Dá-lhe São Cri-cri!

Saulo Frauches
Taça e pôster, juntinhos, na sala de troféus do São Cri-cri
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Saulo Frauches · Rio de Janeiro, RJ
23/11/2006 · 201 · 7
 

A fórmula imbatível para desesperar torcedores de futebol é o jejum de títulos. Praticamente todos os grandes clubes brasileiros tiveram uma fase negra: o Fluminense só saiu de uma fila de nove anos com um gol de barriga do Renato Gaúcho, o Botafogo esperou de 1968 até 1989 para sentir de volta o gostinho de levantar uma taça, e o Corinthians viveu épicos 22 anos de seca, que só terminaram em 1976. E o que você falaria de um clube cujo último grande título conquistado foi em 1926? Pois para o São Cristóvão de Futebol e Regatas, a taça é motivo de celebração até hoje. Junto com América e Bangu, o São Cristóvão forma a tríade dos únicos clubes capazes de tirar um campeonato carioca das mãos dos tradicionais grandes do Rio de Janeiro. A data de comemoração do que aparentemente é apenas mais um título estadual, na verdade, serve como porta de entrada para um mergulho histórico.

Mesmo nos momentos mais adversos, não dá para se queixar de maus tratos com o passado. Para comemorar o título, foi lançado o livro “Memórias da Conquista: 80 anos do título”, de Raymundo Quadros e Gustavo Côrtes, com detalhes sobre a façanha, à venda na sede do clube por R$ 25. Só uma palhinha: a campanha vitoriosa incluiu coças em times como Flamengo (5 a 0 e 5 a 1), Fluminense (4 a 2) e Botafogo (6 a 3).

Mas, mais do que viver do passado, o São Cri-cri busca se redescobrir. É o retrato de um Rio nostálgico e, como a cidade, está recheado de casos curiosos.

Prata da casa

Ao entrar na sede de futebol, na Rua Figueira de Melo, no bairro que dá nome ao time, é possível ler – pintado em letras garrafais –, na parede do estádio, uma mensagem sobre o histórico título de 1926. Logo acima, um pouco atrás do muro e já ocupando a construção vizinha, a frase bíblica “aqui nasceu o fenômeno”. Assim, sem nenhum complemento. O “fenômeno” em questão é o atacante da seleção e do Real Madrid Ronaldo (o Ronaldo que cedeu o diminutivo ao Gaúcho e adotou daí em diante o peculiar sobrenome), ele que foi revelado nas divisões de base do São Cristóvão. Para as gerações mais novas, o jogador tem sido o mito que alimenta os brios do time.

Renato Campos é funcionário do São Cri-cri desde 2000, mas enche a boca de orgulho ao dizer que freqüenta o clube há 46 anos. “Meu pai me trazia para cá desde que eu tinha um ano”, lembra. É o tipo de pessoa apaixonada pelo que faz. Por iniciativa própria, decidiu guardar recortes de tudo quanto é reportagem em que o São Cristóvão é citado. No “clipping” de Renato, que ocupa várias pastas, há desde fotos de craques consagrados até imagens da reinauguração do gramado do estádio. Tem de tudo. Até a foto de uma faixa de apoio a Ronaldinho durante a Copa de 2006, que saiu publicada num jornal carioca de grande circulação. De quem foi a iniciativa? Foi do Renato, claro!

“O perfil de sócios do clube era de pessoas mais velhas. Com a geração do Ronaldo, vieram mais jovens para torcer pelo clube”, conta ele, que ainda batizou um campeonato estadual juvenil disputado no São Cristóvão com o nome do atacante. É a Copa Ronaldo Fenômeno.

