Brasil.gov.br Petrobras Ministério da Cultura
 
 

Daltro: um pintor expressionista pantaneiro

Edemir Rodrigues
Daltro em sua oficina de pintura no Instituto Luiz de Albuquerque
1
Gisele Colombo · Campo Grande, MS
19/5/2008 · 201 · 18
 

O Festival América do Sul (FAS), que acontece há 5 anos, em Corumbá, Capital do Pantanal, nos proporciona descobrir muitos personagens da cultura sul-mato-grossense. Na 5ª edição do festival, que aconteceu este ano, entre 31 de abril e 4 de maio, ao visitar o Instituto Luiz de Albuquerque (ILA), que fica ao lado da Igreja Matriz de Corumbá, tive uma bela surpresa: conhecer o pintor corumbaense Daltro. Minha intenção era conhecer as obras da exposição "A porta ao lado", dos artistas plásticos dos países hermanos, organizada pelo FAS. Mas o cheiro de tinta fresca, que seduz inevitável e prontamente os amantes da pintura, chamou minha atenção. Quando levantei o olhar, me deparei com uma sala repleta cores vibrantes e ao fundo, lá estava ele, compenetrado em uma nova criação.

“Meu nome é Epaminondas Pedreira Daltro Júnior, mas Daltro fica mais fácil de dizer”, disse o artista com imenso carisma e simplicidade. Características que transpõe em seus quadros expressionistas que registram pescadores, lavadeiras, meninos, tocadores de violas-de-cocho, instrumento do folclore pantaneiro, famílias pantaneiras na festa do Banho de São João e outros personagens que surgem no seu imaginário. Com maestria, pratica também o impressionismo ao retratar paisagens do Pantanal e lugares de sua cidade natal, a bela e antiga Corumbá, com seu patrimônio arquitetônico que dá asas à imaginação de quem tenta resgatar histórias que há muito tempo aconteceram às margens do Rio Paraguai. “Se não coloco o que vejo no quadro, enlouqueço”, afirma. E confirma sua verdadeira vocação, depois de ter exercido outras profissões.

Numa das salas do ILA, Daltro promove oficinas de pintura para novos talentos, como o Adelino da Silva, 12 anos, filho de pedreiro e lavadeira, que procura na arte, um meio de melhorar de vida. E Daltro investe no sonho do menino: repassa minuciosamente suas técnicas para deixar ainda mais colorida a alma de Adelino. "Pintando eu penso melhor", confessou ele, quando lhe propus uma entrevista. E assim aconteceu: entre quadros, cavaletes, pincéis e aquele aroma inspirador, Daltro contou sua história e fez uma reflexão sobre a situação do artista do interior de Mato Grosso do Sul. Acompanhe a entrevista exclusiva:

1- Como iniciou seu contato com a pintura?
Daltro – Sou de Corumbá mesmo, mas passei toda a minha infância no Estado do Rio de Janeiro. Foi lá que eu tive o primeiro contato com a pintura por meio de um professor ucraniano chamado Basili, quando eu comecei ter aulas de desenho. A partir de então me interessei pelas cores e comecei a exercitá-las de uma forma autodidata.

2- Como você se descobriu pintor, depois de ter trabalhado em outras profissões?
Daltro – Eu me descobri pintor por meio das diversas profissões em que atuei, que foram a de fiscal da Receita Federal, psicólogo e militar. Houveram vários desencontros durante minha vida, mas eu acabei descobrindo minha verdadeira vocação. Faz dez anos que abracei o trabalho de artista plástico com convicção.

3- Qual é o estilo das suas pinturas?
Daltro – Na paisagem eu prefiro trabalhar com o impressionismo, mas em temáticas do ser humano, nas quais tenho preferência pelos temas sociais, eu tomo como base o expressionismo.

4- Quais foram os locais onde você já fez exposições?
Daltro – Minhas exposições foram feitas apenas em cidades do Brasil, do eixo São Paulo – Rio de Janeiro – Bahia, mas eu tenho obras que foram adquiridas e levadas para a Itália, Japão e Alemanha.

5- Como você vê o cenário das artes plásticas em Mato Grosso do Sul, sendo um artista do interior do Estado?
Daltro – As artes plásticas do nosso Estado é muito fértil, mas ainda falta mercado, falta organização e principalmente uma associação de artistas. Por exemplo, aqui não existe nenhum sindicato de artistas plásticos. Quando eu tentei me filiar a um sindicato, fiquei sabendo que os artistas sul-mato-grossenses são ligados a um sindicato de São Paulo, pois aqui não tem. Na questão do interior, aqui em Corumbá existe uma produção artística muito forte.

