Das imagens da moça Caetana

Lucas Mateus
Herácles e um punhado de fotos.
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FILIPE MAMEDE · Natal, RN
11/5/2007 · 234 · 17
 

A fotografia tem a capacidade de concentrar um mundo num instante. Mais do que isso, para alguns pensadores a fotografia é a metáfora humana da busca pela imortalidade. Poderia o instantâneo vencer a passagem do tempo? Então o que dizer de fotografias de pessoas mortas? Seria o aprisionamento do corpo inerte e sem vida? As pessoas fotografadas estariam mortas para sempre?

Não sei se foi pensando nisso que o fotógrafo policial Herácles Dantas deu “vida” ao seu hobby macabro. Com trintas anos de profissão nas costas, Herácles, um sujeito espontâneo, baixinho, silhueta avantajada e de bigodes fartos coleciona fotografias de pessoas mortas. Fino observador da morte alheia, o fotógrafo parece manter um curioso pacto com a “indesejada”. Sempre consegue os melhores ângulos. Enquadramentos perfeitos e mudanças de perspectiva impossíveis para muitos.

Os "400" trabalhos de Herácles

Suas lentes já registraram as poses de gente morta de morte morrida e poses de gente morta de morte matada. O sádico arsenal fotográfico é composto de mais de 400 cenas de moribundos. A miscigenação vai de ladrões varados de bala, homens atropelados por trens, à criancinha enterrada na areia pela irmã esquizofrênica. Herácles só não tem a sua própria foto, a mais emblemática e, por isso mesmo, impossível de ser feita. Seria ele capaz de um suicídio fotográfico? Não sabemos.

Mas ao contrário do que a funesta coleção possa incitar, o fotógrafo, que tem nome de semi-deus, é gentil e galhofeiro. Com um bom-humor “negro”, digamos, Herácles guarda na memória dezenas de causos e anedotas que dão conta das centenas de mortes registradas, como no dia em que fizeram um menino se fingir de morto para forjar a fotografia de um bandido que a polícia tinha dado cabo. Na verdade, a peripécia saiu da cabeça do repórter que o acompanhava. Como o IML já havia dado destino ao moribundo, o repórter alheio a qualquer conceito de ética não contou conversa. Impeliu Herácles a fazer a foto.

No outro dia o jornal concorrente estampava na capa a fotografia do bandido crivado de balas e todo ensangüentado. O editor-chefe chama Herácles e o repórter na sala e pergunta sobre qual seria a verdadeira foto. O repórter não vacilou e tascou o seguinte mote: “Na verdade a foto verdadeira é a do outro jornal. Mas nós fizemos a ‘reconstituição’ do acontecido”.

Histórias tragicômicas como essa são comuns na vida do trampolineiro e desmedido fotógrafo, que já se vestiu de policial para ter acesso à cena do crime. Espirituoso, o fanfarrão Herácles confessa ter mais apego pelas fotografias do que pela sua própria esposa, ela que “morre” de ciúmes das lúgubres “cópias fiéis”. Mas quanto a esse assunto, o fotógrafo não titubeia. Se precisar, faz novamente uma permutação de esposas - ele que já está nas suas terceiras núpcias. As fotografias dos mortos assim como seus filhos, são os únicos bens inalienáveis que possui.

E assim ele segue. Buscando o inédito. Colecionando e aprisionando vidas através de suas lentes objetivas, com a mesma simplicidade das crianças que guardam para sempre os seus brinquedinhos Kinder Ovo, ou dos cinéfilos que reúnem suas entradas de cinema. Aos desavisados, cuidado com os cliks de Herácles.

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Helena Aragão
 

Benzadeus que você optou por não colocar as tais fotos para ilustrar o texto! :)))

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 9/5/2007 13:45
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FILIPE MAMEDE
 

Pois é Helena. Não seria de bom gosto. Tentei abordar o tema de uma forma mais amena digamos. Realmente as fotos são impressionates.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 9/5/2007 16:09
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Viktor Chagas
 

Muito boa a matéria, Filipe. Será que o Seu Herácles já tomou umas nesse bar do Piauí?