Aparando a grama

Além de Ronaldinho, o São Cristóvão fez fama – e caiu nas graças dos amantes de factóides – por causa do gramado aparado por carneiros. A situação inusitada teve início logo nos primórdios do clube. É que a presença de recrutas nas dependências do clube, próximo de uma série de quartéis militares, deu origem ao apelido de “torcida cadete” aos fiéis do São Cri-cri. E o símbolo dos cadetes (os mitólogos de plantão vão adorar relacioná-lo ao signo de Áries e a Marte, deus da Guerra) é o carneiro Nicodemus. O que aconteceu a seguir não é tão difícil de se supor: bastou o pessoal do Exército ter a brilhante idéia de dar um casal de carneiros para o time do coração e a homenagem virou uma farra: os animais começaram a procriar sem parar e o clube foi tomado por eles. Como os bichos não tinham o mesmo conhecimento técnico nem o esmero de empresas profissionais, o gramado do São Cristóvão costumava estar bem abaixo dos dos rivais. Mas, calma, os carneiros foram banidos do clube há sete anos.

Pionerismo

Se há casos engraçados, há também pioneirismo. Pouca gente sabe que o São Cri-cri chegou até a inspirar o uniforme titular do Santos – todo branco, tal como o do time carioca. A relação entre os dois, aliás, é curiosa. O Peixe estreou o uniforme branco na inauguração do estádio do “colega”, e, por um tempo, os sócios de ambos os clubes tinham acesso livre tanto à sede do Rio como à do litoral paulista.

E, já que o Santos teve o seu Pelé, vale lembrar que o São Cristóvão também foi um pródigo revelador de nomes para o futebol brasileiro – não, o clube não se limita a Ronaldo, não. É Renato Campos quem enumera de cor alguns nomes além-fenômeno que começaram por ali: o meia Djalminha, ex-Palmeiras; Carlos Alberto Parreira, ex-técnico da seleção (Parreira, aliás, começou como preparador físico do time e estreou como treinador no São Cristóvão, logo depois de formado em Educação Física e um pouco antes de ser convidado para ser técnico de Gana); Sebastião Lazaroni. Espera aí, Lazaroni? Melhor fingir que foi ato falho... Para abafar o caso – e compensando com uma informação bem legal –, não custa lembrar que o craque Leônidas da Silva, o Diamante Negro, também já vestiu a camisa dos cadetes.

Hoje, o time profissional do São Cristóvão, assim como a maioria dos pequenos do estado, entra em campo apenas três meses por ano – a conta certa para disputar o campeonato carioca, em que atualmente ocupa uma vaga na segunda divisão. No resto do ano, a equipe precisa ser desfeita, pois não há mais campeonatos nem geração de receitas para sustentá-la. Para sobreviver no mercado concorrido do futebol arte, o São Cri-cri assumiu a condição de revelador de talentos – a transferência de Ronaldo para o Real Madrid, por exemplo, rendeu R$ 900 mil ao clube, graças a uma cláusula que destina uma pequena porcentagem de qualquer negociação no passe ao time que revelou o atleta.

Sobrevivência hoje

O campeonato carioca de 1926 – que completou seus 80 anos no dia 21 – é a jóia da coroa, mas isso não quer dizer que o São Cri-cri jamais levantou outra taça. Este ano mesmo o clube comemorou o título carioca da divisão de acesso na categoria júnior. E a sala de troféus na Figueira de Melo tem um bocado de registros vitoriosos que vão do basquete ao vôlei. Mas, no futebol, um título da primeira divisão, com o time principal, como nos anos 1920, isso anda distante da realidade atual...

O futebol do clube está arrendado para a empresa de marketing esportivo BR 2002, que banca a folha salarial em troca de uma participação na venda de jogadores revelados no clube. Duda Patetuci, coordenador do Departamento Amador e ligado à empresa que financia o São Cristóvão, explica que a parceria tem duração de cinco anos e o foco é a divisão de base. O que não o impede de lamentar a “garfada” da arbitragem (segundo ele) contra o time principal, ocorrida na seletiva do campeonato carioca – que abortou, ou pelo menos adiou, os planos de tentar uma vaga na primeira divisão. Ah, esses árbitros...

