Devo não nego, pago quando puder

divulgação Antonio Rezende
O criador e a criatura: Rezende acerta suas contas poéticas
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Glês Nascimento · Palmas, TO
6/6/2007 · 171 · 14
 

“Acerto de contas”, de Antonio Rezende, liquida dívidas com o passado poético, encanta pela intensidade e abre nova promissória para o poema infinito

Capítulo1 – Poesia: crer ou não crer? Eis a questão
Num bar à noite confesso a Antonio Rezende - poeta, jornalista por vivência, intensidade e sensibilidade – que não gosto de poesia. Digo: “para mim, quem escreve poesias é meio canastrão, prefiro a crônica à poesia: que sempre tem início meio e fim, acho que isso impede o autor de enganar o leitor. A crônica é mais que só palavras soltas em busca de melodia”. Fui ácida. Mas ele apenas sorriu. Ele veste camiseta e calça jeans. Senta-se ao lado do também jornalista e poeta Gilson Cavalcante e brinca com o vício do amigo: “Não agüento esse povo que fuma”.

Antes, quando fui ácida, ele me contava de seu livro “Acerto de Contas”, uma espécie de pagamento à vista a um passado ao qual se havia dado cheques em longas prestações. “O acerto de contas é comigo mesmo e com o passado”, disse-me em outra oportunidade, mais ou menos duas semanas depois do encontro no bar.

Explica-se: o primeiro livro de poemas de Rezende foi quase todo escrito na década de 80, quando aos vinte e poucos anos, em São Luís (MA), militava intensamente na vida cultural e política e ingressava na Universidade Federal do Maranhão, onde tentou cursar Letras, Jornalismo e Direito, sem concluir nenhum dos três.
O livro veio para resgatar os poemas que já deveriam ter sido publicados - bem que ele tentou em 1990, quando se mudou para Araguaína, época da criação do Estado do Tocantins -, mas que se perderam em meio a vários documentos em um velho Itautec DX2, como descreve o historiador e jornalista Otávio Barros, no prefácio de “Acerto de Contas”.

Duas décadas depois, incomodado pela sombra da “poesia/ como fantasma/ rondando a casa...” (Blues da Solidão, poema recente que integra o livro) e intimado pelos amigos Fernando Abreu, Celso Borges e Nilo Alves, eis que o poeta salda a dívida consigo mesmo e lança seu acerto poético. O livro foi sucesso na 3ª edição do Salão do Livro, em Palmas, e está sendo lançado em outras cidades do país. “ Estamos programando uma série de lançamentos fora. Lançamos em Brasília, no dia 25, e lançaremos em São Luís e Araguaína na até o final de junho”, planeja.

Sobre o título deste capítulo, é preciso voltar uma semana antes do encontro no bar. Estava eu na redação quando um amigo me entregava o livro de Rezende. Capa preta. Um bueiro. Ao fundo a luz. A luz no fim do bueiro, ou do túnel, como queiram. Era o "buraco da fechadura” – abstração pura, talvez o local por onde Rezende escapou do passado, para escrever uma nova história a partir do livro, ou só uma luz. Repeti a ele o que eu disse depois ao autor: que poesia não me agradava mais como na adolescência. Nem Augusto dos Anjos, nem Baudelaire... encantavam-me mais. Disse isso até abrir o livro. Gostei do material com o que ele foi feito: reciclado. São 112 páginas de uma poesia densa e simples, paradoxalmente.
As fotos são do próprio Rezende e tiram algo de jornalismo, num preto e branco plástico e aspirador do real.

“Eu fotografo há muito tempo”, disse Rezende. Considera-se amador, mas tem boas fotos em dois projetos, os blogs Bar dos Bardos e Lorota Boa, e uma galeria no site Olhares, onde publica algumas fotos. “No Bar dos Bardos ilustro poemas meus e de outros. No Lorota Boa, coisas, as plantas e os bichos retratados ganham vida e interagem com o fotógrafo provocando situações de humor que resultam em pequenas historinhas”, define.

No livro, me prendi pelo que mais critiquei, e em sua Lição Contemporânea, Rezende me fisgou: “a poesia é uma maldição / só vale o lodo do poema/ necessário e inútil”.

Zeca Baleiro, amigo e contemporâneo de Rezende em São Luís, também duvida da poesia, como declara na orelha de “Acerto de Contas”, escrita em março de 2007. “Hoje quando tantos alardeiam a ‘morte’ da poesia (eu mesmo já não sei se creio nela como antes!) Rezende investe na publicação de poemas e alfarrábios, o coração em fogachos ao modo de um Baudelaire tapuia”, afirma. E rasga elogios ao amigo. “Se existe uma palavra que possa definir o poeta Rezende, essa palavra é intensidade. Sangüíneo, anatomia louca, todo coração”, escreve Zeca, em trecho da apresentação do livro.

Mas é apocalíptico quanto ao futuro da poesia. "Pode ser que não haja mais futuro mesmo na poesia literária. Talvez o mundo hoje precise mais de gestos que da mágica não utilitária da poesia”.

