Feira é um lugar de cores, cheiros, sabores. E lembranças. Transborda saudosismo nas tradições de um povo que encontra um gueto onde se perpetuar, nas antiguidades de família que se põe à venda por necessidade, no hábito comercial antiqüíssimo que remete às trocas e se alimenta das pechinchas.
Na Feira de São Cristóvão a gente acha bonito ter um lugar pra preservar a cultura nordestina, a cultura brasileira, a nossa cultura. A gente come aipim com carne de sol a preços módicos, dança forró como gringo no samba e ri das esculturas, das xilogravuras, das historietas da literatura de Cordel. Vamos à Feira de São Cristóvão e batemos no peito o orgulho de ser brasileiro, de nossas raízes nordestinas; dever cívico cumprido. Saindo dali, acima da Bahia é Paraíba, nordestino é porteiro ou pedreiro semi-analfabeto, Rio das Pedras um ponto em Jacarepaguá que só faz embaralhar o trânsito e programa cultural que acrescenta é o novo filme de Woody Allen no shopping com ar-condicionado e réplica da estátua da liberdade. O domingo na Feira foi uma incursão a um submundo cultural que deve ficar restrito àquela realidade. Lugar de forró, repentista, aipim e sotaque diferente é na “Feira dos Paraíbas”, no cercadinho azul em São Cristóvão que a Prefeitura gentilmente lhes cede em troca de um aluguel popular.
Na Feira da Praça XV a gente acha divertido a quantidade de quinquilharia à venda: tem boneca sem olho, sem braço, sem perna, até sem cabeça!; tem telefone vermelho, em forma de fruta, em forma de carro, em forma de qualquer propaganda imaginável, até que não funciona!; tem prataria, prato, jarra, taça de vinho, taça de água, talher de peixe, talher de sobremesa, até pra quem não come nada! Agora dá pra entender as placas de “Compra-se antiguidades”, mesmo que o que se venda seja apenas velho. Mais divertido é poder chegar a um preço junto com o vendedor. Porque na Feira da Praça XV muitas vezes valor não dita preço, então tanto faz se esse anel foi de toda a geração da família de alguém, se a foto desse broche é o único registro da avó morta desse senhor ou se essa senhora tinha muito apreço pela prataria francesa de sua mãe. No Brasil, quem faz o preço é a fome do vendedor. A Feira da Praça XV é chamada de Antiquário por alguns, mas são poucos ali os que têm apreço pelas antiguidades. Vendem-nas somente porque alguém as compra e assim se sustentam. É a oposição de quem vende por necessidade a quem compra por ostentação. Mais divertido é continuar andando pela Praça XV e chegar onde não tem mais barraca, onde o mostruário é colocado no chão mesmo, sobre um pano não raro imundo. É o lugar dos “sem-teto”, os que não têm 15 reais para dar ao organizador da Feira. Ali é muito engraçado, se vende qualquer coisa achada no lixo: um pé de sapato usado, 12 embalagens de xampu vazias, rádios de carros roubados. Essa não-Feira dá quase o dobro de tamanho da Feira Oficial, mas movimenta bem menos dinheiro. Ali estão os que não têm mais necessidade de nada, são barraquinhas de sucata e esmola.
Feira é um lugar em que as relações de confiança, por mais que estremecidas pelo comércio, ainda têm espaço. É um resquício de história, que não se curva à imponência dos shopping centers. As feiras persistem na cidade, nos bairros. A feira que tem perto da minha casa às quartas-feiras é mais do que um lugar onde se pode encontrar vegetais frescos ou frutas da estação a preços módicos. É onde a senhora solitária que mora a duas ruas da minha vai para ver passar as crianças da vizinhança, pra ver passar sua juventude, quando ela mesma ia roubar uns cachinhos de uva verde da barraquinha do seu Chico. É onde a minha mãe fica devendo oito reais porque esqueceu a carteira em casa e o camarão não pode ficar pra semana que vem, a dívida pode. É um local de encontro de todo o pessoal do bairro, dos que acordam cedo só pra comer um pastel com caldo de cana, com tempero de feira local.