Na hora de explicar o que levou a BR 2002 a buscar uma parceria com o São Cri-cri, um motivo de dar inveja a muito time grande: “Além de ser uma marca forte e ter revelado o Ronaldinho, o São Cristóvão não tem dívidas trabalhistas”, destaca.

Parte da história do Rio

Teorias para apontar a decadência com que sofre o São Cristóvão não são poucas. Uma delas indica a chegada do Vasco ao bairro – trazendo a reboque uma fanática comunidade portuguesa – como decisiva para o esvaziamento do clube, assim como as inaugurações dos estádios de São Januário e Maracanã, que teriam apagado o brilho do Figueirinha, com seus seis mil lugares. O atual presidente do São Cri-cri, Élio dos Santos Filho, ressalta que a mudança do perfil do bairro também não colabora para angariar novos sócios para o clube, que atualmente conta com 600 pagantes. “O viaduto atrapalhou, a área virou comercial. Não há residências, como antes”, lamenta.

Mas, daqui pra frente, tudo vai ser diferente

Com a maioria dos sócios freqüentando apenas a sede náutica, e as receitas fixas limitadas a aluguéis do campo, do salão, e de vagas para reparo de embarcações, o tradicionalíssimo terreno na Rua Figueira de Melo pode estar com os dias contados. Élio conta que o local onde fica o Futebol é assediado por empresas imobiliárias.

“Eles querem a área e em troca nos oferecem outro terreno, em outro local. E nos deram liberdade de escolha. Pode ser em Vargem Grande ou no Recreio dos Bandeirantes, por exemplo. Alguns sócios podem achar a proposta indecente, mas se ofereceram um lugar melhor, com tudo construído, temos que estudar” conta o presidente, que no fundo é favorável à venda. A única condição imposta por ele é que qualquer obra feita no terreno reserve uma parte em memória ao São Cristóvão, como “marco da nossa existência”.

Curiosamente, Élio apresenta para o conselho do clube os planos de uma troca de sede justamente dia 21 de novembro, data exata dos 80 anos do principal título conquistado pelo São Cristóvão. Resta saber se a mudança, caso concretizada, servirá de impulso para o São Cristóvão voltar a ser um “fenômeno”.

Dá-lhe São Cri-cri!


Escrito em parceria com meu amigo Viktor Chagas

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Michele Miranda
 

cabra safada!

Michele Miranda · Rio de Janeiro, RJ 24/11/2006 16:20
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Ana Cullen
 

Eu nem sou muito chegada à futebol, descobri os prazeres do jogo (inclusive a sagrada cervejinha depois do "treino") a pouco tempo e ando tentando treinar com outras meninas mas tá difícil! Mas enfim, o ponto é que há uns dois anos eu entendi um pouco porque o futebol é tão importante, há uma paixão que se passa de geração em geração, é um momento de pais e filhos compartilharem emoções, é pertencer a algo, a um grupo... descobri isso porque meu pai (e toda a família do lado dele: tios, tias, primos, primas e vô) é pontepretano, torce pra macaca! E nessa ocasião marcante a dois anos atrás teve o casamento de uma prima em Campinas (SP), a família inteira estava lá (era a primeira a se casar!) e um jogo da ponte ocorreu um dia antes do dito evento, foi a todo mundo para o estádio da ponte ver o jogo! Três gerações, sete irmãos do meu pai, sei lá quantos primos e meu vô (além dos filhos que ele teve depois de se separar da minha vó...). Foi lindo, emocionante! Passei a respeitar o time do meu pai e o futebol!
Contei essa histórinha porque seu texto me lembrou isso, gostei muito dele, fala desse outro lado do futebol... parabéns!
Abraços!

Ana Cullen · Brasília, DF 21/12/2006 15:41
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Valdir Lopes
 

Parabéns pela preocupação em recuperar a memória dentro do futebol, paixão nacional; e pelo sentimento fraterno a um clube de futebol. Eu tenho meu "Vitória" aqui em Salvador e sei o que esse "amor ao time do coração" significa.
(Ah! resolvi o problema e minha musica "Coysa Kom Coysa" já pode ser ouvida). Um abraço. Até mais.

