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'Deus me fez, e eu faço Deus'

Tati Magalhães
Maria José: da cabeça, os versos. Das mãos, a leitura.
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Tati Magalhães · Maceió, AL
1/12/2006 · 168 · 11
 

A frase do título veio solta, dita quase como uma homenagem. Veio do mostruário de garrafas plásticas de amaciante recortadas, em formas de palavras marcadas por pontos. Todas devidamente espalhadas na mesa. Letras recortadas e unidas. Letras pontilhadas pelo reglete, pontos que acompanham as letras e dão possibilidade de leitura ao tato. Deus está no meio delas, entre Maceió, Alagoas, Brasil. Entre o sem e o cem (“a preposição e o numeral”, frisa ela, a criatura criadora). Entre a vida e a criação.
- Olha aqui Deus. Deus me fez, hoje eu faço Deus.

Foi entre as suas peças de plástico de finalidade tátil que Maria José de Oliveira me recebeu. Para falar da sua vida, da sua obra, com um sorriso no rosto e papéis e plásticos nas mãos. As histórias são muitas, contadas com paixão e detalhes. Os cordéis somam 14, desde que começou a escrevê-los, depois de perder a visão, aos 18. Além deles, tem vários outros poemas “eruditos”, como define; mais um livro de técnica específica de matemática para cegos (uma inovação à época, segundo algumas fontes que acompanharam esse processo); uma cartilha feita com os desenhos de plástico e as palavras em Braille e algumas peças teatrais, como “A conquista do novo reino”, uma ficção sobre a vida de Abraão. Católica convicta e fervorosa, formada em história e teologia, D. Mazé derrama seus textos desafiando a memória, com a certeza de quem sabe que faz cultura. E com a tristeza de quem acredita que a verdadeira cultura está morrendo. “Só existe no nome e nos papéis dos políticos”, lamenta.

Os recortes em plástico ela começou a fazer há oito anos. A cartilha, puxou logo para que eu visse e tocasse. Contou que mandou sua criação para um congresso de cegos no Espírito Santo, e uma cópia foi parar em Brasília, onde havia sido aprovada por uma equipe de especialistas. “O cego não vê a flor, mas na minha cartilha ele pega na flor”, explica a senhora de voz grave e jeito doce. Aliás, não posso cometer aqui o erro que cometi ao telefone e pessoalmente: tratá-la de maneira formal.

“Não me chame de dona nem de senhora, senhora é para quem é casada”, me avisa “a menina de seis anos que na verdade são sete”. Os anos são décadas, claro; e a confusão é proposital. A história é que Mazé não tinha documentos quando decidiu dar continuidade aos estudos, e a idade máxima permitida na escola era de 20 anos. Lá, eram exigidos documentos, diferentemente da escola onde estudou em Pernambuco. Ela já tinha 30, não quis perder a oportunidade e não contou conversa: tirou a carteira de identidade com 10 anos a menos. Hoje, a mulher nascida em São José da Lage (AL) e criada em Canhotinho (PE), para onde foi com oito anos de idade, mora em uma casa construída com o suor do seu trabalho, “sem dever favor a ninguém”, como faz questão de frisar. Aposentou-se como professora do Estado. Diz ter sido uma das fundadoras da escola estadual de cegos Cyro Aciolly, onde ainda atua como voluntária, organizando anualmente o casamento matuto nas festas juninas “como deve ser, cultural e religioso, e não com essas pornografias de hoje” , diferencia. Mora com Helena, uma mulher simpática que a acompanha há 28 anos e é também a única herdeira de Maria, que não casou e perdeu a mãe e o pai na adolescência.

Ela veio para Maceió na cara e na coragem. E sem enxergar, em um tempo em que deficiente visual era considerado incapaz. Trabalhou “da roça ao gabinete do governador”. Os primeiros empregos na capital alagoana foram como doméstica. Recebia só moradia e comida. Mudou seu destino quando decidiu falar diretamente com o governador Major Luís Cavalcante, que a empregou. O trabalho na imprensa oficial lhe permitiu publicar seu primeiro cordel sobre um fato histórico: “O Incêndio no Mercado”, de 1962, conta o dia em que o mercado público de Maceió pegou fogo. Para transformar o fato em versos, foi no local conversar com os feirantes e ouvir da boca do povo o que se passou. Maria escreve os cordéis em Braille, para que possa ler, mas nunca conseguiu publicá-los desta forma. Seus escritos estiveram disponíveis apenas para os que podem ler com os olhos. Hoje, estão esgotados. E apesar de ser membro da Academia Maceioense de Letras e ter recebido até Comenda (“que antigamente era dada somente às famílias reais”, orgulha-se), ao que parece – e para sua tristeza declarada – ninguém se preocupa em republicá-los. Nem em Braille, nem à tinta.

Mas apesar a sua “estréia” como cordelista ter sido sobre um fato real, é na temática religiosa que Maria mais produz. Não poderia deixar de ser: tem curso de teologia no seminário, além do curso de pedagogia e catequese. Passou 15 anos ensinando meninos para fazer a primeira comunhão na catedral de Maceió e mais cinco na igreja São Benedito, também em Maceió. Estudou, em Canhotinho (PE), em uma escola paroquial. Seu cordel preferido é “Vítima do Dever”, cuja última edição (a 3ª) data de 1990. Conta a história de um padre francês que sofreu o diabo para proteger um segredo de confissão, e é inspirado em um livro homônimo.

Senhores vou descrever
Com bem pontualidade
Pois o valor dessa história
De empolgante verdade
É um dos maiores fatos
De toda humanidade


Nas 36 páginas que se seguem, uma história que Mazé me conta oralmente, sem rima, em cerca de 30 minutos, como se a França de 1819 (ano em que se passa a história) fosse repleta de homens do Nordeste, de cabras danados e sotaque carregado. Como se precisasse disso para, mais uma vez, crer na força do seu trabalho e me fazer crer no que fala. Aliás, os momentos de narração são os únicos em que ela não interrompe o pensamento para dizer o que está lendo (enquanto fala, nas mãos estão as palavras de plástico): “olhe, aqui é um cavalo. Isso aqui é uma palavra com acento. A maior letra em Braille é o E com acento”, diz, pausando as respostas às minhas perguntas.

Maria José começou a escrever cordel após ficar cega, mas a paixão pela poesia popular vinha de quando enxergava o mundo com os olhos de fora. Veio da tradição nordestina das feiras do interior, onde os poetas penduravam seus escritos em cordas, e recitavam para os compradores. Quem se interessava, levava para casa. Talvez toda a devoção a tenha ajudado a superar a perda da visão, e buscar nas histórias rimadas outras possibilidades. Mas nada valeria sem a força interior, sem a sua capacidade de acreditar no seu potencial, como revelam os primeiros versos de um de seus cordéis mais clássicos, “Ou sou, ou deixo de ser”:

Com Deus tudo é possível
Também querer é poder
Quero e posso muito bem
Minha função exercer
Lutarei constantemente
Serei muito mais para a frente
Ou sou, ou deixo de ser

Eu tenho disposição
Boa vontade a valer
Coragem para emprestar
Para dar, para vender
Ainda me sobra coragem
Essa é a minha imagem
Ou sou, ou deixo de ser.


Foi trabalhando na imprensa oficial do Estado que aprendeu a imprimir seus cordéis (que também datilografava) e encaderná-los. Vendia-os na feira, para poder pagar os estudos. “Quando consegui o emprego, o pessoal dizia: vá estudar não, você já tem emprego, não precisa. Mas aí eu dizia que agora que eu tinha emprego era que ia estudar mesmo, porque podia pagar a escola”. Estudou no colégio São José, onde concluiu o 1º grau (atual ensino fundamental). Quando terminou o segundo grau (ensino médio), não podia continuar a vida de estudante, porque não tinha curso superior à noite e ela trabalhava os dois horários na Sergasa (imprensa oficial). Mais uma vez, tomou coragem e falou com o governador, à epóca, Lamenha Filho. Isso foi em 1971, pelas suas contas. “Eu quero fazer vestibular e continuar estudando, mas não quero perder meu trabalho”, disse, imperativa, ao homem que mandava no Estado. Acabou ganhando emprego no seu gabinete. Foi então que passou para o curso de história. Ainda fez teologia no seminário arquidiciocesano. E, mais uma vez, foi correr para o gabinete dos donos do poder, dessa vez para pedir para sair e exercer a profissão. Agora, foi Suruagy que lhe ajudou. A escola onde estudou o Braille foi extinta, e o governador lhe falou do novo projeto para a escola de cegos. Foi a primeira professora da escola, onde trabalhou por 28 anos. Ensinou religião, claro.

Maria fala da própria vida com certo cuidado, ora como se estivesse guardando histórias para futuros escritos, ora compadecida pelas complicações da idade. Prefere contar dos que já foram, dos fatos que renderam cordéis, como os casos de cura com medicina popular, algumas da sua família. Também escreveu um outro, mais descompromissado, “A Garrafada do pai João”, um “humorístico”, como define. Uma garrafada feita, nas suas palavras, com coisas que não existem:

Sete quilos de fumaça
Um metro da cor do vento
Cem gramas de honestidade
De um político cem por cento
Terra do rastro da alma
E o volume do momento


Sobre as histórias de cura, Maria conta que ela mesma ficou cega com três dias, o que fez com que seus pais a “entregassem” para ser afilhada de Virgem Maria e São José. Recuperou a visão, para poder ver as cores do mundo e tê-las na memória após a segunda perda. Atualmente, escreve sua biografia, também em cordel, não publicada e apenas recitada para mim. Através do cordel, que conta ser mais antigo que a própria bíblia.

Senhor Deus autor da vida
Ao teu lado noite e dia
E também com meus padrinhos
São José e a Virgem Maria
Com sua graça me dê
Inspiração para eu escrever
A minha biografia


Além deste, Maria prepara ainda um outro, onde deixa claro uma certa intolerância com as mudanças culturais. “Falo que homem tem que se vestir como homem, mulher como mulher. Esse negócio de homem vestir saia, mulher vestir calça, está tudo errado. E padre tem que vestir batina”. Eu estava de calças, mas nem toquei no assunto. Nem poderia. Certas convicções, quando ditas por certas pessoas, não merecem ser questionadas, nem desafiadas. E assim passou a tarde, caiu a noite e veio a chuva. Maria pediu meu retorno. Pediu para ajudá-la a republicar seus cordéis. Chorou porque não tinha cópia de todos para me dar. Falou que nada deveria ser entendido ao pé da letra. Deus a fez. E ela faz Deus.

E quem sou eu para questionar as certezas dos versos?

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Saulo Pinho · Maceió, AL 1/12/2006 11:54
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André Paulista · Natal, RN 1/12/2006 22:39
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Oona Castro · Rio de Janeiro, RJ 4/12/2006 00:42
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Erika Morais · São Paulo, SP 5/12/2006 15:14
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Tati Magalhães · Maceió, AL 5/12/2006 15:51
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Anderson Frasão · Canhotinho, PE 12/7/2009 14:45
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