Do Mangue ao Manguebeat

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Rejane Calazans · Rio de Janeiro, RJ
18/4/2007 · 121 · 4
 

“Emergência! Um choque rápido ou o Recife morre de infarto!” Em 26 de novembro de 1990, o Jornal de Commercio de Pernambuco divulgava uma pesquisa feita pelo Institut Population Crisis Commitee de Washington em que Recife aparecia como a “quarta pior cidade do mundo para se viver”. Enquanto isso, um grupo de amigos se perguntava “(...)o que fazer para não afundar na depressão crônica que paralisa os cidadãos? Como devolver o ânimo, deslobotomizar e recarregar as baterias da cidade?”

A resposta estava nos manguezais da cidade de Recife: “Simples! Basta injetar um pouco de energia na lama e estimular o que ainda resta de fertilidade nas veias do Recife. Essa injeção de energia seria dada por um (...) “circuito energético”, capaz de conectar as boas vibrações dos mangues com a rede mundial de circulação de conceitos pop.” Foi assim que Fred Zero Quatro, da banda mundo livre s.a., relatou a articulação de um dos movimentos culturais mais importantes do Brasil nos últimos anos: o Movimento Manguebeat. Esses são trechos de “Caranguejos com Cérebro”, o “Primeiro Manifesto” desse movimento.

Tudo começou entre festas e mesas de bar, e se chamava Cena Mangue. Nas palavras de Renato L, o”ministro da informação” dessa cena: “Eu estava no Cantinho das Graças, um bar sem qualquer atrativo freqüentado pela galera. Na mesa acho que bebiam Mabuse, Fred, Vinicius Enter e outros. De repente, Chico apareceu e sem nem sentar foi anunciando “olha fiz uma jam session com o pessoal do Lamento Negro e mesclei uma batida disso com uma batida daquilo e um baixo assim...vou chamar esse groove de Mangue! Na hora, ficamos sem saber o que era mais interessante, o som ou a palavra usada para sintetiza-lo. Aquele era o rótulo! Como todo mundo tinha um sonho em mente e um esboço de trabalho em conjunto havia se delineado em algumas festas, a tentação de ampliar o conceito surgiu de imediato.” O conceito Mangue, então, foi ampliado para a criação de uma Cena, termo inspirado na Cena Punk criada por Malcom Maclaren.

Tendo se iniciado em torno das bandas mundo livre s.a. e Chico Science & Nação Zumbi, a Cena ultrapassou o campo da música, incorporando outras áreas, como o cinema (com o chamado Árido Movie) e a moda (com coleções como a do estilista Eduardo Ferreira). Foi em 1992 que Fred Zero Quatro escreveu “Caranguejos com cérebro” que, originalmente, não era um manifesto. Era, sim, um release escrito para uma coletânea que mundo livre s.a. e Chico Science & Nação Zumbi pretendiam lançar conjuntamente. Recebido euforicamente pela mídia local, o release foi o estopim para a transmutação da Cena em Movimento.

A imprensa divulgou o release como manifesto e passou a chamar a Cena de Movimento, acrescentando o adendo bit ao rótulo Mangue, devido à música Manguebit (mundo livre s.a.). Posteriormente, se confundiu a sonoridade de bit com beat, e chegou-se à forma como o Mangue ficou conhecido internacionalmente: Movimento Manguebeat. Inicialmente, os mangueboys rejeitaram o enquadramento como movimento, pois acreditavam que o termo “cena” era mais adequado para designar o ambiente lúdico e diverso que pretendiam criar. Gradualmente, foram aceitando a denominação de movimento dada pela mídia, em um processo que revela um diálogo entre a mídia e os artistas da Cena.

Hoje se fala em Cena, em Movimento, em Bit, em Mangue, em Beat. Mas também se pergunta: o Mangue – Beat ainda existe ou se perdeu com a década de 1990? Há bandas novas em Recife que dizem nada ter a ver com o Mangue, e alguns as chamam de off-mangue. Já há outras que se dizem filiadas àquela Cena criada no início dos 90’s e são vistas como fazendo parte do que se tem chamado de Pós-Mangue. Polêmicas à parte, parece unanimidade que, ainda existindo ou não, Manguebeat se tornou uma referência no cenário cultural brasileiro.

Para mais sobre o Mangue, acesse o blog “Na lama” (http://rejanecalazans.blogspot.com/), que divulga os caminhos e descaminhos da pesquisa “Mangue: a lama, a parabólica e a rede”, que se desdobra em um documentário sobre a Cena. Lá tem dicas de leitura, clipes, sites, etc. sobre a Cena Mangue que surgiu no início da década de 1990 e seus desdobramentos na Cena de Recife atual.

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André Dib
 

Rejane
Um dos motivos de eu me mudar para Pernambuco foi saber da existência do manguebit.

Uma crítica: eu fosse você, evitaria o discurso pronto e repetido do "apenas um grupo de amigos entediados com o marasmo da cidade". Pode ser a invenção da própria história, já que o mangue hoje institucionalizou, virou até política pública no Recife.

André Dib · Recife, PE 18/4/2007 04:48
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FILIPE MAMEDE
 

Texto bacana Rejane. Seria legal saber o que tem aparecido mais recentemente. Abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 19/4/2007 16:08
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Camila Neves
 

Gostei de você ter se eximido com "polêmicas a parte".
Porque realmente, quando surgem novos sons que misturam o maracatu a outras musicalidades "overworld!" é complexo rotular de filhos do mangue beat.
Mas vamos lá se Filipe fala para descrever o que tem aparecido recentemente, quem se arrisca?

Camila Neves · Brasília, DF 17/5/2007 17:15
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André Dib
 

É complexo mesmo Camila. Acho que, geograficamente, o manguebit conseguiu promover o diálogo na cidade, entre "mundos" sociais e artísticos que antes dos anos 90, não se misturavam.

Quadrante Zona Sul (rock, blues, jovem guarda), Zona Norte (punk rock, hc, hip hop e cultura popular - maracatu, forró, frevo e cavalo marinho) e a turma de Olinda (reggae, latinidadades, e lombras afins).

Logo após a morte de Science, a "efervescente cena" (um termo bem clichê para descrever a cultura daqui) foi se desarticulando, a fusão virou fissura, e cada macaco voltou pro seu galho.

André Dib · Recife, PE 17/5/2007 21:39
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