Valdir Lopes · Salvador, BA 20/6/2007 12:54
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FILIPE MAMEDE
 

Excelente Saulo, excelente! Matéria de fôlego e tratando de um assunto que unanimidade não é mesmo? Gostei da escrita, das fotografias, aliás, gostei de tudo. Legal saber da trajetória do São Cristóvão. Um tempo atrás eu contei aqui, a história do ALECRIM FUTEBOL CLUBE. Devo dizer que o Alecrim teve um pouco mais sorte que o São Cri Cri. Por aqui, o título do clube não vem desde a década de 80. Se puder, visite o texto, ok? Um abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 19/12/2007 12:42
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azuirfilho
 

Saulo Frauches · Rio de Janeiro (RJ)
Seu Trabalho é Magnífico de Tão Belo.
Tenho de Agradecer a Deus de ter lhe dado Inspiração para fazer esse trabalho tão Importante e Gracioso sobre o Nosso São Cristóvão, Campeão Carioca de Futebol em 1926.
Um Trabalho Maravilhoso que não Podia Faltar.

Antigamente não, era Puro amor a camisa e o Sáo Cristovão foi Campeão movido por esse amor infinito.
O São é um amor sem fim dentro do Coração de quem é São Cristovão e também de quem tem outro time e o São cristovão é o seu Segundo tipe. Um Time Amigo. Um Time Querido.
Hoje nós sabemos que Futebol é Dinheiro.
Esse Um campeonato de 1926, é que conta, é uma estrela no céu. Um Cometa Radiante no Céu Eterno.
Um verdadeiro Sol iluminando o Arrebol Extraordinário do Sonho do Sáo Cristovão dos Cadetes, Campeão em 1926.
Uma Lenda Viva. Uma Glória Eterna.
um Sonho Ideal, a coisa mais linda pra guardar no coração.
estou muito feliz com o seu Trabalho táo bem fundamentado.
trabalho de Mestre.
Peço que me permita unir e irmanar nossos trabalhos numa nova Homenagem ao Sáo Cristovão Campeão e me permita falar no nome querido de Osvaldo Afonso de Castro, Ponta Direita Cheio de Amor e habilidade, um Apaixonado pelo seu São Cristovão. Santificado que era formado por, Paulino; Póvoa e Zé Luiz; Julinho, Henrique e Alberto Corrêa; Oswaldo, Octávio, Vicente, Arthur e Teófilo.
http://www.overmundo.com.br/banco/osvaldo-afonso-de-castro-do-sao-cristovao-campeao-1926
Quem ler um Trabalho esta convidade para ler o outro.
E fica o Espirito da Amizade e da elevação do Cultural.
Tudo em prol da Valorização do Ser Humano e por um Mundo Melhor e mais Justo para Todos.
Co Firmeza e Ternura.
Salve o São Cristovão, Campeão carioca de Futebol em 1926.
E Deus seja Louvado Também.
Maior Orgulho votarno seu Trabalho.
Merecimento 1000.

azuirfilho · Campinas, SP 1/4/2008 22:46
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Aurea Carvalho
 

Saulo Frauches!
Psarabéns, por reviver nos corações, as lembranças que foram e continuam sendo tão valorosas para os admiradores do SÃO CRISTOVÃO FUTEBOL CLUBE! Salve os campeões de 1926!
Meus cumprimentos! Áurea.

Aurea Carvalho · Rio de Janeiro, RJ 2/4/2008 08:39
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J. Felipe Brito
 

Belos texto!

Eu, morador de Bangu, sei muito bem como um ar nostálgico e extremamente encantador toma conta das memórias de um bairro pelo seu clube!

Viva o São-Cri-Cri!

J. Felipe Brito · Rio de Janeiro, RJ 5/8/2008 22:29
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