Depois do pé na jaca, vem a bonança

Site Teledramaturgia
Pé na jaca: apesar do nome, uma das novelas mais lúcidas de Carlos Lombardi.
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Vinícius Faustini · Rio de Janeiro, RJ
19/6/2007 · 187 · 6
 

Nesta sexta-feira, Carlos Lombardi deu o ponto final à sua novela das 19h. No ar desde 20 de novembro do ano passado, Pé na jaca teve um último capítulo condizente com o que foi apresentado em toda história: situações mirabolantes, personagens agindo ao sabor da piada e até mesmo doses fortes de drama (comentadas anteriormente no texto "Pé no drama" http://www.overmundo.com.br/overblog/pe-no-drama).

Vindo da difícil experiência na qual trabalhou como "bombeiro" para resgatar a audiência de Bang bang, Lombardi parecia ter enfiado não só um, como vários pés na jaca - os primeiros capítulos se dividiram entre Paris, São Paulo e a pacata cidade de Deus me Livre (esta, a cidade onde boa parte da novela aconteceu). Inicialmente, o autor usou um recurso já experimentado em Kubanacan e na própria Bang bang - as sucessivas participações especiais, que transformavam cada trama num sitcom. Desta vez, ela foi usada com moderação, fato que ajudou a não confundir muito o espectador.

Da quina de protagonistas, o dramaturgo designou um "quarteto fantástico" (ou é melhor dizer uma reedição do grupo Os Trapalhões?) e uma vilã cruel e com sede de poder. Ironicamente, a vilania ficava a cargo de uma ex-noviça (Elizabeth, papel de Deborah Secco). Os outros quatro traziam características bem delineadas - o empresário falido e hipocondríaco (Artur, de Murilo Benício), a batalhadora que tem de conviver com o marido violento (Guinevere, de Juliana Paes), o alcóolatra regenerado, bonachão e mulherengo (Lance, de Marcos Pasquim) e a modelo mimada e egocêntrica (Maria Bo, de Fernanda Lima).

Aliás, as características deles foram a única parte bem definida na trama. Afinal, em novela de Carlos Lombardi, tudo é possível, todas as histórias podem alterar num piscar de olhos. E até mesmo o título de "grande vilão" de Pé na jaca foi alterado durante a história. O prepotente Último Botelho Bulhões (participação de Fúlvio Stefanini) com seus desmandos na cidade foi o primeiro. Depois da morte do personagem, Elizabeth e a sede por poder e dinheiro tomaram conta da trama. Quando ela foi internada num hospício, se descobriu que a verdadeira vilã era a feiticeira Morgana (papel de Betty Lago).

Tema recorrente nas atuais novelas da TV Globo, os dons sobrenaturais estiveram presentes em Pé na jaca. Em troca de sua fortuna, Último entregou seu filho ao mago Merlin (participação de Humberto Martins na reta final), que o iria buscar quando o herdeiro tivesse a idade de 33 anos. E Lance descobria ter o dom de transferir para si a dor de outras pessoas. Deste entrecho, Lombardi selou dois destinos da trama: Lance curava o filho Marquinho (vivido pelo garoto Miguel Rômulo), que havia sido eletrocutado ao mergulhar numa piscina, e depois era curado de seu tumor maligno, através da mão de Cigano (participação especial do humorista Chico Anysio).

Ainda que com algumas nuances de comédia, a emoção apareceu quando quatro personagens - Maria Bo, Vanessa (atuação de destaque da atriz Flávia Alessandra), Celina (vivida por Daniele Valente) e Dorinha (papel de Carla Marins) - começaram a entrar em trabalho de parto em pleno dia de chuva, e as crianças nasceram em suas casas, de maneira precária mas eficaz. Uma boa saída para comover o espectador e para a novela escapar de cenas de hospital - que não ficariam bem no encerramento de uma "novela cômica".

Em recompensa à ótima atuação do ator Ricardo Tozzi, o "primo" Cândido terminou a história descobrindo ser o herdeiro da fortuna dos Botelho Bulhões - e, num tom sarcástico, Carlos Lombardi fez com que o ranzinza se tornasse um sujeito deslumbrado com o dinheiro que recebeu e passasse a mandar em todos. Surpreendente também o final de Elizabeth - em vez de ser punida por suas maldades, a ex-freira decidiu recomeçar a vida "do zero". Mas, ao contrário dos outros quatro, o final afetivo dela foi ambígüo - ela dizia querer voltar para o convento, mas não conseguia resistir à tentação de Deodato (feito por Gero Pestalozzi). Quanto aos demais casais, cada um teve seu final feliz - Artur e Guinevere, Lance e Maria Bo.

Embora se chame Pé na jaca, esta novela parece ter sido a mais lúcida assinada por Carlos Lombardi nos últimos anos. Além da já conhecida habilidade em criar tramas onde o riso predomina e em saber o que esperar de cada ator que escala, ele mostrou que sua escrita amadureceu, e não se restringiu à coletânea de piadas de gosto duvidoso exibidas em doses diárias de 45 minutos.

Ao fim desta jornada das 19h, o público pode ter a certeza de que o pé esteve numa jaca bem madura. E ao sabor da piada e dos novos elementos que Carlos Lombardi adicionou ao seu estilo de contar seus folhetins.

***
Na próxima segunda, comentarei a estréia da nova novela das 19h - Os sete pecados.



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jjLeandro
 

Uma coisa é interessante nas novelas globais, que se repete no final de quase todas: a mulherada tem que parir, como se a realização feminina fosse única e exclusivamente a maternidade. Também está se tornando rotina o machismo, onde um "garanhão" pega todas as "potrancas". Isso tem se tornado uma assinatura global.
E, por incrível que pareça, não vejo protesto no telespectador, ao contrário, consternado vai às lágrimas.

Abcs

jjLeandro · Araguaína, TO 15/6/2007 22:20
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Mi [de Camila] Cortielha
 

Oi, Vinícius, muito interessante seu trabalho de crítica de novela, não costumo ver isso fora das revistas de fofocas e me diverti com seus comentários. Não assisti nenhum capítulo dessa novela, exatamente pela preguiça extrema dos artifícios de Lombardi. Da próxima, darei uma chance! :D

Abraços,

Mi [de Camila] Cortielha · Belo Horizonte, MG 18/6/2007 15:16
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Marcelo V.
 

Um amigo meu, crítico de cinema, elogiou bastante esta novela. Nunca vi (não vejo novela desde a infância), mas me parecia um produto quase infantil.

Marcelo V. · São Paulo, SP 21/6/2007 00:45
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FILIPE MAMEDE
 

Êta novelinha ruim essa aí hein!? Geralmente o horário das sete fica reservado á marmanjos sem camisa, umas gostosas correndo pra lá e pra cá e uma mistura de comédia de pastelão e sabe-se-lá mais o que...

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 21/6/2007 10:31
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André Gonçalves
 

bom texto no overmundo, novela medíocre.

André Gonçalves · Teresina, PI 21/6/2007 14:07
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Guilherme Mattoso
 

concordo com o andré gonçalves. texto ótimo pruma novela que é "mais do mesmo"... não que seja uma droga, mas é a mesma fórmula lombardiana se repetindo no horário das 19h... assim como o Leblon de Manoel Carlos na novela das oito.

Guilherme Mattoso · Niterói, RJ 21/6/2007 15:19
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