Para Rezende, os parceiros, que descreveram sua obra, são pessoas que antes de uma relação de amizade, têm uma visão do que é a literatura enquanto instrumento de culto do belo, mas também da transformação da vida em sociedade. Além da apresentação de Baleiro, e do prefácio de Otávio Barros, o livro traz depoimentos de Fernando Abreu, Gilson Cavalcante e Celso Borges.

“Eu acho que a literatura não pode fugir dessa responsabilidade social. Tem gente que acha que é rimar amor com dor, e mamãe quando nasce põe a mão no coração e pepepê, caixa de fósforos... eu acho que não. A poesia tem que ter também o compromisso de mudar a vida em sociedade, senão não tem sentido”, categoriza.

Capítulo 2 – Poesia cosmopolita

Defensor ferrenho do gênero, Rezende o escolheu pela sonoridade. “Eu faço crônicas, mas me amarro em poesia. Que massa descobrir a sonoridade das palavras! Trabalhar com elas, provocar sentimentos nas pessoas e fazer isso de forma simples”, entusiasma-se.

Eu curto poema curto é assim: simples e direto, e abre o capítulo de poemas mais sucintos. “O poema curto tem um poder de síntese grande e sempre ganha no aspecto gráfico como esse: ‘eu curto poema curto’. É uma declaração, uma palavra de ordem, como ‘Poeme-se!’”, complementa Rezende.

Nadando contra a maré, inversamente ao sentido da poesia regional, pelo qual muitos poetas tocantinenses enveredam, Rezende prefere a inspiração cosmopolita. “Tenho a preocupação de fazer poesia para que ela tenha a sua universalidade. Não se pode pensar, ‘vou fazer poesia para Palmas’. Porque Palmas está dentro de um contexto que é Brasil, e que é mundo”, analisa.

Ele homenageia a capital mais nova do país com A melhor rima de Palmas: “haja paciência / pneu e gasolina / pra tanta distância / e falta de esquina”. Não é preciso dizer mais nada; quem conhece sabe.

“Eu acho que gente é gente em qualquer lugar, e sentimento também; claro que há realidades diferentes, que interferem na produção literária de cada um, mas sempre procurei fazer poesia falando do quintal para o mundo”, frisa.

Quanto à exclusão cultural dos estados menos conhecidos pelo público do eixo Rio-São Paulo, Rezende faz suas observações. Para ele é preciso voltar os olhos ao que está acontecendo no interior. "Eu recebi um e-mail de uma pessoa perguntando quanto ficaria para mandar o livro daqui do ‘fim do mundo’ (o Tocantins) para onde tudo acontece. Essa pessoa vive na região metropolitana de São Paulo, de fato, onde tudo acontece, inclusive acidente, engarrafamento, assalto, neurose”, brinca. “E essa pessoa mandou uma quantia superior num tom ‘jocoso’: ‘aí, no fim do mundo’, e ‘aqui, onde tudo acontece’. Eu acho que num momento em que se percebe a tendência das pessoas de saírem de grandes centros para cidades menores, para viver de forma tranqüila, há que se questionar: onde é mesmo o fim do mundo?”.

Segundo ele, vale à pena treinar o olhar sem preconceitos sobre o interior brasileiro. "Eu quero continuar fazendo arte e escrevendo; e vou caçar cada vez mais lugares mais tranqüilos, mais solitários. Quando eu quiser ficar maluco, vou a um grande centro, como sempre faço”.

Último capítulo – mea culpa

Esse é Antonio Rezende. Tocantinense de Araguaína, que viveu em São Luís (MA) e atualmente mora em Palmas. Com vários trabalhos publicados em suplementos, jornais, revistas e antologias, além de prêmios em festivais de poesia falada e participação em recitais. Está com dois livros no prelo: Lenitivos e Versos para Fotografias.

Poeta que está entre os artistas que participam do livro-CD Música, obra do escritor Celso Borges, também lançada no Salão do Livro. O livro-CD reúne mais de 50 artistas de todo o Brasil, entre eles os compositores Chico César, Zeca Baleiro, Vitor Ramil, Carlos Careqa, Assis Medeiros, Cléber Albuquerque, Lirinha (Cordel do Fogo Encantado) e Décio Rocha; os poetas Sérgio Natureza, Micheliny Verunschk, Lúcia Santos, Fernando Abreu, Ricardo Corona e Ademir Assunção; e as cantoras Ceumar, Miriam Maria, Vanessa Bumagny e Vange Milliet.

Esse acerto de contas também é meu. Voltei a acreditar na poesia, voltei a escrever para o Overmundo e, depois de semanas com esta matéria, finalmente a conta está temporariamente zerada, até que novas pendências ressurjam. Pois, como diz o poeta: “o poema não pára aqui”.

