Delivery da periferia

Tetê Oliveira
Marcelo e "sua padaria"
1
Tetê Oliveira · Nova Iguaçu, RJ
20/1/2008 · 203 · 15
 

Você já ouviu falar no “carro da pamonha”? Esse tipo de comércio informal ganhou projeção ao ser retratado numa publicidade veiculada na TV e no rádio há alguns anos. No entanto, em comunidades com poucos estabelecimentos comerciais e sem grande diversificação, o serviço – por assim dizer - de “delivery de periferia” vai muito além da pamonha. Para a comodidade dos seus moradores, muitos produtos batem a sua porta regularmente.

Em bairros de Nova Iguaçu, como Santa Eugênia e Morro Agudo, a oferta é imensa. Pão, jornal, botijão de gás, vassoura, desinfetante caseiro. Isso para falar só nos vendedores mais assíduos, que marcam presença diariamente. Se formos considerar os que aparecem de quando em vez, a lista cresce bastante: cuscuz, empadinhas, biscoitos, aipim, vasos de cerâmica...

Poucos utilizam automóveis como “lojas” – como o vendedor de pamonhas. No meu bairro, têm marcado ponto também o “carro das mantas (e cobertores, e redes, e panos de prato)” e até um que faz as vezes de peixaria (“Temos camarão, sardinha, cavalinha, corvina...”). O transporte mais popular é o triciclo, mas vale também caminhão, bicicleta simples e carrinho de mão!

Para atrair a clientela, cada profissional adota uma tática. Há quem apele para buzinas com sons diferenciados, alto-falantes ou o próprio gogó. O jornaleiro, por exemplo, tem bons pulmões. “Vai ler, O Dia, o Extra, O Globo!”, grita, enumerando os jornais à disposição dos leitores em sua banca improvisada num triciclo.

Já os vendedores de abacaxi, em um caminhão do tipo pau-de-arara, convidam através de uma gravação difundida por alto-falante: “Abacaxi de Marataízes. Esse aqui é docinho. Vem cá ver. É o senhor mesmo!”, apontando para qualquer incauto morador que esteja à frente deles. Se a fruta é mesmo capixaba, não dá pra saber, mas o cheirinho é quase irresistível.

Buzina plagiada

O vai-vem começa cedinho. Por volta das 6h da manhã, uma buzina de bicicleta soa. É o “padeiro” Marcelo Thiago dos Santos, que há mais de 10 anos vende pães, broas etc., em domicílio. Eu falei padeiro? Corrigindo: Marcelo nunca colocou a mão na massa propriamente dita. Ele revende pães por conta própria. Compra de uma padaria, em regime de consignação (o que não vender, devolve) e sai pelas ruas, garantindo o nem tão quentinho – mas muito bem-vindo! – pãozinho do café da manhã e também sonhos, pães doces, broas e bolos para o lanche da tarde de sua freguesia, acomodados em grandes cestos de vime presos nas partes da frente e detrás da bicicleta. De segunda a sábado, e domingos alternados, às três da madrugada, ele bate à porta do seu fornecedor.

“Eu sou o despertador do padeiro!”, ri. Tudo para garantir o sustento da família e não deixar na mão uma freguesia fiel, como a dona-de-casa e professora Silvia Helena Oliveira de Souza Lima. “O Marcelo é ótimo. Às vezes, ele nos encontra no meio do caminho e faz questão de entregar o pão lá em casa. Se ele não tem troco, diz para a gente pagar depois”, conta Silvia, enquanto escolhe um pão doce grande para o lanche. Outra vantagem de Marcelo: conhece bem os gostos dos fregueses. “Ela gosta dos pães mais branquinhos”, revela sorrindo. Tem outra vantagem: dorminhocos podem solicitar que ele deixe a sacola com os pãezinhos pendurada no portão, pelo lado de dentro, claro! Tímido, Marcelo tentou fugir por uns dias da “entrevista” comigo, embora me conheça há anos. Para piorar, depois que finalmente consegui convencê-lo a falar, perdi o bloquinho com as anotações...

