David Cardoso • Homem lingüiça

Maurício Borges
DAVID CARDOSO aponta para mural em seu escritório em Campo Grande
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Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS
13/11/2007 · 172 · 11
 

Um cidadezinha da fronteira de Mato Grosso do Sul com o Paraguai é conhecida por um produto que agrada a maioria dos brasileiros. Orgulho dos habitantes do município, a iguaria, consumida em todo o Estado, é a famosa lingüiça de Maracaju. Não comecei o texto desta maneira para falar do sabor especial deste autêntico produto regional feito com carne bovina nobre curtida em suco de laranja. Me refiro a uma pessoa que também saiu da cidade de Maracaju e que se transformou, literalmente, no ‘homem-lingüiça’ mais famoso do Brasil nos anos 70 e 80. O nome: José Darcy Cardoso ou simplesmente David Cardoso! Rei da Pornochanchada e O Homem das Mil Milheres são os principais rótulos que carrega mesmo aos 63 anos. As máximas fazem sentido. No currículo de David estão 76 longas, oito novelas – sendo quatro como galã – e seis peças de teatro.

O maracajuense estreou como ator em 1966 em Corpo Ardente, com ninguém menos que Walter Hugo Khouri na direção. Quatro anos depois David chegava ao estrelato com A Moreninha, do diretor Glauco Mirko Laurelli, baseado no clássico de Joaquim Manoel Macedo. Um dos únicos filmes censura livre da cinematrografia do ator e que marcou a estréia de Sônia Braga como atriz. Mas se tudo indicava que David poderia virar o galã típico bom moço com o sucesso do filme, o que veio pela frente nos anos 70 foi uma avalanche de filmes de pornochanchada, que se diferenciavam dos pornográficos por não poder conter sexo explícito. Mostrar genitália, dos homens, nem pensar.

Vamos a alguns nomes dos filmes feitos nesta época: ‘Os Maridos Traem... E as Mulheres Subtraem/70’, ‘Quando as Mulheres Paqueram/71’, ‘A Infidelidade ao Alcence de Todos/72’... Veio então ‘Sinal Vermelho – As Fêmeas/72’ e David conquistou a atriz estreante, uma beldade que David cita como a mulher mais bonita do cinema nacional. A loira Vera Fisher! Como eu era adolescente nos anos 80, não tem como não citar as outras atrizes que David contracenava e a primeira que vem a cabeça é Matilde Mastrangi. Mas tem ainda Helena Ramos, Nicole Puzzi, Zilda Maio, Zaira Bueno... É claro que David não desmente se chegou perto ou não das mil mulheres. Nas três horas que ficamos conversando, em nenhum momento se dirigiu desrespeitosamente as atrizes. Como bom modelo ‘latin-lover-pantaneiro’ não deixa de dizer que traçou metade delas.

Neste mesmo período, em 1973, fundou a própria produtora. A DaCar Produções Cinematográficas, montada com o patrocínio dos amigos José Rolim, o Zezinho (já falecido), dono do cartório do 4º Ofício de Campo Grande, e do conterrâneo Gilberto Adrien. Com a produtora, David entrou para a história do cinema nacional. Ele produzia com o dinheiro da iniciativa privada e não do governo é bom deixar claro. Fez mais de 30 filmes com uma média de 200 mil dólares por longa. O maior orçamento foi 19 Mulheres e Um Homem, em 1977, quando estréia na direção e roda praticamente todo o filme em locações sul-mato-grossenses durante dois meses com uma equipe de 50 pessoas. Gasta em torno de 1 milhão de dólares e é recompensado com os 2 milhões de espectadores que compareceram as bilheterias de todo o país.

David então vira galã e produtor. Em 1980 ganha longa entrevista na Veja como, nas palavras da revista, ‘o homem que mais fatura com o cinema nacional’. Dois anos depois chega ao ápice do sonho que começou quando ainda era garoto e ficou um dia inteiro no Cine Metro, em São Paulo, emendando as sessões de Mogambo e querendo ser Clark Gable, que interpretava um caçador de gorilas africanos, rodeado pelas beldades Grace Kely e Ava Gardner. David protagoniza a novela O Homem Proibido, da Globo, numa boa oportunidade de deixar na lembrança a época de pornochanchadas e entrar para o seleto grupo de galãs da emissora. Em vez disso, talvez embalado pelo próprio sucesso em doses cavalares que a tevê proporcionou, decide sair candidato a deputado federal em seu próprio estado, que havia acabado de ser desmembrado de Mato Grosso. Começa então a paulatina saída de cena de David, que se enfurna em causas ecológicas ligadas ao Pantanal e acompanha de perto, como uma espécie de braço direito, o lutador Maguila. A amizade durou 10 anos até o boxeador chegar ao máximo que seu talento permitia, sendo campeão sul-americano e mundial.

Atualmente David está construindo uma casa em Terenos, município que fica a 35 km de Campo Grande. Conversando com o ator é fácil perceber que só a carcaça parece bruta. Na verdade, David é um sujeito passional. Ele próprio reconhece que fala demais e fecha portas por causa da sinceridade aflorada. ‘A maioria dos cineastas cariocas tem apartamento na Avenida Vieira Souto com dinheiro da antiga Embrafilme que eles pegavam e superfaturavam a grana’. Esta é uma das típicas rajadas que saem da sua metralhadora giratória. Mas David é emotivo. Fica vermelho, eleva a voz, carrega no sotaque fronteiriço e agita-se quando fala de coisas que acredita como injustiças óbvias.

Reclama que foi o único que fez cinco longas em MS – Caçada Sangrenta, 19 Mulheres e Um Homem, Corpo e Alma de Mulher, Caingangue e A Pontaria do Diabo - e que jamais foi reconhecido por isso. Tenta doar suas toneladas de equipamentos que estragam em seu sítio há 18 anos e não consegue apoio sul-mato-grossense. Tem certeza que ele próprio deveria ser o Embaixador do Pantanal e não Luiza Brunet, que subtrai ainda o ‘Sul’ do ‘Mato Grosso’. Em seu escritório repleto de fotografias e fotos na parede, David emenda uma palavra na outra como num transe hipnótico. A claquete não pára nunca de sinalizar a próxima cena para David. Aliás, Rei David!

Rodrigo Teixeira – O que você está fazendo como ator neste momento?
David Cardoso – Acabei de gravar o filme ‘Los Niños de La Guerra’. Este rapaz (o diretor Miguel Horta) não tem um tostão, por isso tem que ajudar. Estou muito contente porque nunca vi nada mais importante do que isso aqui (mostra o roteiro do filme). ‘Los Niños’ é todo falado em guarani. O tema é principalmente a batalha de Acosta-Ñu, que aconteceu em agosto de 1869. Foi a última grande batalha da Guerra do Paraguai e quando as forças paraguaias, composta por velhos e crianças, são aniquiladas. Lopez foge, mas é morto em Cerro Corá, pelos brasileiros, seis meses depois. O filme conta a mortandade de dois mil paraguainhos pelas tropas brasileiras, uruguaias e argentinas. Os paraguaios não tinham homens para colocar na guerra e mandavam aqueles meninos de 12 anos, com carvão na cara, ombreira grande e uma espingarda de pau só para fazer volume. Olhavam pelo binóculo e ‘meu deus, olha a tropa paraguaia’, só que eram crianças.

Fale um pouco do seu personagem, Coronel Dionísio Cerqueira.
Ele é um embaixador do Brasil em Paris e vem para o Rio de Janeiro para passar férias e, já com 62 anos, relembra quatro décadas atrás, quando ele era tenente.

Quanto custou um filme como 19 Mulheres e Um Homem?
Este foi o mais caro e o grande sucesso. Os meus filmes custavam uma média de 200 mil dólares. Hoje em dia o ‘19’ com menos de 1 milhão de dólares não seria feito. Porque o negativo é caro e fiz em 35mm, a equipe tinha 17 pessoas, mais 19 atrizes e o pessoal local. Foram 40 pessoas filmando dois meses em MS.

