Documentário MACIÇO ilumina morros da Ilha

Felipe Obrer
Até então, as antenas eram o maior símbolo do Morro da Cruz
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Felipe Obrer · Florianópolis, SC
25/4/2009 · 77 · 20
 


Maciço. É um nome com cedilha. Assim como maçarico. Que também faz luz com o fogo e às vezes serve para fundir metais duros. O documentário joga luz sobre as favelas que circundam o Morro da Cruz. E acende a brasa de um debate que precisa acontecer.

Florianópolis, ou Floripa, como é conhecida, é uma cidade que ganhou, nos últimos anos, cada vez mais notoriedade na mídia como destino turístico e reduto de belezas naturais incomparáveis. É evidente que se a divulgação existe se refere a uma realidade. Mas como ensinava um velho sábio, constitui erro tomar uma abstração (uma parte do todo) como realidade absoluta. Vale considerar que, marginalmente ao perfil turístico da porção insular da cidade, se desenrolam dramas humanos e riquezas culturais inaparentes ao olhar menos profundo.

O olhar de Pedro MC e sua equipe (especialmente o toque feminino na pesquisa, nas entrevistas e na co-produção de Karen Christine Rechia, doutoranda em História do Brasil na Unicamp) destrincha a realidade do Maciço do Morro da Cruz e dá, com os depoimentos pinçados, uma boa amostra da vida dos mais de 30 mil habitantes das 17 comunidades que o compõem. Dá espaço à voz dos moradores das favelas. E, como dizem os antropólogos, não existe a verdade, existem as vozes. Daí a importância de se falar sobre o filme neste espaço.

É possível que o filme tenha se transformado, sem deliberação prévia, em registro histórico relevante. As obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento, do Governo Federal) em Florianópolis se concentrarão na chamada revitalização do Maciço do Morro da Cruz. Em um espaço de tempo relativamente curto nada mais será como é. Aliás, as obras já começaram, portanto tudo já está em transformação.

Assisti à pré-estréia e tive a idéia de escrever a respeito. Depois assisti à exibição que aconteceu em frente ao Museu Victor Meirelles. Quem não assistiu ainda tem várias oportunidades para isso, durante o Circuito de Exibição OLHAR.DOC.


Sensação ao assistir

Na pré-estréia, que aconteceu no CIC (Centro Integrado de Cultura), houve duas sessões. A primeira para convidados e a segunda aberta ao público em geral. Ambas gratuitas. Assisti à segunda sessão. Logo de início fui surpreendido pela animação bem cuidada de abertura com os créditos. Em seguida o convite à imersão vem na forma de bateria de escola de samba, num crescendo, e logo arremessa os olhos numa cena simples, num corredor em aclive, com crianças brincando na precariedade inconsciente. Os espectadores reagiram com risos em muitos trechos, já que certos depoimentos carregam aquela jocosidade possível, resignada.

Para não estragar a experiência alheia, não dou mais detalhes sobre cenas específicas. Apenas ressalto que as entrevistas, guardada a provável "pose" que as pessoas fazem ao se saberem filmadas, são muito espontâneas. A produção não é exagerada, e esse é um trunfo excepcional do filme. Pedro MC conseguiu captar, tanto quanto possível, a realidade cotidiana das pessoas. E também abriu a janela para que falassem de sonhos, medos, dificuldades e alegrias.

No Museu Victor Meirelles foi interessante presenciar a exibição ao ar livre, com projeção na parede externa. A cidade na tela e a cidade em volta. Sirenes presentes tocando uma esquina adiante enquanto na tela/parede alguém falava das dificuldades enfrentadas na relação com o estado. Créditos finais subindo ao som de uma canção cuja estrofe repetia "crianças do gueto" ao mesmo tempo que meninos pobres passavam eludindo os olhares.

No intervalo entre as sessões que presenciei, assisti a dois documentários que têm alguma relação com Maciço. Santa Marta: Duas semanas no morro, do Eduardo Coutinho, e Notícias de uma guerra particular, do João Moreira Salles. É sensível a influência desses diretores sobre o trabalho de Pedro MC. É necessário dizer, entretanto, que Maciço tem vida própria e autônoma. E um dos detalhes que o faz singular é justamente a forma de distribuição livre escolhida pelo diretor.


Circulação do filme

O documentário foi contemplado no Edital Cinemateca Catarinense / Fundação Catarinense de Cultura. Como teve financiamento com dinheiro público, o diretor defende (e pratica) a distribuição livre. Na fase atual, com as exibições gratuitas que vêm ocorrendo e continuarão ao longo do próximo mês. Na etapa seguinte, com suporte de mídia digital. Quer antes, apenas, elaborar um DVD bem produzido, com extras etc., para não "soltar" arquivo com cópia de má qualidade. É um zelo ao qual tem direito.

O Circuito de Exibição OLHAR.DOC tem um formato inovador. Consta no site de divulgação que "A ideia é perpendicular à estrutura de um festival ou de um cineclube, pois ao invés de vários filmes serem exibidos num mesmo local, apenas um audiovisual será projetado em diversos pontos(...) Após cada projeção do Olhar.Doc um ou mais convidados farão um debate a respeito dos temas suscitados no filme. Sobre o longa-metragem “Maciço”, que teve pré estreia no Cinema do CIC no dia 10 de março de 2009, as discussões não passam apenas sobre a produção, a narrativa e o mercado de audiovisual, mas também sobre a própria visibilidade das comunidades retratadas no filme."


Uma dificuldade, que já começa a incomodar o diretor, é dar retorno às comunidades agora que o produto final está pronto. Tanto no CIC quanto no Museu Victor Meirelles, não havia presença significativa de pessoas das comunidades documentadas. Perguntei sobre isso durante o debate que aconteceu após a exibição no Museu. Segundo Pedro, é difícil atrair os moradores do Maciço a lugares considerados "elitistas". Mas o filme vai subir o morro. Já está em processo o agendamento de sessões nas comunidades. Por enquanto, vai cumprindo outra de suas missões: colocar em pauta a questão do espaço urbano em Florianópolis.


Troca cultural

Assistir Maciço propicia também uma reflexão sobre como, ao modo descrito por Paulo Freire, o oprimido tende a reproduzir o opressor. Várias falas dos entrevistados são carregadas de preconceitos e lugares-comuns, muitas vezes assimilados a partir dos meios de comunicação de massa (leia-se tevê). Por outro lado é impressionante e inesperada também a originalidade de alguns discursos.

A invisibilidade de quem faz o carnaval, o samba, o rap e os cultos religiosos de matriz africana ou toca projetos sociais começa a se desfazer em Floripa. E o caminho da troca cultural entre os morros e o resto da cidade, seja em ascensão ou descida, começa a ser mais transitado.



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Clique aqui para assistir entrevista com Pedro MC

Cizânia Filmes

Circuito de Exibição Olhar.Doc

Agenda do circuito

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Créditos


EQUIPE
Direção: Pedro MC
Roteiro: Luciano Burin
Entrevistas: Karen C. Rechia
Produção: Karen C. Rechia & Pedro MC
Assistente Produção: Shaumi Wolmer
Fotografia: Diego Canarin & Pedro MC
Som Direto: Douglas Vianna
Montagem e Animação: Yannet Briggiler
Edição de Som: Rodrigo Amboni
Decupagem: Marcelo Silva & Shaumi Wolmer
Produção: Cizânia Filmes
Co-Produção: Omago Arte Audiovisual
Apoio Equipamento: FUNCINE

______________________________

Contato com o diretor:


Pedro MC pedromc@terra.com.br (48) 3025.5375 e 8405.5375

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Segundo o Houaiss eletrônico, maciço pode ser algo:

cujos componentes estão bem unidos; cerrado, denso, espesso

de aspecto massudo; encorpado

profundamente arraigado

dado, feito ou produzido em grande quantidade; intenso

que concerne a um grande número de pessoas

massa, agrupamento ou corpo de grandes proporções

arvoredo, mata ou jardim compactos, sem clareiras

bloco compacto de rocha num cinturão orogênico, geralmente mais rígido do que as rochas vizinhas e formado quase sempre de uma base cristalina; conjunto de montanhas que formam um bloco contínuo

...........................

É um verbete poético

...........................

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Ilhandarilha
 

bom ver um texto desses, digamos, sensorial. espero que o filme passe por aqui... a foto do morro da cruz está linda.

bjos

Ilhandarilha · Vitória, ES 22/4/2009 22:35
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Spírito Santo
 

Vou ler depois. Agora estou atolado. Cara, que foto do cacete esta do morro!

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 22/4/2009 23:55
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Felipe Obrer
 

Obrigado pelos comentários, Ilha e Spírito. Já que ambos comentaram sobre a foto, aviso que manipulei digitalmente. Deve ter dado pra notar, imagino.

Abraços,
Felipe

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 23/4/2009 00:01
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Spírito Santo
 

Felipe,

Fiquei também fissurado para ver o filme. Animador saber que em contrapartida ao fato dos velhos modelos (coloniais) de exclusão social no Brasil terem se tornado tão recorrentes, exista gente registrando tudo e nos dando a chance de discernir sobre algo tão grave e complexo.

Animação à parte, mesmo careca de saber porque, fico ainda abismado como o nosso país, de norte a sul, na ditadura ou na democracia, faça chuva ou faça sol, patina na desigualdade mais anacrônica, repetindo este modelito escroto da casa grande e da senzala.
Miseria modelada, industrializada é demais para a minha cabeça. Podiam, ao menos ser originais como o Pedro MC e o pessoal que pelo Brasil a fora se indigna e registra com arte e afinco esta nossa eterna involução social. Belo trabalho.

Abs

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 23/4/2009 08:39
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Felipe Obrer
 

Então... minha sensação, contrapondo o Rio de Janeiro a Floripa, é que por aqui ainda daria tempo de fazer diferente, sem chegar ao ponto de construir muros ou o que quer que seja. Por outro lado dá pra pensar que, tristemente, os muros que mais dividem são invisíveis, e ficam dentro das próprias pessoas.

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 23/4/2009 10:24
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Helena Aragão
 

Felipe, ele resolveu fazer o filme quando já se sabia das obras do PAC ou foi coincidência? É bacana ver o registro que moradores estão fazendo das obras do PAC, aqui no Rio o pessoal de fotografia e de pesquisa do Observatório de Favelas está registrando o processo das obras. Boa maneira de juntar cidadania e arte no mesmo barco. O filme, pelo visto, vai no mesmo caminho. Abraço!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 24/4/2009 12:47
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Felipe Obrer
 

O projeto do documentário começou em 2004, portanto antes de que o PAC fosse sequer lançado.

Neste link dá pra ler mais sobre o processo.

Abraço,
Felipe

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 24/4/2009 12:58
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Felipe Obrer
 

Quanto a fotografias do processo das obras, não tem nada por aqui. Seria interessante se houvesse. Entrei no link e achei o projeto aí no Rio interessante.

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 24/4/2009 14:31
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Pedro MC
 

Também gostei da matéria, o Felipe conseguiu - com muita generosidade devo dizer - captar o espírito do projeto. Começamos a pré-produção em 2003 prá 2004, o PAC nem havia sido batizado ainda. E a maior recompensa agora são os debates gerados pelas exibições. Ainda sim é muito difícil exibir nos próprios morros. Acredito que os pontos de cultura vem justamente prá suprir essa demanda. Quando digo difícil é difícil mesmo, logisticamente, politicamente, financeiramente. Peço que os interessados não se acanhem e entrem em contato prá agendar uma exibição, em qualquer lugar da galáxia.
Abraços!

Pedro MC · Florianópolis, SC 24/4/2009 14:50
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Andre Pessego
 

Pois é Obrer, este descasamento entre o que é feito, de boa intenção, das melhores mesmo, é que pesa desfavoravelmente entre nós. O publico, que seria o alvo, raramente é alcançado, ou alcança os documentários, as peças de teatro etc.
Ainda hoje estou falando um pouco de ARENA CONTA ZUMBI, de 1965, nem mesmo a cançao atingiu, alcançou, o alvo: a pessoa negra.
Mas são outros 500 ...A função do intelectual, do artista é fazer ...
abraço
andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 24/4/2009 20:12
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Ilhandarilha
 

Pedro, desculpe por meter minha colher nas suas exibições, mas tenho experiência de mais de 8 anos de exibição de filmes nos lugares mais complicados do mundo. Já levei filmes para presídios, casas de acolhimento de menores, acampamento sem terra, morros, enfim, já exibi longa metragem até debaixo de jaqueira, literalmente. Se vc tem uma cópia em DVD, é mole (pero non mucho!): um data-show, um amplificador mais ou menos e 2 boas caixas de som resolvem tudo. Quando se exibe numa comunidade que não tem acesso a quase nada de cultura, qualquer meio-fio vira poltrona. No caso do morro do Cruzeiro, acho que só pelo fato do seu filme falar da comunidade, a própria comunidade vai apoiar. Procure a associação de moradores ou um comerciante local. Se 3 botecos se juntam para rachar as despesas o custo fica baixo para todos e eles ainda lucram com as vendas na exibição. Aqui em Vitória os barraqueiros de uma feirinha de bairro fizeram isso e exibimos o filme na feira, com criança correndo no meio e etc. Foi bacana.
Fiquei bem curiosa com o documentário.
Abraços

Ilhandarilha · Vitória, ES 24/4/2009 21:27
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Helena Aragão
 

Pedro e Ilha, acho que essa colaboração foi mote para uma boa conversa e para esta troca de experiências sobre exibições em lugares, vamos dizer, não-preparados. Pedro, se conseguir realizar as exibições no morro, conte aqui depois como foi o processo de produção e a reação da comunidade!
Felipe, vou botar pilha pro pessoal do projeto de registro do PAC contar por aqui como anda o trabalho. Abraços

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 25/4/2009 15:48
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Ivette G.M.
 

Na verdade você traz boas e más notícias. A boa é ver gradativamente a exclusão social se extinguindo. Até poderia ser mais rápido ou já ter acontecido. A má é que, aos poucos se perdem tradições culturais importantes e adquire-se uma cultura massificada e pasteurizada. Contudo, é um preço que se tem que pagar.
Muito bom. Ivette G M

Ivette G.M. · Cotia, SP 26/4/2009 18:26
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Jéfte Sinistro
 

Muito boa a proposta do documentário... Estou curioso para conferí-lo. São necessários trabalhos assim para uma reflexão sobre a realidade e para uma construção de perspectivas. Um abraço.

Jéfte Sinistro · Cabo de Santo Agostinho, PE 27/4/2009 16:52
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Jéfte Sinistro
 

PS: As fotografias também estão excelentes!

Jéfte Sinistro · Cabo de Santo Agostinho, PE 27/4/2009 16:53
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Alê Barreto
 

Felipe, missão cumprida! Ficou muito bom o "retrato" que você nos trouxe sobre esta significativa ação cultural que o Pedro MC e toda equipe envolvida na produção, divulgação e distribuição do filme.
Falar de uma realidade desconhecida pela maior parte das pessoas serve como uma terapia para a sociedade entender como ela está.
Outra questão muito interessante foi suscitada pela Ilhandarilha e pela Helena, que é a questão da exibição em lugares não preparados. Eu não tenho experiência direta nisso, mas acho que seria algo como "uma ação de mochileiro planejada". Aliás, esta tem sido a minha tecnologia de ação cultural. Procuro ver de que maneira é possível realizar uma determinada ação e experimento. Aos poucos, vamos aprendendo um caminho que mantenha a qualidade necessária para receber a ação cultural, que ao mesmo tempo facilite a produção desta ação cultural e na escala mais evoluída permita tornar sustentável futuras ações culturais.

Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 3/5/2009 21:07
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Felipe Obrer
 

Neste sábado, dia 15 de agosto, às 15h30, tem exibição do documentário na Associação de Moradores do Morro do Céu, no Centro de Floripa.

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 13/8/2009 03:20
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Pieresan
 

Pedro, parabéns pelo filme. Espero vê-lo em breve.

Pieresan · Curitiba, PR 9/9/2009 01:03
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Felipe Obrer
 

O Pedro MC me avisou que em menos de 3 meses o e-mail dele indicado no texto aqui deixará de existir. O novo contato passa a ser pedromc77@gmail.com



Felipe Obrer · Florianópolis, SC 7/10/2009 03:42
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Felipe Obrer
 

Não havia notícia aqui, mas aconteceu em 2010 ainda o lançamento do Cine Maciço, projeto que levou cinema aos morros de Fpolis: http://cinemacico.wordpress.com/2010/03/22/lancamento-cine-macico/ É bem possível que as conversas e idéias que circularam aqui tenham contribuído. Quem quiser saber mais sobre a quantas anda o Cine Maciço, pergunte ao Pedro, que era MC, agora é Carneiro: http://pedromcdotnet.wordpress.com/

Abraços!

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 10/9/2011 11:49
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