DE VILA MANAUS PARA O MUNDO

Capa da Agenda 21 da Comunidade Vila Manaus
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Julia Aguiar · Porto Alegre, RS
14/4/2008 · 118 · 2
 

"Com a Agenda 21, as pessoas que não são daqui poderão conhecer
quem somos, qual a nossa história e quais as nossas necessidades.
Dizem que se um soldado morre, a guerra não acaba. Mas quando
o esteio central da casa quebra, vai toda a casa abaixo. Ou se o
maracajá come a galinha, os pintos ficam espalhados, sem saber
para onde ir."


Estes são trechos da AGENDA 21 de Vila Manaus. É uma produção da Comunidade Vila Manaus em parceria com Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora).

É muito bonito!

O arquivo em PDF, está a disposição no seguinte link:

www.imaflora.org/arquivos/ag%2021%20Vila%20Manaus1.pdf

...

Este livro foi resultado do trabalho de parceria do Imaflora e
Comunidade Vila Manaus.

O primeiro encontro foi em fevereiro de 2001, dia em que a
comunidade recebeu a visita do Roberto e Jander, do Imaflora e senhor Duarte, secretário do meio ambiente. Já no segundo encontro, no mês seguinte, tivemos a presença de mais um integrante do Imaflora, senhora Cris.

Vieram falar do Imaflora e da Agenda 21. Contaram o que era o
Imaflora. Na época, o que nós sabíamos do IMAFLORA eram dos
boatos que vinham do Lago Preto. Eles contavam que o Imaflora ia
tomar todos os nossos terrenos para levar a madeira para fora e vinham com balsas “medonhas de grande” para levar toda nossa água para São Paulo e íamos ficar na “secura”.

Na rádio, estavam falando que o chupa-chupa tinha feito várias
vítimas em Maués. Ele vinha de disco voador e vinha atacando as casas, chupando o sangue do povo. Uns falavam que com o tempo ele ia bater aqui em Boa Vista do Ramos. Foi nesta época que o Imaflora apareceu e por isto ficou aquela dúvida. Será que eles são o chupa-chupa? Uns ficaram muito amedrontados. Aqui em Vila Manaus, a gente não acreditou muito nestas estórias, mas ficamos meio desconfiados.

Depois começou a falar da Agenda 21 e de Meio Ambiente. Veio
falando para que e de que forma a Agenda 21 podia contribuir para a
comunidade. O Roberto perguntava o que a gente sabia sobre esse
assunto, nós ficávamos meio esquisitos nos olhando, porque não
sabíamos nada disto. Ele ia falando dos nossos terrenos e como
fazíamos agricultura e que podíamos fazer diferente e de forma mais
organizada, com o pensamento nos nossos filhos e netos. Ele falava
muito enrolado, quase como um estrangeiro. Paulista fala diferente do nosso linguajar, por isto a gente não podia entender muita coisa.
Parecíamos com os índios se defrontando com os portugueses pela
primeira vez. Ninguém tinha idéia o que era preservação e conservação, meio ambiente, sustentabilidade e tantas outras coisas que eles falavam. Ficamos assim aquela noite. Ninguém entendeu muita coisa.

Como o Jander é da nossa “lavra” (da nossa terra), depois da
reunião, nós nos achegamos com ele para entender o que era isto.
Daí, entendemos um pouco melhor. Conversamos e tentamos aceitar
para ver o que ia acontecer. Meio na dúvida, falamos: “Vambora ver!”.

Hoje já temos frutos, principalmente a preservação dos lagos e da
floresta. Agora, nós já podemos dar exemplo para outras comunidades. Na segunda visita, vendo o filme da Agenda 21 e com mais explicações, começamos a acreditar de verdade. Cada vez foi chegando mais morador para participar. A turma do Telecurso ajudou bastante com os trabalhos que o professor Generson passou para os alunos, como por exemplo, daquela dramatização sobre a chegada dos europeus na comunidade que encheu a sede, atraindo muita gente por causa da apresentação.

No começo, era aquela distância. A gente chamava de Dr. Roberto.
Daí, ele proibiu de chamar de doutor, porque ele disse que não era
médico e nem doutor de coisa nenhuma. Então ficou Seu Roberto.
Hoje com os mais chegados baixou muito, ficou Cupim mesmo. Hoje
a gente tem o Cupim e a Cris como parte da comunidade, quase
como gente da nossa família.

A gente fica comentando que se o Imaflora tivesse vindo antes, a
gente não tinha desmatado tanto a beirada e o lago não estaria tão
seco. O professor Zé Carlos também veio alertar a gente quando voltou do curso de Agente Ambiental. Também alertaram para zelar pelos peixes. A gente sai para pescar e às vezes não pega nada nem de malhadeira. Antes pegávamos muito peixe fazendo “bateção”. Foi assim que destruímos a casa dos peixes, porque não tinha quem orientasse.