6- Como ocorre a relação entre os artistas de Corumbá? Vocês trabalham de forma isolada ou existe uma união para promover a cultura do interior?
Daltro – Eu lamento muito o fato de nós trabalharmos em ilhas. Cada um fica produzindo no seu canto e nem sequer nos reunimos para conversar sobre as atividades artísticas que a gente desenvolve. Falta amadurecimento dos próprios artistas. Além disso, são poucos os artistas que vivem da arte. Por isso é que a maioria acaba não se interessando em promovê-la.

7- Qual é a metodologia de trabalho que você realiza em suas oficinas de pintura?
Daltro – Eu começo com o método de desenho que aprendi lá no Rio de Janeiro com meu mestre Basili, o desenho passo a passo. É um método muito fácil e a partir dele começo com o lápis de cor para o contato com as cores, depois aquarela, acrílico e no estágio final, passo para a tinta óleo. A base do desenho é fundamental na pintura.

8- Como você visualiza a importância desta oficina em estar disseminando a pintura para as crianças corumbaenses?
Daltro – Infelizmente este projeto não tem um caráter social, eu gostaria de desenvolver um trabalho que atendesse crianças carentes, crianças que não podem comprar material. Mas na realidade acaba-se afunilando as aulas e não atinge-se adolescentes e crianças que não têm condições de pagar o curso livre, que é particular. Eu ainda não consegui viabilizar isso junto ao município para atender crianças carentes em escolas municipais e estaduais. O máximo que consegui foi a cedência desta sala aqui no Instituto Luiz de Albuquerque.

9- Você já foi surpreendido por novos talentos de Corumbá?
Daltro – Sim. Tem o Adelino da Silva, que é um aluno que está há um ano comigo e teve um desenvolvimento que me surpreendeu muito. E a cada dia que ele faz aula, ele me surpreende ainda mais. Acredito que assim como ele, aqui em Corumbá existam vários talentos que o tempo acaba deixando para trás. Acabam reprimindo o talento e partem para outras profissões.

10- Existe o intercâmbio entre artistas daqui com os da Capital e outros municípios do interior?
Daltro – Não existe, infelizmente. O interessante é que parece que a distância entre Corumbá e Campo Grande são mais de 7 horas de viagem. Tem um vácuo muito grande, eu não sei a que atribuir a isso. Nem com a cidade vizinha, na Bolívia, que está próxima, não existe este intercâmbio. Essa relação deveria ser mais intensa. Existe a vontade que isso aconteça, mas faltam ações que promovam essa troca de experiências.

11- Qual é a situação das galerias do interior?
Daltro – Não existem galerias no interior que exponham trabalhos permanentes dos artistas do interior, nem daqueles que vêm da Capital. Se o turista ou as próprias pessoas da cidade que queiram conhecer o trabalho dos artistas locais, do Estado ou mesmo de artistas que estejam de visita ao município, não existe um local apropriado. E isso a meu ver é uma falta grave.

12- Como é o público do interior sul-mato-grossense?
Daltro – É um público exigente, mas não existe um mercado de arte em Mato Grosso do Sul. O pessoal do interior é um público que conhece, que tem sensibilidade, intuição, principalmente na arte que remete ao Pantanal, mas não tem poder aquisitivo para comprar as obras.

13- Quais são os pintores de Corumbá?
Daltro – Rubem Dario, Edson Castro, a Peninha, o Elker e o Jorapimo, que foi precursor da pintura modernista aqui no Estado. Ele produziu muito e acabou abrindo espaço para outras vertentes. Os temas regionais são muito abordados pelos artistas corumbaenses, como lavadeiras, pescadores, paisagens do Pantanal. O Jorapimo inspira muito a gente por sua luta, que iniciou há 40 anos, desde a época do Mato Grosso Uno. Seu exemplo e persistência nos dá força, ânimo para continuar produzindo. O meu grande anseio em Corumbá, é que sinto a falta de artistas na rua, pintando com o cavalete nas ruas, produzindo artesanato nas ruas, assim como acontecem em cidades litorâneas do Brasil. É preciso organizar um festival para as coisas acontecerem neste sentido. Uma cavalete na rua, uma telinha simples, sem precisar uma fundação de cultura organizar. Se isso acontecesse periodicamente, quando chegasse a época do Festival América do Sul, a integração seria ainda maior, porque as pessoas da cidade já conheceriam mais de perto o trabalho dos artistas locais.