Bom, mas a popularidade de Marcelo e de seu serviço de primeira necessidade – afinal, poucos moradores dispensam um pãozinho no café da manhã - levaram outro tradicional ambulante da região a “plagiar” o som de sua buzina. E, assim, atrair possíveis clientes através de uma pegadinha: as pessoas imaginam que é o padeiro, saem à rua e dão de cara com o... vassoureiro! Maurício de Melo entrega sua estratégia com um sorriso e diz que é amigo de Marcelo, que sabe sobre a “buzina clonada”. Em seu triciclo adaptado especialmente para expor seus produtos, oferece, além de vassouras, cloro, detergente, desinfetante, buchas (esponjas), cera líquida, sabão, rodos – tudo mais qpara a limpeza de sua casa!

No triciclo, que é uma atração à parte, duas mensagens chamam a atenção. Uma é retirada da Bíblia: “Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que não se vêem” (Hebreus, 11,1). A outra é marketing puro: “Me leve para sua casa.”
E as pessoas têm atendido ao apelo, afinal há 10 anos Maurício sustenta a família – esposa e quatro filhos – com a renda de suas andanças por diferentes bairros iguaçuanos.

Andanças mesmo, porque, seis dias por semana, ele empurra seu triciclo pelas ruas, só pedalando no final do expediente, na volta para casa. Haja disposição física! “Às segundas, quartas e sextas ando por um bairro; às terças, quintas e sábados, por outro”, explica o ambulante, que antes de ganhar as ruas trabalhava como serralheiro, de carteira assinada e estudou até o primeiro ano do ensino médio. Fregueses “mais confiáveis” contam com uma facilidade a mais para a compra: pagamento só no final ou num dia do mês a sua escolha. Tudo devidamente anotado no seu “caderninho de fiado”.

Com suas buzinas, seus slogans gritados ou gravados, essa galera faz parte da história dos subúrbios do Rio e Grande Rio, e, provavelmente, de muitas outras cidades do país. O “delivery de periferia” já virou uma tradição na economia popular. Ah, mais um detalhe: por aqui, o carro da pamonha diversificou o seu cardápio e oferece também bolos de fubá, de aipim doce e de chocolate, da tapioca e do curau. Ops, a buzina me chama. É Marcelo! Hora de comprar um sonho...

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

Querida Tetê:
Gostei muito da sua reportagem suburbana. Tenho, no entanto, uma sugestão de acréscimo ao titulo: " Delivery da periferia: hora de comprar um sonho!"
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 17/1/2008 02:38
sua opinião: subir
Tetê Oliveira
 

Caro Joca,
muito obrigada pela leitura, comentário e sugestão.
Abraço,
Tetê.

Tetê Oliveira · Nova Iguaçu, RJ 17/1/2008 21:46
sua opinião: subir
João Cumarú
 

Cara Tetê,
Parabéns pelo seu delicioso texto. Excepcional sua narrativa, uma questão que é do nosso dia-a-dia e que nos ajuda muito. Você tratou desse assunto de forma muito descontraida e "contagiante". Parabéns!

João Cumarú · Recife, PE 18/1/2008 14:20
sua opinião: subir
ARY CARLOS
 

Pois é, Tetê, nossa gente vai se virando. Honestamente, cada um, do seu jeito, marca presença, mesmo estigmatizados por um mundinho besta, feio e explorador. Valeu!!!

ARY CARLOS · Palmas, TO 18/1/2008 22:02
sua opinião: subir
Tetê Oliveira
 

Muito obrigada pela leitura, João e Ary.
Essa é uma realidade tão comum nos subúrbios, mas muitas vezes as pessoas desconhecem a existência desse contingente de brasileiros que "rala" muito - e costuma ser ignorado também nos números oficiais da economia do país. É um jeitinho brasileiro que já faz parte da nossa cultura.
Abraços.

Tetê Oliveira · Nova Iguaçu, RJ 19/1/2008 23:49
sua opinião: subir
Cintia Thome
 

Tete interessante texto, mas na cidade de Campinas, SP ainda se vê em todos os bairros estes vendedores, de todas as classes,inclusive vendendo verduras e frutas fresquinhas, na maioria bem humorados, mas sofrem muito empurrando carrinhos. Vida dura.Parabens por retratar mais este ofício à margem que diretamente nos ajuda no dia-a-dia.

