O Festival América do Sul (FAS), que acontece há 5 anos, em Corumbá, Capital do Pantanal, nos proporciona descobrir muitos personagens da cultura sul-mato-grossense. Na 5ª edição do festival, que aconteceu este ano, entre 31 de abril e 4 de maio, ao visitar o Instituto Luiz de Albuquerque (ILA), que fica ao lado da Igreja Matriz de Corumbá, tive uma bela surpresa: conhecer o pintor corumbaense Daltro. Minha intenção era conhecer as obras da exposição "A porta ao lado", dos artistas plásticos dos países hermanos, organizada pelo FAS. Mas o cheiro de tinta fresca, que seduz inevitável e prontamente os amantes da pintura, chamou minha atenção. Quando levantei o olhar, me deparei com uma sala repleta cores vibrantes e ao fundo, lá estava ele, compenetrado em uma nova criação.
“Meu nome é Epaminondas Pedreira Daltro Júnior, mas Daltro fica mais fácil de dizer”, disse o artista com imenso carisma e simplicidade. Características que transpõe em seus quadros expressionistas que registram pescadores, lavadeiras, meninos, tocadores de violas-de-cocho, instrumento do folclore pantaneiro, famílias pantaneiras na festa do Banho de São João e outros personagens que surgem no seu imaginário. Com maestria, pratica também o impressionismo ao retratar paisagens do Pantanal e lugares de sua cidade natal, a bela e antiga Corumbá, com seu patrimônio arquitetônico que dá asas à imaginação de quem tenta resgatar histórias que há muito tempo aconteceram às margens do Rio Paraguai. “Se não coloco o que vejo no quadro, enlouqueço”, afirma. E confirma sua verdadeira vocação, depois de ter exercido outras profissões.
Numa das salas do ILA, Daltro promove oficinas de pintura para novos talentos, como o Adelino da Silva, 12 anos, filho de pedreiro e lavadeira, que procura na arte, um meio de melhorar de vida. E Daltro investe no sonho do menino: repassa minuciosamente suas técnicas para deixar ainda mais colorida a alma de Adelino. "Pintando eu penso melhor", confessou ele, quando lhe propus uma entrevista. E assim aconteceu: entre quadros, cavaletes, pincéis e aquele aroma inspirador, Daltro contou sua história e fez uma reflexão sobre a situação do artista do interior de Mato Grosso do Sul. Acompanhe a entrevista exclusiva:
1- Como iniciou seu contato com a pintura?
Daltro – Sou de Corumbá mesmo, mas passei toda a minha infância no Estado do Rio de Janeiro. Foi lá que eu tive o primeiro contato com a pintura por meio de um professor ucraniano chamado Basili, quando eu comecei ter aulas de desenho. A partir de então me interessei pelas cores e comecei a exercitá-las de uma forma autodidata.
2- Como você se descobriu pintor, depois de ter trabalhado em outras profissões?
Daltro – Eu me descobri pintor por meio das diversas profissões em que atuei, que foram a de fiscal da Receita Federal, psicólogo e militar. Houveram vários desencontros durante minha vida, mas eu acabei descobrindo minha verdadeira vocação. Faz dez anos que abracei o trabalho de artista plástico com convicção.
3- Qual é o estilo das suas pinturas?
Daltro – Na paisagem eu prefiro trabalhar com o impressionismo, mas em temáticas do ser humano, nas quais tenho preferência pelos temas sociais, eu tomo como base o expressionismo.
4- Quais foram os locais onde você já fez exposições?
Daltro – Minhas exposições foram feitas apenas em cidades do Brasil, do eixo São Paulo – Rio de Janeiro – Bahia, mas eu tenho obras que foram adquiridas e levadas para a Itália, Japão e Alemanha.
5- Como você vê o cenário das artes plásticas em Mato Grosso do Sul, sendo um artista do interior do Estado?
Daltro – As artes plásticas do nosso Estado é muito fértil, mas ainda falta mercado, falta organização e principalmente uma associação de artistas. Por exemplo, aqui não existe nenhum sindicato de artistas plásticos. Quando eu tentei me filiar a um sindicato, fiquei sabendo que os artistas sul-mato-grossenses são ligados a um sindicato de São Paulo, pois aqui não tem. Na questão do interior, aqui em Corumbá existe uma produção artística muito forte.
6- Como ocorre a relação entre os artistas de Corumbá? Vocês trabalham de forma isolada ou existe uma união para promover a cultura do interior?
Daltro – Eu lamento muito o fato de nós trabalharmos em ilhas. Cada um fica produzindo no seu canto e nem sequer nos reunimos para conversar sobre as atividades artísticas que a gente desenvolve. Falta amadurecimento dos próprios artistas. Além disso, são poucos os artistas que vivem da arte. Por isso é que a maioria acaba não se interessando em promovê-la.
7- Qual é a metodologia de trabalho que você realiza em suas oficinas de pintura?
Daltro – Eu começo com o método de desenho que aprendi lá no Rio de Janeiro com meu mestre Basili, o desenho passo a passo. É um método muito fácil e a partir dele começo com o lápis de cor para o contato com as cores, depois aquarela, acrílico e no estágio final, passo para a tinta óleo. A base do desenho é fundamental na pintura.
