Design, política, arte e comunicação

Dear Friends
Aeroportos: foram ao todo 19 percorridos.
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Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG
10/12/2006 · 300 · 8
 

Os livros “Dear Friends” (“Queridos Amigos”) tiveram origem na história de cada um dos três estudantes que os escreveram: Marcelo, Albert e Yaeger. Brasileiro, filipino e haitiano, respectivamente. Os três vivem nos Estados Unidos e isso já explica muito a origem e a razão do trabalho que realizaram. São três livros individuais e um outro escrito coletivamente pelas seis mãos. Eles foram realizados como uma tese de fim de curso da universidade americana California College of the Arts. As páginas falam de muita coisa: design gráfico, artes, política, pobreza, desigualdade social, estética, violência, trabalho coletivo, mídia, histórias, pessoas.

Plano de viagem: Haiti, Brasil e Filipinas.
Objetivo: Entrevistar pessoas, entender as culturas, participar da rotina local. Coletar dados, escrever um livro e formar-se na faculdade.


Culturas e origem serão palavras muito repetidas no texto que você vai ler abaixo. É quase impossível falar sobre qualquer aspecto dos livros que foram escritos sem que essas duas idéias sejam constantemente retomadas. A cultura de um povo é constantemente modificada desde que inventaram o primeiro barco e as diferenças e semelhanças começaram a ir e vir. Já a nossa origem é uma: definida, quase uma marca de nascença, impossível de ser apagada.

As diferenças e semelhanças, roupas, algumas meias, câmeras fotográficas e gravadores foram colocadas nas malas dos três estudantes: era hora de voltar para casa (com ou sem aspas): Haiti, Brasil e Filipinas, nessa ordem. Pouco antes de a viagem começar, o Haiti foi cancelado. O motivo foi a onda de violência vinda de diversos grupos da sociedade, inclusive de um exército, o brasileiro, que ocupava o país numa suposta missão de paz. O cancelamento e seus motivos já serviam de alguma maneira como explicação cultural e histórica do país.

Seguiram então diretamente para o Brasil. Viajaram ao Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo, Florianópolis e Porto Alegre. Os três estavam à procura de exemplos de formas alternativas de mídia e de se trabalhar coletivamente. Encontraram, descobriram, estudaram, conviveram e conversaram bastante com representantes do Centro de Mídia Independente, do MST e do Movimento do Passe-Livre. Na visão dos viajantes, a recepção (como também seria nas Filipinas adiante) foi a melhor possível. As pessoas ajudavam sem pedir nada em troca. O que mais chamou a atenção foi a dedicação das pessoas envolvidas nesses projetos. Figuras como Pablo Ortellado e Graziela Kunsch (entrevista em áudio) representam bem esse empenho e vontade de criar novas formas sustentáveis de trabalhar e realizar projetos.

Com o caminho percorrido no Brasil (e o mesmo se repetiu nas Filipinas depois, onde Marcelo contou que se sentiu muitas vezes em casa, tamanha era a similaridade das realidades), assuntos como culturas, mídia, origem e política começaram a se misturar, afinal, está tudo interligado. E no meio disso tudo estavam as pessoas às quais eles dedicaram o título do projeto. São mais de 193 nomes que eles lembram de cabeça, mais de 4 mil registros fotográficos, 70 horas de entrevista, incontáveis páginas de anotações e uma mala nova adquirida e completamente lotada de materiais recolhidos.

Antes de isso tudo ser realizado, os três autores se conheceram nos corredores e nas salas de aula da faculdade. Três imigrantes (ou com pais imigrantes, no caso do haitiano Yaeger e do filipino Albert) que só se encontraram por causa do passado de cada um deles que deu condições para que estivessem ali, estudando em uma boa faculdade americana. Mas a origem é sempre representativa e realçada quando se vive em uma cultura diferente. Foi o que Marcelo explicou: “eu não divido com eles (americanos) o mesmo passado cultural, então referências à cultura popular não faziam sentido pra mim, e até hoje isso acontece em pequenas instâncias. Ao passar do tempo também notei que ser de outra cultura muito diferente da americana me dava um ponto de referência único sobre vários assuntos”.

Marcelo explica um pouco mais do contexto que aproximou os três. “Lembro que eu e o Yaeger começamos a conversar pela primeira vez ao assistir a apresentação da turma de design anterior à nossa. Notamos que o painel inteiro era composto por homens anglo-americanos, brancos e heterossexuais e como isso era bastante típico da nossa profissão e refletia uma realidade maior que nossa comunidade”. Essas questões os fizeram pensar sobre o mercado de trabalho, o papel de um designer gráfico na sociedade, o que isso tinha a ver com origem de cada um deles e para onde eles iriam dali em diante. Como a comunicação se encaixa nisso? Os três amigos respondem: “nós nos comunicamos por uma necessidade de comungar (ligar-se, unir-se) com outros, revelar o que causa dor e dividir o que dá alegria. Comunicamos contra nossa solidão e contra a solidão dos outros”. A coceira que isso tudo causou foi sendo transformada no plano de viagem. E tudo começou a tomar forma com o apoio dos professores e da ajuda financeira do American Institute of Graphic Arts.

