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Desmotorizados ganham tempo

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Fabinca · Bento Gonçalves, RS
17/12/2006 · 105 · 16
 

Chega-se a uma idade em que ter um carro é indispensável. Normalmente aos 18 – para a maioria dos adolescentes de classe média ou alta.

Alguns desavisados, ou por não pertencerem à classe média ou alta, ou por terem se dedicado a outras aprendizagens que não dirigir, adentram os trinta ou mais anos sem ter um carro. A situação é grave. Se a pessoa morar em uma grande metrópole fará pouca diferença. Ela poderá utilizar metrôs ou ônibus de qualidade para se deslocar na cidade e sentirá falta de um carro apenas para viagens. Se o desavisado tiver a infelicidade de ser um desmotorizado em uma pequena cidade, além de ter dificuldade de se deslocar para locais que não sejam casa/trabalho/casa, terá de enfrentar alguns desafios:

• os olhares de surpresa ou curiosidade dos colegas de trabalho, que o consideram um alienígena. Além de ser algo muito incomum não ter um carro, há a situação desconfortável de terem de oferecer carona;

• para as mulheres, é impossível ser perua sem ter um carro. Caminhar uma ou duas quadras com um sapato de bico fino não é para qualquer supermegaheroína – é necessário ter verdadeiros poderes sobrenaturais, começando pela levitação. Ademais, não amarrotar a roupa nem desfazer o cabelo em um ônibus é impossível.

• só quem não tem carro carrega volumes para os espaços fechados, como restaurantes e consultórios médicos: guarda-chuvas em dia de sol, sacolas, pastas, livros. Encher a cadeira ao lado de pertences mostra que você anda a pé. Ou seja, um desmotorizado pode ser reconhecido pelo que carrega consigo.

Nem tudo são tristezas, porém. Quem anda de ônibus ou de metrô tem suas vantagens. Quando alguém compra um carro quase sempre ganha de brinde uns 4 kg de peso. Só quem não tem carro sabe o quanto caminha diariamente. Afinal, tomar um ônibus para andar apenas algumas quadras não vale a pena, mas quem tem um carro o tira da garagem. Além da elegância, a saúde do desmotorizado também agradece, pois exercícios fazem bem. Este é um argumento comum a favor de não possuir um carro, mas facilmente contestável, pois, teoricamente, quem tem um carro tem mais tempo e facilidade para realizar atividades físicas.

Aí está um ponto interessante: o tempo. Quem não tem um carro e anda de ônibus ou de metrô, ao contrário do que muitos pensam, ganha muito tempo!

Principalmente em cidades pequenas, no caso de ser necessário utilizar apenas uma linha de ônibus para se deslocar ao trabalho ou ao estudo, ganha-se tempo livre na viagem. Ficar de 20 a 30 minutos sem nada para fazer raramente é possível no dia-a dia. O ônibus é o único lugar em que todos se dão ao direito de não fazer nada – o período reservado ao deslocamento é totalmente inútil. Dessa inutilidade surgem interessantes oportunidades de despender o tempo:

- olhar pela janela;

- olhar as pessoas;

- dormir (o ônibus é o lugar para dormir com tranqüilidade, pois não há culpa por não estar fazendo outra coisa);

- ler;

- escrever (pequenos textos podem ser iniciados e estruturados no deslocamento para o trabalho – 20 min rendem um bom começo);

- escutar música;

- enviar mensagem de texto (os amigos não entendem por que chovem torpedos em suas caixas de mensagem em determinadas horas do dia...) ou acessar a internet pelo celular;

- conversar;

- fazer anotações;

- rezar.

O princípio é o seguinte: o tempo reservado ao ônibus ou ao metrô é totalmente próprio, que pode ser utilizado da forma desejada, sem pressões. Justamente da limitação do espaço e do tempo surge a liberdade de pensar e agir.

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Helena Aragão
 

Muito instrutivo. Deve ser por isso que não uso salto alto, sou magra, estou sempre descabelada, com a roupa amassada e carregando um monte de coisas, hahaha. Sou uma sem-carro convicta, cada vez mais feliz, ainda mais por já ter sido uma com-carro. Tem mais uma vantagem fundamental que você não citou: grana! Não pagar IPVA e gasolina faz muita diferença...

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 15/12/2006 17:50
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Fabinca
 

Obridada pelo comentário, Helena, e que bom que gostaste.
Concentrei-me mais nas vantagens de andar de ônibus, que é conseqüência de não ter um carro. Há muitas outras vantagens (e desvantagens também) de ser um desmotorizado...

Fabinca · Bento Gonçalves, RS 15/12/2006 19:24
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Marcos Paulo
 

Aqui houve uma época que os coletivos tinham condicionadores de ar, televisores e cobradores alegres. Hoje o serviço é de quinta, com calor insuportável e uma 'inhaca' danada...hahaha.

Do giro da roleta até o puxar da cordinha muita coisa pode acontecer.

Legal teu texto, Fabinca!



Marcos Paulo · Porto Velho, RO 15/12/2006 19:27
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Fabinca
 

coletivos... tinha esquecido da palavra.
Tenho um outro texto sobre o nome que dão aqui para os ônibus, que é "lotação".

Fabinca · Bento Gonçalves, RS 15/12/2006 19:48
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Malu Xavier
 

Andar de ônibus é bom.
Ruim é DEPENDER de ônibus.

Malu Xavier · Olinda, PE 16/12/2006 01:21
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Alê Barreto
 

Eu sou um desmotorizado. Acredito que a questão do sistema de transporte público de Porto Alegre ser ótimo, me facilita a vida. Agora, independente disso, pior que depender de ônibus é DEPENDER DE UM CARRO. Sou mais de depender de uma bicicleta. O texto faz uma reflexão muito interessante.

Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 16/12/2006 18:38
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Fabinca
 

É. Ser desmotorizado em Porto Alegre, que tem um bom transporte público, é bem melhor. Boa idéia: escrever um texto sobre a "dependência do carro".
Obrigada pelo comentário.

Fabinca · Bento Gonçalves, RS 16/12/2006 19:46
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Thiago Camelo
 

Eu adoraria ter metrô e vários ônibus perto de casa. Seria um sem-carro convicto, feito a Helena falou. O problema é que moro meio longe de tudo. É horrível ter de esperar o ônibus diariamente, pior parte do dia. E esse não fazer nada dentro do ônibus fica legal por 30m, depois a única coisa que vc consegue pensar é quando aquele maldito ônibus vai chegar no destino. Hoje, eu sou um "sem-carro" bastante frustrado :)

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 17/12/2006 19:22
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Fabinca
 

Por isso eu falei de 20 a 30 min. O pior é quando o ônibus não vem no horário previsto. Aí o exercício é lidar de forma consciente com a raiva e a frustração.

Fabinca · Bento Gonçalves, RS 17/12/2006 22:58
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Fernando Mafra
 

Sou um desmotorizado por enquanto. Meu carro deve chegar no mês que vem. Mas já estou me comprometendo a não usá-lo debilmente.

Mas já refleti mto sobre o assunto. Uso uma combinação de ônibus, metrô e bicicleta. E digo sem a menor dúvida que o meio mais rápido de transporte em SP é a bicicleta, ao menos para trajetos de até 10km, sempre chego mais rápido do que qualquer outro jeito.

Mas a realidade é que a cultura do carro é muito forte, ao menos aqui em SP. Existem lugares que para se visitar sem carro é preciso uma paciência de Jó.

Mas para os ricaços carro já passou, o lance agora é helicóptero ;)

Fernando Mafra · São Paulo, SP 18/12/2006 00:10
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Guilherme M.
 

Tbem fico no modo-subúrbio (ou seja, sem-carro). Esses momentos no coletivo são sempre úteis (inútil seria perde-los guiando um carro!). Além que o convívio com o povo nos coletivos, me faz sentir parte desta nação ou sociedade.

Adicionando ao aspecto monetário que a Helena falou, tem a grana gasta com seguro do carro (essencial em cidades grandes), além de manutenção, etc. Fiz um cálculo há 2 anos atrás, e o que gastaria com IPVA + seguro (no mínimo mais de R$2000/ano), seria suficiente para pegar 2 ou 3 taxis por semana. Isso aqui em SP, aonde a corrida de taxi deve ser uma das mais caras do mundo. E eu nunca pego mais doque 1 ou 2 taxis por semana (sempre algum amigo acaba dando uma carona). Ou seja, no final das contas, economizo (e nao inclui os gastos com combustível e manutenção nessa conta)!

Guilherme M. · São Paulo, SP 18/12/2006 12:56
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Marcos Paulo
 

O Thiago falou de frustação e lembrei que penso isso enquanto espero o ônibus. Mas tem dias que nem ônibus, carro ou bicicleta resolve.

É um dos momentos que eu exercito a paciência!

Marcos Paulo · Porto Velho, RO 18/12/2006 12:56
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Sergio Rosa
 

Se tenho autoridade para falar de algo, sem dúvida é sobre "andar de ônibus". Apesar de ter carteira, não tenho carro. Portanto, ando muito a pé e de ônibus e quase nada de táxi ou metrô (o último porque a linha é muito limitada em BH). Concordo que há prazeres (mesmo além do mais óbvio: economizar dinheiro) em andar no transporte coletivo. São situações ricas para se ter experiências com os tipos mais diferentes da cidade.

