Daqui pro futuro não haverá futuro. E não é que será assim; é que já é assim. Chego a esta conclusão longe de ter sido a primeira a chegar. A ficção científica, por exemplo, profetizou a existência do não-futuro quando descobriu até onde chega (ou não chega, porque é imensurável) o imaginário criativo do ser humano, dando asas – ou carros voadores, ou poderes tele-transportadores, como quiserem interpretar – a essa capacidade da massa encefálica sapiens de concretizar algumas incredulidades futurísticas na “vida real”. Os automóveis, ufa!, ainda não voam. E para a minha frustração, exceto com o meu poder de abstração, ainda não consigo viajar no tempo. Entretanto, a humanidade já deu início, numa velocidade quase que invisível aos nossos sentidos cada vez mais dispersos, ao fenômeno mais comum da ficção científica, o qual a maioria de nós imagina ainda não ter passado de um produto ilustrativo dos quadrinhos e dos filmes: o da ciborguização do ser humano. Isto mesmo: Eu, você, eles e elas, nós, Robots. E não adianta tirar o corpo de fora. Somos todos, em maior ou menor grau, com mais ou menos carne do que osso, com mais ou menos parafusos soltos, robôs. Não é mais coisa do futuro!
A constatação vem desde o marca-passo no peito do seu avô até aquele agricultor de subsistência que mora num miolo isolado de mata atlântica, sem energia elétrica, mas conectado ao mundo com o seu aparelho celular; vem também do fato de você não receber uma carta na caixa de correios da sua casa desde que abriu sua conta de e-mail e mergulhou de vez na internet, com as soluções que tornaram sua vida mais prática e o mundo um quadrado dinâmico que cabe no monitor do seu computador; vem da capacidade de tornar seu corpo multiplamente presente e atuante, em variadas freqüências, quando digita coisas de trabalho, atualiza seu blog, em seguida seu flog e, ao mesmo tempo, baixa um disco raro de psicodelia tropical de 1977 da Wanderléa (e existe, eu encontrei! ); bate-papo com alguém num chat; responde a outro alguém no orkut com um scrap, conversa pelo skype dando tchauzinho pra webcam, e ainda distrai-se com quem acabou de bater na porta do seu quarto, ou do seu escritório, ou da cabine da lan house, ou do pico de uma montanha, onde você e seu laptop estão respirando ar puro. Só uma máquina é capaz de ser, estar e fazer tanta coisa em múltiplos espaços ao mesmo tempo. Chaplin, em Tempos Modernos, já tava sacando tudo de longe.
O fato é que a realidade virtual sempre existiu como o "suco de frutas Gammy" da ficção científica, e seu universo de mecanismos práticos, desconstruindo e reconstruindo espaços, tempos e corpos onipresentes e entrecruzados hoje é possível concretamente no que é chamado de ciberespaço da cibercultura. Ou seja: no mundo, este mesmo em que a gente está e participa, em nossas relações mais cotidianas.
A cibercultura é a nova maneira da cultura se estabelecer em todo o globo terrestre para qualquer que seja a dimensão étnica, geográfica e experiencial da cultura, em relações humanas que se estendem com/contra/através/sobre/sob organismos eletrônicos. Em harmonia com o que Pierre Lévy chama de “universalidade sem totalidade”, a cibercultura é a condição do tempo presente-futuro para que o mundo se torne uma enorme e única “aldeia global” , por meio de redes tecnológicas de ramificações compartilhadas por interesses e afinidades, no sentido de promover a integração das experiências do conhecimento em trocas intencionadas na igualdade de direitos e bem estares da população mundial. Em harmonia também com a própria natureza planetária, o ciberespaço, pressupondo decisões, atuações e armazenagem de dados em ambientes virtuais, desperdiça menos o ecossistema.
Mas! Como vivemos sob um projeto de sociedade que impõe à vida a oposição entre o bem e o mal a jugo de interesses dos que alimentam este duelo, todas essas alternativas é que não ficariam de fora da faca de dois gumes. De que lado da faca você está? Não, acho que a pergunta certa é: pra quê faca?
A que grande futuro vamos chegar? E com quantos futuros se faz uma jangada para o grande futuro? Depende. Se levarmos em consideração as previsões catastróficas para o mundo, em menos de 100 anos, serão necessárias trocentas e zilhares de jangadas construídas com futuros de material reciclado para atravessarmos inundações de diâmetros continentais. E, ainda, nos lugares onde a do aquecimento global for a de aquecer geral, jangadas serão inúteis para chegarmos até o futurão. Provavelmente em 100 anos já tenhamos carros voadores. A questão é se haverá combustível para esses automóveis “alados”, pois petróleo e biocombustível já terão se transformado em peças de museu desde a 3ª Guerra Mundial – a mais high tech de todas.
