Djambê: um outro tambor africano ressoa no Vale

Egeu Laus
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Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ
5/9/2007 · 242 · 10
 

Num dos recitais musicais realizados durante a recente edição 2007 do Festival Vale do Café tive o prazer de assistir a um percussionista com um tambor de timbres variados acompanhando Turíbio Santos em sua apresentação na Fazenda Cananéia, que fica a 15 minutos do centro de Vassouras pela BR-393. O instrumento me despertou curiosidade e, ao final da apresentação fui conversar com ele.

O percussionista chama-se Junay Diógenes e o instrumento que ele tocava era o djambê (ou djembê ou ainda djambé), um popular tambor africano, mundialmente conhecido, um pouco diferente dos tambores preservados pelas tradições africanas do Vale do Paraíba. É um instrumento muito popular na África Ocidental (o lado do Oceano Atlântico) principalmente no Mali, Guiné, Burkina Faso e Senegal (a parte de cima da África, quase chegando no Marrocos). Imagina-se que o djambê tenha consolidado o seu formato atual no grande Império de Mali, da etnia malinke.

É o próprio Junay que conta:

“Eu conheci esse instrumento por acaso. Eu treino capoeira e estava tendo aula numa sala – na PUC de São Paulo – e ouvi numa sala ao lado sons musicais que gostei muito, pensei: poxa deve ter um monte de gente tocando esses instrumentos. Aí quando terminou a aula eu fui na sala e vi que era apenas um, esse instrumento chamado djambê. Isso foi em 1994. Um ano depois em 1995 fui para Londres e conheci uns rapazes de Mali que tocavam o instrumento que eu tinha visto um dia na PUC. Aí eu comprei um djambê deles, meu primeiro djambê. E como eu tinha levado o meu berimbau, fiz uma interação com eles – eles se apaixonaram por mim e pelo berimbau e eu pelo djambê e por eles, pelo canto e a dança e assim começou tudo.”

Junay começou a estudar o instrumento com os malineses e não parou mais, se aprimorando sempre e conhecendo as etnias bambaras e uolof, que segundo ele tem ligações musicais com essa etnia malinke. Ainda segundo Junay o djambê que ele toca foi desenvolvido no século 9 para acompanhar uma família de instrumentos chamado dununs entre os quais o dunumbá, maior e mais grave, o sangban, som médio além de um outro menor e mais agudo, kenkeni.

A variedade de toques na percussão africana também é bem maior do costumamos encontrar aqui no Brasil. Junay apresentou alguns exemplos nesse pequeno video que acompanha este material, mas existem dezenas deles: ritmos de guerra, ritmos de morte, de nascimento, plantação, ritmos de boas-vindas, para circuncisão, para chamar crianças…

A afinação é à frio, sem a ajuda do calor como nos tambores do Jongo, e a pele ideal é a de cabra-fêmea, segundo Junay. A variação sonora se dá nas distintas áreas da pele: ao centro mais grave, nas extremidades mais agudo, além da forma com que se usa as mãos, os dedos e mesmo uma das mãos para abafar enquanto outra toca.

Junay pretende lançar um CD com o seu trabalho no djambê e também dar aulas do instrumento no Rio de Janeiro. Se você gostou do tambor e quer saber mais escreva para diogenesjr64@hotmail.com

Descobri num website em Portugal um pequeno manual de construção do djambê feito a partir de uma árvore chamada piteira, conhecida no Brasil também por pita, de onde se retiram embiras e liames usados para construção de cestos e esteiras.

Eis alguns links sobre a colocação do couro e afinação:

http://www.djembes.org/tensari.htm
http://users.pandora.be/willie.camerman/djembe_en_tuning.html
http://hawkdancing.com/Wooddrum/tuningadjembe.html
http://www.giftofafrica.com/moreinfo/djembetune.htm
http://www.silvercircle.org/yankadi/tuning.htm
http://www.goatskins.com/rehead/soakhead.html
http://www.goldcoastdrums.com/pages/learn_how_to_reskin_your_djembe.html

Se você quiser experimentar os sons do djambê existe um website com um djambê virtual aqui. Uma grande coleção de informações sobre o djambê pode ser encontrado no portal www.djembe.org mantido em Estocolmo, Suécia por Lennart Hallstrom, com centenas de links e informações.

Na Europa existe uma imensa produção de CDs de música africana com djambês. Dos países originais podem ser encontrados, entre outros, Cds com djambês de Mali, Guiné, Burkina Faso, Costa do Marfim e Senegal. O músico senegalês Youssou N'dour, nascido em Dakar, teve seu disco Lion lançado no Brasil pela gravadora EMI há alguns atrás, numa série chamada AfroReggaeBeat.

O que me atraiu no djambê, além de sua sonoridade variada, foi também o corpo em forma de cálice. O de Junay era em madeira rústica mas existem exemplares envernizados e decorados belíssimos como vim a saber depois. Hoje já são até construídos industrialmente em alumínio com peles sintéticas. Alguns marceneiros brasileiros (veja no fórum da ABTM – Associação Brasileira dos Torneiros em Madeira) estão trabalhando em djambês torneados em peça de madeira única.