Onde você filmou o 19?
Em Campo Grande, na fazenda no Pantanal que não tenho mais, e na fazenda do Nasser.

Uma raridade com certeza. Poucas vezes se realizou isso.
Mas fiz mais. Fui o único a produzir cinco longas em Mato Grosso do Sul. Também sou o único ator do Brasil a sair duas vezes na capa da Veja. Não teve Lima Duarte, Raul Cortez, que admiro como um dos maiores, não teve ninguém. A última em 1994 e a primeira em 1980, como ‘o homem que fatura mais com o cinema nacional’. Era eu nos anos 80.

Quantos filmes você fez?
76 entre longas e documentários. O último filme foi em 1988. Já pensou se tivesse continuado? Teria mais de 100 filmes. E parei há 18 anos. Este é o dado importante.

E o que aconteceu?
É uma incógnita. Meu filão estava acabando, mas devia ter ficado na Globo. Fiz O Homem Proibido como galã na Globo. Estava meio quente. E 20 anos atrás com 40 e poucos anos estava no auge. O Toni Ramos perguntou: ‘Mas por que você quer ir embora se a Globo quer te segurar?’. Falei: ‘Roubaram minha fazenda, pegaram meu avião para fazer salto de paraquedas em Naviraí...’ Tinha muita coisa aqui, como tenho, não dá lucro, mas tenho. Tenho 11 ações na justiça. É uma vergonha.

Por que você veio embora afinal?
Primeiro pelo amor pelo meio ambiente e Pantanal. Dentro na minha cabeça o que tinha era a tal da política. Queria entrar para defender este lado ecológico. Isto agora é moda, mas antes não era. Concorri em 1982 para deputado federal e obtive 7.800 votos e precisava de 15 mil. Perdi, mas dinheiro do meu bolso ninguém viu, porque não sou ladrão. Depois para vereador perdi outra vez. O cara pedia para pagar o IPTU em troca de voto e eu mandava ele sair. Sou ecologista militante há 40 anos. Falei sobre ecologia no Raul Gil quando ninguém falava nisso. E sempre combati a caça criminosa e a pesca predatória. Sempre gostei disso. Fui fiscal colaborador do Inamb. Nunca ganhei nada. Não quero ganhar dinheiro, mas nem um reconhecimento? Nada! Fiz cinco filmes no estado e nunca me levaram ao Festival de Bonito? Não é possível! O único cara que filmou cinco vezes no estado não dá para levar e falar ‘olha este aqui é um gonorréia, mas é o único cara que fez cinco filmes no estado com recursos próprios’. Porque com dinheiro do governo qualquer cara faz cinema!

Mudou a maneira de se fazer cinema?
O que mudou é que nós - Mazzaropi, meu grande mestre, Zé do Caixão, Anselmo Duarte, Toni Vieira, eu... - fazíamos filmes e corríamos para a porta do cinema para ver o resultado da bilheteria para ver se ia emplacar e poder fazer o próximo. Hoje não existe mais isso, com raríssimas exceções. O que tem hoje é: o filme é X, levanta este dinheiro através de leis, pegam este dinheiro e é o seguinte: ‘David Cardoso você quer fazer o papel de delegado? Quando você quer ganhar?’. E eu ‘quero 1 milhão de dólares, mas se me der 100 reais eu faço, to parado!’. Resposta: ‘A gente vai te dar 10 mil dólares e você vai assinar um recibo de 30’. Então eles roubam na produção. Não interessa o cinema. O negócio é roubar. Tanto é que a maioria dos cineastas cariocas tem um apartamento na Avenida Vieira Souto com dinheiro da antiga Embrafilme. Eles pegavam a grana e superfaturavam. Tem casos escabrosos que a imprensa noticiou, como o Chato que dizem que é chato para caralho. O cara não terminou e ficou com não sei quantos milhões de dólares. A Norma Bengell, minha amiga, pegou 2 milhões para fazer O Guarani, gastou um e pôs um no bolso. Porque o cara pode roubar, só que tem de ir para a cadeia. E é o que não acontece no nosso país. Na minha época um filme era passado no cinema e depois de um ano que ele ia para a televisão e depois de dois anos que podia sair em vídeo. O que aconteceu com o Tropa de Elite? Antes de entrar nos cinemas já estava sendo vendido a R$ 2 aqui no camelódromo. Então não há fiscalização. Vou dizer uma coisa que nunca imaginei, porque fui super perseguido pela censura. Mas eu tenho saudades do regime militar em relação ao cinema. Porque passava pelo crivo da censura, cortavam as cenas, mas a gente trabalhava. E agora? Cadê o dinheiro para fazer o cinema popular? Não tem mais cinema. Maracaju, Ponta Porã, Três Lagoas, Corumbá, Aquidauana... Não tem mais. Acabaram com as salas do interior do Brasil. Onde é que vai passar o filme?

