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Observatório
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Despeito é bom, e eu gosto!
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Bebo como quem perde o trem. Fracassado, um resto de fila pingando de qualquer balcão, sem traço do orgulho tácito de se chegar a tempo e pegar um bom lugar. Meu deus, péssimo dia pra beber. No rádio ambiente não há conforto: “True colors” da Cindy Lauper, cantada pelo cara do Gênesis... pelo menos é o que parece. Mais uma vodka. Gosto de beber vodka com gelo e um limão espremido; a saliva coalha na língua, como o faz uma completa falta de assunto. Ah sim... álcool e falta de assunto, os pilares do Jornalismo.
Uma olhada nos cadernos culturais que circulam por Manaus dá um belo exemplo disso – da falta de assunto, porque o gosto de jornalista pelo álcool já pertence ao senso comum. Quem já trabalhou em qualquer redação de jornal por aqui sabe que editorias de cultura são tratadas apenas como veículo de propaganda de festa e assessoria de imprensa para a Secretaria de Estado da Cultura (SEC), que adora bradar aos quatro cantos que foi a responsável pelo reflorescimento das artes no Amazonas, mas que faz, na verdade, uma forte política de eventos – grande parte sem qualidade ou proposta estética alguma – que, no fim das contas, não vai deixar nada.
Essa mesma falta de senso crítico da Pasta Cultural e da quase ausência de investimento em formação – e não adianta ninguém da SEC querer dizer que o Centro Cultural Cláudio Santoro (CCCS) é uma prova de que o Governo banca formação de artista, porque aquilo lá é celeiro de voto de pais de alunos: o que interessa é oferecer o máximo de vagas com prejuízo óbvio para a qualidade do ensino – também acontece nos próprios jornais da cidade. Com algumas exceções, quem vai trabalhar num caderno de cultura é quem não está fazendo falta na seção de Cidades, ou quem pegou uma assessoria de imprensa e não quer ser demitido ou ferir a ética da profissão – sim porque jornalismo cultural não é jornalismo.
O resultado desse descaso é a transformação dos cadernos de cultura em colunas sociais e propagandas incensadas da arte canastrona-mas-amiga-do-chefe-de-redação. Não há uma nesga de senso crítico, e parece que a própria classe artística gosta disso, sente-se segura e intocável no provincianismo. Faz qualquer coisa, ganha a capa do caderno e tudo fica por isso mesmo. Não há discussão sobre políticas culturais – ou a falta delas – ou sobre estética, nem uma pesquisa sobre movimentos artísticos alternativos. A culpa não é só do despreparo do repórter – são poucos os jornalistas amazonenses que entendem e escrevem sobre arte –, mas também de editores que não instigam o trabalho de ninguém e fazem cara feia para qualquer coisa nova ou fato que vá chatear fulano ou beltrano. Trata-se de um certo paradoxo, pois imbuídos do desejo de “popularizar” os jornais, muitos editores só se interessam em dizer em “primeira mão” o que todos já ouviram.
Há um caso absurdo, que NEM se refere à cultura amazonense, relatado a mim pelo jornalista Omar Gusmão, que mostra bem isso. Ele quis escrever um artigo sobre a obra do Chico Science no dia em que chegou a notícia da morte do artista, mas o chefe de redação achou besteira dar destaque ao fato porque “ninguém conhecia Chico Science”. Para provar seu ponto, saiu na redação inteira perguntando a um por um quem conhecia o artista, e para espanto de Omar apenas ele e o editor do caderno o conheciam. Um ou outro disse “já tinha ouvido falar”. De qualquer forma, mesmo que nem os próprios jornalistas soubessem da importância de Chico, que passassem finalmente a saber depois do artigo.
O bom jornalista parece que é aquele que desistiu, sabe-se prescindível diante de um bom humorista em qualquer lugar. Os bons, que ficaram, são carne de pescoço: continuam se levando tão a sério que não estão fazendo galhofa quando se dizem os olhos da sociedade, os fiscalizadores das misérias, mazelas e mazorcas estatais... besteira! Um jornal aqui pode publicar qualquer coisa desde que nunca deixe de trazer os classificados. Meu deus, onde estariam minhas putas, detetives particulares e necrológios? Mais uma vodka. Desta vez me traga uns amendoins. Talvez, se salgasse o céu da boca, chegava finalmente ao discurso impróprio; essa azia, coágulos nas papilas, bafo de coco verde vazio. A vodka era barata e perdi todos os trens... meu discurso é um polegar tonto pedindo carona. Péssimo dia pra beber. Aqui, jornalista nunca toma partido, mas se filia ao PT.
tags: Manaus AM cultura-e-sociedade jornalismocultural cadernodecultura vodka
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Ei Valentim! Fiqui intrigado com o começo do seu texto. Achava que só a Cyndi Lauper tinha gravado True Colors - foi confusão ou tem uma versão da Madonna mesmo?