14 – O que você pensa sobre a arte?
Daltro – A arte tem que ser do povo, se ela sai de uma instituição ela acaba não atendendo as necessidades da população. Por exemplo, a festa do Banho de São João de Corumbá. Ela funciona muito bem porque são as famílias corumbaenses é que organizam o evento em suas casas. As instituições públicas não têm uma participação direta na festa, elas apenas divulgam o acontecimento, e por isso ela funciona que é uma maravilha. Eu acredito que ela funciona porque existe a espontaneidade e a naturalidade do povo. Quando a política se envolve com as manifestações espontâneas do povo, elas perdem a sua essência.

O Banho de São João

Fundada em 1778, Corumbá concentra uma das maiores comunidades do candomblé e umbanda do País. O rio Paraguai que passa à margem direita da cidade inspira e atrai todas as tendências religiosas. Uma das manifestações locais de forte apelo popular é o sacro-profano Banho de São João nas águas do rio, à meia-noite, na passagem de 23 para 24 de junho.

O Banho de São João teve origem na Europa com o costume português do banho-de-rio obrigatório no dia do santo a partir do século 14. Em Corumbá, conforme relato de historiadores, a tradição nasceu com os árabes por volta de 1882. De acordo com o ritual a imagem do santo é levada em procissão até o Porto Geral, uma das referências históricas da cidade, para o banho que irá renovar as forças de São João e abençoar tudo o que se relaciona com as águas e com o homem.

A festa tradicional é uma das principais atrações turísticas de Corumbá, ao lado do ritual da lavagem das escadarias da Igreja Nossa Senhora da Candelária, construída em 1885, e a festa de Iemanjá, também à beira do rio Paraguai. São manifestações religiosas únicas em Mato Grosso do Sul que expressam a predominância da cultura afro-descendente na cidade, com cerca de 70% da população.


(Informações adicionais sobre a festa do Banho de São João foram tiradas do site: turismo.news.com.br)

compartilhe

comentários feed

+ comentar
JACK CORREIA
 

Gisele, adorei sua matéria e essas telas desse artista! Gosto das temáticas escolhidas por ele, porque, todo artista, ao meu ver, tem também uma espécie de dever social a cumprir com sua arte. Parece muito com o estilo de um amigo meu, do qual, também pretendo falar aqui no Overmundo. As telas de Dalton, pelo que vejo daqui, têm muita vida, fico imaginando agora o efeito delas ao vivo. A dificuldade de divulgação desse tipo de arte para artistas do interior parece ser a mesma em qualquer parte do Brasil. Aqui em Crato, os artistas têm a mesma dificuldade que Dalton relata. Felizmente, aqui no Cariri, existem alguns espaços culturais onde eles podem expor seus trabalhos, mas ainda falta muito a fazer... Parabéns por sua iniciativa, e, parabéns ao artista - Dalton - pelo trabalho e evidente talento.

JACK CORREIA · Crato, CE 16/5/2008 10:50
sua opinião: subir
Gisele Colombo
 

Jack, fico muito feliz por vc ter gostado da matéria e das obras do Daltro. Eu também não conhecia o trabalho dele, mas fiquei encantada com sua pintura e com a pessoa que ele é. Sensibilidade à flor da pele, e nas suas mãos. Imagino que no nosso Brasilzão deve ter muitos talentos que nos trazem tamanha beleza e emoção. Não tem como ser indiferente depois de ter um primeiro contato com sua obra. Para mim ele é o cara! Abcs Gi

Gisele Colombo · Campo Grande, MS 16/5/2008 14:18
sua opinião: subir
Daltro Júnior
 

Gisele,eu sou suspeito de falar,mas em nome de todos os artistas de Corumbá você mostrou sua arte de editar e transformar minhas emoções em palavras,bjs!!!!!

Daltro Júnior · Corumbá, MS 17/5/2008 09:27
sua opinião: subir
Gisele Colombo
 

Que bom que você gostou da matéria Daltro. Você merece esta homenagem, por sua obra e pela pessoa que é. Abcs Gi

Gisele Colombo · Campo Grande, MS 17/5/2008 20:15
sua opinião: subir
Natália Amorim
 

Votei, e vô ler com calma depois.
Parabéns.

