De deserto a Saara só tem o calor. No centro do Rio de Janeiro, próximo à Candelária, com parte voltada para a Avenida Presidente Vargas, os stands, as lojas e as barracas se distribuem pelas ruas cheias de pessoas afoitas pelo consumo barato de vários tipos de artefatos, desde os religiosos até os eróticos. Aquilo lá explode ao meio-dia.
O som das caixinhas da Rádio Saara penduradas junto com as bandeirinhas sobre as nossas cabeças competem com os gritos das promoções e com as músicas de variado repertório. O funk do stand de CDs piratas se mistura com o quero te servir, aleluia da loja gospel, que por sua vez, aumenta o som para ser ouvida até a barraca de hits dos anos 80. Quem quiser continuar ouvindo Madonna não dê mais dois passos à frente, a menos que queira escutar ado, a-ado, cada um no seu quadrado. E poucos respeitam as arestas.
Tá bonito, tá bonito, tá beleza. Todos querem chamar atenção, todos querem seu olhar, mas antes seu ouvido. As cores já perderam espaço para tanto barulho. Até porque elas gritam demais aos olhos, como oásis a alguém saciado.
Então, sem essa de definir Saara como feira popular do Rio de Janeiro. A Saara é um verdadeiro bloco de carnaval. Mesmo no frio dos outonos e invernos a feira tem cara de rio 40 graus. E quem vai para lá não vai só para ver a banda passar. Vai para curtir o pancadão de ofertas. Os trabalhadores comerciantes aproveitam para cair na gandaia e não fogem da raia. Tentam te convencer a levar o mata-mosquito por dez reais, enquanto ali na frente tem o moço legal que faz um descontinho, e você acaba levando por oito.
Enquanto isso, a mocinha de cabelos da hora com seu Ipod passa pelo sessentão boa-praça sentado com seu radinho à pilha sintonizado no AM. Dali a frente passa o rapaz de blusa estampada com a foto de um cantor de hip hop. Logo atrás vem a senhora que procura o novo CD do Padre Marcelo Rossi por um precinho camarada. E as crianças pedem à mãe o DVD do grupo mexicano RBD. E ainda tem os turistas que vão apreciar todo esse exotismo-de-estampa-colorida da feira com cara de festa, festa à popular brasileira.
Uma bela crônica de cotidiano. Um retrato estilizado de um dia na cidade maravilhosa.
Bruno Resende Ramos · Viçosa, MG 21/12/2008 10:50
Eu nunca tinha ouvido falar na Saara. Deve ser muito interessante andar por ela. Votado, por me trazer um conhecimento novo.
Ivette G M
Uma Joana do Rio. Só não entendi a tag "niterói". Hehe!
Isabela Fraga · Rio de Janeiro, RJ 22/12/2008 22:51
bonito texto, Monike! bem literário. :) escrevi sobre o Saara também, há um tempo, para a seção "guia". aqui: http://www.overmundo.com.br/guia/o-saara-carioca
Inês Nin · Rio de Janeiro, RJ 24/12/2008 12:34Seu texto tem uma ligação com o do Thiago Camelo, que fala sobre os alfaites de Copacabana Ivonir e Onildo. Enquanto o texto dele evoca um belo retrato do Rio do passado, o seu mostra um Rio que não é o da modernidade dos shoppings, mas tem a contemporaniedade da sempre viva tradição das ruas do comércio do Centro do Rio.
Gyothobat · Brasília, DF 24/12/2008 19:32Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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