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Dicas de Composição Musical (Artigo 1 de 10)

Joana Teixeira
Flávio Lima
3
flaviolima www.flaviolima.com · Maceió, AL
16/12/2006 · 123 · 17
 

Este é o primeiro artigo de uma série na qual transmitirei algumas dicas sobre composição de música popular. Não abordaremos nesses textos o uso de partituras e sim da música feita intuitivamente, com o ouvido. Toda a experiência aqui relatada é fruto de vivências pessoais, de informações coletadas em fontes diversas e da observação de aspectos e comportamentos referentes ao meu próprio processo criativo, informações estas que tenho imensa satisfação de compartilhar com todos os leitores.

Primeiramente, para fazer música não é preciso ter algum dom supremo ou ser favorecido pela natureza com habilidades especiais ou extraordinárias. Esses casos existem sim, mas acredito que na maioria das vezes são as pessoas esforçadas e decididas e com força de vontade que conseguem fazer alguma coisa, que transformam sonhos em realidade por meio de atitudes ousadas e realistas.

Alguns compositores populares começam com a letra, outros iniciam pela melodia e alguns fazem os dois ao mesmo tempo, não há regras definidas. Um mesmo compositor pode num determinado dia iniciar com a letra e, noutra oportunidade, pode começar pela melodia, dependendo do humor, da vontade e de outros fatores que interferem no processo criativo do compositor. Pense nisso: por onde você prefere começar uma composição, pela letra ou pela melodia? É famoso o caso da canção “Satisfaction”, composta por Mick Jagger e Keith Richards, dos Rolling Stones. O guitarrista Keith Richards estava dormindo próximo à sua guitarra e a um gravador, como de hábito. Às vezes ele gravava algumas coisas durante seus cochilos, até que um certo dia viu que um trecho de fita havia sido usado. Ao ouvir a fita, o guitarrista percebeu que havia criado um riff interessante tocado em sua guitarra, em meio a alguns roncos: havia acabado de nascer a melodia (com três simples notas musicais) de um dos maiores hinos do rock, de modo bastante espontâneo e natural. A letra foi acrescentada depois com contribuições de Mick Jagger.

Lembro de que comecei a ter vontade de compor toda vez que ouvia alguma canção agradável (e isso continua a acontecer até hoje); pensava com convicção que também era capaz de fazer uma boa canção, à minha maneira. Esse é o primeiro passo, acreditar na própria capacidade. Tenha a certeza de que existem pessoas por aí que compõem maravilhosamente, têm muitas músicas guardadas em fitas cassete, letras escritas em blocos de anotações, mas que não acreditam no poder de suas composições. Essas pessoas têm um certo receio de mostrar seus trabalhos e acabam sendo um obstáculo a si próprias. Devemos nutrir a convicção de que cada um de nós é especial, porque ninguém tem a mesma experiência de vida que o outro. É esta experiência pessoal que molda e interfere nas letras e melodias que são produzidas, definindo o estilo do artista e estabelecendo o seu diferencial com relação aos outros músicos.

É esta diferença pessoal que vai definir a carga emocional a ser incorporada em cada canção que tocamos, compomos ou cantamos. É bastante interessante e recompensador sabermos que Deus nos fez para sermos diferentes e singulares. Não há quem não se emocione com o tom dramático do canto das lavadeiras, com a voz rouca e “rocker” de John Lennon cantando os dramas de sua infância ou do timbre rústico e verdadeiro de Jacinto Silva, Tororó do Rojão e Jackson do Pandeiro ao abordarem as dores e alegrias do povo nordestino. Esses artistas realmente descobriram como expressar sua marca pessoal; no início podem até ter imitado seus ídolos, mas depois encontraram uma definição própria de trabalho. É esta certeza do caminho encontrado que vai conferir segurança e confiança ao artista. Sendo assim, não fique aí parado, comece já a conhecer suas influências, gostos, preferências e limites; fazendo isso regularmente, sua personalidade começará a aparecer de modo natural e progressivo.

Considere-se uma pessoa dotada de um potencial infinito, pronto a ser trabalhado e desenvolvido; nunca diga que jamais vai conseguir compor nada que valha a pena. Por outro lado, não acho saudável encarar seus grandes ídolos como seres de outra galáxia, agraciados com uma força criativa inacessível a nós, simples mortais. É importante considerarmos os cantores e compositores dos quais gostamos como bons pontos de partida, como elementos de orientação e referência ao longo da estrada. Penso que o enaltecimento demasiado dos ídolos em detrimento do próprio processo criativo acaba gerando um processo de baixa auto-estima, enquanto o que precisamos é da elevação desta auto-estima. Nossos ídolos musicais foram e são pessoas iguais a nós, pertencentes a realidades econômicas, culturais e sociais mais ou menos semelhantes à nossa. Eles apenas concentraram suas energias para realizar seus sonhos e souberam aproveitar as oportunidades que tiveram.

Espero que este artigo tenha motivado você a descobrir o maravilhoso mundo da composição musical, nem que seja para tentar rabiscar alguma letra num guardanapo em mesa de bar. Nos próximos artigos, aprofundaremos o tema, abordando aspectos como: encaixe entre letra e melodia, quais temas escrever nas letras, ritmos, como ter inspiração para compor, mercado musical, divulgação e muito mais. Até a próxima!

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Valério Fiel da Costa
 

Legal, Flávio.

Apesar do tom "auto-ajuda", suas idéias me parecem ir de encontro às minhas próprias convicções sobre o processo criativo. Cuidado apenas para não levar isso como uma espécie de "missão divina" e como um meio de "salvar" algumas almas por aí. Temo que as idéias boas que existem no texto acabem se perdendo devido a isso.

Valério Fiel da Costa · São Paulo, SP 14/12/2006 15:46
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flaviolima   www.flaviolima.com
 

Oá Valério, tudo bem?

Fico feliz que tenha lido meu artigo e, sobre as opiniões contrárias às suas, gostaria de saber quais foram estas opiniões;

Nunca tive a intenção de implantar nenhuma "missão divina" em lugar algum, apenas de contribuir pela escrita para a elevação da auto-estima criativa de outros músicos e músicos potenciais. Também não tenho intenção de salvar nenhuma alma por aí...

Estes textos são apenas uma pequena contribuição minha como músico, além da habitual de somente compor e tocar. Além de compor e divulgar minhas músicas, costumo divulgar idéias positivas e estimulantes para outros colegas compositores; sabemos que existem pessoas que "escondem" seus processos de produção, com medo de mostrar o próprio trabalho e da concorrência. Prefiro, ao contrário, contribuir com o crescimento do conhecimento de todos de forma original e criativa e, com isso, eu mesmo crescer também com o processo.

No mais, fico aguardando seu retorno sobre que idéias conflitaram com as suas

Grande abraço,
Flávio

flaviolima www.flaviolima.com · Maceió, AL 14/12/2006 16:07
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Thiago Camelo
 

Oi Flavio, fiquei curioso pra ouvir o seu trabalho. Vc não quer postar alguma coisa no nosso Banco de Cultura, não? Ou no próprio Overmixiter... Abraço.

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 14/12/2006 16:45
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Thiago Camelo
 

Opa. Mixter.

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 14/12/2006 16:46
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Valério Fiel da Costa
 

Oi Flávio.

"de encontro" significa: "combinam" com minhas próprias convicções. Achei que idéias tão boas deveriam ser divulgadas de forma direta e sóbria. É apenas um conselho de um colega compositor.

Valério Fiel da Costa · São Paulo, SP 14/12/2006 20:39
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flaviolima   www.flaviolima.com
 

Olá Valério!

Na verdade, você quis dizer "ir ao encontro", isso sim quer dizer "combinar"; a expressão que você usou, "ir ao encontro de" quer dizer "chocar-se com", "ir em sentido oposto a algo".

No mais, gostaria de saber quais são suas idéias sobre o processo de composição musical, isso daria um debate e uma troca de idéias interessante

Abraços!

flaviolima www.flaviolima.com · Maceió, AL 14/12/2006 20:52
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flaviolima   www.flaviolima.com
 

Correção: - A expressão que vc usou, "ir de encontro a algo", é que quer dizer "oposto a", "ser diferente"

flaviolima www.flaviolima.com · Maceió, AL 14/12/2006 20:55
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Valério Fiel da Costa
 

Olá Flávio.

Não há o que debater. Concordo com as coisas que você diz. No mais, cada um possui suas próprias idéias sobre como fazer música. Música é para ser feita. Quanto mais música melhor.

Minha neura é com os enunciados por trás de idéias que buscam legitimar determinada manifestação musical em detrimento de outras. Isso representa 90 por cento da preocupação da critica musical: orientar o ouvinte para "o que vale a pena". Seu texto teria, para mim, portanto, a virtude de alertar para certos preconceitos desse tipo por trás do fato musical.

Quais os pre-requisitos para se compor? Seria o compositor um alienígena? Precisa ter o dom? O compositor estaria acima do ser-humano "normal"? Aliviar o leitor dessas questões me parece um belo começo de conversa, e está nas coisas que você escreveu.

Meu trabalho com composição pode se resumir a isso: todo objeto que, ao ser posto em vibração, produza som é um corpo sonoro capaz de enquadrar-se num evento musical. O sonoro, portanto, é a matéria da música; a modelagem e organização deste sonoro seria a matéria da composição; a gestualização deste sonoro segundo determinadas regras, representaria a dimensão da performance, que pode estar mais ou menos amarrada pelos processos iniciais. Compor implica em estilo, como você também falou no seu texto e este acaba vindo naturalmente contanto que você esteja em movimento, trabalhando o sonoro, sofrendo regularmente a experiência de organizar e difundir suas idéias, impondo à materia sonora seu gesto pessoal.

