DE COMO SE PODE CURAR A GRIPE DO FRANGO

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Renan Barbosa · São Paulo, SP
28/8/2006 · 79 · 0
 

Morava eu em Ribeirão Preto nos últimos 12 anos onde, por saudade da velha Campina Grande, resgatava algumas pérolas do nordestinês nos proseios com os amigos paulistas. E além dos ‘oxente’, ‘vixi’, ‘oxe’ e outras expressões tão caras a um nordestino auto-exilado, surgia inevitavelmente o ‘tá com a mulesta!’ ou o ‘tá com a bixiga!’. O que, por associação livre, me levava a descrever-lhes algumas entidades nosológicas nomeadas popularmente em nossa região. Prosseguindo, relatava a uma platéia entre incrédula e desconfiada que havia, por exemplo, a “mulesta dos cachorro” que nomeava a Hidrofobia ou raiva e a “bixiga lixa” que, dizia-se, era o nome vulgar da extinta doença varíola. Afora a “mulesta dos pinto”, eu continuava a instruí-los e nesse ponto eles faziam uma careta de assombro e nojo. “Calma! Não há nada de imoral nisso. ‘Pinto’ para nós é o filhote da galinha” - eu os tranqüilizava. “Certamente”, continuava minha explanação, “a mulesta dos pinto não é nenhuma doença sexualmente transmissível, mas deve ser o que nós chamamos de gogo, que é quando uma galinha fica gripada”. “Você convive demais com seus pacientes” - exclamavam. “Desde quando galinha tem gripe?” Era a minha vez de ficar indignado, frente àquela explícita demonstração de ignorância: “Eu asseguro! Quando alguém está gripado, com coriza, costumamos brincar: ‘tá com gogo’. Que é a gosma que a galinha expele quando pega gripe. E vi isso com meus próprios olhos, no galinheiro que tínhamos na nossa casa-chácara lá no bairro de Bodocongó. O tratamento para galinha com gogo consistia em administrar Melhoral® infantil diluído no bico da infeliz por alguns dias, em horários regulares. Se ainda assim o animal definhava e morria, era imediatamente descartado sem consumo” - eu arrematava, nesta aula que mais traía o meu desconhecimento nas reentrâncias e significâncias de nossas expressões do que propriamente me fazia douto aos olhos dos amigos. Estes riam ainda mais incrédulos do que antes, e convictos de que aves não ficavam gripadas.
O tempo passou. Quando finalmente a gripe do frango ganhou a mídia, por ceifar a vida de aves e humanos, eu me senti tristemente vingado. E me remeti aos mesmos ouvintes, para a pergunta redentora: “Viram? Agora acreditam que galinhas também ficam gripadas?”...
Moral da história: se o mal que se iniciou lá na Ásia tiver o mesmo quadro clínico, evolução e prognóstico do “gogo” de nossas galinhas de capoeira, caberia especular: se antes o Melhoral® podia curar alguns desses frangos adoecidos, haveria esperança para os frangos do mundo além da incineração? Seria necessária uma distribuição preventiva dessa medicação para os galináceos do planeta? Ou será que não há remédio e o inferno das aves é mesmo aqui?
Posso lhes garantir que não deliro, antes que alguns me recomendem uma internação breve (felizmente loucura não se pega por contágio). Nem recebo verba do fabricante para fazer “propaganda” do uso do tal medicamento. São apenas divagações da mente inquieta de um contumaz apreciador de peitos de frango.
Ano passado, deixei para trás a cultura country de Ribeirão Preto e mudei para São Paulo, o curral seguro das almas vaqueiras e não vaqueiras do Nordeste. Não quero me perder do meu nordestinês, mas preciso usá-lo com adequação, sabedoria e autoridade. Mais do que aspirar a respostas científicas, pensei que o momento é oportuno para finalmente descobrir o que é “bixiga taboca”, “gota serena”, “mulesta dos pinto” e tantas outras patologias que o caboclo nordestino nomeou.
Agradeço a quem se interessar por essas questões mais epistemológicas que etimológicas. Mas, por favor, antes que eu ganhe o Nobel de Medicina, por ter descoberto a cura da gripe do frango (porque aí vou ficar meio “amostrado”): Melhoral® infantil neles!! Ou o pinto melhora... ou morre!

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