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Desigualdade e racismo no Brasil: eterno tabu

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Roger Deff · Belo Horizonte, MG
7/2/2008 · 35 · 4
 

Falar de relações raciais no Brasil sempre constituiu um tabu principalmente pela forma como essas relações foram construídas ao longo dos tempos.

O processo de escravidão, e a cultura que se estabeleceu graças a ele, deixou marcas profundas que repercutem ainda hoje. Uma das razões para o aprofundamento do preconceito velado no Brasil é o fato de que a história relegou ao negro o papel de figura passiva, mera mão de obra escrava e, até pouquíssimo tempo, os livros didáticos ensinavam que o negro foi escravizado porque se adaptava melhor à situação de trabalho forçado, coisa que não aconteceu com os povos indígenas. Maior absurdo é que este tipo de impropério era ensinado como se fosse coisa séria. A difusão de idéias como essa colaborou para que uma imagem menor do negro enquanto indivíduo fosse construída ao longo da história, e ajudou inclusive para que se firmasse uma idéia de incompetência em relação aos afro-descendentes.

Este e outros fatores ajudam a entender as razões que levaram os negros desenvolverem uma baixa auto-estima em relação á própria etnia, o que não é de se surpreender.
Obviamente este perfil vêm sendo alterado principalmente entre os que tiveram acesso à educação formal e outros que encontraram formas alternativas de construção de suas identidades. Aliás, outras formas de construção de identidade vêm em primeiro lugar, como as provenientes de movimentos como o hip-hop e a convivência em outros grupos intimamente ligados à cultura afro-brasileira tais como congado, capoeira e outros, todos eles capazes de conferir ao indivíduo uma fator identificador alternativo aos meios de comunicação.

O fato é que a influência do negro na cultura nacional recebeu um lugar de pouca importância em nossa história, isso quando aspectos culturais dos povos africanos não foram sistematicamente demonizadas e marginalizadas como no caso de manifestações religiosas como o Candomblé.
Há uma grande dificuldade em confrontar tais afirmações com a opinião vigente, principalmente porque vivemos o eterno mito da “democracia racial”.

O país em que as raças "se irmanam" e convivem na "mais completa harmonia" e com igualdade de oportunidades, esconde um racismo velado, o que o torna mais difícil de ser combatido. Importante lembrar que a disparidade em termos de oportunidades não é apenas de cunho social e econômico. Não por acaso a dificuldade de acesso possui um perfil racial bem definido.
O Brasil é o país fora do continente africano que possui o maior número de afro-descendentes, sendo que estes constituem cerca de 45% da população brasileira e os mesmos constituem 64% da população mais pobre e 69% do total de indigentes. Importante lembrar que estes 45% da população brasileira não encontram representação, nem de longe, equivalente nos meios de comunicação ou nos cargos considerados de maior prestígio.

O IDH – Indice de Desenvolvimento Humano – que mede a qualidade de vida das populações baseado em itens como alfabetização, riqueza e expectativa de vida – se mostrou alto no último relatório da ONU referente ao Brasil, entretanto o IDH da população negra manteve-se baixo, embora tenha apresentado um crescimento considerável se comparado ao relatório anterior. Embora os avanços recentes tenham sido notáveis, eles ainda apresentam números tímidos mas vale ressaltar que algumas medidas importantes têm sido adotadas.

Uma delas é a questão das ações afirmativas, a velha história das cotas para negros e indígenas. Independente das opiniões contrárias, elas cumprem um papel que é primordial para mim. Pela primeira vez em muito tempo a questão racial foi discutida a sério na esfera pública, nos debates em programas de tv, nas universidades e nas ruas o que evidenciava que havia algo de muito errado em nosso país “livre de preconceitos”, a polêmica gerada pela adoção da medida contribuiu para que o tabu fosse deixado de lado e a discussão viesse à tona.

Um dos grandes passos recentes foi a inclusão do ensino da cultura afro-brasileira nas escolas. O acesso a uma disciplina como essa ajuda na formação de uma visão mais ampla de cultura por parte dos alunos. A matéria entrou oficialmente no currículo das escolas a partir de 2003, resta saber se existem profissionais capacitados em número o suficiente para suprir a demanda. Em todo caso já é um alívio saber que perceberam a necessidade de se levantar este tipo de discussão. A lei em questão reza que seriam incluídos estudos sobre a história da África, luta dos negros no Brasil e o papel do negro na formação da identidade nacional.

