Deodato excêntrico e alto astral

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Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ
9/4/2007 · 221 · 14
 

O músico trocou o Brasil por Nova York há exatos 40 anos. Já naquela época, era conhecido por cravar o nome como arranjador no disco de muita gente boa da música brasileira. No exterior não foi diferente. Seu currículo foi engordando com participação na carreira de gente como Tom Jobim, Elis Regina, Milton Nascimento. Frank Sinatra, Aretha Franklin, Bjork. E muito mais. A constelação de estrelas na sua órbita não pára de crescer. E os números? Participação em mais de 500 discos, mais de 25 milhões de CDs vendidos, diversas trilhas sonoras para Hollywood. Mas, vai entender, uma das coisas mais difíceis do mundo era ver o músico talentoso por aqui. Pelo menos, fazendo show.

Eumir Deodato não tocava no Brasil há mais de década. No Rio de Janeiro onde nasceu (“no Catete”, faz questão de frisar), provavelmente desde que resolveu transportar seu piano junto com mala e cuia para Nova York. (Inevitável fazer um paralelo com outro brasileiro “norte-americano”, o Sérgio Mendes, que também é figurinha rara por aqui e tocou no réveillon de Copacabana junto com o Black Eyed Peas – que, para boa parte do público, era a única coisa que importava). A ausência de Deodato nos palcos cariocas virou coisa do passado nesta semana. Terça e quarta últimas, lá estava ele na Sala Cecília Meireles arrancando solos animados de seu teclado. E mais: gravando CD e DVD ao vivo! Ufa! Foi por pouco. Até outro dia, o que ressoava era sua lamentação por estar no Brasil e não conseguir se apresentar na sua cidade natal. Na capa do Segundo Caderno d'O Globo na semana passada, fez um chororô legítimo. Em seu site, o carregado cronograma de apresentações – que incluiu França, Alemanha, Noruega e Turquia – acabava com os dias 5, 6 e 7 de abril dedicados ao Mistura Fina. Mas Deodato (ou melhor, o Rio) deve ser pé-frio, pois a única casa tradicionalmente dedicada ao jazz na cidade fechou as portas recentemente. Então, ao lado da programação aparece – até hoje – um frio “Cancelado”.

Mas o choro fez efeito (graças a Deus!). Quando tudo parecia perdido, entrou em cena Luiz Paulo Conde, ex-prefeito agora é secretário de cultura do governador Sergio Cabral. Em sua primeira aparição chamativa desde que assumiu a pasta, Conde bancou os dois dias de concerto e cedeu a Sala, que é do Estado.

Mas parece que tudo foi resolvido no fim de semana. Por mais que fosse uma atração esperadíssima, não havia assessoria de imprensa que pudesse fazer milagre em poucos dias. Resultado: corria-se o risco de se fazer um show às moscas (ainda mais com ingressos a R$80). Mesmo com muita gente querendo vê-lo. Coisas de Rio de Janeiro? Pode ser... Na terça ouvi falar que estava mesmo meio vazio. Na quarta, um esquema de distribuição de ingressos (os sites de música Sobremusica e URBe, por exemplo, fizeram promoção relâmpago dando ingressos) ajudou a garantir o sucesso da noite: casa cheia, animada, misturando cabeças brancas com muitos jovens curiosos.

E o show?

Esse preâmbulo todo foi só para fazer entender o contexto: nada é fácil. Para ficar bem claro que estávamos no Brasil, houve um atraso de meia hora (provavelmente porque às 20h30 parte da platéia nem tinha chegado, ou estava fazendo social no saguão). De calça e sapato branco e blusa azul com detalhes brancos, ele entrou no palco fazendo caras e bocas. Brincou com Marcelo Mariano (baixista sensacional, filho de César Camargo e, portanto, meio-irmão de Maria Rita) e Renato Massa (baterista, também feríssimo) e foi logo pro teclado. O show começou animado e bem poderia ter virado um bailão se não fossem as sisudas cadeiras do teatro. “Rhapsody in blue”, do Gershwin, por exemplo, ganhou versão ultra-suingada. As composições próprias também fizeram as cabeças acompanharem o ritmo. Deodato toca, rege, bota e tira os óculos, ajeita as mangas da camisa como num tique, bate palmas durante os solos dos colegas. E fala. Como fala.

Não sei se é sempre assim. Deve até ser. Mas ontem ele estava mesmo contente e querendo bater papo.
Selecionei algumas frases de efeito:

“Não abandonei o Brasil, estou sempre por aqui”.
“Gosto mais de vocês do que vocês de mim”.
“Ontem pediram Garota de Ipanema, eu falei que ia tocar Garoto do Leblon”
“É um prazer estar na minha terra e ver que o público está mais atualizado. Em 60 as pessoas só sabiam coisas de 60. Agora sabem coisas de 2007. Incrível como o calendário passa!” (!!)
“Tô pensando na morte da bezerra. Tadinha, tão pequenininha...” (!!!!)

Assim deslocadas da cena parece coisa de gênio excêntrico. E ele parece ser mesmo. A platéia (eu incluída) se divertiu. A cada risada ou salva de palmas, ele respondia: “Como são gentis!” Não foi gentileza gratuita, foi retribuição. Porque essas frases, nonsenses ou não, eram intercaladas com a volta ao teclado e à exibição de seu lado genial. Apesar de ele insistir que não é instrumentista e sim arranjador. Os exageros das caras e bocas se transformam em sutileza com os dedos nas teclas.

O pedaço do show dedicado à bossa nova foi de fazer gosto. De Tom Jobim teve as clássicas “Wave”, “Dindi” (com Aloysio de Oliveira), “Samba de uma nota só” (com Newton Mendonça). Teve também “Berimbau”, de Vinicius e Baden. E várias outras. As histórias que vinham a reboque também eram boas. Antes de tocar “Sabiá” em homenagem aos dois autores – Tom e Chico Buarque -, contou que trabalhou 15 anos seguidos com Tom e fez o arranjo para a apresentação vencedora no festival da TV Globo de 1968. Depois, arranjou a canção para Sinatra. Ou seja, quando contou que o belo arranjo que ouviríamos a seguir estava “fresquinho, só para vocês”, o povo teve a dimensão de que estava longe de ser pouca coisa.

Eu, que nem sempre tenho disposição para ouvir solos intermináveis, curti muito os momentos de destaque de cada músico. Solos com criatividade, muitas vezes com começo, meio e fim. Que ganhavam muito com a acústica favorável (dizem que é a melhor em espaço fechado do Rio) da sala. Minha única ressalva – e aí é uma coisa muito pessoal mesmo – é o teclado. Sobretudo quando se usa efeitos. Não consigo ouvir teclado com efeito (mesmo tocado pelo Deodato!) sem me remeter a música ao vivo de churrascaria. Deve ser bobeira da minha parte, mas acho que ia curtir mais se o show tivesse sido no piano.

Se bem que, se não houvesse os efeitos de teclado, pelo menos uma música sairia bastante prejudicada. Sua consagrada versão para “Also sprach Zarathustra” (Assim falou Zaratustra), de Richard Strauss, que fez parte da trilha sonora do filme “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, ficou ainda mais suingada na formação do trio. E assumo que ali os efeitos eram mais do que justificáveis. Seria um encerramento apoteótico. Mas vieram os bis. Assisti a pelo menos três repetecos. A esta altura, já tinha gente dançando lá atrás. Alto astral. Um bom fim para uma festa que demorou para sair, mas foi bem celebrada. Agora é torcer para que a espera para a próxima vinda não seja novamente de décadas.

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Felipe Obrer
 

Helena, não sei se vai dar tempo (restam 3 horas de edição)... mas sugiro: põe alguma fotografia, se tiver alguma "liberada".
Abraço,

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 7/4/2007 12:53
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Helena Aragão
 

Pois é, Felipe. Juro que tentei falar com as assessorias envolvidas com o show para ver se descolava alguma coisa, mas era Quinta-Feira "Santa" e pelo visto ninguém foi trabalhar... Abraço!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 9/4/2007 11:30
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Felipe Obrer
 

Brasil, Brasil (ainda bem por um lado...). As palavras já valem.
Um abraço,

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 9/4/2007 12:47
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Ju Polimeno
 

Fui no show em São Paulo, com a Orquestra Jazz Sinfônica e tudo correu maravilhosamente. A presença da orquestra fez com que os arranjos de Deodato pudessem literalmente ser transpostos para a "realidade do Brasil 40 anos pós-Eumir". E teve o arranjo de "Garota de Ipanema" e "Also sprach Zarathustra" e a postura "gringa-ginga" do Sr. Deodato.