É sempre delicado falar sobre as diferenças de comportamento entre os povos. É perigoso cair nos lugares mais que comuns da cordialidade brasileira ou da frieza do americano e tomá-los como marcas definidoras dessas identidades. Como se todo brasileiro estivesse sempre disposto a ajudar e todo americano não desse a mínima para os problemas dos outros. Mas não há como negar que as diferenças existem sim, e o exemplo de Marcelo em relação a esse tema é muito interessante: “se em um grupo de americanos um é deixado pra trás, é responsabilidade dele correr atrás do grupo. Ninguém vai deixar de seguir para que outros tenham a mesma chance. Se o mesmo acontece no Brasil, o grupo irá esperar para que o que ficou pra trás consiga se juntar a eles, pois a integridade do grupo é importante como a dos indivíduos”.

O futuro? Ao passo que cada um deles vai acertando a vida de recém-formado e, no caso de Marcelo, tem que lidar com a renovação do seu visto, eles tentam dar continuidade ao projeto e com o que aprenderam nele. Mas pela ótima recepção que tiveram do público, as chances de publicar e lançar os livros são boas. Eles foram finalistas da Student Achievement Awards da Adobe e para levar o trabalho a um público maior, os três já entram em contato com editoras e donos de galeria que demonstraram bastante interesse. Enquanto ela não sai, os três continuam refletindo sobre o tema, agora escrevendo um artigo sobre a interseção de arte e pensamento político radical, para ser publicado na AK Press.

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Sergio Rosa
 

Aceito sugestões para o título.

Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 8/12/2006 20:52
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Claudiocareca
 

Muito legal. Abre o apetite. E o livro sai quando?

Claudiocareca · Cuiabá, MT 11/12/2006 10:33
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Roberto Maxwell
 

e o filme? vcs nao filmaram? nossa, como se precisasse, neh? mantenha-nos informados.

Roberto Maxwell · Japão , WW 11/12/2006 11:39
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Ali Assumpção
 

muito legal o enfoque escolhido, a opção pela relação entre as culturas...quero esse livro!

Ali Assumpção · Blumenau, SC 11/12/2006 11:53
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Lígia Milagres
 

Interessante como aconteceu essa troca. A partir de um encontro extra-territorial retoma-se, sob um olhar contemporâneo, características peculiares ao lugar de origem de cada um deles, revelando a heterogeneidade e diversidade presentes nesse mundo de interconexões.

Lígia Milagres · Belo Horizonte, MG 11/12/2006 19:18
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Pedro Gontijo
 

A forma como surgiu a iniciativa, a partir do encontro peculiar, é muito boa. Estou curioso para ver o livro.

Mas sempre tenho um pé atrás com lugares-comuns e as intenções do texto. Todo texto carrega consigo sua conclusão antes mesmo de tomar forma escrita. Fugir deliberadamente do lugar-comum -- no caso, a busca de origens, cultura e o objeto de "não-pertença" a uma cultura -- pode ser um péssimo lugar-comum. Pra mim, passagens como "suposta missão de paz" e as comparações entre as culturas estadunidense e brasileira mostram claramente a intenção do texto, um lugar-comum já bastante explorado.

É difícil, eu sei. Por isso desejo toda a sorte do mundo.

Abraços.

Pedro Gontijo · Brasília, DF 13/12/2006 17:01
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Sergio Rosa
 

Pedro, obrigado pela crítica. Acho que você tem um pouco de razão sim, acho que acabei esbarrando no lugar-comum. Talvez pela dificuldade que eu tive em explicar um projeto tão amplo quanto esse. Talvez eu tenha sido infeliz ao escolher essa parte da entrevista que eu resolvi colocar no texto (a das comparações entre as culturas do Estados Unidos e do Brasil).

Mas o livro em si não é lugar-comum, na minha opinião. Até mesmo porque é cada vez mais difícil pensar que a cultura dos EUA é de um jeito e a do Brasil é de outro. Essas generalizações acabam sendo ruins mesmo, e acho que eu posso ter errado nisso. Mas, por outro lado, o discurso de que hoje é tudo misturado, que não há mais diferenças entre os povos e etc. é também meio lugar-comum, não?

É porque algumas vezes fico com a impressão que cada vez mais é mais normal afirmarmos que alguma coisa é lugar-comum (talvez seja uma impressão completamente errada e minha).

Claro, claro... todo texto tem uma intenção. Mas não acho que nem o meu e nem o do livro tenha a intenção de afirmar que o jeito de ser do americano, do brasileiro, do filipino ou do haitiano seja um melhor que o outro. A questão não é essa mesmo. Mas algumas sensações de diferenças foram claramente sentidas pelos viajantes e naturalmente refletidas no livro e no meu texto. Não é também como se eles inventassem aquilo da cabeça deles. As diferenças foram sentidas por eles. É sem dúvida um relato muito pessoal, que buscava resolver questões pessoais deles, mas que imagino que outras pessoas se identifiquem com as questões. Reconheço também um certo grau de "romantismo" na maneira como abordei essa "missão de paz" a qual se refere. Mas, ei, acho que um pouco de romantismo também pode fazer bem, né?

De qualquer maneira, valeu pela crítica. Acho que foi válida.

Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 13/12/2006 17:59
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Fernando Mafra
 

Serginho, eu é que sou o cara do Design, esqueceu? Esse texto é uma afronta! Um impropério! Patuscada!

Heheh, brincadeira. Achei toda a história interessantíssima, acho esse lance de intercâmbio e fusão cultural muito interessante, especialmente porque sou um convicto trans-culturado. Mas na verdade não me sinto preparado a discutir o assunto em um nível mais elevado.

Fernando Mafra · São Paulo, SP 20/12/2006 09:49
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