Coisa comum nas cidades brasileiras era apenas um jardim separar a casa das ruas. E isso não faz muito tempo. Os mais reservados se davam ao luxo de construir muretas, baixinhas mesmo, onde muitas vezes as pessoas sentavam para uma boa prosa. Em outros casos, cerquinhas improvisadas indicavam o limite entre público e privado.
Comum então era a gente encontrar apenas calçada entre porta e rua estreita, ou uma varanda com cadeiras de descanso, ou uma árvore frondosa para garantir sombra e frescor. Muro era raridade. Talvez porque os tempos eram outros. Reinava a concepção de que rua é de todo mundo; mas casa, coisa sagrada, inviolável.
Hoje, até mesmo nas menores cidades, muros altos abrigam famílias assustadas e tornam as ruas lugares ermos. Muitas vezes, gasta-se mais com a construção de muro do que com a casa propriamente. Tudo em nome da segurança e da privacidade.
Já não são poucos os casos de lotes murados e com pequenos barracos no fundo, em que pessoas vivem apertadas no que a modernidade resolveu apelidar de edícula. Agora o negócio é ficar isolado do resto do mundo. De preferência, com cerca elétrica e um cão daqueles bem anti-sociais.
O leitor sabe como é. A coisa anda mesmo preta. Tem gente na maior pindaíba do mundo. A fome grassa e a miséria bate à porta. A violência cresce diante do medo, das injustiças, da desigualdade e da indiferença. Os maus exemplos vêm de cima e medram como câncer maligno no andar de baixo. Com as bênçãos do pessoal que estampa colarinho, as elites reinam ameaçadas na podridão do sistema em que o povo disputa o que sobra.
Não é de hoje que a imprensa escancara desgraças, aumentando ainda mais a sensação de insegurança. Pelo visto, a humanidade não conseguirá mais criar cidades tranqüilas. Corremos perigo no que deveria ser o paraíso. E poucos conseguem perceber o óbvio. Os muros, os portões e os cães de guarda separam as ruas do interior das casas, mas a vida não nos separa.
No texto, não foi considerada a realidade das grande cidades brasileiras, onde a verticalização das construções é uma necessidade em razão da falta de espaço.
A abordagem é mesmo relacionada às mudanças verificadas na construção de moradias nas pequenas cidades e até mesmo nos bairros de cidades grandes, onde antes a construção de muros não era uma tendência como atualmente.
Aqui no Rio de Janeiro, a transformação dos espaços privados em espécies de prisão é, rigorosamente, total. Até as praças públicas estão cercadas por grades, com portões enormes que se fecham assim que a noite começa.
Não exagero se prever que teremos aqui, em futuro não muito remoto, grades e muros separando pobres de ricos e remediados. Aquele muro que Israel levantou na Palestina, pode existir aqui. Anotem aí.
Abs
Rezende,
Algo que me espantou muito em Palmas quando estive ai foi justamente esses muros altos na frente das casas. Em Porto Alegre, que é uma cidade grande com alguns ares de cidade pequena, se encontra ainda casas com cercas baixas, ainda que sejam raras. Por aqui, os muros altos foram substituídos por cercas elétricas.
Estou com um texto na fila de votação, quase com os votos para a primiera publicação no Overmundo.
Bjs, Lu
É por essas e outras, camarada, que eu prefiro Taquaruçu. Além do clima serrano, gente que mete a cara na janela. Tem coisa mais bela?
Sim, meu caro bardo: "Os muros, os portões e os cães de guarda separam as ruas do interior das casas, mas a vida não nos separa."
Rezende,
"As grades dos condominios são para trazer proteção. Mas também trazem a dúvida de quem está nessa prisão"
Já disse muito bem a música do Rappa.`
É a triste realidade desta sociedade em que a violência e o medo já domina a paz e a tranquilidade. A segurança dos muros e grades é ilusória.
Verdade...pura verdade. Agora me bateu saudade, na minha infância morei em casa sem muros.
Anilson · São Luís, MA 15/1/2008 19:46Ótimas imagens. Retratando uma lembrança e agora, o real. Até os anos 70 minha casa não tinha chave. Amigos vizinhos entravam e saiam até sem a nossa presença.Lembro-me de minha cidade Campinas, SP com cadeiras nas estreitas calçadas nos fins de semana. Garrafas de leite na soleira da porta de nossas casas.Em São Paulo hoje corremos risco até com cadeados nas janelas.Até os relógios de água ,que também serviam para matar a sede de algum passante, estão gradeados. .Efeitos e feitos do próprio homem desatento.Parabéns pela idéia em retratar o que fomos e o que somos.
Cintia Thome · São Paulo, SP 17/1/2008 08:35Grande Rezende: Fui por uma leitura emotiva. Lembrou-me Araguaína de nossa infância: mais humana, mais solidária, mais inteligente. Eta coisa comovida dos diabos, rapaz! Cinco horas da manhã, ao gritar "olha o pão", as pessoas me chamavam , abriam as portas das casas sem medo, outras me aguardavam no murinho. Valeu!!!
ARY CARLOS · Palmas, TO 17/1/2008 21:40Na secular Natividade não há correria e a vida passa tranqüila. Nas casas de porta e janela mora uma gente honrada e trabalhadora, além de fraterna e muito solidária. É mesmo preocupante a situação de caos e de insegurança nas grandes cidades brasileiras. Desigualdade social, corrupção e miséria estão estreitamente relacionadas com a situação. São a mola propulsora de tudo isso que estamos verificando. Desnecessário lembrar a realidade distinta em alguns países, onde as casas tem jardins e estão escancaradas para as ruas. Boa reflexão, Rezende.
fada · Natividade, TO 18/1/2008 21:38
Antonio,
Como já disse antes, faço produção de locação para filmes publicitários, e não tem coisa mais complicada de que quando tenho que produzir a fachada de uma casa de classe média. Pois, como podemos ver, as casas que aparcem em comerciais são livres de grades ou de grandes muros.
Geralmente, acabo caindo em condomínios fechados. Não que não se encontre mais estas casas em cidades grandes. O problema, é que quando abre a câmera, sempre revela os vizinhos super engradeados.
Aqui em Porto Alegre, este processo de prisionamento domiciliar, se deu no final dos anos 80.
Mas, ainda há pqnas cidades no inteiror do RS que é possível ver casas sem muros e sem grades nas janelas, sem estarem dentro de um condomínio fechado.
Parabéns pelo trabalho.
Abs.
P.S. Este casa é uma boa locação para um comercial.
Kais Ismail · Porto Alegre, RS 19/1/2008 16:53Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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