...mais azul, mais colorido, só faltava respirar.”¹
Para suportar a existência, aumentou o número de pessoas com otite. Meu otorrinolaringologista disse que ultimamente tem atendido com freqüência pacientes com inflamação nos ouvidos. Tudo por causa dos fones dos Mp3 Players afundados nos ouvidos.
Desde pequeno, freqüento regularmente otorrinolaringologistas. Eu e minhas amídalas. Uns quatro anos atrás, amanheci mais uma vez com a garganta inflamada. No começo, é sempre auto-medicação em alta. Cataflan (antiinflamatório diclofenaco potássico), bala de gengibre, gargarejo com vinagre... Fiquei uns dois dias nisso e nada de a garganta melhorar. Pelo contrario, só piorava. Avancei para Amoxicilina (antibiótico b-lactâmico), Cataflan, bala de gengibre, gargarejo com vinagre... E nada de melhorar. Olhei fundo na garganta e vi uma placa enorme de pus em minha amídala direita. Fui ao otorrinolaringologista.
– Realmente, tá uma enorme placa de pus – disse ele, com sua lanterna modernosa.
Avancei então para Benzetacil (benzilpenicilina benzatina), Amoxicilina, Cataflan, bala de gengibre, gargarejo com vinagre... Nada. Eu já não agüentava mais. Eu peidava gengibre. Estava ficando dopado.
Algo estava estranho. Não era possível. Em uma semana, nem uma melhora.
A placa de pus lá, firme e forte, quando me ocorreu uma dúvida. Olhei bem no espelho e voltei ao otorrinolaringologista:
– Doutor, repare bem, veja se essa placa de pus, de repente, não é uma placa de pus, e sim uma afta.
– Vamos ver...
Ele olhou e quando fez “ssssssssssss” com cara de dor, concluí que eu estava certo.
Ele receitou Omcilon-A em Orabase, um acetonido de triancinolona em base emoliente para uso odontológico. O problema é que a pomada em questão vira uma espécie de cola quando entra em contato com a saliva e quase morri engasgado na primeira aplicação. Criei coragem e fui para o bom e velho Albicon, uma associação de substâncias anti-sépticas e alcalinizantes tópicas, com a finalidade de modificar a acidez do meio onde é colocada. No meu caso, a maldita afta.
Quando se coloca Albicon em uma afta no lábio, por exemplo, costuma-se ficar uns 3 minutos babando com a boca aberta na pia do banheiro, enquanto a afta faz “tsssss” e os olhos ficam vermelhos e lacrimosos. Depois de minutos de agonia e desespero com a afta cheia de Albicon na amídala, o alívio foi imediato. Gengibre nunca mais.
Com a otite é diferente. Quando nadava em piscina aquecida, tinha otite com freqüência. Uma vez, meu ouvido entupiu e fiquei ouvindo em mono durante uns dois dias.
Otorrinolaringologista, lanterna modernosa e o bom e velho diagnóstico:
– Otite... seu ouvido está cheio de pus.
Lembrei de uma poesia da minha infância:
“Querida, vamos comer ferida?
Não, amor, prefiro cocô.
Cocô não me seduz, prefiro um copo de pus...”.
Ele esquentou água, colocou dentro de uma seringa e mandou eu segurar um recipiente embaixo do meu ouvido. Ele iria espirrar com força a água morna da seringa em meu canal auditivo. A água iria entrar e sair, levando (e lavando) tudo.
Segundo o escritor espanhol J.J. Benítez, em seu livro Operação Cavalo de Tróia, volume 3, esse procedimento foi usado em Zebedeu, pai dos apóstolos João e Tiago, entre as reaparições de Jesus para os apóstolos, pelo militar americano Jasão, que, segundo diz o livro, em um trabalho ultra-secreto do governo americano, voltou no tempo para ver os acontecimentos de antes, durante e depois da crucificação de Jesus Cristo. O escritor divulga o livro como não-ficção, garantindo a sua veracidade. O militar era médico e diagnosticou a otite em Zebedeu, que, provavelmente, foi provocada por água e cera que ficaram alojadas em seus ouvidos, diferente das otites modernosas, provocadas pelos fones que ficam dentro dos ouvidos o dia inteiro, além do som alto colado, o que potencializa a inflamação.
O escritor inglês Oscar Wilde não teve a mesma sorte de receber um médico vindo do futuro e morreu por causa de uma simples otite, no início do século XX.
Depois do banho auditivo, saí do otorrinolaringologista ouvindo com clareza qualquer sussurro.
Até o policial aqui da rua está ouvindo música enquanto trabalha. Nem adianta gritar “socorro”.
Os motoristas de ônibus também estão usando. Não devem estar mais ouvindo o “vai fechar o cu da sua mãe, filho da puta”.
Pessoas correndo na orla, passeando no shopping, na fila do cinema, na praia, no carro, em todos os lugares, cada uma está em seu mundo, interagindo consigo mesma. Egotrip coletiva. Estamos nos tornando autistas.
Podiam fazer o programa Casa dos Autistas. Cada um em um canto, ninguém se fala...
Os otorrinolaringologistas e a Apple estão lucrando com os Mp3 Players, mas os camelôs se deram mal. Agora, a mulher que vende coco na orla, enquanto outros passam fazendo exercícios, grita “olha o coco, olha o coco”, mas ninguém ouve. Contudo, como a necessidade de comunicação avança a tecnologia, e o grito é (e sempre será) a forma de vender algo, seja no camelô ou numa propaganda da Insinuante, não tardará para termos algum tipo de Mp3 Interfarator Tabajara.
Aliás, tem uma propaganda que não grita, que, por sinal, é bem silenciosa e calma, que é a do Citroën C4 Pallas, comercial estrelado por Jack Bauer.
O locutor diz:
– Esse painel com ouro do Egito você conhece, e esse câmbio da Nasa também, assim como esse banco com couro de crocodilo do Nilo, mas esse preço você não conhece. Tudo isso por APENAS R$ 64.990...
PUTAQUEPARIU.
Apenas R$ 64.990? Acho que vou comprar um. Vou colocar no cartão.
Na verdade, o texto não é assim, não. O lance do ouro, do couro e da Nasa eu que inventei, mas o resto e principalmente o “por APENAS R$64.990” é verdade.
Fico pensando no cara que não teve educação, que ganha um salário mínimo, vendo esse anúncio no intervalo do Jornal Nacional. Publicidade gera violência. Depois ainda vêm essas associações de publicitários (ABMP’s, APMP’s, AAMP’s), tentando defender os lucros obtidos com as mortes no trânsito, dizer, também em uma propaganda, que propaganda informa, inclusive aquelas com gostosas dizendo “beba” por 29 segundos e com uma voz masculina dizendo “beba com moderação” no segundo final.
Informa é a PQP’s.
Messias disse que recentemente o melhor anúncio que viu foi no fundo de um ônibus. Uma funerária dizia: “Vá pro céu com tudo pago”.
Genial.
Ele disse que ficou atrás do ônibus com o celular tentando tirar uma foto pra provar para as pessoas que o anúncio existia, mas não conseguiu. Mas eu acredito.
O camelô, então, com seu novo Mp3 Interfarator Tabajara, poderá fazer seu anúncio invadindo o Mp3 Player do transeunte e, com o seu microfone, dizer no meio da virada da bateria:
– Você que está aí, ouvindo Led Zeppelin, venha ver o meu estoque de CDs e DVDs. Tenho o novo do Chiclete com Banana, ao vivo em Mossoró. Tenho também O Rappa, Asa de Águia e Bruno e Marrone. Um é três e dois é cinco. Venha...
Mp3 Player é a trilha sonora nossa de cada dia. Música rege a vida. Rege as relações entre as pessoas.
Uma amiga minha começou a namorar com um cara que a gente logo descobriu que gostava de Bruno e Marrone. Mas gostava de verdade. Inclusive ele foi a um show deles. Em Feira de Santana.
Ela, de gosto musical diferente do dele, ficava um pouco incomodada com isso, mas tentava relevar. Porém, a gente não ajudava.
No começo do namoro, num domingo, Faustão disse na chamada do seu programa que teria Bruno e Marrone. Ela recebeu mais dez ligações. E a gente nunca o chamava pelo nome. Ele era chamado de Bruno e Marrone.