As feiras se perpetuam pela necessidade de comércio, de dinheiro. Mas ainda sustentam relações informais de convívio e de fraternidade, apoiadas em um saudosismo de uma época que talvez nunca tenha sido, mas que a cada dia de feira permanece mais viva na lembrança dos freqüentadores.
Gostei muito do texto. Uma reportagem de sensibilidade e observação, sem dúvida.
Também curti o texto. Gostei do modo como você propôs a reflexão sobre nossa relação com esses eventos públicos que, de tão comuns e queridos na cidade, raramente são alvo de discussão. Há um tempo houve matéria no Globo sobre a feira da Praça XV e os camelôs da Glória. Era interessante, mas o tom era de exotismo acima de tudo. Abraço
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 17/3/2009 11:04O velho tema da volta ao passado... Gostaria de ouvir uma resposta sua [e olha que eu tb gosto de feiras e acho que elas nunca vão acabar]: se vc renega o 'progresso', a modernidade, a cultura dos EUA ou o capitalismo, pq não divulga o seu texto em cordel ou xilogravura em vez de usar a Internet e a câmera digital?
DiogoFC · Criciúma, SC 17/3/2009 11:30
Cara, gostaria muito de poder expressar o bálsamo que foi pra mim ler esse seu texto hoje, por volta das 11 da manhã, falando de feira...
Acordei péssimo. Oontem foi o dia que o prefeito de minha cidade simplesmente mandou destruir uma feira nordestina de mais de 50 anos... A feira de Caxias só perde em antiguidade pra Feira de São Cristóvão e é uma marca fortíssima da presença nordestina aqui na cidade (estima-se em 70% da população).
É triste ver o autoritarismo reinar, investido do tal choque de ordem, que na verdade é a idiotice se firmando como a lei do Estado.
Me desculpe usar esse espaço pra desabafar, mas estou realmente triste e chocado. E sem tempo no momento pra escrever um texto-protesto, o que certamente farei.
Em todo o caso, parabenizo de novo teu texto - é de uma poética gostosa, daquelas que faz bem saber que outras pessoas a sentem com o olhar e com a alma.
'té+
bacana o texto - lembrando apenas uma sugestão que fiz na dica do Guia sobre o Mercado Popular de Goiânia: seria ótimo ter uma série colaborações no Overmundo falando das feiras e mercados (de todos os tipos) por tudo o Brasil - abraços
Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 17/3/2009 12:30
Excelente trabalho. As feiras tem cheiro de Gentes!
Saúde e Paz. jbconrado.
Ao contrário de nosso amigo Diogo, acho exatamente a dicotomia da modernidade x passado que torna o progresso interessante. O modelo atual do capitalismo só se instaura quando há a a presença viva da permanência de hábitos e costumes antepassados. Como se chega adiante se não tivermos a margem de comparação ? Lembre-se que, nós brasileiros costumamos ter memória curta e muito menos a maioria está preocupada em buscar inforamção em acervos antes de discutir. Assim, a subsistência de hábitos antigos nos fazem ver a olhos nus, como as feiras, os costumes antepassados. Fora que, o fato de exaltar a ocorrência de feiras em praças públicas não faz com que a foto dos eventos se torne um insulto às tradições, pelo contrário, o mundo age hoje em conjunto e procuro cada vez mais respeitar as diferenças e gostos e de hábitos.
Daniele Boechat · Rio de Janeiro, RJ 17/3/2009 20:16
frequento vez ou outra a feira da Praça XV e ja havia notado a citação de marcelleza:
"Essa não-Feira dá quase o dobro de tamanho da Feira Oficial, mas movimenta bem menos dinheiro."
frequento a feira atrás de instrumentos musicais.
ja encontrei cavaquinho, piano elétrico, escaleta, orgão eletronico tudo por la...
