DESSANA, A FORÇA DE UMA ETNIA
A etnia Dessana tem sua origem no Alto Rio Negro, ás margens do rio Tiquié, bem perto da fronteinas com a Bolívia.
O pajé curandeiro Kisibi Kumu orgulhoso do fortalecimento de sua cultura fala de detalhes da trajetória milenar da etnia. Ele faz questão de dizer que o relato é baseado em tudo que aprendeu com seus pais e avós, uma tradição que ele com muita luta tenta conservar.
Atualmente eles residem no baixo Rio Negro numa área própria e até pagam impostos. Sobrevivem do turismo, artesanato e outras sabedorias indígenas, não possuem assistência da FUNAI. Dentista é particular, quanto as outras doenças são tratadas pela sabedoria do Paje Curandeiro Kissibi Kumu.
Estão em Manaus desde 1995, porem o Pajé lembra que seus pais, avós ficaram no cemitério da Missão São João Bosco, no Alto Rio Negro . Ele se entristece quando fala sobre Pari Cachoeira:
- Os padres chegaram eu era menino, tentaram nos catequizar, acabaram com nossa cultura nos obrigaram a rezar. Nossa riqueza, tradição tomaram tudo falando que era “coisa do diabo”, pecado mortal, hoje cobram 20 dólares por turista para ver nossos instrumentos no museu de Manaus.
Segundo a filha do pajé, Dyakapiro (sereia da água), os padres chegaram para catequizar os índios, separaram os rapazes e moças para não “pecarem” e levaram para o internato onde eles trabalhavam serviço pesado debaixo de leis rígidas. Em caso de desobediência eram castigados com régua de madeira ou então com um barbante amarrado na língua.
Pari Cachoeira se tornou uma cidade católica, os instrumentos indígenas foram recolhidos e estão em Manaus no museu até os dias de hoje. A casa indígena ficou conhecida por Maloca junção de mal e oca, devido aos rituais indígenas considerados “coisas do demônio”.
Dyakapiro diz que ouve histórias dos mais velhos como a do exército que construiu três quartéis e os soldados engravidaram muitas índias.
O pai completa:
- Mas eu recuperei tudo, fiz novos instrumentos, ensino a música, a comida para minha família e tenho orgulho disso, não tenho medo de “morrer queimado no fogo” como diziam os padres.
O Pajé Kissibi participou do filme Tainá I e já gravou a participação no Tainá III como pajé curandeiro que espanta o espírito mau e resgata a natureza.
A crença Dessana sobre a morte é bem interessante, assim ele explica:
- Quando morre o corpo fica na terra, a alma vai para cima e a sombra volta para sua origem. Borika (Deus), mora no espaço e nós somos um pouco Dele, quando morre volta e a sombra continua na Terra, por isso temos a força dos antepassados.
Uma longa tragada no cachimbo e conclui:
- Se não existisse essa sombra, os indígenas não existiriam mais na Terra. Essa sombra que ensina os remédios com plantas, as orações tradicionais. O branco marca tudo no papel, o índio tem tudo na cabeça.
Continua:
- Aprendi aos 10 anos de idade as rezas tradicionais com meu pai. Toda noite ele me ensinava até as três da manhã durante um ano. E depois fazia a prova e me dizia: “Filho agora voce vai ser o professor: me conte tudo o que ensinei pra ver se aprendeu”.
Segundo ele a origem Dessana é milenar e começou no Rio de Janeiro nos morros. Seus antepassados eram invisíveis até que Borika construiu uma canoa de cobra onde foram embarcados 26 etnias diferentes tendo a Dessana como cabeça.
Desceram pelo leito do rio saindo do Rio de Janeiro até o rio Uaupés e na Cachoeira Ipanoré eles saíram em quatro buracos e ganharam forma humana.
Olhando para o céu ele diz:
- Logo depois do dilúvio Borika fincou o bastão no centro do mundo e marcou Norte, Sul, Leste e Oeste e em círculos o território indígena, por isso para os indígenas o mundo não tem fronteiras, eles são os pioneiros da Terra.
Nesse espaço perto de Manaus eles resistem conservando sua cultura. O pajé reconstruiu quase todos os instrumentos:
- Como eu vi meus pais fazendo, vou lembrando e construindo. Fico triste porque os padres nos ensinaram que não podia mentir, roubar... mas eles roubaram nossos instrumentos dizendo que iam queimar e hoje estão no museu do Indio em Manaus rendendo dinheiro para eles.
