A lama tem um sentido especial para o mangue, é dela que se nutre sua verde e frondosa vegetação, onde são construÃdas quilométricas galerias pelas quais circulam os caranguejos. Com ela é forjado o cerco entre rio e mar dando forma a ambientes assimétricos provedores de um fluxo vital constantemente transformado e renovado assegurando a manutenção da ordem em meio à dinâmica natural do caos.
O cenário liquefeito/heterogêneo ainda hoje não se permite solidificar por toneladas de concreto, "insaneamento" básico e descaso, ao passo que ininterrupto margeia um caminho resistente e sem silenciar regenerando-se com propriedade hepática (cuja qual nem as mais avançadas técnicas de cultivo e manejo da agricultura celeste poderiam subsidiar), enquanto presencia o cataclisma urbanóide.
Indo um pouco mais adiante e sem querer rasgar muita seda, a metáfora mangue, surgida há 21 anos quase completos, deu origem à cooperativa cultural subversora de lógicas e práticas até então "invioláveis" ao apropriar-se da ainda primitiva tecnologia digital, da ficção cientÃfica, do futurismo, do centro, da periferia, da cidadania mundial, da gréia e enfaticamente (mas não acima de tudo) da música.
Chico e sua ciência foram peças chave na emergência do Manguebeat. Como mercador ambulante, passeou pelos tambores do maracatu, pelas rodas de coco e ciranda, nas ruas do Bronx/Brooklyn, Rio Doce, Peixinhos, Chão de Estrelas, Aurora até o Pina; chegou longe em pouco tempo e carregou para onde foi Pernambuco e seus mestres: Josué de Castro, João Cabral, Lia de Itamaracá, Lampião, Mestre Salu, Zumbi e tantos outros; foi embora muito cedo também, mas seu passado, mesmo depois de 15 anos de partida ainda se faz presente no consciente coletivo da Manguetown, seja em um grafite de rua, no som das carroças de disco pirata ou na conversa entre amigos, de toda maneira, a saudade para aqueles que o conheceram fica, assim como a vontade de ter visto um show para os demais.
A analogia entre a diversidade dos mangues e a cena que ajudou a criar é pertinente ao momento, uma passagem do romance “Homens e Caranguejos†vem a mente quando Josué de Castro narra o homem do mangue em uma relação beirando a simbiose com o caranguejo, tais personagens se complementam e reconfiguram o ambiente num ciclo de elementos conectados entre si e com a lama, lugar final onde homens e caranguejos se tornariam um só.
(...) "Os mangues do Recife são o paraÃso do caranguejo. Se a terra foi feita para o homem, com tudo para bem servi-lo, o mangue foi feito especialmente para o caranguejo. Tudo aà é, foi, ou está para ser, caranguejo, inclusive a lama e o homem que vive nela. A lama misturada com urina, excremento e outros resÃduos que a maré traz. Quando ainda não é caranguejo, vai ser. O caranguejo nasce nela, vive dela, cresce comendo lama, engordando com as porcarias dela, fabricando com a lama a carninha branca de suas patas e a geléia esverdeada de suas vÃsceras pegajosas.
Por outro lado, o povo vive de pegar caranguejo, chupar-lhe as patas, comer e lamber os seus cascos até que fiquem limpos como um copo e com sua carne feita de lama fazer a carne do seu corpo e a do corpo de seus filhos.
São duzentos mil indivÃduos, duzentos mil cidadãos feitos de carne de caranguejos. O que o organismo rejeita volta como detrito para a lama do mangue para virar caranguejo outra vez.
Nesta aparente placidez do charco desenrola-se, trágico e silencioso, o ciclo do caranguejo. O ciclo da fome devorando os homens e os caranguejos, todos atolados na lama." (...)
(Josué de Castro, 1967, p.26)
Pedro... ótimo texto para relembrar um legado. Meu segundo Carnaval em Olinda, antes mesmo de eu morar em Recife, foi aquel logo após a morte do Chico. Já acompanhava a sua música e suas idéias bem antes.. e são elas que deixam um legado pra gente de como a arte e a música podem servir como denúncia, transformação das mazelas sociais e ecológicas.
Sempre bom dar uma passada no Overmundo..
Vou divulgar no Face...
ECOS DO MUNDO - HOMENAGEM A CHICO SCIENCE
Chico Science olhou para um mangue
e a biodiversidade o encantou
vidas sobre vidas vivendo
no meio do lama
viu nascer uma flor.
Brotou forte ali a ideia
de aquelas vidas exaltar
de um modo que tudo dissesse
da beleza que havia lá!
Da terra que virou lama
Da lama que gera vidas
Há tantas vidas na lama...
Ali a lama era vida!
E um batuque se fez no compasso
da rima da vida rasteira
rasgando o que tinha na lama
misturando a música estrangeira
juntaram-se os ecos do mundo
e esse som passou a gritar
o som do silêncio da lama
e da lama pôs-se a cantar!
Mas do grito veio o silêncio
de uma vida a se findar
na divisa das duas cidades
que tanto aprendera a amar.
E aà Thiago,
Antes de mais nada obrigado. Tenho pra mim que muito do que vivemos agora em Recife, Olinda, Jaboatão e vizinhaças se deve ao trabalho de Chico e todos os outros que participaram dessa história. Sem atribuir um caráter geral, hoje considero que Recife está para Chico Science assim como Kingston está para Bob Marley.
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