Aqueles que foram na excursão para Presidente Figueiredo e mesmo
os que não foram, mas ouviram como é por aí, perceberam que dá para fazer diferente. Por exemplo, o costume de a gente queimar para plantar. Nós vimos que tem gente que não queima e está vivendo muito bem. A gente começou a dar atenção para coisas que estavam na nossa frente e não ligávamos, como, por exemplo, juntar as sementes para plantarmos nos nossos terrenos. A gente só conhecia a banana passa que a gente chama de banana passada ou de morcego e para secar, custava muito. Hoje tem o secador solar, onde já secamos abacaxi e vamos experimentar manga.

Teve tantos momentos marcantes nestes dois anos de parceria da
Vila Manaus com o Imaflora, sendo que um dos mais marcantes foi a
festa na praia, no fim do ano passado. Neste ano vamos repetimos a
festa celebrando a conclusão da elaboração da Agenda 21 da
comunidade.

A Agenda 21 trouxe mais consciência e esperamos que venha
acontecer aquilo que planejamos, principalmente para recuperação da fartura dos peixes. A casa de farinha mecanizada e a estrada também são necessidades prioritárias para quem quiser colaborar com a comunidade, pois o resto a gente vai dando nosso jeito, dependendo mais da comunidade.

Algo muito importante foi a vinda dos estudantes de São Paulo para
passarem três dias na comunidade. Foi muito bom, porque eles contaram a realidade deles e a gente pôde saber o que eles pensam de nós e viram como é a nossa vida de verdade. Ficou na lembrança de todos, especialmente para as crianças. Acho que assim como passa na nossa memória, deve ficar passando também na memória deles. Nós também gostaríamos muito de ir conhecer São Paulo, mas para nós voar é muito difícil. Só mesmo se o chupa-chupa nos levasse de disco voador.Olha só o Walter. Pela idade que tem, pensou que nunca mais ia para Manaus e, de repente, deu certo de ir sem nem mesmo esperar. Pode ser que aconteça. É assim que as coisas são, é assim que elas acontecem.

Apesar de nossa grande diferença (nós e o pessoal do colégio Santa Cruz) pudemos sentir que somos filhos do mesmo pai, pudemos nos sentir como uma só família. Tivemos muitas experiências novas, como quando iniciamos o trabalho de agrofloresta. Começamos com a linha da vida, onde todos de olhos vendados iam caminhando pela floresta, capoeira e roçado. Não vendo onde estávamos passando, pudemos mentalizar como é que era a casca da árvore, o fogo, o sol. Pudemos pensar em momentos de alegria e tristeza e assim pudemos refletir de como pode ser nossas vidas. Sem árvores, como pode ser mais difícil a vida. Tudo isto pudemos mentalizar.

Demorou para a gente perceber muitas coisas. Foi o tempo todo
batendo na mesma tecla, até que o pessoal abriu os olhos e tem
muitos que ainda não enxergam nada e não estão preocupados com
o futuro. Ainda estão naquela ilusão de que o que Deus colocou na
Terra, nunca vai acabar. A gente tem que dar atenção especial para
estas pessoas, para que eles também se conscientizem.

Com a Agenda 21, as pessoas que não são daqui poderão conhecer
quem somos, qual a nossa história e quais as nossas necessidades.
Dizem que se um soldado morre, a guerra não acaba. Mas quando
o esteio central da casa quebra, vai toda a casa abaixo. Ou se o
maracajá come a galinha, os pintos ficam espalhados, sem saber
para onde ir. É assim que a comunidade vai ficar se não tiver alguém
para dar um incentivo como o Imaflora está fazendo agora. O que já
aprendemos, fica na nossa idéia, mas daí para frente, como é que a
gente vai ter novas idéias?

Sobre nossa comunidade e município

A Comunidade Vila Manaus

Somos habitantes da Comunidade Vila Manaus, localizada às
margens do Lago Mucuim, no município de Boa Vista do Ramos (BVR),
no Estado do Amazonas. Fica à margem direita do Paraná do Ramos
(um braço do rio Amazonas), com uma distância de 370 km de Manaus
via fluvial. Esse percurso, em barco de recreio, leva 18 horas descendo o rio e 24 horas subindo. Possui uma área de 2.598 km2 e uma população de mais de 12 mil habitantes, segundo o censo de 2000. Cerca 5 mil pessoas moram na sede do município e o restante, nas 44 comunidades rurais.

Os primeiros moradores de nossa comunidade vieram das terras
de várzea devido a uma grande enchente ocorrida em 1953.
Normalmente, as enchentes desta época eram pequenas e quando
ultrapassavam o assoalho das casas, usava-se a “maromba” que é
um assoalho feito de toras de madeira de embaúba, munguba e
paxiúba (caule retirado de palmeiras como o açaizeiro e bacabeira).
Nesse ano, não houve “maromba” que desse jeito, pois as águas
subiram até a cobertura. Então, as pessoas tiveram que abandonar
suas casas e vieram se estabelecer na terra firme, onde hoje é a atual comunidade.