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 9/5/2007 16:24
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Noelio Mello
 

Parabéns pelo excelente texto. Afinal, porquê temer a morte, sofrer com sua ronda que nunca se cansa, nunca adoece, jamais descansa, se temos mais adiante o perfume da eternidade?
Abraços
Noélio Mello

Noelio Mello · Belém, PA 11/5/2007 12:39
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Fê Pavanello
 

Mais um excelente texto, Felipe!
Adoro!
Fico pensando apenas na frustração que deve ser para ele, ao mostrar sua coleção, a seqüência de expressões de nojo... Mas talvez esteja exatamente aí a graça da coisa, não é mesmo...?
Muito interessante!

Fê Pavanello · Brasília, DF 11/5/2007 14:52
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Roberta Tum
 

Oi Felipe, vim, li, gostei e votei!
Bjo

Roberta Tum · Palmas, TO 11/5/2007 14:54
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FILIPE MAMEDE
 

Pessoal, é F I L I P E com " I " ... (risos)
Olá Roberta, é quase um veni, vidi, vici né?
Abraço pra todos.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 11/5/2007 14:57
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Fê Pavanello
 

Oooops!
Desculpe, FI-lipe!
:-)

Fê Pavanello · Brasília, DF 11/5/2007 15:19
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Andréa Cals
 

Gostei muito do postado. Adoro fotografia, é um assunto que realmente me agrada e me fascina. E a morte aqui faz uma dobradinha macabra, mas da mesma forma deveras interessante conforme vc muito bem abordou.
Valeu.
A

Andréa Cals · Rio de Janeiro, RJ 11/5/2007 15:57
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André Gonçalves
 

gostei muito do texto, e bastante da estória. dá um filme. ou um belo conto, pelo menos.

André Gonçalves · Teresina, PI 11/5/2007 20:56
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Spírito Santo
 

Filipe,

Gostei muito (do texto). Reze pra ninguém vir pegar sua alma no lugar da do Herácles (a dele ninguém pega mais)

Abas,

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 11/5/2007 22:36
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Leandróide
 

Filipe, que figura insólita que foste buscar pra nos apresentar. Parabéns pelo texto.
Abraço,
Leandroide.

Leandróide · Florianópolis, SC 11/5/2007 23:11
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Gabi Olivar
 

Como sempre, ótimo texto!
Essa figura é mesmo ímpar!
Interessante, apesar de eu não gostar nada do gênero! HeHeHe!

Beijão!

Gabi Olivar · Natal, RN 12/5/2007 11:21
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Higor Assis
 

Bacana o texto Filipe.

Tem alguns itens que seria bacana 'rever', claro na minha humilde opinião.

Aquestão do humor negro, será que vale apena escrever desta forma ?
E o kinder ovo, será que todas as pessoas sabem o que é isso e também, se vale apena fazer uma relação com o produto ?

Um abraço amigo, e valeu mais uma vez pelo convite, votei como sempre!

Higor Assis · São Paulo, SP 14/5/2007 08:49
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FILIPE MAMEDE
 

Quanto ao Kinder Ovo, acho difícil não saber do que se trata. Foi uma febre no Brasil no décade de noventa e pelo mundo a fora. Colecionado por crianças e até muitos adultos. Quanto a questão do humor. Existem bom-humor, mal-humor, e humor negro, um humor mais sádico ou seja lá o que for. Usei as aspas justamente pra evidenciar a junção dos humores aparentemente separados, enfim. Não sei se vc se referiu da palavra 'negro' como uma questão racista ou sei lá. Peço desculpa se gerou algum entendimento dessa natureza. De qualquer forma, valeu pelo comentário, espero que tenha gostado dessa história inusitada. Um abraço a todos.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 14/5/2007 15:41
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Higor Assis
 

Gostei sim amigo. Seus textos são muito bacanas sou teu fã.

O texto que comentei anteriormente esta na fila de edição, de uma olhada. Um abraço.

Higor Assis · São Paulo, SP 16/5/2007 08:51
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Daniel Duende
 

Matéria muito interessante, Filipe. Tenho lá meus gostos mórbidos, mas os meus não chegam tão longe... :)

Abraços do Verde.

Daniel Duende · Brasília, DF 19/5/2007 16:38
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