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Divino Cinema

Rodrigo Teixeira
Tserewahú Tsereptsé
1
Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS
3/12/2008 · 97 · 8
 

O cineasta Divino Tserewahú já rodou o mundo e é um símbolo para a comunidade indígena de todo o Brasil

Divino Tserewahú Tsereptsé é um cineasta indígena brasileiro. Aos 34 anos, o mato-grossense já pode ser considerado um ícone para a comunidade de todo o país. Depois que a primeira câmera chegou às suas mãos aos 16 anos, ele não parou mais de produzir e ser "engolido" pela magia do cinema. De "cameraman" oficial da aldeia Sangradouro, em Mato Grosso, se transformou no indígena mais premiado internacionalmente do país. Com quatro produções no currículo, já foi agraciado com prêmios na Itália, Equador e Bolívia, por exemplo, além de troféus que ganhou em festivais do próprio Brasil.

Conheci o cineasta indígena quando ele veio a Campo Grande para participar do "Vídeo Índio Brasil". Além de trazer o seu filme "Wai'a Rini – O Poder dos Sonhos" para ser exibido no festival, também foi um dos orientadores da oficina dedicada exclusivamente para alunos indígenas. Para os mais novos, o “professor” é uma referência importante. Afinal, além dos prêmios ganhos com seus filmes, já viajou para vários países para estudar em universidades importantes de cinema, como a de Havana, Madri e Paris.

Desde que fez o seu primeiro filme para não indígenas, "Obrigado, Irmão", em 1998, ele foi convocado para participar do importante coletivo Vídeo nas Aldeias, que reúne cineastas indígenas de todo o país e que serve como uma espécie de incubadora de talentos. A partir disso, produziu os filmes "Xavante – A Iniciação" (1999), "Wai'a Rini – O Poder do Sonho" (2001) e "Dariditze – Aprendia de Curador" (2003).

Sobrinho do falecido Cacique Juruna – o único indígena a chegar no Congresso Nacional até hoje -, o cineasta oscila entre o arredio e o boa-praça. Com um português razoável, o xavante – pai de oito filhos - revela que quer tirar o Divino do nome, uma sugestão dos padres salesianos quando nasceu e se chamar apenas Tserewahú Tsereptsé.

Rodrigo Teixeira – Qual a importância em participar do coletivo Vídeo nas Aldeias?
Divino Tserewahú – É uma experiência muito importante. Já acontece há 20 anos e a idéia é equipar o índio para gravar as próprias imagens sobre o seu povo. Porque a gente já conhece as comunidades e estamos no meio. Além disso, a idéia é divulgar para o mundo nós mesmos a nossa cultura. Porque muitas vezes as pessoas falam que o índio é de uma etnia xavante, mas não sabem realmente o que quer dizer. Então somos nós mesmos que temos que divulgar isso. E o Vídeo nas Aldeias é para o índio ficar mais conhecido na mídia.

Você começou fazendo as festividades de sua aldeia. Como começou a sua carreira?
Eu sempre gravava o que acontecia nas minhas aldeias. Era meio que o cinegrafista oficial. Depois de uns cinco anos que fiquei registrando tudo na aldeia, acabei fazendo meu primeiro filme para o público não indígena, o "Obrigado Irmão", em 1998. Neste filme eu conto a minha experiência como eu comecei a filmar e usar a câmera. E aí o Vídeo nas Aldeias acabou me chamando para que eu aprendesse realmente a fazer as gravações, roteirizar e editar. Aí então veio a idéia de eu contar neste filme como virei cineasta. Depois deste filme, tive certeza que queria fazer isso mesmo da minha vida.

Você tem um registro de cinco anos de imagens da sua aldeia?
Exatamente. Eu comecei a gravar tudo em VHS, sem muita preocupação e pensar em nada. Então tenho muitas imagens em arquivo e eu vou fazer muito ainda com esta história. Ainda vou pegar todos estes arquivos, porque são muitos velhos que eu registrei. São indígenas com mais de 100 anos. Tenho muita coisa da aldeia Sangradouro, onde moro até hoje. Vou viajar e volto. Fica perto de Primavera do Leste, a 260 km de Cuiabá.

Gostaria que falasse sobre o seu segundo filme onde é enfocada a iniciação dos jovens xavante?
O filme mostra a iniciação do jovem xavante para a vida adulta. Antes da furação de orelha que fecha a adolescência, somos reclusos durante sete anos em uma casa. Ficamos fora da família, não pode namorar e nem conversar com as mulheres. Isso acontece entre 12 e 17 anos. Depois que os velhos decidem, acontecem vários processos para virar adulto e é isto que eu mostro no filme. A furação pode furar até os 19 anos e os velhos que decidem a hora certa. Os padrinhos que cuidam deste processo na casa. A furação é quando o indígena sai da adolescência e será considerado como adulto.

Um diretor branco conseguiria registrar este ritual?
Dificilmente. Como eu sou indígena e conheço este ritual naturalmente é possível montar um esquema para mostrar o ritual. Eu chamei quatro colegas para me ajudar. Demorou sete meses para acabar este vídeo. Porque eu mostro sempre o que faço para os mais velhos dizerem se está certo ou errado. Fico neste leva e traz até chegar no certo para a comunidade. Até que os mais velhos aprovam. Aí sim eu finalizo. Seria difícil um cineasta não indígena conseguir isso.

Neste sentido, você se distancia da maioria dos diretores de cinema, que geralmente estão mais interessados nas próprias visões sobre os temas. Você concorda?
Com certeza.

Já no filme "O Poder dos Sonhos" você enfoca um lado mais religioso da aldeia.
Sim. Eu mostro a religião nossa, que é o Wai'a. O meu pai – Alexandre - dirigiu esta festa que mostro no filme. Nós não criticamos a religião católica porque nossos pais foram evangelizados pelos padres salesianos. Para nós é uma espécie de espírito da natureza que a gente encontra. É uma pajelança muito forte. Um ritual muito importante. No processo, alguns índios alucinam, desmaiam e vêm os futuros da sua vida. E vêm muitos sonhos também. Quem dá esta força é o espírito que você quer descobrir.

Na seqüência você fez um filme sobre o mesmo ritual, mas em outra aldeia. Como foi isso?
Eu levei "O Poder do Sonho" para a aldeia Nova, xavante também, e eles pediram para eu fazer o ritual com eles. Eu projetei o filme a noite e os caciques gostaram e pediram para eu registrar. Parece que eles estavam brincando, mas chegou na hora foram me buscar e eu já tinha prometido. Ficamos um mês gravando por lá.

Você já faz os seus filmes pensando no público do país inteiro ou ainda foca na própria comunidade indígena?
Os meus filmes podem ser vistos por qualquer um. Mas nós estamos somente começando esta experiência. Não temos ainda um cineasta indígena conhecido em todo o Brasil porque estamos só começando. Nós precisamos primeiro aprender realmente a fazer cinema. Aí sim esta valorização vai vir naturalmente. É isto que eu falo sempre para os meus alunos na minha aldeia. Quando eu viajo eles pegam a câmera e gravam.

Você já viajou muito devido a sua ligação com o cinema. Por onde você já passou?
Eu estudei quatro meses na Escola de Cinema e Televisão Santo Antônio de Los Baños, em Havana, em Cuba, em 2002. Também fiquei na Bolívia um mês. Também fui para Paris, em 2005, durante dois meses em 2005. Através de festivais, fui para a Finlândia, Noruega, Alemanha... Em Madri, estudei cinco meses na Universidade de Cinema. Muita saudade que eu passei lá. A minha mulher ia para a cidade para abrir os meus e-mails.

Você é casado e tem quantos filhos?
Sou casado e tenho oito filhos. Para mim já basta. Mas na nossa cultura não pode parar no três ou quatro, mas passar de cinco filhos. Meus filhos são com a mesma mulher, ela é braba. Mas têm índios que têm filhos com mais de uma mulher, mas depende de muita combinação.

Você imaginava que iria viajar o mundo devido a sua ligação com o cinema?
Não. Eu descobri muita coisa através da câmera. Outras culturas, outros povos. É muito importante para mim isso. O cinema abriu a minha cabeça. E aprendi a respeitar a minha própria cultura. Eu luto agora para a gente retomar as coisas que a gente não faz mais. A gente não perdeu nada. Na verdade, deixamos de fazer algumas coisas. Eu quero que o jovem não vá mais para a cidade para beber, por exemplo.

Na sua opinião, o indígena deveria permanecer na aldeia?
Tem que proteger a cultura. Ir estudar e depois trazer o conhecimento para a aldeia é bom. Mas ficar na cidade apenas por ficar não dá. Mas isso depende muito de cada etnia.

O que você acha das aldeias urbanas, por exemplo?
Eu não sei. Nunca fui em uma. Vou agora por causa do Vídeo Índio Brasil. Mas não sei nem o que vou falar. Eu vim em Campo Grande quatro vezes, mas nunca fui nas aldeias urbanas. Não tenho idéia do que vem a ser. Na minha aldeia se fala a língua xavante e não o português. A cultura lá é muito forte. Eu aprendi português na escola lá na aldeia. Os professores indígenas primeiro ensinam a nossa língua e cultura. Depois que vamos para o português. As nossas mulheres não falam português naturalmente. A minha fala porque estudou.

Os xavante são conhecidos por serem bravos e resistentes.
Sim, assim como os nossos primos Caiapó.

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graça grauna
 

É bom demais ver um parente crescer com autonomia, sem perder vinculo com o seu povo. Essa competência e essa bravura é uma herença de um povo resistente. Parabens. Paz em Nhande Rú, Graça Graúna

graça grauna · Recife, PE 1/12/2008 08:39
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Filipe Barros
 

Boa reportagem.

Filipe Barros · Recife, PE 1/12/2008 12:19
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Rodrigo Teixeira
 

Obrigada Graça e Filipe. Foi uma experiência bacana ter conhecido e escutado o Divino.
abs

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 1/12/2008 22:24
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Helena Aragão
 

Legal, Rodrigo! Gostei da postura dele, tanto em relação aos mais velhos quanto ao cinema em si. Parece bem pé no chão e focado em bons objetivos. Fiquei curiosa para ver os filmes!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 2/12/2008 14:24
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Claudia Almeida
 

Que lindo Video nas Aldeias ,não conhecia parabéns, eu quero!
Tv escola apoiando será que chegou por aqui como faço?
bjs

Claudia Almeida · Niterói, RJ 3/12/2008 04:43
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graça grauna
 

Viva o cinema indígena brasileiro!

graça grauna · Recife, PE 3/12/2008 07:41
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Roberto Maxwell
 

Pena que os filmes não estão disponíveis. Entendo que alguns realizadores ainda não achem que a internet deva ser espaço para distribuição de filmes mas...

Roberto Maxwell · Japão , WW 3/12/2008 09:46
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Andre Luiz Mazzaropi
 

Parabens e Sucesso

Andre Luiz Mazzaropi
O Filho do Jeca
www.andreluizmazzaropi.com.br

Andre Luiz Mazzaropi · Taubaté, SP 3/12/2008 17:54
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