Da Palestina ao Brasil

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Othman e Sara
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Kais Ismail · Porto Alegre, RS
22/3/2009 · 67 · 11
 

Othman e Sara nasceram, se criaram e casaram em Lifta, um pequeno povoado da Palestina. Moravam num sítio em uma linda e resistente casa feita toda com pedras, que o casal havia construído com as suas próprias mãos.

Já havia no sítio centenas de oliveiras seculares, mas todo o resto: a casa de pedra, o pomar, a criação de pombos, a horta, a taipa, os móveis... Tudo havia sido produzido por eles com a ajuda dos filhos.

O casal tivera seis filhos. Em 1948 o mais velho, Fakhiri estava com 14. Os demais Shama, Ismail, Rhoida, Mohamad e Hassan tinham, respectivamente, 13, 11, 9, 7 e 2 anos. Nenhum deles conseguiu entender porque eles tinham apenas 1 hora para apanharem suas coisas e irem embora junto com os seus pais que choravam diante de homens que ordenavam que saíssem, apontando brutalmente as suas armas para todos.

Era difícil de aceitar e compreender, que aqueles homens violentos e armados, parecendo ser polacos ou russos, estavam tomando tudo o que lhes pertenciam sob a alegação que ali, há 2 mil anos atrás, vivia o seu povo.

Nenhum deles sabia dizer como era esse povo, os nomes das pessoas que o formavam, não possuíam conhecimento algum sobre eles, não sabiam nem quantos eram, prova alguma tinham sequer de que esse povo, realmente existia e que aqueles que os ameaçavam descendiam mesmo deles.

Mas, ainda assim, julgavam que tudo o que havia na Palestina era uma herança deixada por seus parentes próximos que já haviam morrido há 2 mil anos atrás.

A família toda, apenas com os documentos e algumas peças de roupas, teve que deixar tudo para trás em troca de ficarem vivas e foram buscar ajuda em Ramallah.

Lifta fica muito próximo de Jerusalém, Othman e seus filhos levavam apenas 15 minutos de bicicleta para irem de sua casa até o centro de Jerusalém. Ramallah já é mais distante e tiveram que caminhar durante 7 horas, com fome, sede, medo e desespero.

Em Ramallah - que em árabe significa “Colina de Deus” - a família conseguiu abrigo em uma Murraia (campo de refugiados mantido pela ONU) e nela Othman e Sara viveram o resto de suas vidas.

Apesar de nunca receberem qualquer tipo de pagamento pela apropriação por parte de estrangeiros de suas terras, nenhum aluguel e nenhuma indenização, os filhos se viraram e conseguiram dar a volta por cima.

Fakhiri assim que atingiu a maioridade foi pra Europa e o Ismail veio para o Brasil.

Na Murrai, que a vista de qualquer brasileiro parece ser uma favela, Othman abriu um pequeno comércio em uma peça de sua casa que Sara, mesmo cega, a mantinha sempre limpa e cheirosa. Havia um pátio interno com uma cisterna que era mais usada para se abrigar dos bombardeios israelense do que pra reservar água, havia também uma grande e linda amoreira que oferecia sombra sobre o criadouro de coelhos que o Othman adorava.

O diabetes não só levou a visão de Sara como também a sua vida. Othman entrou em depressão profunda até que um dia convocou os seus filhos para fazer um último pedido, queria que os filhos conseguissem uma autorização para poder visitar a sua casa em Lifta. Mesmo havendo passado quase 40 anos, ele ainda tinha a chave e os documentos da casa, pois, ainda se sentia dono.

Depois de alguns meses de negociação com o governo israelense e com os russos que ainda habitavam a casa, os filhos conseguiram realizar o seu último desejo.

E foi assim que Othman conseguiu entrar em sua antiga casa, nela chorou feito uma criança para no dia seguinte morrer.

Israel foi construído com as terras roubadas da família deste casal e de tantos outros casais palestinos, que até hoje nunca foram indenizados.

Othman era o meu avô e ele disse que aquela casa também me pertence.