Saulo Frauches · Rio de Janeiro (RJ) · 27/2/2007 17:05
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foi confusão mesmo. ouvi a música e na hora lembrei da madonna. valeu pela correção, já vou mudar lá!
daniel valentim · Manaus (AM) · 27/2/2007 20:53
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Essa passagem do Chico Science foi foda, cara! Aqui em Boa Vista também não é diferente, acredito até que é pior. A qualidade dos jornais locais é uma bosta! Sem falar na falta de revisão, que dificulta e muito a leitura.
A escolha de um curso superior, hoje em dia, nem sempre é feita por tesão de verdade pela profissão.
Parabéns e abração
Marcelo Perez · Boa Vista (RR) · 1/3/2007 16:25
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Infelizmente essas práticas não são restritas a sua Manaus. Ah, se o jornalismo cultural se levasse a sério. Eu mesma já tive uma pequena experiência na área e tive que escrever sobre coisas desinteressantes, só porque o fulano era influente e tinha contatos no jornal. Era filho não sei de quem, era anunciante... Triste realidade...
Andressa Back · Fortaleza (CE) · 3/3/2007 00:22
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É como a Andressa disse mesmo. E a 'política do reflorescimento' não é restrito a Manaus. Aqui, por exemplo, a maioria das produções (principalmente teatrais) são oferecidas pelo Sesc. Infelizmente.
Marcos Paulo · Porto Velho (RO) · 3/3/2007 11:09
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Divulgação cultural? E em BH? Não sei agora, mas por vários anos...até uns 2 anos atrás, se vc chegasse ao posto turístico da prefeitura na Av. Afonso Pena (hipercentro) para solicitar um Guia da cidade só forneciam se você fosse de fora. Políticas... Humpf! Se vc fosse de BH, então teria que apanhar um Guia em outro endereço de acesso mais difícil.
Complicado, né? Quer dizer, então o belorizontino não precisa conhecer a sua cidade. Ao invés de facilitarem, incentivarem...se virarem para transportar os Guias até a população, ficam complicando. Então, depois ainda vem falar em educação pública, boa recepção aos turistas, incentivo ao turismo. Ninguém merece...
apple · Juiz de Fora (MG) · 3/3/2007 11:27
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É uma realidade triste esta descrita por vc. Mas não desista. A gente sempre dá um jeito de ir colocando pautas mais ricas, devagar....e sempre!
Roberta Tum · Palmas (TO) · 3/3/2007 14:53
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Ah sim... álcool e falta de assunto, os pilares do Jornalismo.
genial
rafael_evangelista · São Paulo (SP) · 3/3/2007 18:10
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é mais fácil acreditar em papai noel do que no jornalismo cultural dessas redações
Pio Lobato · Belém (PA) · 3/3/2007 22:43
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Uma das coisas que mais detesto em cadernos culturais é a total falata de crítica, ou falta de críticos. Tanto faz. Será que ninguém tem opinião nesse porra? É só serviço, serviço, serviço. Ninguém mais dá a cara a tapa? Não vejo um jornalistra que seja escrever como foi um evento em sua opinião. Os caras se limitam a lewr os releases e fazer um "testículo" babndo o ovo de quem quer que seja. Estou farta! Só leio mesmo o horóscopo...
ella · Cametá (PA) · 4/3/2007 11:15
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(MOVIDA PELA EMOÇÃO COMETI VÁRIOS ERROS DE DIGITAÇÃO, AGORA VAI O TEXTO CORRIGIDO)Uma das coisas que mais detesto em cadernos culturais é a total falta de crítica, ou falta de críticos. Tanto faz. Será que ninguém tem opinião nesse porra? É só serviço, serviço, serviço. Ninguém mais dá a cara a tapa? Não vejo um jornalistra que seja escrever como foi um evento em sua opinião. Os caras se limitam a copiar os releases e fazer um "testículo" babando o ovo de quem quer que seja. Estou farta! Só leio mesmo o horóscopo...
ella · Cametá (PA) · 4/3/2007 11:17
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colunista social, isso é profissão? (é uma vergonha!!!)
cultura?? só no rodapé
puxação de saco? pra que economizar se dá em uma página toda
falar de banda desconhecida?? pra que ajudar se ela é desconhecida mesmo....
acho que é por aí o pensamento destes seres...
ah! e colunista social, é profissão? NÃO(é uma vergonha!!!)
Rafael D. · Manaus (AM) · 19/3/2007 15:21
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É Daniel eh fogo! E ai rapaz como c tah. Lancei um texto sobre o mesmo tema essa semana por aqui. Abraço
TAPAJÓS_Leandro · Manaus (AM) · 13/4/2007 13:43
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