Acho que ainda há muito o que conquistar mas é um passo importante para que os negros brasileiros sejam vistos como indivíduos que ajudaram a construir a visão de mundo de todo um povo e não apenas como figuras passivas cuja maior contribuição foi a mão de obra escrava.

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Krista K
 

Eterno tabu mesmo. Obrigada pelo texto - acho que este é um tema que sempre precisa de mais atenção.

Interessante - uns meses atrás fui chamada pra fazer uma apresentação de 10 minutos sobre racismo no carnaval Brasileiro. Eu sabia, claro, que o racismo estava presente no carnaval como em qualquer outro aspecto da vida. Mas na hora de analizar com atenção os vários tipos, expressões, níveis de racismo no carnaval (na economia, na divisão de funções, na hora de participar, na música, nas imagens visuais, na geografia do carnaval, na seguranca pública dos eventos, na atenção da mídia, na hierarquia de acesso, etc) minha apresentação virou uma lista de diferentes "racismos" que se pode observar apenas durante os seis dias de carnaval. E ainda tem gente que diz orgulhosamente que "o carnaval baiano é mais democrático do que o carioca"! (não é que eu discorde...ou concorde; apenas acho a palavra 'democrático' fora do lugar nesse caso).

Não mencionei o carnaval para desviar o assunto, mas sim para convidar todo mundo a tomar um passo além de afirmar que 'o racismo existe'. O importante também é conhecer como ele funciona ao nosso redor e qual é o papel de cada um de nós nesse sistema. É assim que nós começamos perceber que o racismo não é uma coisa tão abstracta e impessoal que nem conseguimos falar dele. Em vez disso, podemos procurar mais soluções produtivas assim como o projeto educacional mencionado no texto do Roger.
(será que esse ensino de cultura e história afro-brasileira está rolando mesmo? E tá indo bem? O material é bastante amplo e de qualidade? Admito que sei nada sobre o sucesso desse projeto..... mas espero mesmo que esteja dando certo). :)

Krista K · Salvador, BA 8/2/2008 00:50
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Rafael Campos
 

Falaa Roger! Bom, é a velha questão não é?! O pior racismo que existe (se é que podemos dar esse tipo de classificação) é o hipócrita, que infelizmente existe por aqui... Sobre as cotas, acho, é claro, importante, mas ainda é pouco para "corrigir" o erro histórico. Pra mim parece mais aquelas propostas imediatistas, mas já é um começo né?!
Ah! sobre o IDH, acompanhei uma discussão recentemente sobre o assunto... na verdade a pesquisa mostrou que os números melhoraram, mas não quer dizer que avançamos, pois comparado com outros países estamos bem distantes do tão falado "país do futuro"...
Grande abraço!

Rafael Campos · Belo Horizonte, MG 8/2/2008 15:29
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Roger Deff
 

Krista e Rafa, obrigado pelos comentários.
Krista, sinceramente não sei em que pé está o ensino da cultura afro-brasileira nas escolas. O que vi foram algumas matérias de tv sobre o assunto, bem na época em que a lei entrou em vigor, e vi aqui em Belo Horizonte discussões sobre formas de capacitar professores para que dessem conta do assunto.
Quanto às cotas Rafa, a medida realmente é imediatista, resolve um problema pontual. Mas já é mais positivo do que ignorar o problema, embora eu concorde que o ideal é melhorar a qualidade da escola pública e dar a estes jovens melhores condições para que possam competir de igual pra igual.
O "X" da questão está no fato de que ainda vai demorar muito para que isso aconteça (o que não quer dizer que nada deva ser feito neste sentido) e as ações afirmativas já representam algum tipo de mobilização. Além disso, como eu já disse, elas servem também de combustível para a discussão do tema.
No mais, agradeço pelas ponderações, opiniões e colaborações.
Abs

Roger Deff · Belo Horizonte, MG 8/2/2008 16:17
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Mestre Jeronimo - JC
 

Axe'

Racismo... uma questao que vai alem de "cor" "estado" e "religiao"... ta inserido no seio da nossa raca. Precisamos, se for pra evoluir, olhar pra este 'jogo' de uma forma mais abrangente e nao se limitar ao social, mas, incluir o todo humano, em todo humano.

Texto serve para reflexao, e acrescenta mais neste assunto polemico.

Parabens!

Mestre Jeronimo - JC · Austrália , WW 9/2/2008 11:20
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