Espera-se que tanto terrorismo em torno do futuro não passe mesmo é de ficção científica hollywoodiana, ou de especulação imobiliária falida daquelas que são as maiores responsáveis pelos transtornos ambientais do Planeta: as multinacionais, as transnacionais e as demais. Caso contrário, se possível for até lá, vou preferir realizar meu sonho de viajar no tempo e voltar lá para o passadão da Terra, e conhecê-la no seu momento mais fértil e virgem.
Alguma vez na vida você teve essa vontade? De estar no Planeta no momento exato do seu primeiro e grande respiro? Já imaginou como era nessa época a densidade, o arrepio, o gosto, o cheiro vindos do ar? Nunca pensou como foi o primeiro colorido de todas as cores, sem nódoas de poluição? Ou como era de fato límpida, inodora e abundante a água? E quanto daqueles espaços continentais de terra não prometiam ser férteis, acolhedores e duráveis a todas as espécies? E a natureza nem sequer sabe o que é durável ou descartável. Mas foi obrigada a viver na linha tênue desta condição. O ser humano decidiu aquilo que considera necessário para si como durável ou não. A idéia de durabilidade das coisas é humana. Porque as coisas duráveis na sua existência apenas são.
Hoje somos seres cibernéticos de um mundo tecnológico onde o futuro é nada mais que o nosso pensamento; é o que na verdade antecede o presente, que é a ação concreta do pensamento, cabendo ao passado ser o resultado predestinado dos dois. São os tempos do impossível no possível. O futuro é tão imediato quanto o presente e a humanidade o quer cada vez mais urgente e saciador de suas efemeridades. Este raciocínio é cíclico, vicioso e nele estão contidas todas as relações de tempo, espaço, seres e acontecimentos de agora. Neste exato instante, por exemplo: à medida em que você vai lendo o que escrevi, zilhões de futuros já viraram passado. Já estão esquecidos, inutilizados, descartados. Boa parte, por sinal, virou lixo e, provavelmente, alguns seres humanos estão catando neste minuto o que sobrou de tanto futuro.
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* Título inspirado em:
Pato Fu - Daqui pro Futuro
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"Tempo, tempo, mano velho, falta um tanto ainda, eu sei, prá você correr macio..."
Olá Márcia,
também penso sobre essa conversa sobre o tempo. Com minha cabeça mais sociológica, percebo passado e futuro presentes no agora. Cada indivíduo vive seu próprio tempo histórico. Fazendeiros vivem hoje matando indígenas por cobiça, parados no séc XVI, pelas ruas de Hollywood circulam carros ecológicos que estima-se populares daqui a pelo menos 30 anos e por aí vai...
ótima extensão de raciocínio, Carla.
obrigada pela contribuição. :)
Maravilha de texto !
Um beijo, Alcanu
Carla agradeço ao amigo Alcanú pelo convite.
Muito om texto.meus votos e carinho.
Corrigindo...Márcia
Bom
To ainda sob efeito de remédios rsrsrs
Mente sã corpo san.
Nesse ontem, hoje e depois estou “apenas” co-criando a todo instante...
Procuro estar sã, me firmando neste firmamento - apesar de colocar a cabeça pra frente e pro alto, não quero esquecer dos pés no chão - quando ponho os pés no chão procuro me manter sã... se refletimos com calma, a consciência dói - então procuro mais uma vez (...) estar sã.
Em meio a loucura do cada vez mais provável não futuro - vivo o presente aqui e agora e me “animo” vendo o que já se passou, porque quando vejo o agora enxergo a técnica e os tecnocratas dando bobeira sobre tudo que nos foi expropriado até este presente "Globaritarismo", que assim como todos os totalitarismos tem seus dias contados e como afirma Milton Santos uma outra globalização está por acontecer... De baixo pra cima, do micro pro macro o futuro na rede, em cabos de fibra óptica, encarnados em carbonos e silícios... (desculpa o espírito Nostradamus)
Nossa base -Tempo/espaço - é assim mesmo, incerta (que bom que não é marasmo).
O mundo é a escola e a vida o professor - só espero que cada série não seja tão mais difícil.
E D-eu-S onde fica nisso tudo... no momento entendo-o como a inesgotável fonte das possibilidades infinitas.
Vamos adiante e pra riba...
Eu estou arquivando pra reler. Confesso que nunca tinha me interessado. Mas achei fantásticos os conceitos e informações
abraço
andre.
Muio bom.
Gostei,,, mas são apenas palavras,, e não consigo mudar nada,,, fico como um expectador , assistindo tudo isto.]
Amei Márcia!
Uma análise bem realizada sobre a chamada cibercultura, na qual vivo absolutamente imersa. Vale reler!
Beijos e votado!
Eu particularmente sou muito otimista com relação ao mundo digital. Adoro esse assunto.
Votei com muito gosto.
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