Mas isso seria ser positivo demais. Deve ser bem legal pegar um ônibus em Marrocos, ou um metrô de Nova Iorque, ou andar de Bicicleta em São Paulo... Mas a situação se complica quando o sistema de transporte coletivo é simplesmente um caos. Mas sim, sendo muito positivo novamente, até o caos pode ser interessante, engraçado. Mas não é quando você está indo para a aula, fazer uma prova, ou voltando para casa, para um merecido descanso.

Reclamações:

1) Os ônibus simplesmente não respeitam os horários. Por acaso vocês já esperaram mais de 30 minutos por um ônibus e aí de repente chegam TRÊS ônibus da mesma linha de uma vez só? Pois é.

2) Fica preso num enorme engarrafamento é muito pior num ônibus. Ok, você economiza grana da sua gasolina. Mas pense na seguinte cena: fim de ano, calor enorme, chuve forte, janelas fechadas, pessoas gripadas, mistura de gases de todos os tipos (produzidos por máquinas e homens).

3) Concordo que deveria haver cada vez mais bicicletas nas ruas. Isso para ver se os motoristas se acostumam com elas. Porque a falta de educação nas ruas é tal que eles simplesmente acham que você está ERRADO por estar andando de bicicleta na rua. "Uma bicicleta??? Como assim??? Sai da minha frente, %#*%!!"


Mas eu acho que uma das melhores coisas em não ter um carro é poder evitar contato com essa nova profissão, altamente representativa da realidade brasileira: os Flanelinhas...

Foi mal, não é preconceito. Mas eles estáo tomando a cidade. É sério. Já passou há muito do tempo do aceitável. Eles pedem para tomar conta do seu carro na frente da sua casa, durante o dia. E se você diz não, dá-lhe olhar torto... Sem contar o fenômeno de apropriação das vagas que pelo qual eles são responsáveis. "Aquela vaga da esquina é do cara que trabalha no escritório tal e que me dá 5 reais para que eu assegure a sua vaga. Assim ele pode acordar mais tarde, tomar um café com a sua esposa, assistir mais um pouco do telejornal e não precisa se preocupar em procurar uma vaga. Mas se você me oferecer 6 reais, eu posso guardar a vaga para você... Agora, se você questionar esse nosso sistema de vagas, pode dar problema para você. Sim, eu disse NOSSO, porque eu e meus amigos tomamos conta desses quarteirões aqui, sabe como é... Não foi fácil, nós expulsamos a outra turma que dominava essa área. Foi uma briga feia, você precisava ver... E é por isso que necessitamos de sua colaboração financeira, para comprarmos mais alguns bastões de beisebol. Mas não se preocupe, isso é tudo para a segurança do seu carro. Afinal, se você não colaborar com a gente, pode ser que os caras da outra gangue venham aqui e quebrem os faróis do seu carro com... bastões de beisebol."

Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 19/12/2006 11:27
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Fernando Mafra
 

Eu nunca pego táxi em SP. É muito difícil mesmo pois a tarifa é um abuso.

O que o Sérgio falou é a pura verdade, concordo plenamente. Tenho andado pouco de bicicleta pois meu escritorio mudou pra Paulista e é um pouco mais cansativo, especialmente nesses dias de calor e chuva intensos, então me entreguei à preguiça. Mas não fosse pela falta de educação tremenda dos motoristas, andar de bicicleta é muito eficiente e agradável. Aliás, os piores são os taxistas e motoristas de ônibus, e os mais cordiais são os odiados motoqueiros, acho que eles pensam: "Nossa, eu sou fudido, mas esse cara aí nem motor tem é mais fudido ainda, coitado."

E digo o seguinte: Andar de bicicleta no trânsito é perfeitamente seguro, basta andar como uma pessoa sã e fazer as coisas dentro dos seus limites.

Fernando Mafra · São Paulo, SP 19/12/2006 11:41
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Fabiano Saváres
 

E nossa amiga Bicicleta?

cidade pequena da pra andar de bicicleta que vc esqueceu e é um ótimo exercício. em cidades grandes fica mais difícil pra se andar de bicicleta por causa das distancias e talz, mas nao impossível. vc poderia melhorar sua argumentação sobre o assunto lendo um livro chamada Apocalipse Motorizado, da coleção Baderna, Editora CONRAD. ótimo livro!

abraço Fabinca.

Fabiano Saváres · Blumenau, SC 15/6/2007 00:37
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Fabinca
 

Puxa!

Sonhei esta noite que estava comprando uma bicicleta - que definitivamente tinha que ter uma. Que coincidência.

Mas acho perigoso andar de bicicleta no trânsito, principalmente aqui em Chapecó. Se houvesse ciclovias...

Abraços, Fabiano, meu xará.


Fabinca · Bento Gonçalves, RS 15/6/2007 10:18
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