Quantas pessoas assistiram seus filmes?
Só no 19 dois milhões de espectadores. Não era a população de hoje. E outra coisa. Um dia encontrei na praia com o Renato Aragão e ele disse: ‘Ce viu meu filme David? Explodi. Coloquei dois milhões e meio de espectadores. Sou o recordista!’. E eu ‘Não. Eu ganhei. Porque coloquei dois milhões em um filme de 18 anos e o seu é livre.’ Ele ficou puto, mas é a verdade. Não trabalho na Globo. Sou eu com eu.

E seus filmes iam para onde?
O Brasil todo. A maior bilheteria, assim como Mazzaropi, era São Paulo. A cidade onde fiquei 25 anos. Com a DaCar fiz 34 filmes. Mas trabalhei para Anselmo Duarte, Osvaldo Massaini, Roberto Farias, Walter Hugo Khouri e com o Mazzaropi com que comecei em ‘O Lamparina’, em 1963.

Como aconteceu?
Era continuista. Depois de dois anos com Mazzaropi fiz o Meu Japão Brasileiro com ele, já tinha trabalhado com Walter Khouri no melhor filme dele, A Noite Vazia, voltei a trabalhar com o Mazzaropi e perguntei: ‘Será que não dá para me dar um papel de galã?’. E ele: ‘Você não é galã porque não quer, Cardoso. É só você dormir comigo e você é galã no outro dia!’. Ele não atacava, mas cantava. São histórias que rolavam, mas comigo não. Nunca fiz galã no filme dele. Mas outros fizeram, como o Roberto Pirillo, Franscisco de Franco e Tarcísio Meira.

Você tenta doar o seu material e arquivo há 18 anos para fazer um museu. Como está esta história?
O meu acervo pode não ficar em MS pela morosidade e pelas promessas que vêm se arrastando há 18 anos. Não agüento mais. 80% do material não tem mais condições de recuperar. O negativo tinha que estar a 8 graus e está a 38 fechado num cubículo. Já procurei todo mundo e são só promessas. O prefeito Nelsinho (de Campo Grande) fez um discurso inflamado há 10 meses e as coisas não acontecem. Diz ele que em frente a Ferroviária, em uma das casas recuperadas, será o Museu David Cardoso. Ele falou isso na frente de desembargadores, vereadores e deputados. Agora o Puccinelli (governador de MS), através do Américo Calheiros (presidente da fundação), falou que tem um espaço no Memorial. Não estou vendendo e sim doando. Infelizmente parece que vou ter que levar para São Paulo. Tem duas cidades interessadas, que são Altinópolis e Batatais, além da Cinemateca Brasileira em São Paulo. O eco disso seria bem maior. Mas sou de MS. O que gostaria é que estas coisas ficassem por aqui mesmo, já que fiz cinco filmes no estado.

Como é para você ter que carregar o rótulo de astro pornô?
Não era ‘astro pornô’, era ‘rei da pornochanchada’. Este termo ‘pornô’ é para sexo explícito. Eu era ‘O Homem das Mil Mulheres’. Me ajudou por um lado e atrapalhou por outro. Na matéria que saiu em O Estado de SP está no título ‘Astro pornô quer doar equipamento’. Mas nunca fiz filme de sexo explícito como ator. Nenhum filme aparece genitália, até porque não podia. O que eu fazia melhor que os outros era conduzir uma cena para o espectador punheteiro, que estava dentro do cinema, ficasse louco. E saía dali em um estado deplorável.

Quando você fez O Homem Proibido não teria sido a hora de ter quebrado este estigma, como muitos atores e atrizes que também fizeram pornochanchada e foram incluídos no elenco global?
O problema é que não fiquei lá.

Mas foi mais uma coisa sua ou deles?
Foi minha. Eles não têm culpa. A Globo queria fazer um contrato de dois anos. Eu não quis. Só que eu deveria ter saído de la´tipo ‘muito obrigado Mario Lucio Vaz por tudo. Não posso agora porque vou fazer um longa. Mas poderia no ano que vem aparecer por aqui?’. Não devia ter falado este tipo de coisa. Não devia ter dado declarações como a que dei na entrevista da Veja tipo ‘não sou pornográfico, pornográfica é a televisão brasileira, é a Globo’. Comprava briga e é assim ainda.

Vamos falar sobre algumas produções. O Lamparina?
Primeiro filme, como técnico. Era continuista. Tem uma aparição minha cantando, um close, fazendo parte de um coral.

E aí veio Noite Vazia.
Aí sim foi o primeiro que eu apareci em uma participação especial e que me notaram. Aí que começou a surgir o David Cardoso como ator. Porque foi uma coisa pequena de cinco minutos, mas que marcou. O filme todo eram quatro atores: Mário Benvenutti, Gabrieli Tinti, Norma Bengel e a Odete Lara. Depois fiz Meu Japão Brasileiro do Mazzaropi e Corpo Ardente do Walter Cury. Trabalhei cinco anos como técnico. Até surgir uma oportunidade por um mato-grossense chamado Reynaldo Paes de Barros, que fez O Pantanal de Sangue. Ele disse: ‘Você vai ser o ator principal do meu filme’. Então há 40 anos, lá em 1966, eu estreiei em um filme chamado Férias no Sul como galã.

Com A Moreninha você ficou conhecido.
Este foi o filme que me lançou e lançou a Sônia Braga. Fazia o Augusto, personagem central. O Cine Ipiranga foi todo pintado e remodelado para o filme e é um dos mais vistos do cinema nacional. Era censura livre. Tinha um beijo só.

Em Sinal Vermelho – As Fêmeas você lançou a Vera Fisher.
Sim, foi o primeiro filme dela. Fiquei apaixonado por ela e ela por mim e rolou um romance. Mas este filme era o Fauzi Mansour. Eu era o diretor de produção e galã.

E o filme Cainguangue, um dos cinco que você rodou em MS?
Para mim é uma obra prima. Foi todo filmado em Maracaju. Tenho uma cópia de Cainguangue em 16mm. De vez em quando passo para as pessoas e eles choram.

O tempo acaba dando a dimensão do valor de uma obra?
A única coisa que não vai te trair nunca é o trabalho. É isso que você está fazendo. Explica, está indenizado. Então sabe o que eu sou hoje? Cult. Quando chego falo meu nome aqui todo mundo vem falar comigo. Uma vez o Chico Anysio fez uma pergunta para a Luiza Brunet: ‘Voce nasceu aonde?’. E ela: ‘Em Mato Grosso’. Ela é Embaixadora do Pantanal e não sabe o nome do estado onde ela nasceu. Não a culpo e sim quem a pôs neste cargo. Põe o Almir Sater, um Espíndola, o Aurélio Miranda... Um monte de gente boa. Mas por certo deveria ser eu. Porque ninguém falou mais de Mato Grosso do Sul do que o David Cardoso.

