Mesmo não simpatizando com o trabalho do diretor vou assistir a apresentação de “O Vampiro contra Curitiba”. “Vamos lá”, penso, “dê mais uma chance, afinal esta peça é uma adaptação de alguns contos do grande Danton Trevisan”. Então, com pensamento positivo, faço questão de conferir a peça em uma apresentação gratuita.
Com casa lotada percebo que grande parte do público não é freqüentador de teatro. Isto é bom, possibilitar o acesso às artes cênicas para um maior número de pessoas. Quando inicia a peça um problema: O público não fica quieto de imediato. Mas, graças a todos os Deuses, os presentes entraram logo no espírito e ficam comportados, mesmo aqueles jovens em grupo, que quando saem juntos querem de todas as maneiras chamar a atenção...
E a atração começa com um incontestável Trevisan: “Curitiba de 30 buracos por habitante... Centenas de mortos andam pela rua XV de Novembro... Não me toque! Tenho horror a contatos...”, e por aí segue. Vários contos do “Vampiro de Curitiba” são encenados. O casal, a prostituta, a solteira mãe de três filhos, o homossexualismo, a pedofilia, a garota de rua... o que é de pior nas entranhas do ser humanos, e de Curitiba, estão presentes na obra de Trevisan e no palco.
Ao falar “as verdades sobre a capital paranaense”, Trevisan demonstra o seu muito particular amor por Curitiba. As suas verdades são incontestáveis. Os personagens excluídos da classe média consumista estão todos lá.
É impossível não ligar os textos de Dalton com Avenida Dropsie de Will Eisner. Ambas mostram a realidade cotidiana que não percebemos em nossa volta. Porém o curitibano é mais ácido. Como a história da menor moradora de rua e viciada em drogas. É obsceno, é repugnante, é revoltante, mas é real. Ande por uma grande cidade e em cada esquina verá muitas iguais a ela.
O que fazemos para mudar esta realidade? As cidades abrigam cada vez mais pedintes e pessoas que assaltam o cidadão classe média para sustentar o seu vício.
E a história da mãe de três filhos pequenos? O pai abandonou e é cafetão de velhinhas. Pensão? Nem pensar. Então a sobrevivente sai de casa para pagar uma conta, mas não aceitam porque está atrasada. Antes de sair de casa, a filha mais nova pede um ovinho de páscoa. A sobrevivente anda por uma loja. Percebe a felicidade em todos comprando, consumindo, gastando... Ela lembra do pedido da filha.
Em um impulso materno pega três ovinhos, “um para cada filho”. Porém a façanha não dá certo. Descoberta é humilhada pelos empregados e pela polícia. Com medo, “quando gente some”, continua sendo humilhada na delegacia...
A realidade está aí, mas não dá para agüentar. O cidadão classe média logo pensa: “Este mundo não existe... É pura representação teatral... É somente uma obra literária de um escritor amargurado...” Queremos que o mundo mude, mas fazemos algo para isto acontecer? Também como querer mudar quando a maioria das pessoas necessita sobreviver antes de tudo. Querem é se dar bem... Em uma sociedade alienada em seus desejos de consumo, e com uma educação abaixo da linha da miséria, é complicado querer que tudo mude.
Bem, voltamos a apresentação de “O Vampiro contra Curitiba”. O texto de Trevisan é perfeito, intocável, pena que não se pode dizer o mesmo da adaptação. Os atores (Marino Jr, Guilherme Osty, Larissa Neufeldt, Jader Alves, Sonia Bacila, Vanessa Vieira, Florival Gomes e Juliana Biancato) conseguem passar o mundo dos personagens.
Mas o resto... Cenário pobre, transparente onde os personagens mudam de lugares entre um conto e outro. Nada de novo. Lembro outras adaptações de Trevisan para o teatro como “Pico na Veia” e o monólogo “O ventre do Minotauro”. Estas sim existiam alguma coisa nova, mas “O Vampiro contra Curitiba” não existe nada de novo. E a musiquinha entre as transições de cena? É melhor nem comentar.
Mesmo com direção e cenografia abaixo das outras adaptações já realizadas sobre os contos de Trevisan, apresentar o autor curitibano para um público superior a 500 pessoas é um fato memorável.
