Divino do sacolão é "só alegria"
Texto e fotos: Rafaela Freitas
O tranqüilo quarteirão da Rua Vinte e Oito de Setembro, em Belo Horizonte, acorda às sete horas da manhã, quando aquela porta barulhenta do sacolão no número 657 é erguida pelo comerciante Divino. Enquanto descarrega os pesados caixotes com frutas, legumes e verduras nos balcões, Divino arranha a música “Verdade”, sucesso de seu sambista favorito, Zeca Pagodinho. Embora o seu talento como cantor seja discutível, Divino contagia seus fregueses com a cantoria.
A partir desse momento a rua se transforma em uma grande feira livre. Fregueses, moradores do bairro e comerciantes vizinhos se reúnem para jogar conversa fora com Divino, e claro, muitos deles, fazer suas compras, por que não?
Na manhã do dia 3 de novembro de 1990, o comerciante Divino Fonseca de Souza erguia, com um vasto sorriso no rosto, pela primeira vez, as portas do Sacolão do Divino , um dos estabelecimentos comerciais mais tradicionais do bairro Esplanada.
A simplicidade e simpatia são as características mais marcantes do comerciante. Divino é dono de uma fala rápida e expressões e pronúncias interioranas. Talvez não seja exagero dizer que não exista nenhum morador do bairro Esplanada que nunca tenha ouvido falar em Divino. E, talvez, seja impossível contar nos dedos quantas pessoas passam pela porta do estabelecimento sem gritar “E aí, Divino?”.
Ao ser cumprimentado, seja de manhã, à tarde ou à noite, o vendedor não hesita em gritar os seus bordões: “Bom dia, garoto(a)! É só alegria!”. “Bom dia porque o dia termina só meia-noite”, explica Divino. O comerciante lembra que quando chegou ao bairro, não sabia o nome de ninguém, então começou a chamar os fregueses por “garoto” ou “garota”, independentemente da idade. “Só alegria porque aqui não tem tempo para tristeza não”, esclarece.
Outro bordão utilizado pelo comerciante é “Só filé!”, para se referir à qualidade de seus produtos. Essa frase, uma das marcas registradas de Divino, virou gíria entre os moradores do bairro e já foi usado até como slogan em uma antiga improvisação de "placa publicitária" que ficava encostada na parede do estabelecimento.
Quem não conhece o bairro se espanta, pois a cena lembra muito a vida em uma cidade do interior. Divino é mineiro, nascido na pequena cidade de Santa Luzia do Rio Manso, a 74 km de Belo Horizonte. A cidade, hoje emancipada, chama-se apenas Rio Manso e tem um pouco mais de 4.700 habitantes.
Divino parece trazer para o bairro a vida simples das cidades pequenas. São hábitos - das gírias e os “causos” até a sesta, muito bem feita, após o almoço - que servem como contraste ao caótico cotidiano urbano.
Do outro lado da rua, por exemplo, os funcionários da padaria, do açaí, do boteco, do açougue, e do outro sacolão - por detrás de seus balcões conversam (ou gritam) com o comerciante, que interage festivamente com os colegas de comércio.
Às segundas e quintas-feiras, a pauta da conversa matinal com a vizinhança é o futebol, mais precisamente o Cruzeiro, time do coração de Divino. Nem uma derrota do time, nem vários torcedores atleticanos eufóricos são suficientes para mudar o seu humor. “Divino mal-humorado? Isso existe?”, pergunta uma freguesa antes de arrancar risos dos demais clientes e do próprio comerciante, dono da gargalhada mais ruidosa.
A disposição que sobra em Divino é a mesma que falta em muitos trabalhadores que, assim como ele, levantam às cinco e meia da manhã. Morador há trinta anos do bairro Eldorado, em Contagem, Divino encara, diariamente, um percurso de quase uma hora entre a estação do metrô no Eldorado até a estação Horto, a mais próxima do bairro onde se localiza o sacolão.
Divino desembarca do trem das 6:48h e graças a seus passos longos, embora seja baixinho, chega ao local de trabalho depois de uma caminhada de, no máximo, 10 minutos. Sempre trabalhou muito e cedo. Durante 14 anos madrugou para começar seu expediente na mineradora Magnesita. Após sair da empresa, investiu suas economias no comércio, em Contagem. “Tive uma casa de frangos e um sacolão. Fechei para vir pra Esplanada”, rememora o comerciante.
Todo esse trabalho, segundo Divino, valeu a pena, pois foi devido a esse esforço que conseguiu educar seus filhos que “graças a Deus já entraram até na universidade”, diz contente.
Do outro lado da rua há um outro sacolão (maior e com mais variedades de frutas, verduras e legumes). Porém, não é difícil encontrar pessoas que prefiram fazer suas compras no sacolão mais modesto, por causa do animado vendedor.
Há quem diga que as vendas e o movimento de pessoas dentro do estabelecimento caem significativamente quando Divino está de férias. “Até a rua fica mais triste quando ele não está trabalhando”, diz Neide, uma vizinha do sacolão.
Divino ri quando questionado sobre os “fãs” que conquistou no bairro. Sem modéstia alguma, o sorridente comerciante não hesita em dizer que é uma das figuras mais queridas do bairro. “Quando eu fico fora e volto eu fico até rouco de tanto falar. Todo mundo pergunta o que tava fazendo, o que aconteceu comigo, se eu tô bem de saúde...”.
“Você não tem duas de cinco aí não?”, interrompe um comerciante vizinho chegando de supetão. Divino balança a cabeça tentando dizer “não” sem ser captado pelo gravador. O vizinho percebe e grita: “Divino, tá famoso hein? Dando até entrevista!”. Divino, por sua vez não se segura e solta uma sonora gargalhada e conta, entusiasmado, que já havia sido entrevistado por alguns estudantes de jornalismo moradores do bairro.
Mas ele tem motivos para ficar entusiasmado com essa popularidade, afinal, todos os estabelecimentos comerciais do quarteirão já foram assaltados pelo menos uma vez, com exceção do Sacolão do Divino . Será que até os ladrões se simpatizam com o comerciante? “Graças a Deus nunca (foi assaltado). Eu sou muito bom para o povo. Esse pessoal tudo pede as frutas e eu dou. Eles pedem banana, eu dou. Pedem laranja, eu dou. Tudo que eles querem eu dou. Essa turma nunca mexeu comigo por causa disso”, enfatizou.
A fama de Divino já lhe rendeu convites para se candidatar a vereador, todos recusados. “Eu não quis não, já sou velho, sou um cara analfabeto, não tenho leitura nenhuma” conta o comerciante revelando a sua idade, nem tão avançada assim. “Tenho 58 anos”.
Perguntado sobre um momento feliz e outro triste desde que chegou ao bairro, Divino não soube escolher um momento bom. “Foram vários que é impossível eleger um só”, disse. Quanto ao momento ruim, Divino garante que nunca houve nenhuma situação de tristeza. “Aqui é só alegria”, finaliza Divino com seu bordão favorito¸ como não poderia deixar de ser.
Já passam das 19:30h e o céu já está completamente escuro. O chão do sacolão e a calçada do estabelecimento recebem as últimas vassouradas. Divino está se preparando para fechar a sua loja. A Rua Vinte e Oito de Setembro vai ficando preguiçosa, até ouvir as portas do sacolão se fechando, o último ruído significante do dia. Agora sim, ela está pronta para descansar. Divino também tem pressa para chegar cedo em casa e passar algumas poucas horas com sua família.
Gostei muito!
Leia o meu também, por favor.
Belo retrato do seu Divino.
Parabéns.
Votei.
Eloy, muito obrigada pelo voto! Fico feliz por vc ter gostado do texto!
Legionária · Belo Horizonte, MG 19/11/2008 19:26
Oi, Legionária. Muito massa seu texto. Gosto muito de figuras como o Seu Divino do sacolão.
Valeu?
merecida referencia,
abraço
andre
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