é uma feira muito rica, mas pouco organizada.
a galera que não pode pagar pra ter uma barraca fica praticamente na rua, se choee eles ficam na chuva...perdem até mesmo a pouca mercadoria que possuem.
Dificil é tentar falar em organizar, dizer que o poder público deve interferir na organizaão desta feira sabendo do que ocorreu com a Feira de São Cristovão, onde o antigo dono de bar ou barraca virou garçom depois da "organização" do ex-prefeito Cesar Maia. Os restaurantes ganharam ares de Porcão, e os antigos donos viram a invibilidade de manter seus comércios frente ao Business dos grandes restaurantes que chegaram ao pavilhão.
To vendo a hora em que teremos um Mcdonalds dentro do pavilhão em São Cristovão...
DANIELE: não vi sentido no que você falou. Releia o que eu disse e veja que a minha [tentativa de] ironia era para mostrar que o tom do texto renega as transformações pelas quais o Brasil vem passando [poderia chamar de americanização, qdo ele cita o filme do WOODY ALLEN e o shopping] mas ao mesmo tempo está veiculado num espaço [a Internet] que só chegou ao Brasil porque ele resolveu abraçar esse modelo de sociedade.
DiogoFC · Criciúma, SC 17/3/2009 20:54
Polêmicas a parte, parabéns pelo texto, faltou apenas mais fotografias. Só queria por em relevo a parte na qual você cita o fato dos nordestinos serem taxados de maneira pejorativa por 'paraíbas' e em são paulo o epíteto é de baiano, enfim. É uma tentativa de querer hierarquizar as regiões e as culturas. Uma lástima, por que bem que todo adora passar umas férias em Salvador, Fortaleza, João Pessoa não é mesmo?
Um abraço.
e o prefeito de duque de caxias, o famoso zito, que tem origem nordestina, acaba de detonar a tradicional feira nordestina que funcionava na cidade há mais de 50 anos.
atenção, rapaziada, o tal do "choque de ordem" está virando moda na política carioca e vai, pouco a pouco, sufocando as tradições e as práticas populares.
Sem polemizar ainda mais, creio que minha interpretação seja distinta da sua, enfim, sou à favor do debate de qualuqer maneira. E saiba que estarei sempre disponível para troca de idéias e argumentações.Espero que não tenha se sentido criticado veementemente, esta não foi minha intenção. Se quiser debater mais ou sobre outro assunto será umprazer. Um abraço, Dani.
Daniele Boechat · Rio de Janeiro, RJ 18/3/2009 14:04
DiogoFC,
creio que você me interpretou errado. Nada tenho contra a globalização, os EUA etc. E logicamente, muito menos contra a Internet. Meu intuito com o texto passa longe de fazer uma crítica à americanização, como você chama.
Quis criticar a forma como se hierarquiza cultura e regiões no país. Como o brasileiro médio ainda desvaloriza a sua própria cultura, seja taxando-a como 'exótica', seja pondo-a reclusa em um gueto. Ainda, minha intenção com a citação a Woody Allen foi alfinetar como alguns formas culturais são taxadas como 'cultura que acrescenta' e, sem nenhuma consciência crítica, são engolidas e endeusadas, por serem 'cânones' da chamada 'alta cultura'. E por que existiria tal 'alta cultura'? Quem a definiria? É um movimento que se percebe quando o nordeste é valorizado quando convém - numa feira, no carnaval, no verão etc.
É bem como falou FIlipe Mamede num comentário aí em cima, muito oportuno: cultura nordestina, cultura popular de maneira geral, só é bem-vinda quando convém.
A todos, obrigada pelo debate e comentários construtivos!
Excelente trabalho. As feiras tem cheiro de Gentes!
Saúde e Paz. jbconrado.
Hei,hei. Só confirmando.
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