É meio que por aí.

Valério Fiel da Costa · São Paulo, SP 14/12/2006 22:14
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Fabinca
 

Flávio, como não há entrada de parágrafos, é aconselhável separá-los por um espaço. Comecei a ler e estava gostando, mas está muito difícil sem essa separação.

Fabinca · Bento Gonçalves, RS 16/12/2006 15:21
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Lílian Henrique
 

Olá, Flávio

Adorei o texto. Esta procurando dicas para compor, meio de curiosa. E senti que havia passagens em que me reconhecia. Como quando diz: “Tenha a certeza de que existem pessoas por aí que compõem maravilhosamente, têm muitas músicas guardadas em fitas cassete, letras escritas em blocos de anotações, mas que não acreditam no poder de suas composições."
Tirando o maravilhosamente, rsrssr, tudo que escrevo vai para o fundo da gaveta, é perdido; rasgado ou esquecido por não ter anotado. Justamente pelo medo de não serem boas o suficiente.
Encontrei em seu texto o estimulo que precisava para esmiuçar mais, pesquisar mais e quem sabe aprimorar.

Lílian Henrique · Betim, MG 28/1/2009 21:52
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Thaline
 

Achei o seu modo de compOr muito interessante, para mim a inspiração vem de tdos os momentos da vida,podem ser meus ou naum...
GostO de cantar e agOra estou tentando compor, entaum qria saber como posso acertar na letra de uma canção pois se inspirar em momentos da vida até pode ser fácil, mas dar um certO ''tcham'' para a música fikar bOa é complicado.
Ahh qria q vc falasse sobre encaixe entre letra e melodia, quais temas escrever nas letras, ritmos, como ter inspiração para compor, mercado musical, divulgação q vc citou acima!
AbraçO!!!!

Thaline · Santa Rita do Sapucaí, MG 3/1/2010 14:01
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flaviolima   www.flaviolima.com
 

Olá Thaline e Lílian, que bom que gostaram do artigo. Logo logo estarei retornando os comentários de vocês. Grande abraço!!

flaviolima www.flaviolima.com · Maceió, AL 14/6/2010 18:57
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Rafael mulller
 

Vou ser sincero sao legais as formas que voce utiliza para incentivar uma pessoa a compor, eu percebi creio que voce tabem , e que tudo que voce mais fez foi motivar a utilizacao do sentimento para criaçao de uma musica um verso, eu sou meio que um compositor oculto, eu escrevo as letras e guardo pra mim, ja tive opinioes diversas sobre elas no fim foram positivas, entre tanto como existe criticas de opinioes negativas e ruins me acostumei com isso, mais o que eu queria passar e que e legal a forma que voce pos as coisas, mas se realmente vao criar alguma musica utilize o que voce nao pode escrever e o que voce nao quer esquecer , as frases sao apenas complimento do que voce vivencio entao voce voce ja nasce com uma composicao propria so basta coloca-la no papel de forma em que sincronize o efeito da vida em uma uma folha de papel. Obrigado!

Rafael mulller · São Paulo, SP 8/3/2011 18:22
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Ana Paulla
 

Oie Flávio!
Adorei seu artigo, Amo muito cantar, "hinos de adoração a DEUS" E o meu sonho e dezejo é aprender compor, já tentei varias vezes mais naum consigo, nunca da certo.
Gostaria de ver mais dicas suas

Parabéns pelo artigo

By Ana Paulla

Ana Paulla · Cubatão, SP 28/5/2011 01:36
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Caroline_
 

Parabéns pelo artigo, és um ótimo escritor.

Caroline_ · Maceió, AL 12/6/2011 15:14
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pascoal
 

Rapaz, ótimas palavras!
Eu me cadastrei nesse blog assim que li essa primeira parte do artigo. Mesmo sendo de 2006, eu fiquei impressionado com a clareza de ideias, e a forma como os críticos pseudo-intelectuais, com toda sua prolixidade e moralismo, ainda insistem em colocar seu ego acima da essência da arte.
Não importa se a música é "uma combinação de sons organizados em um meio elástico a partir de eventos morfológicos de estrutura quântica do alface", a música, da mesma forma que você, só existe quando se tem boa intenção, boa energia e vem do coração. Não há maneira de descrever isso com palavras e dicionários acadêmicos. Portanto, continue com seu trabalho, com sua missão (seja ela divina ou não), que quanto mais pessoas se preocupam com sua postura intelectual e vocabulário acadêmico, mais espaço sobre pra gente, mensageiros de boa vontade, executarmos nosso humilde trabalho.
Abraço Fraterno

pascoal · São Paulo, SP 26/5/2013 21:01
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thalles
 

Pascoal, faço das suas as minhas palavras!

thalles · Campo Belo, MG 1/8/2014 18:22
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