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alcanu
 

O único erro que pude perceber no texto foi o fato de sua família ter sido tão abruptamente expulsa desse modo, quanto ao Português, está perfeito, o seu sentimento cobre qualquer erro que possa ter sido cometido !
Um beijo !

alcanu · São Paulo, SP 20/3/2009 13:02
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graça grauna
 

Olá, Kais: você é dono de uma história ao mesmo tempo bela e triste. Em geral, os povos têm um história de sofrimento. Apesar das tragédias podemos vislumbrar a superação como você bem descreve como aconteceu com os seus antepassados. Nós indígenas também passamos por maus pedaços ao longo de mais de 500 anos de dominação e estamos ainda em busca do nosso lugar no mundo. Desejo muita paz para você e o seu povo. Abraços, Graça Graúna

graça grauna · Recife, PE 20/3/2009 13:24
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Kais Ismail
 

Para quem quer saber sobre a causa palestina sem distorção
http://www.orientemediovivo.com/

Kais Ismail · Porto Alegre, RS 20/3/2009 16:28
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Kais Ismail
 

Sobre o ponto de vista de um respeitado historiador israelense
http://www.amalgama.blog.br/01/2009/entrevista-com-ilan-pappe/

Kais Ismail · Porto Alegre, RS 20/3/2009 16:37
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Adroaldo Bauer
 

A Juli, Kais, tem ela uma frase instigante, de que sabe o tamanho dela, só não encontrou ainda o lugar que lhe pertença.
Bem, em nome disso, penso eu, e digo sempre a ela, e posso repetir com tranqüilidade aqui, ante teu lindo texto de dolorosa reminiscência, uma bonita homenagem a uma família humana, que reivindicamos a terra toda como nossa casa... nem uma pequena medida de chão, ar ou água a menos... é tudo nossa herança... há de ser tudo de nossos filhos e netos, esse pequeno navio redondo que vara o cosmos em direção a alhures, vindo de nenhures, por tempo inexistente, que se dobra o espaço e o tal eterno pode até existir.
Parabéns, Kais Ismail!
Vivam palestinos em terra como povo livre!

Adroaldo

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 20/3/2009 16:38
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Higor Assis
 

Kais, isso é dado fotográfico para mais que um museu. Obrigado por compartilhar com nós. O teu texto ele é mais que uma emoção é simplesmente tratar do fato como ele aconteceu e isso tudo não é tardar das coisas mais ou menos importantes, é sim, compartilhar de uma verdade que poucos sabem. Agradecido fico, com tudo isso !

Higor Assis · São Paulo, SP 20/3/2009 17:37
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Benny Franklin
 

Salve, Kais!

Texto que nos força uma pergunta:
- Por que o homem é mau?

Ou: Serão heranças dos Deuses maus?

Parabéns, Kais!

Tenha orgulho do seu passado.

Saiba: eu não estou alheio ao sofrimento do povo palestino!

Abçs

Benny Franklin · Belém, PA 20/3/2009 18:04
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Cintia Thome
 

Kais...puxa vida, nem sei o que dizer, mas que bravura dessa família.Sair de um lugar que era de paz e viver de maneira atormentada. Imagina naquele tempo onde se prosseguia uma vida de sonhos, tijolo a tijolo e alguém sequestra não só os bens como a tranquilidade de um lar, a felicidade que reinava...a desesperança de maneira mais torpe...
Feri a dgnidade mesmo!
E seu velho avó vai ver sua casa, lastimar o que não viveu, o que era de direito seu...e não mais suporta a traiçao
Guerras deixam isso, pessoas pro resto da vida mutiladas...
Uma estória admirável..
Que para este casal de avós a paz de Deus maior e aos que ficaram e ficam a compreensão dos destinos....

Um abraço, comovente...comovente!

Cintia Thome · São Paulo, SP 22/3/2009 15:49
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Spírito Santo
 

Kais,

O importante é que os sobreviventes, os descendentes, todos os que escaparam e irão, com a graça de algum deus, escapar por uma fresta que seja para o futuro, escrevam, cantem, pintem, fotografem, contem, cada um a sua maneira, uma partícula de verdade que seja, aquela que viu de ver ou de ouvir contar, que sentiu ao menos, num olho crispado de um parente humilhado.
Os desertos, mesmo os usurpados, são resuscitados por esta poeira de memórias revôltas, que não se calam.

Abs

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 22/3/2009 17:35
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Branca Pires
 

Kais, é muito bom conhecermos as nossas origens, os nossos ancestrais. Mesmo que para isso, nos deparamos em muitas feridas ainda abertas, ainda sangrando no tempo...
Apesar de tudo, h um legado forte que te foi passado. E naturalmente muito bem guardado na memória.
É um parzer partilhar deste teu momento especial de lembranças.
beijão

Branca Pires · Aracaju, SE 24/3/2009 15:06
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marilia carboni
 

Adorei cada letrinha da tua história, não é de hoje que admiro tua família toda ! Mil beijos !!!!!!

marilia carboni · Londrina, PR 26/7/2014 23:51
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