Nessa época, vieram 10 famílias que fundaram a comunidade no
dia 10 de maio de 1954, sendo os fundadores os senhores: Manoel da
Silva Camarão, Vasco Pinto Ribeiro, Manoel Ferreira Soares, Benedito
de Souza Ribeiro, Antônio Rodrigues, Benedito Moreira de Matos, Mário Neves Dias, João Sancereth, Arlindo Soares e José Marinho Andrade.

Atualmente, residem na comunidade 366 habitantes, distribuídos
em 78 famílias, com moradores de até 84 anos. A maioria é crianças
e jovens, todos pertencentes à religião católica.

Nossa origem vem de várias culturas, como européia, africana,
mas principalmente indígena. A cultura européia ainda hoje é muito
presente na comunidade pelos seguintes costumes: religião católica,
vestuário (uso de roupas, calçado etc.), língua portuguesa,
ornamentação de luxo (uso de objetos de ouro e prata). Da cultura
africana temos os seguintes costumes: na alimentação, por exemplo,
feijoada, leite de côco, munguzá, azeite de dendê e cocada. Na música, temos o samba e os instrumentos musicais, como atabaque, pandeiro, berimbau e tamborim.

Mas é da cultura indígena que herdamos a maioria dos costumes,
tais como:

- Na alimentação, temos o peixe, a mandioca, o milho, o guaraná,
as frutas da floresta (piquiá, uixi, açaí, patauá, buriti, castanha,
tucumã, pupunha, cupuaçu etc.)

- Dormir em rede, tomar banho diariamente, pescar e caçar com
armadilhas.

- Utensílios para fabricar farinha: paneiro, peneira, tipiti, forno de
barro, cuiapéua (derivado da cuia). E os domésticos: panela de
barro, torrador, pote de barro, cuia e pilão.

- Canoa como meio de transporte.

Apesar de termos a língua portuguesa como língua oficial, também
utilizamos muitas palavras de origem indígena como: jacaré, tucunaré, curumim, cunhantã, tucupi, tambaqui, pirarucu, jabuti, pitiu, tucuxi etc.

Todos os comunitários têm seu sustento e renda principalmente da
pesca e da agricultura. A nossa comunidade antes era bem rica em
vegetação e farta de peixes, florestas e animais. Hoje já sentimos a
escassez de alguns dos recursos que antes nos eram fartos. Alguns
moradores de Vila Manaus estão lutando para que possamos recuperar pelo menos parte da fartura de pirarucu, tambaqui, florestas e animais como capivara, veado, jabuti, paca, tatu, jacamim, jacu e outros.

Formação histórica de Boa Vista do Ramos

Pelos idos de 1870, instalou-se aqui os primeiro habitantes: Maria
da Conceição, que construiu uma casa e a chamou de Casa Boa
Vista, de onde originou o nome da cidade; Simeão Estilista (este
último nome por exercer a função); professor Romão Lopes Cascaes;
Maxiliana Rodrigues Cascaes; Antônio Roberto Pimentel (vulgarmente
conhecido como Antero Gaivota); Ricardo Rodrigues; Satiro Lopes
Cascaes e José Maria Rodrigues dos Anjos.

Já nessa época, Boa Vista do Ramos também era muito conhecida
por Boiúna e para muitos ainda é mais conhecida por este nome.
Assim, começaram a surgir agrupamentos de casas que foram
progredindo lentamente. Mais tarde, seus habitantes foram atingidos
pela tenebrosa doença que se abateu sobre a região: o paludismo,
que matou muita gente.

Em 1936, foi construída uma capelinha de barro, onde hoje é a
praça matriz da cidade. Esta foi a primeira da já então povoada vila,
onde era venerada uma estampa de Nossa Senhora de Aparecida. O
povo a chama de Aparecida da Luz e os pescadores, de “Senhora dos
Navegantes”.

Em 1938, a capelinha ganhou uma imagem de São Sebastião,
oferecida pelo Sr. Graciliano Farias. Foi, então, organizada a irmandade do Santo. Em 1940, uma nova capela foi construída, onde se destaca a maior devoção a São Sebastião.

Em 1966, com a queda do crescimento econômico da região, os
moradores sofreram um período de estagnação. Em 1967, o pastorio
de Boa Vista do Ramos foi confiado ao padre Henrique Pagani.

(...)

TEXTO COMPLETO EM PDF NA INTERNET.

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comentários feed

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alcanu
 

Lindo, um excelente exemplo !

alcanu · São Paulo, SP 13/4/2008 21:57
sua opinião: subir
Andre Pessego
 

Como estou saindo para o trampo remunerado, e tendo achado rico de informações, vou reler. Vou votar agora, para não acabar o tempo.
um abraço,
andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 14/4/2008 06:46
sua opinião: subir

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