a história dessa terra querida.
Emocionado por ler um texto tão bem escrito, que nos leva a um imaginário tão rico quanto deve ser o do filme.
Lu, manda o filme para mim! Rsrs

Drigo Garcia · Aracaju, SE 12/9/2008 12:06
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Saulo Coelho
 

Texto super gostoso, Lu! Parabéns! Fico mais feliz e orgulhoso ainda pelo fato de Riachão ter sido a minha primeira morada na vida. Nasci em Aracaju e fui no dia seguinte morar lá. O saudoso Seu Horácio Góis, pai da Fátima, era meu padrinho. Fui algumas vezes à inesquecível e mundialmente famosa Festa do Bode. rsrs

Saulo Coelho · Aracaju, SE 30/9/2008 19:28
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Expectativa da sessão de cinema. zoom
Expectativa da sessão de cinema.
Fátima Góes revelando a história do bode. zoom
Fátima Góes revelando a história do bode.
Familiares de Tonho reencontraram o irmão no filme. zoom
Familiares de Tonho reencontraram o irmão no filme.
Dona Teteca toda prosa. zoom
Dona Teteca toda prosa.
Meninada reconhece moradores na telona. zoom
Meninada reconhece moradores na telona.
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"Valei-me São Sebastião, é o fim do Mundo!" caiu no gosto da platéia.

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