As primeiras notícias sobre a utilização do djembê na música brasileira dizem que foi na década de 1970 com os percussionistas Djalma Corrêa e Bira Reis.

A maior expressão mundial do djembê é Mamadi Keita, um mestre da percussão africana, uma lenda viva, nascido em 1950 na Guiné.

Mas o mundo realmente dá muitas voltas: um dia depois da conversa com Junay encontrei um djambê feito de bambu (da espécie conhecida no Brasil como bambu-balde), quando fui visitar Edinho, um mestre-artesão de Vassouras.

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Clara Bóia
 

Olá Egeu!
Rapaz, como a África tem a nos ensinar sobre diversidade rítmica, né? Não só por causa daquelas polirritmias absurdas, mas também pela questão dos timbres de cada instrumento. Fiz uma oficina de percussão semana retrasada e me dei conta da minha [enorme] ignorância sobre o assunto. Como é bom descobrir novas ignorâncias!...

Esses links que você sugeriu são bem interessantes.
Um abraço!

Clara Bóia · Blumenau, SC 3/9/2007 09:12
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Spírito Santo
 

Egeu,
Interessante a sua dica. O Djembe (Djembê) embora os leigos não tenham a obrigação de saber, é um tambor muito popular entre percussionistas brasileios em geral. É tícamente oriundo ali da região do Senegal e Guiné Bissau e é muitíssimo conhecido na Europa, principalmente em países de colonização francesa (como é o caso, exatamente, do Senegal). Sua origem remota está ligada a expansão do islamismo na África negra. Tecnicamente da família dos timbale, sua forma já denuncia isto pois muito se assemelha a antigos tambores árabes de cerâmica ou de metal.
Não tem, a rigor, nada a ver com a música negra do Brasil e muito menos com o Vale do Paraíba do Sul. Hoje é um must da percussão fashion brasileira, por assim dizer.
Abs,

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 4/9/2007 13:06
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Egeu Laus
 

Justamente, Spirito. Depois que pesquisei um pouquinho o assunto vi que é um tambor extremamente popular, mesmo no mundo árabe, Egito, etc.
Vale um artigo seu sobre a inserção do djembê no Brasil. Soube que existem "rodas de djembê" em São Paulo...
Abraço!

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 4/9/2007 14:12
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Felipe Obrer
 

Aqui em Floripa é bem popular. Existe inclusive um grupo, o Batukajé, coordenado por Adelice Braga (a Neguinha) e um francês radicado na ilha, chamado Nicolas Malhomme, que já foi à África, pesquisa música africana mas, num papo comigo fez questão de esclarecer: "Quem disser que faz percussão africana pura tá mentindo. O que eu quero fazer é um som com a influência da música africana, mas com a cara de Floripa". Achei interessante a idéia dele...

Bom...

Melhor do que eu falando é ouvir o som dos caras e conhecer na fonte:

MySpace do Batukajé

Site oficial do Batukajé

Abraços,
Felipe

P.S.: Gostei do texto, Egeu.

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 5/9/2007 09:03
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Felipe Obrer
 

Neste link é mais fácil ver diretamente a história do grupo.

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 5/9/2007 09:09
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Egeu Laus
 

Em Belo Horizonte existe o grupo musical Djambê do Cerrado. Vejam aqui.

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 5/9/2007 09:12
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Spírito Santo
 

Egeu,
Cabe sim, um artigo. Um dia desses, quem sabe. Vou colocar na fila. O Djembê é realmente muito recorrente e super manjado hoje em dia por aqui.
Abs,

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 5/9/2007 10:23
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FILIPE MAMEDE
 

Excelente recorte... Imagine se você falasse aqui da história de cada instrumento desses... Gostei do contexto, do texto, da história que acompanha, das fotos...um abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 6/9/2007 10:39
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crispinga
 

Egeu,
Completo, profissional, muito informativo! Parabéns!

crispinga · Nova Friburgo, RJ 6/9/2007 10:41
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Andre Pessego
 

Grande Meste Egeu,
Posso lhe garantir o mais breve possível estaremos com um exemplar irradiando graças nas nossas Rodas no Capoeira Berimbau Brasil, grande
reportagem, destas que marcam epóca, um abraço andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 7/9/2007 08:09
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Junay e Turíbio Santos na Fazenda Cananéia, em Vassouras zoom
Junay e Turíbio Santos na Fazenda Cananéia, em Vassouras
Junay e seu djambê zoom
Junay e seu djambê
As zoom
As "folhas" de metal inseridas vibram junto com o djambê
Junay, Turíbio e Claudio Fontes no Festival Vale do Café 2007 zoom
Junay, Turíbio e Claudio Fontes no Festival Vale do Café 2007

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