Cintia Thome · São Paulo, SP 20/1/2008 06:49
sua opinião: subir
Ize
 

Querida Tetê, adorei sua crônica do cotidiano de Nova Iguaçu. Ela é mais deliciosa ainda do que as pamonhas e os doces do Marcelo... Me lembrou de meu pai contando sobre os pregões de sua infância, do "sorvete-iaiá", do "amendoim-torradim" e do assobio lindo do amolador de facas que, até há bem pouco tempo, eu ainda escutava por aqui. Aliás, como a Cintia disse sobre Campinas, aqui em Ipanema também é comum cruzarmos com os vendedores de pamonha, com o caminhão de abacaxis e com o carro de camarões. A diferença sabe qual é? A pressa da minha vida nunca me deixou descer do aptº onde moro para ir lá pertinho deles saber seus nomes e trocar meio dedo de prosa com eles.
Seu escrito me deu uma vontade danada de fazer isso.
Vc é demais Tetê.
Beijos

Ize · Rio de Janeiro, RJ 20/1/2008 15:17
sua opinião: subir
Tetê Oliveira
 

Obrigada, Cintia e Ize.
Ize, interessante descobrir que esse comércio também existe em meio aos prédios de Ipanema. E que o texto a estimulou a trocar um dedo de prosa com essa galera daí. :-)
Beijos.

Tetê Oliveira · Nova Iguaçu, RJ 20/1/2008 22:47
sua opinião: subir
FILIPE MAMEDE
 

Tetê, genial tua colaboração. Um recorte social na medida. Como disse a Ize, uma verdadeira crônica do nosso ir e vir. Aqui no RN, uma figura muito interessante é o vendedor de cavaco chinês. Já ouviu falar?
Um abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 21/1/2008 12:56
sua opinião: subir
Tetê Oliveira
 

Oi, Filipe, obrigada pelo comentário super gentil, como de costume.
Agora, cavaco chinês nunca ouvi falar. O que é isso? :-)
Abraço.

Tetê Oliveira · Nova Iguaçu, RJ 22/1/2008 22:26
sua opinião: subir
Bethânia Zanatta
 

muito bom!

Bethânia Zanatta · Santa Maria, RS 14/2/2008 17:55
sua opinião: subir
Bruno Resende Ramos
 

Um ótimo estudo de caso. A luta pela sobrevivência requer transformações de modelos. Num país de solitárias e estanques ações no plano social, não se poderia esperar nada mais do que a adaptação, o improviso e a criatividade em ascenção. "O brasileiro é realmente aquele que não desiste nunca", espero.

Bruno Resende Ramos · Viçosa, MG 26/3/2008 17:34
sua opinião: subir
graça grauna
 

Parabens Tetê, pela sensibilidade. Parabens também ao Mercelo que sabe driblar a vida. Bjos.

graça grauna · Recife, PE 19/5/2008 07:27
sua opinião: subir
Tetê Oliveira
 

Valeu, Bethânia, Bruno e Graça!
Abs.

Tetê Oliveira · Nova Iguaçu, RJ 19/5/2008 11:16
sua opinião: subir
Sergiomirandinha
 

Opa, não sei se você soube, houve uma manifestação que aconteceu agora dia 1 de Janeiro em São Paulo na posse do prefeito. Saiu no 'Va de Bike': http://goo.gl/ebwn3 E no Diario de S. Paulo: http://goo.gl/hZVja Eis aqui fotos da Manifestação: http://goo.gl/VUTQN - Acho que a Bicicletada deve se movimentar em eventos estratégicos assim, para chamar bem atenção, e pedir pontos concretos, como é o caso do plano de 2008 engavetado. Para saber mais sobre o plano de 2008, acesse este artigo do "Va de Bike" http://goo.gl/OCXlJ .

Sergiomirandinha · São Paulo, SP 6/1/2013 11:32
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

imagens clique para ampliar

Marcelo e a freguesa Silvia zoom
Marcelo e a freguesa Silvia
De Marataízes para New Iguaçu! zoom
De Marataízes para New Iguaçu!
Ambulantes e seus indefectíveis guarda-sóis. zoom
Ambulantes e seus indefectíveis guarda-sóis.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados