Demônios mascarados ou tradicionais guerreiros?

Tharson Lopes
1
Glês Nascimento · Palmas, TO
21/3/2006 · 253 · 8
 

Lizarda, no Tocantins, a 327 quilômetros de Palmas, é uma dessas comunidades isoladas do restante do país. Localizada num ponto do mapa do Brasil de interseção dos Estados do Tocantins, Piauí e Maranhão, o município é rodeado por um sertão onde só se chega depois de pelo menos 200 quilômetros de estrada de chão, por qualquer caminho que se escolha.

O isolamento gerou décadas de atraso econômico, mas também preservou tradições e costumes. Foi por causa dele que a Festa dos Caretas, uma das mais tradicionais na região e única do país, se livrou da extinção, como ocorreu em outros estados brasileiros.

O primeiro registro histórico da brincadeira está documentado no vídeo Os caretas de Lizarda, de Hermes Macedo e Marcelo Silva. Com 24 minutos de duração, o vídeo mostra como o profano e o religioso se misturam em uma folia mística e assustadora.

Para Marcelo Silva a produção do documentário é um meio de fazer com que esta tradição não seja extinta. E isso já aconteceu. O sucesso da película atravessou o oceano Atlântico e foi parar no Ano do Brasil na França, em Paris, onde foi exibido e muito aplaudido pelos europeus. Por aqui, foi premiado com a estatueta de melhor filme, no Festival Cine ao Ar Livre, realizado em Porto Nacional (TO) no final do ano passado.

Além disso, o diretor ressalta que o documentário ajudará a diminuir o preconceito do poder público e da Igreja em relação à festa, que é pagã. A Igreja não a reconhece. “Isso de queima de Judas, e a careta não é tão comum aqui”, afirmou o padre Hector Veloso, o único no município, em depoimento no vídeo.

Mas a brincadeira dos caretas é um ritual antigo. Os moradores da pequena comunidade de apenas 3.550 habitantes vieram do Nordeste há mais de 100 anos seguindo os passos de dona Lizarda, a fundadora da cidade que influenciou a formação de uma sociedade matriarcal. De lá eles trouxeram lendas e crendices, que encontraram no Tocantins campo fértil para prosperar, por causa da ausência da Igreja.

A folia acontece durante a Semana Santa. Na sexta-feira, os moradores se dedicam às orações cristãs. Mas quando a igreja é fechada, no final do dia, entra em cena a festa dos caretas. Eles são como demônios mascarados que descem as serras para assustar a população e proteger as chamadas “quintas” – propriedades que são montadas pelos próprios moradores, e onde se guardam as produções de cana-de-açúcar, coco e banana. De acordo com a pesquisadora Leonídia Batista Coelho, o costume vem de Portugal. “Quando eles falaram que os caretas estavam ali para defender a quinta, isso me remeteu aos colonizadores”, disse a pesquisadora no documentário.

A brincadeira é realizada à noite, na fazenda Morro Alto, única que resistiu à pressão da Igreja. É lá, onde existem apenas seis casas, que a festa acontece exatamente como há 70 anos. Sem energia elétrica e água encanada, regalias do mundo moderno, a folia é realizada no escuro mesmo, como sempre foi.

A entrada dos caretas na fazenda obedece ao chamado do ronca-tripa - uma espécie de cuíca gigante, afinada no fogo, que marca o ritmo da brincadeira – e das cantorias das mulheres de Lizarda. Com chicotes nas mãos (pinholas) e usando máscaras feitas de buriti – planta típica do cerrado -, folhas e até pêlo de animais, os caretas anônimos invadem a roda e ameaçam aqueles que ousem invadir a quinta.

Como numa luta entre o bem e o mal, eles não respeitam parentes, nem amigos. Jovens, mulheres, crianças e idosos: todos se sentem instigados a invadir a quinta e levar algum produto, mas qualquer um que se atreva é rapidamente castigado a chicotadas.

