Documentário une leis de incentivo ao crowdfunding

Blog do filme
Eu Maior é um documentário sobre auto-conhecimento e busca da felicidade
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Rafael Queres · Rio de Janeiro, RJ
11/7/2011 · 33 · 3
 

Bons ventos começam a soprar nas terras brasileiras e os novos empreendedores estão aproveitando para zarpar em outros rumos. Desde o início de 2011, as plataformas de crowdfunding eclodiram a todo vapor no cenário nacional. O chamado financiamento colaborativo já se firmou como mais uma oportunidade promissora para muitos realizadores que, graças ao modelo, começam a tirar seus projetos da gaveta. Ao pé da letra, crowdfunding significa “financiamento da multidão”, algo que nos lembra a popular “vaquinha” que os amigos sempre fizeram para ajudar algum parente ou amigo a transformar seu sonho em realidade. No entanto, com as novas ferramentas e tecnologias da comunicação, essa dinâmica ficou bem mais organizada, simples e funcional.

O documentário "Eu Maior" é um exemplo que parece abrir novas janelas para produtores audiovisuais independentes. No início de 2010, antes mesmo do surgimento das plataformas de crowdfunding no Brasil, a Catalizadora Audiovisual, produtora do filme, criou um site exclusivo para a buscar seus apoiadores diretamente na multidão. Enquadrado na Lei do Audiovisual, o filme assume a tendência internacional do novo modelo de captação e agrega um diferencial pouco convencional para os padrões do mercado brasileiro. Após ter aprovado o seu orçamento, o projeto começou a buscar patrocínio de pessoas jurídicas. Até aqui, nada demais. Mas poucos sabem que a própria lei acena para a possibilidade de investimentos de pessoas físicas, que da mesma maneira também podem lançar mão da renúncia fiscal.

Com orçamento total estimado em R$ 550 mil, “Eu Maior” espera captar R$ 200 mil através das cotas de investimento de pessoas físicas. A Agência Nacional do Cinema (Ancine) abriu uma conta de captação especial para o montante arrecadado de pessoas físicas, limitado a 40% do orçamento total. Desde novembro do ano passado, os recursos provenientes dos apoiadores já somam R$ 92,7 mil. Para dar dinâmica à proposta, cada cota de patrocínio de pessoas físicas pode ser comprada por R$ 100,00. Conforme a Lei do Audiovisual, o patrocinador pode ter o Imposto de Renda restituído em até 6% do que deve ao Leão.

Plataformas brasileiras

No Brasil, o financiamento colaborativo tem se firmado como alternativa viável aos pequenos projetos. Além de ter pautado diversos cadernos na imprensa é extensa a documentação que fóruns e blogs especializados estão desenvolvendo para introduzir o modelo na cultura empresarial brasileira.

Através das plataformas, o projeto criativo se lança antes mesmo de ser executado, tendo tempo para fortalecer a sua rede de relacionamento com o público. O projeto pode ser uma proposta a começar do zero ou pode ser o desenvolvimento de uma etapa específica. Nessa aposta, o que vai garantir o sucesso de uma empreitada é o impacto que provoca na sociedade. Quanto maior a relevância do projeto, maior a chance de alcançar novos fãs e entusiastas. Simples? Nem tanto. Para dar uma outra perspectiva sobre o sucesso ou não de um projeto, Rafael Zatti, uma das vozes que se destaca na matéria do crowdfunding, avaliou algumas empreitadas que não atingiram a meta de captação no prazo estipulado. Vale à pena conferir.

O dono do projeto, ao mesmo tempo em que minimiza os riscos de ter sua ideia inacessível, falida ou guardada na gaveta, pode avaliar o seu desempenho junto aos apoiadores ou, se for o caso, reposicionar a estratégia no decorrer da sua campanha. Resumidamente, em linhas gerais, o modelo do crowdfunding é um meio de promoção e de fomento; num único pontapé o projeto angaria fundos para sua execução e é promovido por fãs, amigos, ativistas e entusiastas.