Tem artista que sai da sua terra e bate a porta e não volta nunca mais. Você me parece que é bem o contrário, até exageradamente!
O Ney Matogrosso tem que mudar de nome. Ele tem que ser Ney Mato Grosso do Sul. Ele é de Bela Vista pô! Isso daria uma puta mídia, mas eles não estão nem aí para o nosso estado. Vou te contar uma passagem que aconteceu e me machucou muito. Estava sentado aqui e chegou um rapaz apressado. Isso faz uns seis anos. Ele disse: ‘Queria falar com o David Cardoso.’ Eu disse pode falar. ‘Não, quero falar com o David Cardoso’. O que você quer, sou eu, isso aqui é meu! ‘Não é que eu vim do Libanês e nós vamos fazer um Miss Pantanal e o presidente do clube quer saber se você não quer ser o presidente do júri?’. E eu: ‘Claro, legal, gosto de participar’. Ele perguntou então se eu tinha smoking. Disse que sim, que estava em São Paulo. E ele disse ‘mas não vai dar tempo? Porque é hoje as nove da noite. Vou te contar a verdade. O Raul Gazzola não veio’. Perguntei ‘como vocês iam conseguir o Gazzola de graça?’. E ele: ‘Não a gente ia pagar cinco mil para ele’. E eu: ‘Então não vou’. Quer dizer eu tenho que quebrar galho. Não valorizam os artistas da terra. Fui no primeiro Pantaneta em Aquidauana, quando cheguei lá só via baianada e me enojou. Porque cadê os artistas da terra? Se eu for lá em Salvador, não quero comer a lingüiça de Maracaju, nem mandioca, nem churrasco, quero comer acarajé, conhecer as coisas de lá, quero escutar a música de lá. Eles que venham escutar as nossas coisas daqui. Como a gente faz o peixe, os nossos cantores... Aí traz um de fora para o encerramento. O resto tem que ser tudo com artistas daqui. A baianada vem aqui e tem que agüentar eles cantando. Eu não sou contra eles, eles são unidos e nós não temos união. Principalmente neste estado. Parece que falta alguém com visão.

Muito se fala que os diretores cantavam as atrizes dos filmes. Como era isso?
Sou contra este tipo de coisa. Nunca fiz um filme e falei ‘dorme comigo que você vai ser a atriz’. Nunca fiz esta troca. Porque como é que vou olhar para ela e ela para mim? Vai trabalhar de que forma? Com que sensibilidade se faço uma proposta indecente desta aí? Abomino isso, apesar de saber que tem muita gente que faz. Nunca fiz. Embora tenha traçado talvez a metade delas, mas tinha que ser normalmente. E sempre depois que acabava o filme.

É verdade que você tem um contrato com o Pelé para fazer um filme no Pantanal?
Sim. É o filme Amor Pantaneiro. Com o David Cardoso Junior como galã e a Camila Pitanga como pantaneira. A história de um cantor em ascenção que se apaixona por uma menina que tira leite de vaca. E fica louco por ela e quer abandonar tudo. Só que no meio tem seqüestro e crime ambiental. O Pelé seria um delegado de Corumbá cujo filho foi morto e não quer mais tocar o barco. Mas faço um jornalista e provoco dizendo ‘que vamos bater de frente com os poderosos’. E a gente entra na história. Quanto isso não representaria para o nosso estado? Tenho este contrato desde 1988 e não consigo realizar.

Mulher mais bonita do cinema nacional?
Vera Fisher.

Uma cena de transa de todos os filmes?
A Noite das Taras 2 com a Matilde Mastrangi. A gente começava em cubículo dentro de um armário.

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Saulo Frauches
 

Entrevista sem cerimômias, hein? Impressionante a franqueza dele em algumas declarações.

E concordo com o David quando ele diz que é 'cult'. Terminei de ler sua reportagem tendo uma imagem mais bacana dele - não que antes fosse ruim, é que as histórias divertidas só tiveram a acrescentar.

Saulo Frauches · Rio de Janeiro, RJ 12/11/2007 15:58
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Helena Aragão
 

Assumo que meus conhecimentos sobre pornochanchada são mínimos, então me dou o direito de dizer que "Os Maridos Traem... E as Mulheres Subtraem" é um título sensacional, mais de 30 anos depois do filme ser lançado. Rodrigo, não acha que o David e o Antonio Snake se dariam muito bem? :) Abraços

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 12/11/2007 18:08
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Rodrigo Teixeira
 

Valeu Saulo, que bom que ajudei a melhorar a imagem do David contigo. Ele é gente da gente!

E Helena, realmente os nomes são muitas vezes melhores que as pornochanchadas (se não tiver a Matilde Mastrangi no elenco!!!) E com certeza Snake e David juntos daria samba hein?? Imagina o primeiro dirigindo e o segundo atuando?

Listo abaixo os filmes que David atuou:

Produções David Cardoso

Ator

Carga Pesada (2006) Tubarão
Da Cor do Pecado (2004) Pimenta
A Hora Mágica (1998) Bandeira
Despedida de Solteiro (1992) Corumbá
Perigosas Peruas (1992)
Pedra Sobre Pedra (1992)

Solidão, Uma Linda História de Amor (1989)
O Dia do Gato (1987) Gato
Uma Esperança no Ar (1985)
Viciado em C... (1985)
Viciado em C... II (1985)
Caçadas Eróticas (1984)
Tentação na Cama (1984) Roberto
Corpo e Alma de Uma Mulher (1983) Rodrigo
A Freira e a Tortura (1983) Delegado
O Homem Proibido (1982) Paulo Villani
As Seis Mulheres de Adão (1982) Adão
A Noite das Taras II (1982) David
Pornô! (1981) Romano
Corpo Devasso (1980) Beto

Desejo Selvagem (1979) Tigre
Bandido, Fúria do Sexo (1979) Téo
O Guarani (1979) Peri
E Agora José? - Tortura do Sexo (1979)
Cara a Cara (1979) Tonho
O Amante de Minha Mulher (1978) André
Dezenove Mulheres e Um Homem (1977) Rubens
Possuída Pelo Pecado (1976) André
A Ilha do Desejo (1975) Gilberto
Amadas e Violentadas (1975) Leandro
Caçada Sangrenta (1974) Neguinho
Sedução (1974) Omar
Trindade... é Meu Nome (1973) Trindad
Caingangue (1973) Caingangue
Sinal Vermelho - As Fêmeas (1972) Nivaldo
Corrida em Busca do Amor (1972) Ronaldo
A Infidelidade ao Alcance de Todos (1972) Caito
Quando as Mulheres Paqueram (1971)
A Herança (1970) Omeleto
Se Meu Dólar Falasse (1970) Gustavo
Os Maridos Traem... E as Mulheres Subtraem (1970) Johnny Aleluia
A Moreninha (1970) Augusto

Agnaldo, Perigo à Vista (1969) Baby
Vidas Estranhas (1968)
Roberto Carlos em Ritmo de Aventura (1968)
O Grande Segredo (1967) Cássio
Férias No Sul (1967) Celso
O Corpo Ardente (1966) Rancher
Meu Japão Brasileiro (1965)
Noite Vazia (1964)
O Lamparina (1964)

forte abraço!

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 13/11/2007 01:11
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FILIPE MAMEDE
 

Entrevista bacana hein Rodrigo. Já tinha visto uma matéria com o Seu David Cardoso, o cara realmente é uma figura. As fotografias estão muito boas também. Um abraço,.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 13/11/2007 11:00
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Rubenio Marcelo
 

Venho aqui votar com muito prazer, pois é enorme o carinho fraterno que tenho pelo meu amigo David Cardoso. E aqui não falo nem no David Cardoso talentoso artista (pois este todo Brasil e exterior conhece), refiro-me ao David amigo sincero e um cara realmente extraordinário, que não tem papas na língua, verdadeiramente franco. Quando podemos, sempre nos encontramos para 'botar o papo em dia' e molharmos a palavra. Sucesso sempre, meu irmão!

Parabéns, pela matéria.

Rubenio Marcelo · Campo Grande, MS 13/11/2007 11:27
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Zé Geral
 

Muito boa a entrevista. Deu para "sacar" melhor a personalidade do David e conhecer bem sua trajetória. Uma das coisas que mais aprecio nas pessoas é o "dizer sem medo". Parabéns Rodrigo! Salve David Cardoso!!!

Zé Geral · Campo Grande, MS 14/11/2007 13:25
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Marcos Paulo Carlito
 

Ponta de Lança,

Matéria boa pra caralho bicho. Assim como o David, tem que estar na cabeçeira. Puta raiva, faz tempo que falta alguém menos encantado com as coisas de fora e mais centrado em nossa própria identidade...

Fazer o que? Como não ser contra-cultura, como não meter o pal na política? Como driblar nossa própria ingerência?

Sei lá...

O filme do Miguel Horta promete cara, fiz uma locações com ele lá em Porto Murtinho e sei que o cara é fera. Boto a maior fé.

Valeu Rodrigo, a entrevista ta "tropo" profissional

Abraços Guaicuru!!!

Marcos Paulo Carlito · , MS 14/11/2007 17:20
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Defletas
 

[b]Haverá Banca de Capacitação Profissional (IN nº 004/99) em Cuiabá/MT no dia 13 de julho de 2008.

Seja Profissional de fato e de direito tenha DRT!

Banca de Capacitação Profissional para o Candidato em se Habilitar (DRT) ao Exercício Profissional na Categoria Regulamentada pela Lei Federal nº 6.533/78 e Decreto nº 82.385/78, que abrangem os Trabalhadores nas seguintes áreas:
I – Artes Cênicas (Circo, Teatro, Dança, Moda, Opera, Produção e Shows de Variedades...);
II – Cinema;
III – Fotonovela;
IV – Radiodifusão.

Contato SATED/MT:
(65) 3321-8095 / 8415-3992 / 9212-7575
E/mail: satedmt@hotmail.com

Sede: Rua Sete de Setembro (próximo ao MISC e ao IPHAN), nº 427, Centro (Histórico), Cuiabá/MT

Saudações culturais;

Nestor Defletas
Pres. do SATED/MT

Defletas · Cuiabá, MT 22/6/2008 15:04
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Beto Mathos
 

Rodrigo. Parabéns pela entrevista.
Eu sou fã de carteirinha de David Cardoso e acho que ele deveria relançar todos os seus filmes em DVD.
Conheço muitos filmes, mas, alguns, só se ele resolvesse disponibilizar em DVD ou outro meio.
O cara foi um gênio de seu tempo.
Dê um abraço nele por mim.

Beto Mathos · Vitória, ES 12/4/2009 20:52
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EDYSANTOS
 

Entrevista fantástica já tive a oportunidade de ver o David de perto e o cara é muito gente boa.
Mais tenho uma dúvida nesta e em outras entrevistas e sempre diz que nunca fez nenhum filme aonde aparece á (genitália) mais em As Seis Mulheres de Adão á várias cenas com close, inclusive sexo oral?
Fica no ar a pergunta pois, já vi em outras entrevistas inclusive na televisão o mesmo comentário do David.

EDYSANTOS · São Paulo, SP 29/11/2010 22:07
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ade11
 

Olá a todos.
Por favor, como façopara cosneguir o cntato do David Cardoso? Fui convidado para fazer filme pornô e tenho varias dúvidas, gostaria ede esclarecê-las com alguem competente e que entenda do assunto, e ninguem melhor do que o David. Caso alguem tenha seu email ou vc mesmo leia este recado David, o meu email e ade1983luiz@yahoo.com.br. Desde já agradeçoa atenção de todos.

ade11 · Mogi das Cruzes, SP 25/12/2011 00:18
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DAVID E VERA FISHER no filme As Fêmeas zoom
DAVID E VERA FISHER no filme As Fêmeas
DAVID CARDOSO é uma figura - cenário, pose e objetos sugeridos por ele mesmo zoom
DAVID CARDOSO é uma figura - cenário, pose e objetos sugeridos por ele mesmo
ENCONTRO DE REIS - David Cardoso e Roberto Carlos zoom
ENCONTRO DE REIS - David Cardoso e Roberto Carlos
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SKAIKE AZUL - David de Roberto Valentino, simplesmente impagável
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CLAQUETE - Próxima cena!
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