8- Como você visualiza a importância desta oficina em estar disseminando a pintura para as crianças corumbaenses?
Daltro – Infelizmente este projeto não tem um caráter social, eu gostaria de desenvolver um trabalho que atendesse crianças carentes, crianças que não podem comprar material. Mas na realidade acaba-se afunilando as aulas e não atinge-se adolescentes e crianças que não têm condições de pagar o curso livre, que é particular. Eu ainda não consegui viabilizar isso junto ao município para atender crianças carentes em escolas municipais e estaduais. O máximo que consegui foi a cedência desta sala aqui no Instituto Luiz de Albuquerque.
9- Você já foi surpreendido por novos talentos de Corumbá?
Daltro – Sim. Tem o Adelino da Silva, que é um aluno que está há um ano comigo e teve um desenvolvimento que me surpreendeu muito. E a cada dia que ele faz aula, ele me surpreende ainda mais. Acredito que assim como ele, aqui em Corumbá existam vários talentos que o tempo acaba deixando para trás. Acabam reprimindo o talento e partem para outras profissões.
10- Existe o intercâmbio entre artistas daqui com os da Capital e outros municípios do interior?
Daltro – Não existe, infelizmente. O interessante é que parece que a distância entre Corumbá e Campo Grande são mais de 7 horas de viagem. Tem um vácuo muito grande, eu não sei a que atribuir a isso. Nem com a cidade vizinha, na Bolívia, que está próxima, não existe este intercâmbio. Essa relação deveria ser mais intensa. Existe a vontade que isso aconteça, mas faltam ações que promovam essa troca de experiências.
11- Qual é a situação das galerias do interior?
Daltro – Não existem galerias no interior que exponham trabalhos permanentes dos artistas do interior, nem daqueles que vêm da Capital. Se o turista ou as próprias pessoas da cidade que queiram conhecer o trabalho dos artistas locais, do Estado ou mesmo de artistas que estejam de visita ao município, não existe um local apropriado. E isso a meu ver é uma falta grave.
12- Como é o público do interior sul-mato-grossense?
Daltro – É um público exigente, mas não existe um mercado de arte em Mato Grosso do Sul. O pessoal do interior é um público que conhece, que tem sensibilidade, intuição, principalmente na arte que remete ao Pantanal, mas não tem poder aquisitivo para comprar as obras.
13- Quais são os pintores de Corumbá?
Daltro – Rubem Dario, Edson Castro, a Peninha, o Elker e o Jorapimo, que foi precursor da pintura modernista aqui no Estado. Ele produziu muito e acabou abrindo espaço para outras vertentes. Os temas regionais são muito abordados pelos artistas corumbaenses, como lavadeiras, pescadores, paisagens do Pantanal. O Jorapimo inspira muito a gente por sua luta, que iniciou há 40 anos, desde a época do Mato Grosso Uno. Seu exemplo e persistência nos dá força, ânimo para continuar produzindo. O meu grande anseio em Corumbá, é que sinto a falta de artistas na rua, pintando com o cavalete nas ruas, produzindo artesanato nas ruas, assim como acontecem em cidades litorâneas do Brasil. É preciso organizar um festival para as coisas acontecerem neste sentido. Uma cavalete na rua, uma telinha simples, sem precisar uma fundação de cultura organizar. Se isso acontecesse periodicamente, quando chegasse a época do Festival América do Sul, a integração seria ainda maior, porque as pessoas da cidade já conheceriam mais de perto o trabalho dos artistas locais.
14 – O que você pensa sobre a arte?
Daltro – A arte tem que ser do povo, se ela sai de uma instituição ela acaba não atendendo as necessidades da população. Por exemplo, a festa do Banho de São João de Corumbá. Ela funciona muito bem porque são as famílias corumbaenses é que organizam o evento em suas casas. As instituições públicas não têm uma participação direta na festa, elas apenas divulgam o acontecimento, e por isso ela funciona que é uma maravilha. Eu acredito que ela funciona porque existe a espontaneidade e a naturalidade do povo. Quando a política se envolve com as manifestações espontâneas do povo, elas perdem a sua essência.
O Banho de São João
Fundada em 1778, Corumbá concentra uma das maiores comunidades do candomblé e umbanda do País. O rio Paraguai que passa à margem direita da cidade inspira e atrai todas as tendências religiosas. Uma das manifestações locais de forte apelo popular é o sacro-profano Banho de São João nas águas do rio, à meia-noite, na passagem de 23 para 24 de junho.
O Banho de São João teve origem na Europa com o costume português do banho-de-rio obrigatório no dia do santo a partir do século 14. Em Corumbá, conforme relato de historiadores, a tradição nasceu com os árabes por volta de 1882. De acordo com o ritual a imagem do santo é levada em procissão até o Porto Geral, uma das referências históricas da cidade, para o banho que irá renovar as forças de São João e abençoar tudo o que se relaciona com as águas e com o homem.
