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Do desprezo pelo conhecimento

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Leonardo André · São Paulo, SP
27/7/2007 · 13 · 2
 

Escolhas quanto à profissão e suas conseqüências

Muitas vezes fui questionado sobre os motivos que me levaram a cursar Ciências Sociais. Não parece ser muito fácil para algumas pessoas entenderem a razão que leva alguém a estudar algo sem um objetivo claro e com uma expectativa salarial tão modesta. Nem passa por suas cabeças a idéia de que alguém pode estudar qualquer coisa simplesmente por gosto. Talvez, as pessoas estejam acostumadas à só estudar para ter uma qualificação profissional e, assim, ter um bom emprego e ganhar muito dinheiro. Engenharia, Medicina, Administração de Empresas, entre outras, ao contrário das Ciências Sociais, são profissões bem definidas que atendem demandas mais objetivas além de gerar mais renda, o que desperta maior interesse das pessoas.

Porém a escolha por determinada profissão deveria responder antes a uma afinidade da pessoa do que à ganância pelo dinheiro, para que essa pessoa sinta-se realizada no seu trabalho. Não deveríamos nunca escolher cursos que ofereçam simplesmente o melhor custo benefício, quer dizer, um curso que ofereça melhor remuneração e que, ao mesmo tempo, corresponda a alguma característica do candidato. Pois, senão, entre Direito e Engenharia, a melhor opção pra quem não é muito chegado à leitura seria Engenharia e pra quem não tem o menor jeito com uma calculadora científica, o melhor poderia ser cursar Direito. Mas isso ainda não é o pior. Perdi a conta de quantas vezes escutei o famoso, “não sei o que fazer, então vou prestar Administração...” . Definitivamente não é assim que deveria ser. Em sociedade o trabalho não é apenas um meio de satisfazer os anseios pessoais, mas a contribuição dos indivíduos para com a totalidade.
É claro que o dito até aqui não é nenhuma regra. Existem engenheiros que amam Engenharia, Advogados que não saberiam ser outra coisa, assim como, por outro lado, existem sociólogos loucos pra entrar na grana.

Infelizmente, desconfio que os profissionais formados hoje, em grande medida, seja mesmo de picaretas, vide desgraças como a de Congonhas ocorrerem com certa freqüência (menos de um ano separa as tragédias da GOL e da TAM!).

Vale lembrar que, além do caos aéreo, temos também o caos na saúde, na educação, na segurança pública etc., o que me leva a perguntar se de modo geral não está faltando competência e sobrando amadorismo, tanto de profissionais quanto das autoridades responsáveis pela fiscalização. Será que o país tem capacidade suficiente para responder a demanda por profissionais qualificados? Não estaríamos sofrendo os efeitos do descaso pelo conhecimento e à sua aplicação prática?

O buraco é mais embaixo (reflexões acerca de algumas características de nosso tempo)

Das atitudes que permeiam nossas relações interpessoais emana o sentido do ser da sociedade. Captar e competir são as diretrizes do paradigma que permeia nossa estrutura social.

Captar é agir no sentido de alcançar o que desejamos. Não nos satisfazemos apenas em saber ou ver que uma coisa existe; há sempre a necessidade de se ter essa coisa. Queremos quase tudo que admiramos, senão, vejamos: algumas pessoas não se contentam em saber e admirar a beleza de uma arara; então, pagam pra que alguém seqüestre um exemplar dessa espécie diretamente de seu habitat natural para mantê-lo em cárcere privado, na sala de estar. Captar, eis a principal característica do capitalismo. Redundante...

Mas, além do captar, outra característica de nosso tempo é o competir. Captar parece fazer mais sentido a partir do momento que se capta mais que os outros. Captar por captar não tem graça. Captar, e acumular o que é captado, são atitudes tidas como virtudes e, por isso, atribuem importância e poder a quem demonstra maior capacidade de captar. Obter a admiração, a simpatia e a boa vontade dos demais, seja pelo mérito ou pela impostura, é essencial ao captar.

O capitão do timede futebol é o cara que acumula a responsabilidade da equipe toda; o rico tem poder por ter captado muita grana (sempre muito mais do que precisa, porque na verdade o que precisa é ostentar); a cidade mais importante de um país é sua capital, pois acumula poder político e econômico; e por aí vai.

E o que uma coisa tem a ver com outra?

Quem mais capta no capitalismo capta, acima de tudo, a atenção dos demais. Atenção é algo que faz bem ao ego; infla-o. Capitalismo estimula o egoísmo. O ego do egoísta quer captar o mundo todo e todo mundo para si. Captar está na ordem do dia. Captar está tão atrelado ao nosso modo de viver que nem notamos a relatividade daquilo que desejamos, nem das escolhas que fazemos. Queremos muito mais do que precisamos, fato que nos obriga a sujeições demasiadas, como escolher uma profissão que, ao invés de prazer, dê dinheiro e status. Não damos conta do nosso próprio egoísmo e fazemos qualquer coisa para superar obstáculos, como distribuir cargos de impor- tância não por mérito, mas em troca de favores que facilitem a realização de nossas metas e objetivos. Daí o porquê de não darmos valor ao conhecimento, afinal bons cargos não dependem desse detalhe “superficial”. Para captar, tanto dinheiro quanto poder, às vezes, assumimos o risco de destruir vidas, como ocorreu nos dois deploráveis episódios aéreos citados acima e como vem ocorrendo nas periferias das grandes cidades há tanto tempo, onde falta saneamento básico, educação, transporte público (mais deficiente que o transporte aéreo, diga-se de passagem) etc.

Agora, utilizando nossa capacidade de imaginar, imaginemos o futuro de um mundo entregue aos desejos e às ambições de uma multidão de egoístas, digladiando-se veladamente, sob as nuvens da rotina. A civilização flerta com a barbárie.

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Andre Pessego
 

Leandro, muito bom, muito esclarecedor o seu texto, claro que na limitação -espaço/tempo. Faltou um exemplo que vou citar, não por voce, por mim: O que fazemos no Overmundo?. E é isto mesmo, se a distorções nas tais grades de ensino, e nos objetivos de quem as traçam é um caso a resolver.
um abraço,

Andre Pessego · São Paulo, SP 28/7/2007 05:04
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Dico da Fonseca
 

Leandro, gostei muito do seu texto. Creio que você toca em um ponto fulcral que é justamente o conhecimento e a sua importância para a estruturação da sociedade. Não exatamente o conhecimento exterior, mas o interior (embora ambos se intercambiem), ou seja, o olhar para si mesmo e verificar quais os desejos mais íntimos. Infelizmente, muitos de nós acreditamos ser o desejo egóico o que nos caracteriza e vamos em busca de fama, de grana e de "informações" (o que não se pode confundir com conhecimento!), pois há quem creia que acumular leituras e mais leituras propiciem o status de intelectual (que de certo modo também impõe poder!), mas e daí? Parece piegas, mas muitos de nós matamos o desejo infantil de sermos bombeiros, policiais, donos de quitanda e de sermos heróis (e por quê, não?). Achamos que não é possível sê-lo vendendo frutas, e muitos de nós acabamos vendendo a própria alma! Pois, sim, que bela troca! Um abraço e parabéns!

Dico da Fonseca · Porto Alegre, RS 29/7/2007 11:14
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