"O negócio foi que eu nem percebi que estava lendo apenas as passagens grifadas. Sério. Porque o danado fez isso muito bem feito. Um tanto cafona às vezes, (...) mas também sabendo ser tão cool quanto uma letra de bowie, que nem quando grifou na mesma página "olhos tão azuis" no comecinho da página e "meio trágicos" na antepenúltima linha."
O envelope foi deixado para mim no trabalho. Recebi-o na hora em que saía para almoçar. Dentro, um DVD com cinco curtas e o livro – sse, de Erly Vieira Jr. Já tinha visto todos os filmes do DVD, e mesmo assim fiquei feliz em vê-los todos juntos na coletânea Algumas Estórias, com capa, índice, projeto gráfico e, importante, dedicatória do autor. A minha curiosidade estava dirigida mais ao livro – não pude ir ao lançamento e estava muito a fim de conhecer os contos do Erly, de quem conhecia já os belos poemas do livro contraponto, reta, plano, lançado em 1999, no apagar das luzes do século XX.
Abri o livro enquanto esperava um amigo para o almoço. Raramente começo a ler um livro ou revista pelo início – é bom que fique claro. Primeiro pego nele, sinto o peso, a textura, o tamanho. Depois examino a capa, a ilustração e leio a contracapa, quando nela há algo para se ler, o que não é o caso do livro – sse. Mas, para compensar a ausência do texto da contracapa, a ilustração de David Caetano, que ultrapassa o espaço da capa até a contracapa, é um texto visual lindíssimo. Feito isso, abro o livro e vou folheando de trás para frente, me detendo nos obstáculos das palavras mais luminosas. No caso do livro do Erly, contava o tempo curto para esse passeio, que a espera era rápida. Então, procurei o conto mais curtinho para acompanhar o cigarro da espera. E o mais curtinho que achei era só uma frase: depois da chuva, quem se habilita a percorrer suas próprias planícies de algodão? (Depois da chuva). Só isso. Uma frase curta, com a imensidão de uma planície de algodão. Um sax summertimeando o mormaço quente no meio dia de Vitória.
A frase instigou novas buscas. Folheei o livro ao léu até me deter em outra frase: descompromissadamente pleno: é exatamente como me sinto agora. Nossa, isso é a coisa mais zen que li nos últimos dias! Essa frase aí era um parágrafo incrustado num conto maior, Muito Leve. E ela me levou ao início do conto. Que começa com minúscula, reticências e aspas: “...apesar de tudo é muito leve”, já dizia Walter Franco. Vai ver, é leve mesmo. O conto, narrado na primeira pessoa (como em todos os contos do livro, o personagem nos olha nos olhos) é a história de um estudante duro, que se divertia com os livros da biblioteca universitária e seria um poeta se não tivesse esbarrado na palavra apátridas e na ausência de uma rima para ela logo em sua primeira composição. Tá, eu sei que seria mais apropriado falar do livro todo, que tem outros contos tão instigantes quanto Muito Leve. Mas, vocês me dêem licença para falar só desse conto? É que rolou, entre eu e ele, uma empatia tal que ele virou assunto do nosso almoço.
Não sei explicar bem essa empatia, mas acho que ela começou quando o personagem disse que odeia quando o livro que pega na biblioteca está todo grifado, com as marcas pessoais dos leitores anteriores. Eu também odeio isso. Concordo que essas marcas acabam por ser um ruído na leitura do texto e levam nosso olhar para outra lógica, diferente da que utilizamos quando lemos uma página virgem delas. Mas, o personagem de Muito Leve inverte também essa lógica – a minha e a dele – ao começar a perceber nas partes sublinhadas dos livros que lê uma narrativa particular. E, tão atônito quanto eu, sua leitora, descobre nesse código narrativo uma mensagem endereçada a ele. Não apenas em um dos livros, mas em vários.
A princípio por divertida curiosidade, depois por desejo (ao perceber o quanto faziam sentido os trechos sublinhados cuidadosamente à régua) e, mais tarde, por pura obsessão apaixonada, passa a buscar em todos os livros da imensa biblioteca novas mensagens. E construir por meio delas o seu autor e refazer os sentidos dos textos buscando nas entrelinhas dessas marcas o objeto de sua paixão. A essa altura do conto, eu já estava totalmente solidária ao personagem na sua busca. Fazia, sim, muito sentido tudo que seu misterioso interlocutor lhe dizia ressaltando palavras e frases dos livros lidos com aquelas marcas cuidadosas, “virginianas”. Desenhei o personagem leitor como um jovem Borges, de calça jeans, estudante da Ufes, traçando caminhos na sua babel literária. Ao mesmo tempo, sentia que a qualquer hora o conto poderia seguir o caminho das histórias de detetive, com a busca obstinada pelo autor das marcas e, enfim, o encontro, a resolução do mistério.
Mas, esse é um conto do Erly. E não poderia ter um fim previsível: o personagem encontra outro trecho sublinhado que o faz perder o fôlego – e a mim também: seria a explicação para todo o mistério? – e, antes de me contar o que leu, limpa as lentes dos óculos, pigarreia e “agora, sim, podemos continuar.” Ponto final, corte, fade out! Eu, leitora, fiquei suspensa no ar, fôlego preso, pronta para o mergulho na piscina vazia.
(Desculpem a falha, mas não perguntei para o Erly o significado do título do livro. Eu acho que o –sse tem a ver com a terminação no pretérito imperfeito do subjuntivo, esse tempo tão poético por ser pretérito e tão perfeito na sua imperfeição dependente e condicional ao se. Mas isso é só o que eu acho.)
* Ah! importante: o Erly foi indicado ao prêmio Omelete Marginal em duas categorias: melhor filme e melhor lançamento literário, por conta do livro - sse.
É um livro que vai às entranhas, em minudências.
Bom o jeito que vc narra seu contato com ele, também todo particular. Curioso o fato do grifo, a leitura de alguém querendo influir na nossa.
Aliás, Borges dizia que cada leitura que fazemos de uma mesma obra é sempre diferente. E é verdade. Estaremos sempre mais pleno de informação e mais capaz a transcender o que lemos da última vez.
abcs
Ilha,
legal seu texto
palavras grifadas são com um conto dentro de outro,
e cada um tira suas próprias conclusões,
quando o assunto é muito complexo.
bjs
JJ e Doroni, obrigada pela leitura!
Acho fantástica essa possibilidade de estabelecer um diálogo com o texto. A internet nos possibilita isso tb. No caso dos contos do Erly, esse diálogo fica mais evidenciado pois os personagens narram na primeira pessoa suas histórias. É como se estivessem contando pra gente, cara a cara, suas experiências.
abraços
uma gostosa leitura que acabei de ler, ótimo texto, parabéns.votado.
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 16/11/2008 14:06
Bacana e instigante. É revigorante saber que tem gente nova (idéias novas) pintando por aí.
Um trabalho bem elaborado e intrigante.Parabéns.
Ecila Yleus · Recife, PE 17/11/2008 10:08
Fiquei com vontade de ler o livro. Primeiro pela genialidade do personagem, pela captura das marcas da interpretação dos leitores, e a criação de uma pessoalidade na leitura dos outros.
Depois pelo seu próprio texto, que transmite todas as suas sensações, misturadas com as sensações dos autores e do personagem.
Bacana!
Beijo!
Oi Ilha,
Nossa, ainda estou devendo essa leitura do Erly, lamentável. Ainda bem que você falou dele por aqui, me deu mais vontade ainda de ler. Esse conto da biblioteca já me intrigou: esse assunto é ótimo! Aliás, tem uma pauta que está nos nossos planos há tempos sobre isso, vamos ver se alguma hora vira realidade. Confesso que adoro ler as interferências dos outros nos livros de biblioteca - a não ser que sejam muito poluidoras. Mas em geral são grifados, esclamações, palavras, acho que ajudam a dar outra dimensão ao texto. É como se você tivesse descobrindo opiniões e marcações secretas a que não devia ter acesso...
Abraço!
Rosa, vc deve conhecer esse desenho do Escher. Eu acho que ele ilustra bem o processo da leitura: quem desenha é o leitor ou o texto? Ou ambos desenham-se um ao outro? O Cortázar também gostava de brincar com essa idéia em sua literatura. Um conto dele é a narrativa de um leitor lendo uma história, que no final se encontra com ele em sua própria poltrona onde ele lia distraído.
Helena, o Erly está escrevendo cada vez melhor. Vale conferir. Eu gosto do estilo coloquial dele para falar do inusitado.
bjos
Ilha,
corridão, passei para ler e lhe deixar um
abraço
andre
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