Ju Polimeno · São Paulo, SP 9/4/2007 15:42
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Helena Aragão
 

Oi Ju. Legal saber como foi o show de SP com a orquestra. Li que ele ficou um pouco irritado com o pouco tempo de ensaio, que os ensaios foram tensos. Mas ótimo saber que a platéia pelo visto curtiu. Adorei sua definição "postura gringa-ginga", falou e disse, hehe.

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 9/4/2007 15:46
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Rodrigo Teixeira
 

belo registro Helena! o Tom q falava q fazer sucesso no Brasil é pecado e ganhar em dóllar entaum é heresia né? é engraçado como vários instrumentistas brasileiros do mais alto gabarito acabam sendo exilados no exterior. Deodato, Mendes, Paulinho Costa, Vinícius Cantuária... isso é histórico... foi assim com Dom Um Romão... foi assim com Laurindo de Almeida, um violonista q é muito querido no EUA, foi pra lá na época da Carmem Miranda, fez muitas trilhas de cinema, inclusive aquele bandolinnnn de O Poderoso Chefão, e quando ele morreu naum saiu nem uma nota nos jornais brasileiros. Flora Plurim, Airton Moreira... são tantos... q bom q o Deodato conseguiu fazer este show.

Mas o q marcou mesmo neste texto é a questão do Mistura Fina. Fechou o nosso Blue Note brasileiro? muito triste!
abs rodtex

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 10/4/2007 17:51
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Maria Cecilia S Martins
 

Ouvi Eumir Deodato na 3a. feira na Sala Cecilia Meireles com a platéia com muitos lugares vazios ( pena... ) .Ouvi agora a pouco João Donato no Modern Sound com a casa cheia ( vivas a este espaço!!!... ) e fico muito contente em ver músicos com histórias semelhantes ( consagrados fora do país ) entrando em contato com a platéia e ainda buscando uma cumplicidade e aprovação como representantes de cultura brasileira.

Maria Cecilia S Martins · Rio de Janeiro, RJ 11/4/2007 00:20
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Helena Aragão
 

É Rodrigo, volta e meia se fala sobre os artistas brasileiros que foram viver fora e por lá ficaram. O problema pelo menos no Rio é que há poucos palcos com tamanho intermediário (ou são casas de show enormes ou palcos pequenos). O Mistura Fina até era um palco pequeno, mas sua tradição o tornava grande, fundamental. Uma pena mesmo este fim, pelo menos naquele espaço.
Legal seu relato, Maria Cecilia. Para mim, por exemplo, foi muito legal saber que o Deodato se importava, que gostaria de tocar aqui e ficava frustrado por não conseguir. Eles têm uma distância geográfica, mas o sangue local ainda corre nas veias. Deu pra ver, mesmo de longe, que os olhos deles brilharam com a apresentação.

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 11/4/2007 15:32
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Roberto Maxwell
 

Pois eh, Helena, acho que, mesmo que indiretamente, seu comentario sobre o livro que eu resenhei vai no mesmo caminho. As coisas circulam mal no Brasil e os artistas acabam indo embora. E isso se repete na area academica tb.

Roberto Maxwell · Japão , WW 11/4/2007 22:57
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capileh charbel
 

eumir , orgulho nacional, assim falou deodato, meu heroi , foi viu e venceu. louros ,louros para eumir.bjork que o diga.
bela matéria Helena.

capileh charbel · São Paulo, SP 15/4/2007 23:16
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Tacilda Aquino
 

Parei a leitura no meio para revirar minha coleção de discos e achar Prelude. Tenho certeza que tenho. Quero achar e ouvir. De preferência lendo seu texto.

Tacilda Aquino · Goiânia, GO 16/4/2007 12:23
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Helena Aragão
 

Capileh e Tacilda, valeu pelos comentários! Isso, Tacilda, com uma trilha sonora destas você só pode melhorar a leitura... :) Abraços

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 16/4/2007 12:57
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Ivette G.M.
 

Sergio, gostei e votei, pelo fato de que conhecia o Deodato mais por ouvir falar. Com seu texto, sei mais sobre um musico nosso.
Ivette G M

Ivette G.M. · Cotia, SP 16/11/2008 17:04
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Helena Aragão
 

Ei, o texto não é do Sérgio! :))

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 17/11/2008 12:13
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