Além dos mascarados, mais três personagens fazem parte da folia: a Catita, homem que se fantasia de mulher e se torna, na brincadeira, espécie de amante dos caretas - é ela quem agarra os moradores para que os mascarados os chicoteiem; a égua – uma mandíbula de boi articulada por um arame - é o animal do grupo; e o fantasma – um dos caretas se veste de branco para assustar as crianças.

E são elas, as crianças, as principais responsáveis pela perpetuação da tradição. Imitando os adultos, os pequeninos ensaiam o rito, sempre antes do folguedo, que se repete há cerca de 100 anos, sem que se explique ao certo o motivo de sua existência.

Registro da festa
Documentário: Os caretas de Lizarda, 2005
Direção: Hermes Macedo e Marcelo Silva
Duração: 24 minutos
Premiações: Cine ao ar livre - Porto Nacional (TO), em novembro; e selecionado para o Ano do Brasil na França, em agosto de 2005
Contato: oscaretas@uol.com.br

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Alexandre Tundela
 

O município de Jardim, no Ceará também realiza a Festa dos Caretas na Semana Santa. Assim como em Lizarda a folia é bem tradicional na região, 579 km longe de Fortaleza.

Alexandre Tundela · Recife, PE 30/4/2006 18:14
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Glês Nascimento
 

Bacana Tundela....Não sabia dessa, será que ninguém lá pode fazer uma matéria também.

Abraços...

Glês Nascimento · Palmas, TO 13/5/2006 11:52
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Bento
 

Cara a parada lá é loca!!!

Bento · Palmas, TO 29/8/2006 16:14
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Caçapa
 

Oi Glês. Parabéns pelo texto.
Na cidade de Triunfo, sertão de Pernambuco, existe a tradição dos Caretas que desfilam pelas ruas durante o carnaval, com chicote na mão e máscara de papel machê. Dá uma olhada nos sites:
http://www.pousadapeter.com.br/indexfotos_carnaval_triunfo.htm
http://www.pe-az.com.br/turismo/triunfo.htm

Caçapa · Recife, PE 23/11/2006 23:29
sua opinião: subir
Glês Nascimento
 

Caçapa, quem sabe não rende uma outra matéria por ai? Não sabia dessa tradição..viu como o Overmundo une as pessoas e as culturas? Obrigada pelos sites, já estou acessando.

Glês Nascimento · Palmas, TO 23/11/2006 23:32
sua opinião: subir
Glês Nascimento
 

Vi as fotos e li sobre os caretas de Pernambuco, mas pude perceber que a tradição do Tocantins está mesmo mais genuína. No Nordeste virou folclore, no sentido de exibição do que era, no Tocantins ainda é: nas fazendas, da mesma maneira rústica.

Glês Nascimento · Palmas, TO 23/11/2006 23:35
sua opinião: subir
Caçapa
 

Oi Glês.
Não sei se virou folclore não... talvez os Caretas de Triunfo tenham se transformado muito (infelizmente ainda não conheço essa história a fundo), mas a própria transformação impede que a brincadeira vire folclore. Me parece que os Caretas daqui tem algo da cultura européia (nas vestimentas), e os daí (pelo menos na foto) têm um ligação muito forte com a cultura indígena local. Só tenho certeza de uma coisa: é uma brincadeira muito espontânea e popular (no melhor sentido da palavra).

Caçapa · Recife, PE 25/11/2006 12:08
sua opinião: subir
TRIILLOOUUKOO
 

Oi Glês , parabéns pelo texto!!
No Angical,(com +ou - uns 5000 habitantes ) povoado de irecê, cidade que fica a uns 450 km de Salvador também existe a tradição dos Caretas, e é realizada no sábado de aleluia. Ela é bem parecida com a que você citou ai, só que essa acontece com a participação da população em geral, uns no meio da brincadeira seguindo a tradição, e outros só observando mesmo, e o percurso dela acorre praticamente em todo o povoado, passando de rua em rua.
vlw,

TRIILLOOUUKOO · Irecê, BA 8/5/2011 11:05
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados