Brasil.gov.br Petrobras Ministério da Cultura
 
 

DO-RI (FÁ-SÓ-LÁ-SI) CAYMMI

Dori durante oficina em Barbacena
1
Leandro Lopes · Belo Horizonte, MG
9/9/2008 · 222 · 3
 

Entrevista publicada no jornal O Tempo e no Mascando Clichê

Ele é baixo, cabelo grisalho, voz grossa, bigode de sargento e, se não fosse pela camiseta de malha e a calça jeans, poderia ser facilmente confundido com um coronel nordestino. Mas da brabeza e do autoritarismo dos mandas-chuvas sertanejos, Dori Caymmi tem muito pouco. Ao contrário, filho de um dos mais importantes compositores da música brasileira é calmo, paciente e brincalhão. “Uma época eu tava precisando de uma grana e pensei em montar uma dupla com meu irmão Danilo. Que tal: Chitanilo e Dorinó?”

Mas não é possível se ter uma conclusão assim de Dori Caymmi em poucas horas. De passagem por Minas Gerais, onde ministrou, na cidade de Barbacena, uma oficina de música durante uma semana, foi possível perceber as características das quais são formados os homens musicais. Dori já nasceu em uma época e em um lugar musicalmente opulentos (início dos anos 40, no Rio de Janeiro) e ainda teve o privilégio de ser um dos três filhos (ele e seus irmãos: Nana e Danilo) que cresceu aprendendo com as canções praeiras e os sambas geniais do pai, Dorival Caymmi, que morreu no último dia 16 e, ouvindo a graciosa voz da mãe, Stella Maris, que também faleceu no dia 27.

Certamente se precisa de uma tremenda força de caráter para sobreviver a um nome tão poderoso: Caymmi. E mais que se manter vivo, Dori nunca desejou, aparentemente, tornar-se aquilo que seu nascimento lhe ofereceu. Não aspira a fama, menos ainda o estrelato. Ao completar 65 anos, dia 26 de agosto, o compositor de músicas como “Saveiros”, “Desenredo” e “O Cantador”, fala na entrevista a seguir, sobre as dificuldades de ser filho de Dorival, das suas parcerias e lembranças da sua trajetória musical. Dori concedeu a entrevista antes do falecimento dos pais, mas nela recorda histórias da família.

Dori, quando se pensa em família Caymmi, se pensa logo em um ambiente muito musical. Gostaria que você falasse um pouco das suas lembranças da infância, da adolescência, do contato com a música...

Família é um troço muito engraçado. Lá em casa, os domingo sempre foram dias de grandes comidas. Como não tínhamos aula, então nosso programa era aproveitar um pouco da mistura de comida baiana e mineira. Era muito bom! Comer e ouvir música e música de todos os tipos. Papai sempre ouviu de tudo e a gente acabava ouvindo também.

É possível lembrar quais estilos?

Claro. Esses domingos têm uma influência muito grande na minha vida, não dá pra esquecer. Lembro de Jacó do Bandolim, Frank Sinatra, Elizeth Cardoso, Ary Barroso, Noel Rosa. A gente ficava louco porque era tanta música de tantos estilos diferentes. Ainda tinha meu pai, com seus sambas e essa coisa que gosto muito nele que é a canção do mar, a temática do pescador, da praia. Tudo isso tinha em mim, enquanto criança, uma coisa muito forte.

Existe uma música que marca este período?

Ah! É doce morrer no mar. Lembro bem do papai cantando com aquela voz mais trombone que a minha. E essa música ainda tem a letra do Jorge Amado, que é uma pessoa tão querida e, na minha opinião, o homem que ensinou o Brasil a ler, como disse certa vez o Paulo César Pinheiro.

Foi difícil ser filho do Dorival Caymmi?

As pessoas tinham uma mania, na minha época de menino, de dizer que filho de peixe, peixinho é. No fundo, eles estavam querendo que eu quebrasse a cara, porque é muito difícil você ser filho do Dorival... ele não é famoso não, mas é um artista muito respeitado. Lembro que quando a Nana [Caymmi] cantou ‘Saveiros’ muita gente disse que foi papai que fez a música, depois me acusaram de roubar uma música inglesa. Eles fizeram tudo para torturar, a imprensa principalmente. Enfim, era difícil ser filho de Dorival Caymmi.

Você fala que sua vida musical se divide entre seu pai e o Tom Jobim. Por quê?

Meu pai sempre ficou muito surpreso e não gostava muito da idéia dos filhos todos serem músicos. Pra ele foi muito difícil também que todo mundo caísse na carreira musical. E, no meu caso, Tom Jobim foi que me socorreu (risos). Me colocou debaixo da asa. Ele dizia ‘esse menino toca bem violão. Dorival, você tem que tratar esse menino melhor, ele tem futuro’. Ele ficou me incentivando o tempo todo. E putz, incentivo do Tom Jobim? Já viu! Aí eu passei a ser violonista dele. Gravei várias coisas com o Tom e fui aprendendo porque ele é um grande mestre.

Ele era muito exigente?

Era não, ele é. Por que até hoje Tom Jobim ensina. Ele sempre foi muito centrado nele mesmo. Essa coisa que falo sempre da fama. Aprendi muito isso com o Tom. Ele era generoso e cauteloso. Lembro que uma vez fiz um arranjo que ele gostou muito, aí ele me chamou na casa dele e ficou umas duas horas conversando comigo, comemos e bebemos e ele não conseguiu dizer que tinha gostado do arranjo. Aí quando eu já estava indo embora, entrando no carro, ele gritou da janela: ‘oh! Gostei muito’ (risos). Mas com um sacrifício. Pra ele foi difícil dizer isso (risos).

Sem o apoio do Tom você poderia não ter seguido a carreira musical?


A carreira musical eu iria seguir de qualquer modo, não sei se minha cabeça seria a mesma que é hoje. Porque é muito difícil essa coisa de filho do artista e a cobrança que isso gera. Eu lembro que tinha medo de cantar, por exemplo. Talvez eu tenha até hoje, eu só canto quando me sinto muito tranqüilo e as pessoas são muito amistosas e isso acontece principalmente com os que pagam pouco.

Pagam pouco? Por quê?

É. Porque quem paga R$ 170 para ver um show, no fundo não quer ver show, quer aparecer na Revista Caras (risos). Eu procuro trabalhar em uma média de público que possa pagar o suficiente para curtir e isso me dá a certeza que se trata de pessoas amistosas e musicais. Isso é muito bom! Meu pai ensinou a família toda a não ter essa ambição de ficarmos milionários com casas, ilhas, helicópteros, essas coisas todas.

Como foi seu começo profissional? Quem te influenciou além do Tom e do seu pai?

Foi na TV Tupi. Eu entrei meio pela janela porque a Nana tinha ganhado um programa semanal chamado ‘Canção de Nana’ e eu comecei acompanhando ela. Nessa época eu já tinha forte influência do João Gilberto, do Baden Powell e também do Radamés [Gnattali]. Lembro do Radamés falando: harmonia, harmonia. E também o Luiz Eça, do Tamba Trio... Esse foi o cara que me ensinou a escrever música. Era uma época em que as pessoas eram menos egoístas e não existia essa história de ficar rico. Hoje é que com essa coisa de trio elétrico e não-sei-mais-o-quê, está todo mundo querendo ficar rico, ter helicópteros, ilhas...

E aparecer na Caras.

Isso. Principalmente, aparecer na Caras (risos).

Queria que você falasse das parcerias. Paulo César Pinheiro, Nelson Motta, e por aí vai.

O Nelson Motta foi o primeiro. Fizemos muitas coisas bacanas, como ‘Saveiros’, ‘O Cantador’. Aí foi quando eu comecei com o Paulinho. Era uma época interessante porque estava vindo da leitura do Jorge Amado e estava justamente passando para o Guimarães. Aí pronto! Peguei as veredas do Guimarães e não deu outra. Acabou que minha música passou a ficar um pouco mineira.

Você segue o método de composição por telefone do Paulo César?

Por tudo (risos). Telefone, fax, nós ainda operamos em K7. Eu não tenho essas máquinas de copiar CD, essas coisas não. Eu acho que essa tecnologia, inclusive, inventou a pirataria e, portanto eu não uso. Não uso e não sei usar e não quero aprender. Sequer eu tenho estúdio. Tenho um teclado, tenho meus discos e os violões, só.

A principal música seria ‘Saudade de amor’?

Não. Você sabe que não tem uma principal, mas se eu fosse escolher seria a ‘Desenredo’ que eu fiz para Minas Gerais. Foi uma época que operei a perna e tava meio na bronca com a vida, sem tocar nada e um dia colocaram um violão perto de mim e eu ficava lendo Guimarães e o violão do lado. Lembro que essa época estava lendo ‘Tutaméia’, aí peguei o violão e comecei “Ê Minas, ê Minas, é hora de partir, eu vou...” Daí pra frente eu fiz a música e o Paulinho fez um poema, uma letra lindíssima.

Já que estamos falando de lembranças, queria que comentasse um pouco sobre o DVD da família Caymmi...

(risos) O Danilo falava: ‘isso não vai dar certo’. Não foi fácil. Nós tínhamos que homenagear o velho e era difícil escolher repertório e também lhe dar com a Nana. A Nana cria caso. Primeiro ela chuta sua canela, emburra e não quer fazer e depois, aos poucos ela vem chegando e acaba sempre fazendo brilhantemente. Lembro que ela disse: ‘fiz aqui uma lista das músicas e só canto elas’ (risos). Mas aí quando ela entrou no espírito, ela começou a curtir. Foi ótimo! Quando a gente fez uma mostra, eu levei pra papai e ele ficou emocionado, cheio de lágrima nos olhos. No final, todo mundo adorou. Nós somos muito unidos, embora lá em casa todo mundo é muito bravo. Foi o melhor presente que a gente e ele, é claro, poderia ganhar.

Um pouco de opiniões agora. A música brasileira é a melhor música do mundo. Você concorda?

Concordo! Agora precisamos separar. Não concordo se o sentido for a nova música brasileira. Eu acho que a música brasileira como um todo é melhor que a americana, melhor que a européia.

O que viria a ser essa nova música brasileira?

É essa história dos bregas, das bandas caipiras, do romântico que deturpa o sentido do sertanejo. Eu tenho falado que o rock não é uma coisa nacional. E essa coisa nova do axé na Bahia que estragou com aquela terra. Tem muita gente de talento escondida por lá por conta dessa força comercial. A Bahia descobriu essa indústria e pronto. Se eu pudesse, puxava a tomada do trio elétrico e desligava tudo.

O que você acha do Ministério da Cultura?

O Ministério da Cultura do Brasil está no Sesc. Eu tenho visto o trabalho deles e é a salvação da lavoura do Brasil, em especial, para a música. Essa coisa da separação do Ministério da Cultura nunca deu certo. Era melhor o MEC.

O que você acha das leis de incentivo?

Eu acho uma dependência. Eu achava que não precisava tudo isso, mas infelizmente tem sido a salvação de muito artista novo. Não gosto dessa Lei Rouanet. Não gosto de uma lei em que você tem que submeter seu projeto a um ministério que vai achar se vale a pena ou não. Quem são esses caras para achar se vale a pena ou não? Que autoridade eles têm para achar isso? Eu acho que o Rouanet, coitado, foi até bonzinho, mas o fato de você ser submetido a uma comissão, é ruim.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Ilhandarilha
 

Leandro, muito boa entrevista. Adoro os Caymmis todos.
Mas achei interessante a afirmação dele de que o Minc está no SESC - não entendi. Pelo menos aqui, SESC e cultura não têm nada a ver. Acho que ele se refere a uma realidade carioca, paulista ou baiana, talvez. Mas não é a realidade brasileira.

Ilhandarilha · Vitória, ES 9/9/2008 11:12
sua opinião: subir
Leandro Lopes
 

Exatamente! Ele fala do trabalho do Sesc principalmente em São Paulo. É sensacional!

Leandro Lopes · Belo Horizonte, MG 9/9/2008 21:49
sua opinião: subir
Helena Aragão
 

O Dori é um grande fã do Danilo Miranda, presidente do Sesc SP. É do grupo (considerável) de pessoas que achava que ele daria um bom ministro da cultura, apesar do próprio Danilo dizer que seu trabalho é completamente diferente do realizado num ministério. Mas é verdade, Sesc que seja referência em termos culturais só o de São Paulo. Pelo menos por enquanto... Abraços

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 10/9/2008 13:49
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

observatório

feed
Revista Overmundo nº 6: esquentando as turbinas!

A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados