DO MATO

Pedro Martinelli
O sertanista Apoena ensina ao futuro cacique Akã a lei dos brancos
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Pedro Rocha · Fortaleza, CE
3/9/2006 · 226 · 15
 

Pedro tinha apenas 20 anos, jovem fotógrafo do jornal O Globo. Início dos anos 70, os militares ditando o sim e o não no Brasil, o Exército farejando guerrilha para as bandas do Araguaia. "Subversivos" entocados na selva conjurando contra a Pátria que avançava rumo ao desenvolvimento, abrindo veredas em direção ao Norte, floresta adentro. Progredir é abrir estradas, uma delas era a Cuiabá-Santarem (BR-163). Mas tinha uma pedra, índios, gigantes e ferozes, os Panará, no meio do caminho. Fronteira entre Mato Grosso e Pará. A estrada ia passar. O Globo mandou um fotógrafo para cobrir o estabelecimento do contato com os índios. Adoeceu. Mandou outro. Problemas de novo. Na redação ninguém ia queria se embrenhar. Mandaram Pedro.

Três anos acompanhando a expedição chefiada pelos sertanistas Cláudio e Orlando Villas Boas para conseguir estabelecer contato pacífico com os índios gigantes, conhecidos na época por Kranhacãcore. Três anos namorando, chegando de mansinho, enquanto o pau comia no Araguaia.

Pedro Martinelli acompanhou o processo até o estabelecimento do contato que no final deixou apenas 70 índios vivos, dos 300 que tinham antes de chegar sarampo, gripe e outros produtos de exportação made in homem branco. E desde essa época fez da Amazônia sua causa, se revezando entre ela e a selva de pedra São Paulo. Acompanhou a volta dos Panará, depois de 20 anos no Parque Indígena do Xingú, em 94. Daí publicou o livro Panará: a volta dos índios gigantes em 98. Suas andanças pelo mato foram publicadas no Amazônia o Povo das Águas em 2000 e Mulheres na Amazônia, seu último trabalho, em que pegou a beleza das mulheres da região, o avesso da estética afrancesada das fotografias de moda que fez durante seu trabalho na Abril.

Formado nas grandes redações do jornalismo brasileiro, Pedro Martinelli foi fotógrafo do O Globo de 1970 a 1975, depois fotógrafo e editor de fotografia da revista Veja (1977-1983) e diretor de serviços fotográficos no conjunto de revistas da Editora Abril (1983-1994). Fotógrafo de esportes, Pedro Martinelli correu atrás da foto, grandes lentes para capturar a imagem, o momento, até comprar um barco, pedir demissão da Abril e começar a fazer a sua fotografia em que o mais importante são os bastidores, a convivências, as pessoas e a vida. É sobre essa experiência que ele falou por telefone, enquanto um estudante de jornalismo perguntava e a cada resposta pensava: “Caralho, o cara faz com uma câmera tudo que eu pensei fazer com as palavras”.

Como você criou esse relação tão íntima com a natureza?

Na verdade com o mato. O mato é a essência da vida. O matão. Mato virou uma palavra pejorativa. Mato hoje significa lugar abandonado, sujo, imundo. E mato não é isso. Eu fui criado no mato, na Mata Atlântica, por isso se chama mata Atlântica. Eu nasci do lado da Mata Atlântica, meu pai caçava e eu acompanhei meu pai. Então eu sou mateiro desde de criança. Então a minha relação com o mato vem desde de criança, e o meu sonho era conhecer a Amazônia. Em 1970 eu era fotógrafo do O Globo, tinha 20 anos de idade, e O Globo mandou dois fotógrafos antes de mim, para fazer a cobertura do contato dos Panará, mas pra fazer o contato tinha que caminhar até chegar os índios, caminhar na estrada Cuiabá-Santarém. Os dois tiveram problemas de saúde, e ninguém mais na redação quis ir. E o meu chefe mandou eu ir e eu não voltei mais, fiquei três anos lá. Foi lá que eu conheci o Cláudio Villas Boas, que vamos dizer foi meu mestre de vida e entendimento dessas questões todas que estamos vendo hoje. E a partir daí eu comecei a ter uma proposta, uma visão sobre a Amazônia, sobre esse processo de degradação que nos estamos vivendo hoje. Na verdade o Cláudio já sabia o que ia acontecer.

Como você vê esse contato?

O Brasil sofria muita crítica com relação ao tratamento que tinha com os índios. O Brasil começou matando os índios, dizimando, os bandeirantes iam matando tudo que viam pela frente. Em 70, a coisa ficou mais moderna, eles passavam uma estrada em cima de uma aldeia, era a forma de se matar rapidamente. E era inevitável. Eram 300 índios, morreram 230 índios com o contato. Isso é o grande drama de uma comunidade, esse 70 que sobraram foram pro Xingu, saíram da região e foram viver dos lados dos maiores inimigos, os Caiapós, e ai eu os reencontrei, depois de 20 anos. Eles voltaram hoje a ser um grupo próximo do que eles eram antes, 300 índios. Eu acompanhei o processo de volta pra região, houve uma pressão e a Funai demarcou uma terra próxima a antiga e eu acompanhei essa mudança, isso em 94. Eu sinto uma culpa de ter viabilizado isso na figura de um branco. Hoje estão lá, estão bem, claro que eu apesar de ter sido quem expressou essa dor imensa, o índio não sabe se você é jornalista, fotógrafo, pra ele você é um branco imundo e eu na figura do branco fui o único cara que voltei a velos depois do contato. Eu voltei lá e foi um encontro muito interessante, um princípio tenso, mas hoje eles entenderam, e eu vou lá de vez enquanto e tem uma convivência muito boa.

Você reaprendeu a olhar depois que saiu das redações?

É engraçado isso, porque quando eu fotografava em jornal eu era fotógrafo de tele, de objetivas grandes. Quando eu decidi mudar, pedi demissão da Abril depois de 17 anos empregado. Eu decidi ir pra Amazônia comprar um barco pra fazer meu primeiro livro. Primeiro eu comprei um barco, me estruturei, depois pedi demissão e era uma decisão difícil, porque eu era editor, era executivo, ganhava bem. A partir do momento que era isso que eu ia fazer, eu mudei tudo, mudei inclusive o meu jeito de olhar, porque o que me fez mudar foi tudo que eu deixei pra trás nos outros anos, toda sensação de perda do jornalismo medíocre que a gente faz no dia-a-dia. Então eu decidi que agora eu vou fazer as coisas do jeito que eu acho que devem ser feitas. Então se eu tiver que esperar um mês pra fazer a fotografia que eu quero, eu espero. É outra fotografia, a minha. Não preciso de tele, vou fotografar o que tiver ao meu alcance. Eu fui me acalmando, virando outra figura, fui deixando de ser um fotógrafo e fui virando cada vez mais um sujeito preocupado com o entorno que eu tava fotografando, com o compromisso com essas pessoas. A fotografia serve pra massagear o ego do fotojornalista, então você tem que pensar se a fotografia que você tá fazendo faz bem para as pessoas que estão sendo fotografadas. Eu uso a fotografia hoje como um compromisso com as pessoas que eu tô fotografando, com as coisas que eu acredito. Então muda a relação, eu tenho dois prazeres: o primeiro lugar é conviver com essas pessoas que eu gosto, que são meus heróis, o caboclo, o índio, essa pessoa que ainda não foi contaminada pelas grandes cidades. Eu tenho que fazer uma fotografia que seja compatível com aquilo que eu acredito.

Como é o processo de conhecer as pessoas até apontar a câmera?

É exatamente o que eu te disse, como fotojornalista eu recebia ordens, tinha prazo pra fazer as coisas, tempo, dinheiro. Então você estava sempre tenso, entrando nos lugares sem pedir licença, dar bom dia, querendo fazer as fotografias. Eu gosto de fazer as coisas no tempo em que elas têm que ser feitas. Eu chego não como fotógrafo, mas como cidadão. Não adianta chegar fotografando, porque eu não sou fotógrafo de foto única, minhas fotos têm que ter enredo. Eu tenho primeiro que explicar pra comunidade o que eu faço, quais são as minhas intenções, deixar isso muito claro. Eles me acolhem. Eu começo a fazer a fotografia que as pessoas dizem que parece que não tem fotógrafo. Eu passo a conviver com eles, enfiado nos confins do mundo. Eu gosto mais de estar junto do que fotografar às vezes, então isso é um diferencial pra fotografia, você estar no tempo dos fotografados. Você vai na roça colher mandioca na hora que tem que colher mandioca, você não vai na hora que o fotógrafo tem que bater a foto. Então quando você passa a enxergar o mundo como ele é, sem interferência, acompanhando, convivendo, é outra fotografia.

A fotografia seria um pretexto para essas experiências?

Sem dúvida, se eu não fosse fotógrafo, provavelmente eu teria outro rumo na minha vida. Infelizmente é isso que acabou. Desculpa, mas o jornalismo morreu, o jornalismo de verdade morreu. Hoje é uma atividade como qualquer outra, burocratizada total, as pessoas ficam no computador, pesquisando na internet, ninguém viaja mais. Eu sou da época do jornalismo que a gente tinha que ir nos lugares, viajar, e é isso que faz uma cultura. Hoje você não paga pro fotógrafo ir aí no lado. O que melhora o indivíduo é a estrada, a vida, o mundo, mas hoje ele fica enfurnado na frente do computador, fazendo entrevista pelo telefone como a gente tá fazendo aqui. Não vamos generalizar, você não viria aqui só para fazer uma entrevista, mas seu Estado é uma maravilha, eu voltei alguns anos atrás no Sertão dos Inhamuns, apesar de toda a seca, é uma das coisas mais maravilhosas do mundo. Quando você vê o Sertão dos Inhamuns na televisão? Você não vê uma abordagem dessa gente, ninguém quer ir lá, porque não tem hotel, nem tem outras coisas... Agora não se anda, não se pesquisa, não se faz nada, então não se descobre.

Qual o equipamento que você usa hoje?

Trabalho com Leica M6 e M7, não sou mais um fotógrafo que anda fantasiado, ando como cidadão, menos fotógrafo possível. Trabalho só com lentes pequenas 35mm, 28mm e 50mm. Eu era um fotógrafo de esporte, eu sempre fui fotógrafo de esporte, de trabalhar com grandes lentes. Eu cobri duas Copas do Mundo, Olimpíadas, trabalhei na Gazeta Esportiva que foi meu primeiro emprego. Mas no trabalho pessoal, mais importante que a fotografia pra mim é estabelecer o contato com as pessoas que eu vou fotografar. A tele serve pra você roubar uma imagem e eu não quero roubar uma imagem. Eu deixei de subir em cima da mesa, invadir lugares, coisas que eu fiz a vida inteira como fotojornalista. O mato foi me civilizando, o caboclo a Amazônia, foi me civilizando.

Porque não trabalha com equipamento digital?

Primeiro porque ninguém me pediu nada em digital ainda, no dia em que alguém me pedir uma foto digital e o trabalho for bem pago eu compro uma câmera digital. Eu não vejo muita diferença, eu acho uma pena um ponto de vista querer eliminar o outro. A fotografia digital em si é uma maravilha, depende do que você quer da vida, eu acho que do ponto de vista cultural o filme é muito mais rico, porque precisa ter um entendimento de todo processo químico e mecânico. A fotografia digital é igual um telefone celular, quem mexe em um celular sabe mexer em uma câmera. Isso é muito legal porque socializou a fotografia, por outro lado banalizou também. As pessoas acham que a fotografia é cor e qualidade. Eu acho que não, a fotografia é emoção, você pode ter uma foto fora de foco que passe emoção. Pra mim tanto faz, se eu tiver de fotografar com uma câmera digital, mecânica, um pedaço de pau, tanto faz. Pra mim vale o que tá na cabeça. A câmera só serve pra decodificar o que tá na sua cabeça.

www.pedromartinelli.com.br

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Thiago Camelo
 

Muito bacana essa colaboração, especialmente na parte em que ele começa a falar do método dele de fotografar, entrando na comunidade, vivendo a vida por lá.

Fico pensando assim sobre um assunto levantado - a câmera digital pode até banalizar a fotografia, mas, se como ele diz (e eu concordo), o importante é a emoção, o que não falta é gente sem experiência cheia de emoção para fotografar. Não?

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 31/8/2006 16:25
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Pedro Rocha
 

pode ter certeza Thiago. E eu não sei se ele pensava na experiência profissional para uma boa fotografia, mas o "banalizar" sempre me soa como um apego estético, questionável, a alguma expressão, mas totalmente compreensível para quem deu e dá a vida por ela.

Já que estamos na edição, pra quem chegar no final do texto ou principalmente pra quem não chegar: dá pra ler um texto desse tamanho na internet? É tão doloroso cortar.

Pedro Rocha · Fortaleza, CE 31/8/2006 16:30
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Felipe Vaz
 

a entrevista está show! sou fã do Martinelli, quando vi as fotografias dele pela primeira vez foi um choque: objetos e plasticidade próximas do overbadalado Sebastião Salgado, mas sem o distanciamento e o lado político carregado, é uma fotografia mais humana (as do Salgado, pra mim, procuram descrever a distância e não a proximidade com outras culturas, parecem de outro planeta).

só senti falta de saber o que ele está projetando hoje...

Felipe Vaz · Rio de Janeiro, RJ 1/9/2006 12:37
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Felipe Vaz
 

errinho tipográfico: "...voltei a velos depois do contato"

Felipe Vaz · Rio de Janeiro, RJ 1/9/2006 12:38
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Pedro Rocha
 

Felipe, fiz a pergunta, mas já acho que tá lnga a entrevista, por isso deixei de fora, mas reproduzo aqui:

O que tá fazendo agora?
Eu continuo pensando e fotografando a Amazônia. O meu projeto pessoal é sempre relacionado a Amazônia, apesar de que agora eu vou começar um livro com o Alex Atala, que é um chef de cozinha de São Paulo, e nós vamos fazer uma coisa bem diferente que é misturar a minhas imagens da Amazônia de degradação, da culinária real da vida, com os pratos do Alex. O Alex é um chef que usa produtos e pensa só em Brasil, um chef que pensa todos esses ingredientes, essa cultura brasileira, de uma forma bem prática assim e uma preocupação de ambiente e de valorização da cultura. E eu do meu lado tentando valorizar essa cultura cabocla da roça, do indivíduo, que tem uma culinária que nos brasileiro não prestamos atenção e quando a gente presta atenção é sempre uma visão estereotipada. O mais importante de tudo isso é exatamente a predação da floresta, por exemplo nos vamos abordar no livro de culinária a substituição da floresta pela soja.

Pedro Rocha · Fortaleza, CE 1/9/2006 12:57
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Dramarc
 

Incrível. O Martinelli cumpre a fliosofia da atenticidade em sua plenitude. Um pessoa muito gente, que superou todas as ambições lugares-comuns da cidade grande (emprego bem remunerado e alta posição no trabalho). Foi atrás do sentimento, da vida...linda entrevista!

Dramarc · Fortaleza, CE 4/9/2006 05:35
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Ricardo Sabóia
 

Grande entrevista, Pedro!

Ricardo Sabóia · Fortaleza, CE 4/9/2006 14:12
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Daniel Duende
 

Grande texto, Pedro. O seu xará Martinelli é um grande homem, e seguramente tem muitas histórias para contar. Gostei muito do envolvimento dele com o fotografado, com aquilo que está "além" da imagem capturada (mas que aparece nela, se você souber como "pegar" a coisa). Me admirei sobretudo com a humanidade do cara.

Uma grande entrevista! Parabéns! Merece ficar uns bons dias nos destaques do Overblog!


Abraços do verde.

Daniel Duende · Brasília, DF 4/9/2006 17:01
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SILVASSA
 

deve-se considerar este texto como um dos clássicos daqui

SILVASSA · Salvador, BA 4/9/2006 19:48
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Ana Murta
 

Que colaboração bacana Pedro! Belo texto, bela entrevista.
O Pedro Martinelli é um grande contador de histórias.

Ana Murta · Vitória, ES 4/9/2006 22:15
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Thiago Perpétuo
 

Pedro, antes de mais nada, meus parabéns. Aos dois Pedros, diga-se. Ao fotógrafo, meus respeitos máximos. Que exemplo de vida. Este pensamento, este compromisso para com o objeto "roubado" pelas lentes, as imagens sendo não mais as vítimas do olhar, mas partícipes de um processo que une arte e informação... singular no cenário do fotojornalismo.

Thiago Perpétuo · Brasília, DF 5/9/2006 11:31
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Vânia Medeiros
 

Caramba, Pedro, que especial ler isso tudo. Muito bom poder ler um pouco sobre esse olhar tão delicado e rico de Martinelli, deu vontade de muito mais.

Veleu mesmo!
Grande abraço e parabéns.

Vânia Medeiros · Salvador, BA 6/9/2006 10:23
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PauloZab
 

Cara, que bom que o texto também ficou em um nível satisfatório. As fotos são realmente uma preciosidade.

PauloZab · Macapá, AP 6/9/2006 11:39
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Luisa Pitanga
 

A entrevista tá uma delícia, acho que vale uma parte II. Ficou com gosto de quero mais...parabéns!

Luisa Pitanga · Rio de Janeiro, RJ 6/9/2006 14:16
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carol veiga.
 

Preciosidade de fotos, texto e pessoas. Riqueza.

carol veiga. · Vitória, ES 6/9/2006 14:55
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