Os Dessana possuem regras que o Pajé tenta dar continuidade: o casamento entre indígenas com o parceiro escolhido por ele, só que a filha diz:
- Não sei se vai dar certo nos casar com índio, pode ser...Gosto de viver onde estou, sou feliz aqui, mas a escolha do parceiro deve ser minha com índio ou branco.
Para Kissibi Kumu o homem branco tentou mudar a cultura indígena no início, mas atualmente há uma troca de idéias favorável a branco e índio. Exemplo do celular, computador, internet. Se o indígena souber usar lhe será útil, porem existem coisas que atrapalham e em sua concepção a pior é a bebida alcoólica, pois o índio não sabe lidar com ela.
No Encontro de Culturas na Aldeia Multietnica os Dessana apresentam seus rituais com muita classe e orgulho, são exemplo de persistência, de união e força.
Kissibi Kumu - Um amigo, um grande homem que une esta família como nínguem e luta por sua cultura.
Marcelo AZENGO · São Paulo, SP 23/7/2010 20:58
Opa, Sinvaline,
Que história! Curioso ver a reivindicação dos índios pelos instrumentos que estão no museu em Manaus. Você diz que eles têm no turismo uma atividade forte da aldeia. Há muitas etnias hoje que têm o seu próprio museu, narrado em 1ª pessoa. Os dessana têm o museu deles?
É uma especie de museu, só que nao tem os objetos antigos, só os reconstruidos, recebem turistas para ver as danças, comidas tipicas, medicina natural e até fazem casamentos na aldeia
obrigada
Marcelo voce que conheceu sabe como eles lutam para preservar seus costumes.
abraços
" Sinvaline, e isto o que chamo de cultura e resistência ...
Joizimar Titoneli · Uruaçu, GO 24/7/2010 10:08
Sivaline,
Pedagógico o seu texto. Gostei!
Conheço o Museu do Indio de Manaus. Uma referencia em diversas culturas indigenas, e isto, penso, só valoriza as etnias. Quando lá estive, paguei 5,00 o ingresso e não creio que os objetos de lá sejam roubados.
bjs
Droni a consideração "roubados" é a dos indigenas. Se sentem assim, porque lhes disseram que os objetos seriam queimados. O caso dos Krahô que recuperaram a Machadinha Sagrada na USP. Os objetos sagrados para eles tem que ficar na aldeia, no caso o museu pode fazer uma réplica
abraços
Então, eles saíram do Alto Rio Negro e foram para as cercanias de Manaus. Dyakapiro, por exemplo, aprendeu a falar português com 17 anos. Seu pai, sr. Kasibi, conseguiu ensinar aos seus filhos a língua Tukano. O idioma Dessano, é pouco conhecido entre os descendentes dele: Regis, Dyakapiro e Giseli, além de outra filha que não veio ao encontro. Eles fazem apresentações em uma propriedade deles, há 20 min de Manaus, conseguida com muito custo pelo Sr. Kasibi.
Eles estão muito expostos a cidade e por isso convivem bem com o idioma português e outras línguas estrangeiras. Por isso, diante do "assédio" da civilização, é que eu digo que o Sr. Kasibi é um herói, verdadeiro guardião dos costumes Dessanos.
Sinvaline · Uruaçu, GO
DESSANA, A FORÇA DE UMA ETNIA
Um Trabalho Extraordinário com a sua Marca de Beleza e Humanidade.
Seu Trabalho cheio de vida, reaviva as razões e convicções pra gente ter argulho e amor por nossa Terra e nossa Gente.
O Brasil é uma terra abençoada, maior alegria ve-lo amado e respeitado pelo Mundo afora.
Parabéns Mestra Amiga.
Você tem todo Merecimento.
Abração Amigo para todos.
Marcelo suas considerações ajudam a esclarecer, porque sempre digo: não há como entender o indigena e seus anseios sem estar junto, por mais que se escreva, só a convivencia direta pode nos levar ao mundo indigena. Vc esteve aqui e viu um pouco disso, obrigada
sinva
Sabe Azuir, as vezes eu lia Orlando V Boas e outros autores e imaginava que escrevessem um pouco fantasiando, mas hoje afirmo com muita segurança que os indigenas são realmente "gente pura" em sua essencia total. Vale a pena a convivencia.
obrigada amigo, bjs
Sinvaline um forte abraço! belo exemplo dessa etnia Dessana, um bom momento para o homem branco refletir e reconhecer o mal que ele fez aos donos da terra prometida. Abraços!
nildo dilfreitas · Brumado, BA 25/7/2010 12:28
Oi Nildo, aqui no Encontro hoje temo o Samba d eViola de Simoes Filho tambem, lindo! Obrigada
Sinvaline · Uruaçu, GO 25/7/2010 14:15Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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