Serviço
Livro: Acerto de Contas
Autor:Antonio Rezende
Editora: Kelps; 112 páginas
Valor: R$ 15,00
De fora: R$ 20,00
Contatos do autor: pontodeprosa@uol.com.br

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comentários feed

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Helena Aragão
 

Valeu por apresentar o Rezende, Glês! Dou a maior força pra ele postar uns poemas no Banco pra gente poder sentir qual é o aroma do livro. Bjo

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 5/6/2007 18:14
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
jjLeandro
 

Boa reportagem, Glês, à altura da poética rezendiana.
Conheço o poeta e conheço muito das poesias, algumas, salvo engano, postadas aqui no Overmundo.

Não concordo entretanto com seu ceticismo quanto à persistência da poesia, mas isso é questão de ponto de vista. Aliás, defendo todos os gêneros literários, pois a diversidade nos é saudável.

Parabéns, a você e ao poeta.
Abcs

jjLeandro · Araguaína, TO 6/6/2007 17:01
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Daianne Fernandes
 

Glês.. gostei muito do texto. Conheço o Rezende, sua poesia e seu olhar fotográfico tão poético quanto as linhas que escreve... Muuito bom!

Daianne Fernandes · Palmas, TO 6/6/2007 17:36
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Glês Nascimento
 

Helena, obrigada! Estou de volta a ativa. JJ, não é que eu não goste de poesia, apenas prefiro as crônicas, talvez pelo meu lado jornalista de achar que toda história deve ter início, meio e fim. Mas, na adolescência, me encantava muito por poesia...só que acho que hoje em dia muitos que se dizem poetas são, na minha opinião, apenas canastrões. Para mim há uma banalização da poesia...e acho que, como disse Baleiro, o destino da poesia não é mais o mesmo de antes...mas concordo com você: viva a diversidade!!!! E viva os que amam poesia, graças a Deus, e que ainda conseguem fazer dela a magia intensa que encanta a muitos...

Daianne, que bom que gostou! Estava meio enferrujada. Depois de tantas mexidas na sala de edição ainda vejo algum errinho aqui e acolá. Ai ai...perfeccionismo maldito!

Glês Nascimento · Palmas, TO 6/6/2007 18:02
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Tom Damatta
 

Tom Damatta · Araguaína, TO 6/6/2007 20:21
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Tom Damatta
 

Gostei muito da matéria, Glês. Tenho o livro. Muito bom.

Tom Damatta · Araguaína, TO 6/6/2007 20:24
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Inês Nin
 

muito bom, Glês! e me junto à Helena Aragão: quero ler um ou dois poemas no banco, para conhecer do que se fala! :)

Inês Nin · Rio de Janeiro, RJ 7/6/2007 16:07
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Tom Damatta
 

Helena e Inês.
Na janela "Veja também" (lateral direita da publicação da Glês, no alto da página) vi pelo menos quatro links para poemas do Rezende já publicados no Banco de Cultura: DECLARAÇÃO PRIMEIRA, SOLIDÃO DE AGOSTO, MANHÃ DE SEGUNDA e DEPOIS DAS QUEIMADAS.

Tom Damatta · Araguaína, TO 7/6/2007 20:19
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Inês Nin
 

ops! obrigada pela dica, Tom :)

Inês Nin · Rio de Janeiro, RJ 8/6/2007 16:34
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Flávio Herculano
 

Estou em divida com Rezende. Nao fui ao lançamento do livro e ainda, infelizmente, nao tive o prazer de adquiri-lo, folhea-lo, le-lo.

Rezende e admiravel. E uma das poucas pessoas que conseguem olhar o mundo com uma visao tao curiosa, livre e sedenta de conhecimento quanto uma criança. Alem disso, um agitador cultural nato, destes que o mundo (e sobretudo Palmas) tanto precisa.

Flávio Herculano · Palmas, TO 11/6/2007 17:46
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Flávio Herculano
 

Ha, e desculpem pelo teclado desconfigurado.

Flávio Herculano · Palmas, TO 11/6/2007 17:46
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carol de trancinhas
 

Muito legal a sua reportagem.

carol de trancinhas · Brasília, DF 25/7/2007 02:27
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overclown
 

glês...

depois de ler esta sua matéria, saí buscando no site publicações do antonio rezende que pudessem justificar o fato de você ter mudado de idéia em relação ao gênero poesia a partir do contato com o poeta. confesso que para mim foi uma manhã de redescoberta de um moço que conheci ainda nos anos oitenta, nos movimentos culturais e políticos do meio universitário, em são luís do maranhão. desde aqueles tempos ele já mostrava a que viria. fico feliz de constatar hoje a maturidade de sua produção. não sei se você conhece uma outra qualidade do poeta em questão: é um bom declamador de poemas. além de ser um cara que se morde todo quanto aos problemas sociais e políticos que tanto nos enojam neste país. meus elogios sinceros pela produção da matéria e por publicá-la para nosso conhecimento aqui. que maravilha o overmundo nos permitir isso.

ah!

me dá o prazer de te ver AQUI
DE FORMA LÚDICA E LÚCIDA

overclown · Alcântara, MA 25/11/2007 09:18
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overclown
 

outra coisa que esqueci de dizer.
o recurso de audio aqui é fantástico.
principalmente porque certas coisas dão arrepios na gente.

overclown · Alcântara, MA 25/11/2007 09:20
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