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Dança e Afro-Brasilidade

Alessandra Bandeira
Afoxé Oba Orun
1
JACK CORREIA · Crato, CE
4/6/2008 · 147 · 12
 

Em todo o mundo, há uma imensa diversidade de culturas, é verdade. No Brasil, em meio a nossa enorme miscigenação resultante de todo um processo histórico, nada mais comum do que ter a mera sensação de que está em uma realidade cultural totalmente diferente apenas ao atravessar a fronteira de um Estado à outro. Isso é curioso e ao mesmo tempo, fascinante! Nós temos essa maravilhosa mistura, que se revela em variadas formas.

Mas vamos falar de algo mais específico e que é também marca do brasileiro: a dança. Em meio aos que a analisam ou à ela se dedicam por esta ou aquela razão, o consenso é que, de um modo geral, a dança é a expressão corporal de uma idéia, de uma mensagem a ser transmitida. Ela é uma arte!

Temos um “caldeirão” de variedades culturais, e consequentemente, um imenso “alfabeto coreográfico” espalhado por cada pedacinho do nosso chão. Muitos e muitos grupos de dança existem no nosso “Brasilsão”, cada um com suas características próprias... Alguns já notáveis, outros nem tanto, além daqueles que estão se formando ainda sem um propósito concreto.

Dentre os grupos que estão se aperfeiçoando e com a grande idéia em mente de passar toda uma dinâmica social e questionamentos sobre conceitos étnicos nas suas apresentações, peço a atenção para falar especialmente em um: Grupo Afoxé Oba Orun formado em Crato. Isso mesmo, Afoxé no interior do Ceará, para surpresa daqueles que sofrem de meros “deslizes de opinião” do tipo, “cada qual com seu cada qual”, quando o assunto é cultura e tradição no Brasil!

Criado em setembro de 2007 a partir dos planos dos seus idealizadores Linconly Alencar e Ridalvo Félix em ampliar a discussão sobre a Afrodescendência nas escolas, nas comunidades, nas instituições públicas e privadas, etc., o Grupo de Dança Afoxé Oba Orun, já é formado por mais de vinte integrantes que, ao som das músicas cantadas em iorubá e regidas por tambores, envolvem a platéia em toda a magia rítmica daquela dança, que na verdade, todos nós herdamos do povo africano, mas excluímos da nossa realidade.

Durante as apresentações, muitas pessoas ficam um tanto curiosas, comentando acerca dos detalhes do espetáculo. Algumas outras, mesmo fascinadas sentindo um “chameguinho na espinha” da vontade súbita de cair na dança com o êxtase do som hipnótico que sai, olham e apenas tecem comentários como “ah, é música africana”, “é coisa de carnaval da Bahia” ou ainda, “ isso é macumba, é?” como se aquilo fosse uma imposição de crença ou herança cultural que pertence, apenas, a um Estado Brasileiro, não lhes dizendo respeito sob nenhum aspecto... Mas esse é outro tipo de debate que não cabe aqui, já que o foco é somente a dança... é o Afoxé!

No Grupo Afoxé Oba Orun, alguns integrantes se vestem e se portam no palco como um Orixá específico, em atenção tanto nos movimentos originados do próprio contexto histórico daquele ser mitológico, como na expressão de onipotência que aquele personagem comporta.

Xangô com seu tom de quase total superioridade sobre os demais Orixás, por exemplo, age com os movimentos típicos do “deus da justiça e senhor das tempestades”, sendo ao mesmo tempo, “um homem sedutor” que envolvia muitas mulheres. O dançarino que o interpreta, tem o desafio de passar toda essa dinâmica à platéia, através não só da roupa usada e dos objetos que leva nas mãos, como principalmente, da sua expressão corporal que deve ser fiel ao que ele representa dentro da mitologia africana.