Os 20 contos encenados na adaptação foram autorizadas pelo próprio Trevisan, conhecido como “O Vampiro de Curitiba” por causa da reclusa vida que escolheu.
PS. Não colocar o nome do diretor foi uma opção minha.
Roberto D. Jr. · Curitiba, PR 10/11/2006 17:40muito interessante, Roberto. Gostaria de ter visto essa encenação, mas acho mesmo que hoje adaptar Dalton Trevisan é complicado - até porque, apesar de eu gostar muito dele e de seus contos serem irretocáveis, essa estética mundo-cão já deu no saco. Está na hora de mais criatividade na literatura e no teatro jovem brasileiros.
Fábio Fernandes · São Paulo, SP 12/11/2006 01:33É verdade Fábio, mas o velho Vampiro continuará seguindo a sua linha. Acho que o problema está nas adaptações. Trevisan já deu a sua contribuição, agora é a hora dos outros aprenderem linguagens e conteúdos novos.
Roberto D. Jr. · Curitiba, PR 12/11/2006 19:27É verdade Fábio, mas o velho Vampiro continuará seguindo a sua linha. Acho que o problema está nas adaptações. Trevisan já deu a sua contribuição, agora é a hora dos outros aprenderem linguagens e conteúdos novos.
Roberto D. Jr. · Curitiba, PR 12/11/2006 19:28
apesar de meio que concordar com o Fábio, acho que essa é a cara e estilo do Dalton mesmo. A gente gosta dele por isso, nao tem porque mudar.
ele é o que melhor descreve nossa cidade, até mesmo no fato de NUNCA tirar fotografias.
ele é curitibano demais pra se sujeitar a isso.. ahahaha
abçs
Caro Roberto, lamento muito que a concepção de nosso espetáculo não lhe tenha agradado. Respeitamos sua opinião, um tanto quanto preconceituosa e pobre de espírito. Porém cabem aqui algumas considerações.
O espetáculo não conta com nenhum tipo de patrocínio, apenas alguns apoios. Daí a opção por uma cenografia simples e limpa. Sem "GIGANTISMOS", uma vez que a linha adotada pela direção foi a valorização do trabalho de ator. A mesma utilizada pelos diretores de "MISTÉRIOS DE CURITIBA", "O VAMPIRO E A POLAQUINHA", "VENTRE DO MINOTAURO" E "PICO NA VEIA". Infelizmente estes dois últimos permaneceram muito pouco em cartaz. Nós ao contrário, estamos em cartaz desde março, bancando o espetáculo apenas com o retorno da bilheteria. Lotamos o Guairinha naquele dia graças também ao nosso nome. Queira ou não somos assistidos por mais de 30000 pessoas por ano no Teatro Lala Schneider (espaço independente e sem apoio público ou privado, mantido graças ao público pagante). Só no FTC deste ano foram 10980 pessoas em nossos espetáculos. Vale lembrar que o próprio Dalton assistiu à inúmeros ensaios e salientou que o efeito de "labirinto" e "Fog Estilizado" eram muito coerentes com sua obra.
A iluminação foi adaptada dentro daquilo que o CCBB nos proporcinou, diferentemente de AVENIDA DROPSIE que contava com uma estrutura proporcionalmente maior, visto a visibilidade que a competente Sutil Companhia tem no Brasil.
Com recursos, dinheiro e nome fica mais fácil realizar grandes espetáculos que possam agradar aos críticos mais severos.
Em relação à adaptação, não entendo sua crítica, pois como bom conhecedor de Dalton de Trevisan certamente você pôde observar que o texto está integral, já que o autor não permite modificações em sua obra.
Por fim, João Luiz Fiani, que você preferiu omitir em sua resenha, tem 30 anos de carreira e esteve no elenco de "MISTÉRIOS DE CURITIBA" e "O VAMPIRO E A POLAQUINHA" ao lado de ADHEMAR GUERRA, um dos maiores nomes do Teatro Brasileiro, mas talvez você desconheça isso, já que Florival Gomes e Guilherme Osty, estes sim citados por você, sequer faziam parte de nosso elenco. Acho interessante você conhecer mais aqueles que realmente trabalham e vivem de teatro, e não de patrocínios", em Curitiba para não prejudicar e ofender quem está apenas fazendo o seu trabalho e vivendo dignamente graças a uma carreira de muitos anos.
nossa, gente, é só uma questão de opinião.
impossível agradar a todos. =)
Vamos lá. Primeiramente não sou critico de teatro. Não conheço tudo. Ao contrário. Erro, e muito. Sobre a minha opinião, as que considero um vacilo peço sinceras desculpas para todos (como colocar nomes de atores não presentes e de alguma maneira prejudicar o trabalho de alguém). As opiniões que mantenho tentarei me defender.
Respeito muito o seu trabalho, Marino. Você, bem como muitos atores e atrizes paranaenses, elevam o nome do nosso teatro. Patrocínio sei como é difícil, já realizei um estudo sobre o assunto, só que no cinema paranaense. Enfatizo a minha admiração pela Companhia em possuir um público anual de 30 mil pessoas no Teatro Lala Schneider.
Agora, não gostar do trabalho de Fiani não é uma blasfêmia e muito menos desrespeitar a carreira do diretor/ator (Tenho meus motivos, é a minha opinião). Por exemplo: Caso não gostasse do trabalho de Edson Bueno (o que não é o caso) seria um crime?
Apenas expressei a minha opinião, e novamente reforço que em nenhum momento quis prejudicar o trabalho de alguém, pelo contrário. Muitas vezes uma “critica” não positiva eleva mais ainda a qualidade da obra, pois em alguns casos desperta a curiosidade do publico que ainda não viu a peça.
Agora, se minha opinião foi toda negativa como você se expressa, como poderia ficar comovido com alguns personagens? Ao falar do texto de Trevisan, e dizer sobre a sua paixão por Curitiba e destacar seus personagens encenados, é uma mostra de que gostei e me identifiquei com a peça.
Agora sou “pobre de espírito” por não ter gostado de algumas coisas? Ratifico não ter gostado, ao contrário do mestre Trevisan, do cenário. Ele achou “muito coerente com sua obra”. Eu não gostei. É um crime? Em “Metamosphosis” (acredito estar errado a grafia) a barata esteve sempre presente. Em a “Última Viagem de Borges” viagem por terras desconhecidas com um cenário bem pobre. Em “Medeiamaterial” (acho que se escreve assim), vi uma peça teatral em forma de poesia.
Pena que você absorveu apenas os aspectos que eu não gostei. Muitos que assistiram a peça gostaram, outros não, e daí? A minha namorada assitiu a peça ao meu lado e gostou muito! Ela por sinal gosta do trabalho de Fiani. E daí? Tenho que gostar 100% de tudo que vejo, que leio ou que escuto? Fiani parará de trabalhar por causa da minha opinião? Acredito que nenhum ator, escritor, cineasta, teatrólogo... conseguiram ser unânimes a respeito do seu trabalho. Agora é o fim do mundo uma opinião? E qual é o peso da minha opinião. Nas artes cada um tem a sua percepção. Gosto de Kerouac, meu vizinho não. Não gosto de Paulo Coelho, mas a minha irmã gosta. Quem está certo e quem está errado? O gosto pelas artes, qualquer que seja, é um encontro muito intimo. Será que a minha opinião realmente prejudicou alguém? Será que a minha opinião realmente foi levada a sério?
Sobre os atores. Todos, sem exceção, estavam magníficos. Nem eventuais engasgadas prejudicaram a apresentação. Impagável o ladrão manco, a mãe de três filhos, a menor viciada... A trilha. Achei ruim. E daí? As peças serão mudas agora. O cara que estava ao meu lado gostou. A tiazinha com a filha de 10 anos também, e daí?
Sou apenas um comum espectador de teatro. Aqueles que assiste por gostar e prestigiar. Sou apenas mais um. Aquele que gosta, que não gosta. Que ri, que chora, que se emociona... Claro que tenho que conhecer mais sobre teatro, muito mais. Sei que nada sei. Espero poder encontrá-lo um dia para conversamos democraticamente e poder expressar as minhas idéias, e vice-versa, um respeitando a opinião do outro. Espero que você me ensine algo sobre teatro.
Novamente enfatizo que apenas expressei uma opinião. Nunca quis prejudicar a moral, a carreira ou o trabalho de alguém. Apenas expressei uma opinião e achei que esta opinião não seria levada tão a sério. Nunca quis prejudicar a moral, a carreira ou o trabalho de alguém. Novamente peço desculpas por algum eventual problemas que causei.
Abraços
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