– Quem é que vai? – perguntava alguém, sobre algum evento de casal.
– Vai a gente, Beth e Marcos, Rafaela e Victor, e Laura com Bruno e Marrone.
Com o tempo virou só Marrone. Mas foi por pouco tempo. O namoro durou poucos meses.
Fiz 30 anos no último dia 27 e ganhei de presente um Mp3 Player. Só que a prova d’água. Estou nadando ouvindo música. Meu professor tá pirado. Não ouço mais nada do que ele diz.
Mas natação é um excelente exercício da paciência e agüentar os treinos ficou moleza. O tempo com números finalmente perdeu o sentido. Agora não tenho mais de chegar na borda antes do ponteiro passar pelo 30, e sim antes do solo de guitarra. Se o treino for longo, tenho de terminar a série junto com o fim de Hurricane², música que dura 8 minutos e 32 segundos.
Soube que, em alguns lugares, não deixam fazer travessia com ele, pois é considerado estimulante. E realmente é, até porque dá pra nadar no andamento da música. Fiz uma lista de músicas com andamentos mais rápidos e fiz o teste. O disco “Green Power” do Weezer foi perfeito para a experiência. Meu professor passou a gostar do aparelho. Não tem como não nadar mais forte quando o refrão vem se aproximando. É instintivo.
Se for treino no mar, é capaz de eu me perder e parar em Morro de São Paulo.
Ano que vem vou fazer a travessia Mar Grande-Salvador dopado. Vou fazer com o Mp3 (Serotonina Moving Picture Experts Group 1 Layer-3) escondido.
Vou viver no mar agora. Só vou voltar pra dormir, escrever e vender livros.
E ir ao otorrinolaringologista.
________
(1) Debaixo d’água, de Arnaldo Antunes.
(2) Hurricane, de Bob Dylan.
hahaha...cômigo e irônico do começo ao fim!
Muito bom!
Gostei da idéia, acho que vou fazer algo parecido...
Fala Cury! Há um tempo já escrevi um texto que nem curto muito pro Overmundo. Este aqui. Mesmo não gostando dele, acho que vale a pena compartilhar, porque tem bastante a ver com algumas passagens da tua colaboração.
No mais, ri horrores quando vc deu o diagnóstico da tua afta pro médico. Sou especialista em Omcilon hahaha. O segredo é passar uma camada bem fina, senão vc engasga mesmo.
Nadar ouvindo música deve ser muito maneiro mesmo. Mas nem acho que Green Album (não Green Power, como vc escreveu) deva ser o melhor disco do Weezer pra nadar não... Acho esse disco chatinho.... :) Abração!
A bênção, Cury!
É muito prazeroso ler sua escrita, esse rapaz! É preciso talento para transformar o cotidiano em humor. Você consegue.
Força e luz! Abraços
Bem humorado, né!?
Parabéns, votado e aplausos de pé para você!
Muito bom. Principalmente a idéia do Mp3 Interfarator Tabajara. Tomára que eles não te ouçam. rs...
Larissa Scarpelli · Belo Horizonte, MG 6/6/2008 16:46rá... eu adoro fones de ouvido, ou como uma amiga me recomendou: fomes de ouvido.
Niltim Lopes · Salvador, BA 7/6/2008 11:55
Até o policial aqui da rua está ouvindo música enquanto trabalha. Nem adianta gritar “socorro”.
Cômico, apesar de trágico. Já não basta as pessoas viverem em suas redomas herméticamente fechadas, agora vivem em redomas herméticamente fechadas e acústicamente isoladas.
Viva à individualidade, que nos torna cada vez mais sós.
Belo texto.
Cury,
Adorei as doses mais que boas de humor.
Sofro dos ouvidos desde pequeno.
Aí dei de usar os malditos fones enterrados nos ouvidos e na última febre o esquerdo não suportou e estou mais ou menos surdo,rssssssssssssss
tudo entra com eco e se perde lá dentro, assim que tudo entrar nos eixos vou lá no otorrinolaringologista,rssssssss
parabésn, e eu nem tomei banho de mar.rssssssssss
Maldição do Ipod, que eu levo pra aonde for.rssssssssssssss
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