Iemanjá por sua maternidade como característica marcante, dança sobre o palco como se estivesse embalando uma criança, interagindo também com as formas das ondas do mar, sempre em movimentos lentos e suaves. A dançarina que representa “a rainha das águas e mãe de muitos filhos”, em poucos minutos da sua atuação solo, tem a missão de demonstrar, apenas com a dança, os aspectos aparentemente opostos dessa Orixá que mistura ternura e bravura em todo o seu contexto mitológico.

E assim, vários outros Orixás também têm a sua particularidade coreográfica, do qual, o Grupo respeita cada detalhe nas apresentações: as cores das vestimentas, os objetos, a música, o giro do corpo, a interpretação de algum fato daquela determinada estória, etc.

Em todos esses aspectos nas cenas, é interessante se observar exatamente a sua intensidade teatral, onde a platéia, mesmo desconhecendo o mito atribuído àquele Orixá representado no palco e o que significam as palavras em iorubá faladas nas músicas, passam a entender algo a partir do que estão vendo com a interpretação – apenas física – dos dançarinos. E esse é o fascínio por trás do significado da dança!

Composto de pessoas que se desconheciam de início, o Grupo é harmônico e já emana uma energia própria, apesar de alguns procurarem essa dança unicamente sob a ótica de saúde física e mental, e outros, que tendem a utilizá-la especialmente para um fim ideológico.

As aulas gratuitas e ensaios para as apresentações estão sendo ministrados por Ridalvo Félix, e, por enquanto, são realizados em pátio aberto da Faculdade de Pedagogia da Universidade Regional do Cariri - URCA, que cedeu espaço para qualquer um assistir e participar.

Todo um estudo sistemático foi feito no sentido de montar o espetáculo – que ainda não está totalmente completo por falta de recursos financeiros – primeiramente com a teoria, conhecendo os Orixás e por fim, indo aos terreiros de Candomblé, onde a dança africana é realmente difundida e cujo espaço físico lembra as senzalas onde os escravos africanos dançavam também como forma de esconder o sofrimento e a saudade da sua terra.

Na intenção de seguir adiante com os planos de estender a compreensão sobre nossa Afrodescendência, também com os ritmos africanos, o Grupo faz improviso não somente quanto aos espaços inusitados utilizados para preparação das apresentações, como também, nas roupas e objetos que usam nas mãos (particular de cada Orixá), que os próprios integrantes fabricam, aproveitando retalhos e material reciclado.

Para chegar aos locais onde são convidados, os dançarinos pegam carona, transportes públicos ou vão à pé mesmo... E, jamais desistindo diante de quaisquer obstáculos, que são muitos, porque indiscutivelmente, mais do que a própria fala, o corpo é capaz das mais variadas formas de comunicação. As palavras – apenas – muitas vezes são o caminho mais árido e menos eficaz para se chegar em um objetivo.

Dancemos, sob todos os ritmos do mundo ou sob nosso próprio “leque musical”! A diversidade natural do ser humano pode alcançar objetivos inimagináveis, e a dança, sendo a dinâmica corporal na sua mais intensa expressividade, é a forma universalmente democrática que temos como meio de comunicação e de elo às mais variadas culturas mundiais.

Não importa de onde vem o som, de como ele é, ou, se genuinamente é nosso ou não. O importante é o movimento do corpo para dizer tudo o que se pretende dizer sem pronunciar uma só palavra, ou simplesmente, para dançar, dançar e dançar, independentemente de conceitos obsoletos de divisões culturais e geográficas.

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Em Notas:

As aulas e ensaios acontecem nas tardes de sábado (início 14h30min) no pátio aberto da Faculdade de Pedagogia no Campus Pimenta da URCA, à rua Cel. Antônio Luiz, nº 1161, Crato-CE.

Contatos com o Afoxé Oba Orun podem ser feitos diretamente com Ridalvo Félix.
Cel.: (88) 9907-2996
E-mail: rivuscrato@yahoo.com.br

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Renata Silva · Aracaju, SE 2/6/2008 15:39
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alcanu · São Paulo, SP 3/6/2008 04:29
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Herminia Rachel Saraiva · Crato, CE 4/6/2008 01:07
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