Além das novas ferramentas de comunicação, outro ponto básico que diferencia o crowdfunding da tradicional “vaquinha” é uma regra geral: quem participa do financiamento colaborativo é recompensado por isso. Essa relação de troca celebrada entre o dono do projeto e os apoiadores não deve ser confundida com uma venda indireta já que a recompensa criativa nem sempre é um produto ou serviço. Pode ser feita uma referência do patrocinador nos créditos de um filme, dedicatórias, cartas, livros autografados, camisetas, adesivos, broches, etc. Para cada faixa de doação há uma recompensa criativa específica.

O responsável pelo relacionamento com os apoiadores mantém constante diálogo com o público e o uso das mídias sociais para isso é parte fundamental do processo de comunicação. Fundamental mesmo. Com elas, o público-alvo das iniciativas é ativado e, a partir de então, o boca-a-boca cumpre a sua missão.

Iniciativas surgidas nas plataformas já são rotina frequente nas rodas de discussão. Queremos, Catarse, Movere, Incentivador, Senso Incomum, Benfeitoria, Multidão, Waca Waca e Embolacha são algumas opções para o projeto nascente, essas marcas já estão na boca dos novos empreendedores. No total, há aproximadamente 12 plataformas em funcionamento. O Vakinha não entra na lista porque, como vimos acima, no modelo da “vaquinha” não há qualquer necessidade das recompensas.

A estratégia do documentário

Em meados de 2009, “Eu Maior” era uma apenas uma ideia. Mas a proposta conseguiu apoio de um empresário que se identificou com o projeto. Com o recurso investido por ele, foi possível dar início às pesquisas. Nessa época, a Catalizadora Audiovisual já tinha um objetivo claro, definido na sua sinopse: realizar um documentário que “visa trazer uma reflexão contemporânea sobre o autoconhecimento e busca da felicidade, questões essenciais e universais, numa época de grandes transformações e desafios”.

Quando a própria equipe da produtora criou um site para o filme, antes mesmo das filmagens a intenção era proporcionar um pequeno “tour” às empresas afins com a iniciativa. Mas do crowdfunding nasceu uma grande oportunidade. O coprodutor de "Eu Maior", o engenheiro e consultor André Melman, com base no que verificou a partir da participação popular no sistema de doações às campanhas políticas de Barack Obama, nos Estados Unidos, e de Marina Silva, no Brasil, partiu para o chamado benchmarking. Durante o processo, Melman pesquisou mais alguns cases de sucesso aplicados à indústria cinematográfica. Foi então que chegou aos filmes "The Cosmonaut", coprodução entre Espanha e Rússia, e "Just Do It". Depois de avaliar essas experiências, o site do filme “Eu Maior” já podia contar com a nova inspiração nos negócios a partir das contribuições do público.

Atraindo grande atenção para as causas que desperta, trechos do documentário começaram a circular nas mídias sociais logo após as entrevistas. Em tom de conversa, são registrados momentos particulares e reflexões de pensadores, ativistas, poetas, cientistas, professores e espiritualistas. Entre os ilustres convidados do filme estão Leonardo Boff, Marcelo Yuka, Sônica Café, Monja Coen e Prem Baba. A equipe pretende filmar 30 entrevistas até o fim de 2011.

De maneira independente, a produtora conseguiu o apoio da rede Cinemark para a exibição de suas duas sessões de pré-estreia até o final do ano (conforme o seu projeto inicial). Quando o site do documentário agregou a inspiração trazida pelo novo modelo de financiamento colaborativo, possibilitando ao público a isenção fiscal como diferencial da proposta, a rede de cinemas também se tornou patrocinadora do filme. Desde então, vários outros grandes players vieram a figurar entre os apoiadores e patrocinadores do documentário.

A equipe, formada por André Melman (co-produtor), Fernando Schultz (co-diretor e produtor), Paulo Schultz (co-diretor e produtor), Marcos Schultz (co-produtor) e Felipe Cordeiro (Assistente de Produção), por conta do esforço de divulgação feito pelos produtores e assessores, ganhou adesão de blogueiros, sites e profissionais atuantes em clínicas médicas, praticantes de meditação, ativistas, professores e outros produtores interessados no modelo de negócio. Além dessa rede de apoios, o filme também ganhou destaque na mídia tradicional, principalmente por conta do material publicado por jornais e revistas.

Modelos similares

No mercado brasileiro, até onde essa pesquisa conseguiu checar, a empresa foi a primeira a se “aventurar” nessa empreitada, aliando incentivos fiscais ao crowdfunding, de modo organizado e com o suporte da internet. Outro mecanismo de financiamento similar, envolvendo a renúncia fiscal de pessoas físicas, foi encontrado no “Eu faço cultura”, programa da Caixa Econômica Federal. Mas essa iniciativa é focada nos funcionários da instituição, que aplicam o parte do Imposto de Renda devido em projetos culturais através da Lei Rouanet. Vale destacar ainda que, no Brasil, a maioria das iniciativas de pessoas físicas no mecenato cultural, envolvendo renúncia fiscal, parte especialmente de grandes empresários, como Eike Batista, por exemplo.

Expectativas de projeção no mercado

Até agora, a equipe não pode contar com a possibilidade de realizar viagens internacionais. Mas tais planos não estão totalmente fora da rota do documentário. Ainda há a intenção de filmar personalidades como Marcelo Gleiser e Paulo Coelho.

Com o filme pronto até o final de 2011, a expectativa é que o lançamento não demore para acontecer, ainda nesse ano. Aproveitando a rede de parceiros e apoiadores (e o calor do boca-a-boca), o filme pretende ser lançado em todas as janelas possíveis, primeiro no cinema, e depois na TV e em home video. Por fim, o filme será distribuído gratuitamente na Internet.

Desafios sustentáveis?


Além dos percalços que afligem a todo produtor independente no Brasil, um dos grandes desafios enfrentados foi o processo de amadurecimento da ideia, trazida pelo crowdfunding, dentro da própria equipe. Superada essa etapa, uma outra dificuldade foi a burocracia para que tudo corresse dentro das normas legais. Emitir centenas de boletos e comprovantes de captação e checar e transmitir esses dados para os órgãos fiscalizadores pode ser exaustivo. Aguardar a liberação da conta de movimentação para começar aplicar os recursos no filme também pode parecer uma tortura. Mas esse é o preço do pioneirismo, não existe fórmula para o sucesso. O segredo é a persistência.

Vale dizer que investir no filme e receber incentivo fiscal é uma opção dos apoiadores. Muitos desses incentivos financeiros são dados por profissionais liberais, autônomos e anônimos. Esse ponto é sempre frisado pela equipe de produção, que reverterá todo lucro decorrente da exploração comercial do filme à Associação Dobem, instituição sem fins lucrativos que utilizará os recursos no cumprimento de sua missão: promover desenvolvimento humano integral.

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Rafael Queres
 

Após ser alertado pelo coprodutor do filme, André Melman, gostaria de fazer uma correção. Não há uma conta específica para patrocínio de pessoas físicas e outra para pessoas jurídicas; a conta de captação é uma só. A informação do terceiro parágrafo do texto, portanto, deve ser entendida da seguinte maneira: A Agência Nacional do Cinema (Ancine) limitou a 40% do orçamento total o montante arrecadado de pessoas físicas

Rafael Queres · Rio de Janeiro, RJ 12/7/2011 19:50
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Andre Melman
 

Na verdade Rafael, não existe este limite de 40% também.
A equipe de produção que determinou uma meta de R$200 mil para patrocínio de PFs, atualmente com cerca de R$100 mil já captados.

Andre Melman · São Paulo, SP 14/7/2011 11:38
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Andre Melman
 

O lançamento comercial em cinema está previsto somente para 2012, provavelmente no primeiro semestre.

Andre Melman · São Paulo, SP 14/7/2011 11:49
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