A festa tradicional é uma das principais atrações turísticas de Corumbá, ao lado do ritual da lavagem das escadarias da Igreja Nossa Senhora da Candelária, construída em 1885, e a festa de Iemanjá, também à beira do rio Paraguai. São manifestações religiosas únicas em Mato Grosso do Sul que expressam a predominância da cultura afro-descendente na cidade, com cerca de 70% da população.
(Informações adicionais sobre a festa do Banho de São João foram tiradas do site: turismo.news.com.br)
Gisele, adorei sua matéria e essas telas desse artista! Gosto das temáticas escolhidas por ele, porque, todo artista, ao meu ver, tem também uma espécie de dever social a cumprir com sua arte. Parece muito com o estilo de um amigo meu, do qual, também pretendo falar aqui no Overmundo. As telas de Dalton, pelo que vejo daqui, têm muita vida, fico imaginando agora o efeito delas ao vivo. A dificuldade de divulgação desse tipo de arte para artistas do interior parece ser a mesma em qualquer parte do Brasil. Aqui em Crato, os artistas têm a mesma dificuldade que Dalton relata. Felizmente, aqui no Cariri, existem alguns espaços culturais onde eles podem expor seus trabalhos, mas ainda falta muito a fazer... Parabéns por sua iniciativa, e, parabéns ao artista - Dalton - pelo trabalho e evidente talento.
JACK CORREIA · Crato, CE 16/5/2008 10:50
Jack, fico muito feliz por vc ter gostado da matéria e das obras do Daltro. Eu também não conhecia o trabalho dele, mas fiquei encantada com sua pintura e com a pessoa que ele é. Sensibilidade à flor da pele, e nas suas mãos. Imagino que no nosso Brasilzão deve ter muitos talentos que nos trazem tamanha beleza e emoção. Não tem como ser indiferente depois de ter um primeiro contato com sua obra. Para mim ele é o cara! Abcs Gi
Gisele Colombo · Campo Grande, MS 16/5/2008 14:18Gisele,eu sou suspeito de falar,mas em nome de todos os artistas de Corumbá você mostrou sua arte de editar e transformar minhas emoções em palavras,bjs!!!!!
Daltro Júnior · Corumbá, MS 17/5/2008 09:27
Que bom que você gostou da matéria Daltro. Você merece esta homenagem, por sua obra e pela pessoa que é. Abcs Gi
Gisele Colombo · Campo Grande, MS 17/5/2008 20:15
Belas imagens. Quando vi a representação da Família Pantaneira não deixei de imaginar a influência de Portinari com Os Retirantes, inclusive nos tons esmaecidos de vivacidade para dar a idéia da vida sofrida.
No porto de Corumbá há alegria de cores, pois é porta de entrada de gente, emoções, experiências e histórias de vida. Uma grande sensibilidade Daltro passa em suas obras. E vc Gisele coloca isso com maestria.
abcs
Obrigada pelo comentário Leandro. Com certeza, o porto de Corumbá, que inspirou a tela do Daltro, é uma paisagem de grande beleza. Quem tem a oportunidade de conhecer o Pantanal comprova isso. Abcs Gi
Gisele Colombo · Campo Grande, MS 19/5/2008 14:19Parabéns! Continue sempre assim, com a valorização e divulgação de nossos artistas e cultura! Abraços.
Erode Lino Leite · Campo Grande, MS 19/5/2008 17:18
Sempre estarei aqui, Erode. Obrigada e abcs. Gi
Gisele Colombo · Campo Grande, MS 19/5/2008 17:24
O trabalho do Daldro é bem interessante e as cores muito agaradáveis. Gostei bastante das obras do ae=rtista. Meus sinceros aplausos e beijos, Gisele.
Carlos Magno.
Gostei da obra do Daltro,
É expressiva, tem o tom pesado do drama pantaneiro, porém, num colorido lúdico. Retrata o cotidiano misturando um estilo quase naif com pinceladas abstratas, formas indefinidas, porém, marcantes e que contam um história.
Abraços
Mais um gol de placa Gisele, sou fã do Daltro, principalmente das aquarelas com poesia!
Bia Marques · Campo Grande, MS 19/5/2008 19:55
Carlos e Marcos, fico feliz em saber que vcs também apreciaram a arte do Daltro.
Bia, ainda não vi as aquarelas,mas imagino que também sejam belíssimas. Abcs Gi
Gisele,
Como sempre, apresentas uma bela e consistente entrevista. Perguntas inteligentes que motivaram respostas muito bem colocadas. Parabéns a você e ao artista Daltro. Viva a arte no (do) MS!
Deixo os meus votos (com prazer).
abrs,
Bela matéria, Gi
Conhecí Humberto Espíndola e ele já mencionava as dificuldades de trabalhar e sobreviver de arte no MS. Muito preconceito e falta de união entre os próprios artistas. Admirável a coragem dele ao largar "profissões estáveis" e se dedicar exclusivamente à arte!
Parabéns!
Cris, obrigada pelo voto e comentário. Abcs Gi
Gisele Colombo · Campo Grande, MS 21/5/2008 14:05Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
Está no ar o blog de pesquisas do Instituto Overmundo. Você já pode encontrar lá os primeiros dados da pesquisa “Análise de modelos de negócios... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!