Natália Amorim · Belém, PA 17/5/2008 22:17
sua opinião: subir
jjLeandro
 

Belas imagens. Quando vi a representação da Família Pantaneira não deixei de imaginar a influência de Portinari com Os Retirantes, inclusive nos tons esmaecidos de vivacidade para dar a idéia da vida sofrida.
No porto de Corumbá há alegria de cores, pois é porta de entrada de gente, emoções, experiências e histórias de vida. Uma grande sensibilidade Daltro passa em suas obras. E vc Gisele coloca isso com maestria.
abcs

jjLeandro · Araguaína, TO 19/5/2008 11:30
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Gisele Colombo
 

Obrigada pelo comentário Leandro. Com certeza, o porto de Corumbá, que inspirou a tela do Daltro, é uma paisagem de grande beleza. Quem tem a oportunidade de conhecer o Pantanal comprova isso. Abcs Gi

Gisele Colombo · Campo Grande, MS 19/5/2008 14:19
sua opinião: subir
Erode Lino Leite
 

Parabéns! Continue sempre assim, com a valorização e divulgação de nossos artistas e cultura! Abraços.

Erode Lino Leite · Campo Grande, MS 19/5/2008 17:18
sua opinião: subir
Gisele Colombo
 

Sempre estarei aqui, Erode. Obrigada e abcs. Gi

Gisele Colombo · Campo Grande, MS 19/5/2008 17:24
sua opinião: subir
carlos magno
 

O trabalho do Daldro é bem interessante e as cores muito agaradáveis. Gostei bastante das obras do ae=rtista. Meus sinceros aplausos e beijos, Gisele.
Carlos Magno.

carlos magno · Rio de Janeiro, RJ 19/5/2008 18:26
sua opinião: subir
Marcos Paulo Carlito
 

Gostei da obra do Daltro,

É expressiva, tem o tom pesado do drama pantaneiro, porém, num colorido lúdico. Retrata o cotidiano misturando um estilo quase naif com pinceladas abstratas, formas indefinidas, porém, marcantes e que contam um história.

Abraços

Marcos Paulo Carlito · , PR 19/5/2008 19:55
sua opinião: subir
Bia Marques
 

Mais um gol de placa Gisele, sou fã do Daltro, principalmente das aquarelas com poesia!

Bia Marques · Campo Grande, MS 19/5/2008 19:55
sua opinião: subir
Gisele Colombo
 

Carlos e Marcos, fico feliz em saber que vcs também apreciaram a arte do Daltro.

Bia, ainda não vi as aquarelas,mas imagino que também sejam belíssimas. Abcs Gi

Gisele Colombo · Campo Grande, MS 19/5/2008 20:18
sua opinião: subir
Rubenio Marcelo
 

Gisele,
Como sempre, apresentas uma bela e consistente entrevista. Perguntas inteligentes que motivaram respostas muito bem colocadas. Parabéns a você e ao artista Daltro. Viva a arte no (do) MS!
Deixo os meus votos (com prazer).
abrs,

Rubenio Marcelo · Campo Grande, MS 20/5/2008 14:51
sua opinião: subir
Gisele Colombo
 

Muito obrigada Rubenio! Abcs Gi

Gisele Colombo · Campo Grande, MS 20/5/2008 16:03
sua opinião: subir
crispinga
 

Bela matéria, Gi
Conhecí Humberto Espíndola e ele já mencionava as dificuldades de trabalhar e sobreviver de arte no MS. Muito preconceito e falta de união entre os próprios artistas. Admirável a coragem dele ao largar "profissões estáveis" e se dedicar exclusivamente à arte!
Parabéns!

crispinga · Nova Friburgo, RJ 21/5/2008 12:20
sua opinião: subir
Gisele Colombo
 

Cris, obrigada pelo voto e comentário. Abcs Gi

Gisele Colombo · Campo Grande, MS 21/5/2008 14:05
sua opinião: subir
 Amigos do MIS - MS
 

Gostamos e Votamos !!!

Bjs

Amigos do MIS - MS · Campo Grande, MS 25/5/2008 15:03
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

imagens clique para ampliar

Festa d Banho de São João de Corumbá zoom
Festa d Banho de São João de Corumbá
Pescador zoom
Pescador
Tocador de viola-de-cocho zoom
Tocador de viola-de-cocho
Família Pantaneira zoom
Família Pantaneira
Peões no Pantanal zoom
Peões no Pantanal
Porto de Corumbá zoom
Porto de Corumbá

filtro por estado

busca por tag

observatório

feed
Instituto Overmundo pesquisa a cadeia produtiva da música no Rio de Janeiro

Está no ar o blog de pesquisas do Instituto Overmundo. Você já pode encontrar lá os primeiros dados da pesquisa “Análise de modelos de negócios... +leia

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados