Documentário Vamo Batê o Coco!

por Kemla Baptista
Batendo o coco na praia.
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Kemla Baptista · Olinda, PE
13/12/2006 · 153 · 6
 

Assim como afirma a letra de sua música, ele não deixa cultura parar em uma das mais carentes e violentas comunidades da região metropolitana do Recife. É um dos maiores mestres da cultura popular e reúne uma série de aptidões e atividades que fazem dele uma figura interessantíssima. Além de um exímio tocador e cantador de côco, dedicou boa parte de sua vida ao mercado informal. Seu Zeca também coleciona, conserta e vende antiguidades. A certa época da sua vida vendia Roletes de Cana (Iguaria tipicamente pernambucana – cana de açúcar cortada e espetada num palito) em frente a uma das mais tradicionais escolas católicas de Olinda. No alto da Sé ele oferecia carinho e bons momentos de diversão e aprendizagem fora da sala de aula, marcando a infância de muitas meninas e meninos nas décadas de 70 e 80. Até hoje é lembrado com muito carinho por eles. Para essas crianças, hoje adultos, falar de Zeca do Rolete é falar de uma infância feliz em que “Seu Alegria” marcou forte presença. Um homem que aos 65 anos cuida de seus filhos e netos (que não são poucos), e por “só” por isso merece todos os tipos de homenagem. Diante dessa questão, “aquele” que até então cantava seus cocos em rodas que ele mesmo organiza, em frente a sua casa na descriminada comunidade do Turúrú, “a pedra no sapato” do bairro do Janga (em Paulista), ou em algumas festas de amigos também coquistas, precisava ter algum tipo de registro de sua obra e história. Um registro feito com bastante carinho e sensibilidade.

Conheci Zeca do Rolete através da minha mãe, Hercília Belmiro. Ela é pedagoga e gestora de uma escola pública próxima à comunidade do Turúrú, em que as netas de seu Zeca estudam. Um dia desses, ouviu duas meninas cantando e falando para os colegas da turma de alfabetização que eram cantoras. Que cantavam com o vôvo Zeca do Rolete! Isso despertou sua atenção, fazendo com que posteriormente ela conhecesse o próprio Zeca, se encantasse com toda a história e com as músicas que ele cantou a capela com as netas. Ela chegou em casa contando sobre “Seu Zeca e suas netas lindas”. Fiquei logo com vontade de conhecer essa família, mas a aproximação real aconteceu depois de saber de um fato triste na vida de Seu Zeca, que foi o falecimento de uma das suas filhas. Ao receber essa notícia tive a idéia de fazer algo pra ajudá-lo.

Assim surgiu a idéia de fazer o documentário e uma apresentação da família na festa junina da escola cantando côco de roda. Falo pra vocês, foi um sucesso! Conheci Seu Zeca, suas três netas cantoras e seu filho tocador de bombo. Levei para a festa alguns amigos. O Daniel Rigotti, Lena e Sheyla. Eles viram a apresentação e se encantaram com tudo. As meninas deram aquela força, arranjando câmera emprestada (valeu meninas!). Pois é, estava formada parte da gigantesca equipe do documentário que até então não tinha nome. O Daniel que já havia sido convidado por já trabalhar com cinema e vídeo em São Paulo, ficou responsável pela captura de imagens direção e edição. Além da idealização, fiz a produção e pesquisa. Já havia apresentado a proposta do documentário a três amigos músicos que logo concordaram em participar deste trabalho. Então foi isso, com uma equipe formada e roteiro definido, só o que tínhamos em mente era mãos a obra, ou melhor. Mãos na câmera, rumo ao Turúrú, dedo no rec. “E vamo batê o coco”!

Dessa forma nasceu o documentário “Vamo Batê o Coco”. Diante da inquietação ao ver esse grande artista no anonimato, encontrando dificuldades para se subsistir através da sua arte, e da vontade de jovens estudantes de criar é que ele aconteceu. Esse documentário, que nada mais é do que um despretensioso registro de um dos divertidos encontros entre três jovens músicos da cena pernambucana (Carlos Amarelo: Forró Rabecado| Azabumba, Bruno Vinezof: Forró Rabecado| Azabumba| Pandeiro do Mestre e Guga Santos: Banda da Cantora Isaar) com o Mestre Zeca do Rolete que aconteceu no dia 04 de julho, um domingo ensolarado no “invernal” mês de julho de 2006. Uma iniciativa que visa promover a interação da música contemporânea de Pernambuco com a tradicional. Um trabalho puramente sincero para nós e louco para os que não acreditavam que teríamos êxito em fazer qualquer tipo de atividade dentro do Turúrú. É inaceitável, mas ouvimos discursos preconceituosos, que só nos deram mais certeza que o Documentário teria que ser feito. Comentários do tipo: “Imagina, se um grupo de jovens com cara de classe média consegue entrar numa favela levando esses equipamentos! O povo de lá vai voar em cima de vocês e roubar tudo”. Mas como tínhamos certeza nada disso aconteceu.

Com a caminhada dos três músicos pelas ruas da comunidade até a casa do mestre, e em meio a uma roda de coco, aconteceu o início da captura das imagens para o documentário. A família de Zeca do Rolete, seus filhos e suas pequenas netas participando, cantando e tocando com os vizinhos que aos poucos tomaram a frente da casa numa rua estreita daquela comunidade. Feijão cozinhando na panela de barro, fogo de lenha, a poeira que subia do chão com a dança, aqueles rostos de adultos e crianças, assustados encantados com o seu primeiro contato com a câmera operada pelo Daniel e até mesmo com a câmera fotográfica digital em que eu registrava os bastidores da gravação. Tudo era uma novidade pra eles e pra nós.

Depois da festa na comunidade fizemos imagens na praia com um grupo menor de pessoas sob os olhos atentos e curiosos dos moradores da beira-mar. Na despedida pegamos um ônibus lotado (isso mesmo: ônibus do domingão na praia!) e víamos pela janela os astros do filme correndo atrás do coletivo mandando abraços e beijos. Nessa hora vi que todos nós estávamos completamente emocionados, com lágrimas nos olhos e sorrisos nos lábios. Rumamos para Olinda, para realizar a última etapa da captura das imagens. Numa casa no Alto da Sé (casa de dois dos músicos que participaram do documentário) finalizamos o trabalho, com os depoimentos dos participantes. E que depoimentos...nossa! Depois disso, um chop pra distrair e voltar pra casa com a sensação de missão cumprida.

Enfim, este trabalho resulta do carinho e do afeto que nós recebemos de Zeca do Rolete e da comunidade do turúrú. Que precisam, devem e tem direito de serem ouvidos e vistos. Não nas sessões policiais dos jornais ou em programas sensacionalistas que exploram a pobreza, sim como gente que tenta viver com dignidade sem levar vida de rei.

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sheyla ventura
 

"mas se você ainda é virgem.
se você ainda é donzela..."
seu zeca é jóia rara de simplicidade e riqueza cultural.
pra mim, ter conhecido seu zeca de perto foi o supra-sumo da minha realização e formação musical.
é pra isso que a cultura existe, não só pra mostrar peculiaridades importantes das regiões, como fazer parte de novas peculiaridades humanas.
seu zeca hoje faz parte da minha particularidade, que se torna conjunta a cada exposição minha de carinho por ele.
"ahhhh seu zeca, não deixa cultura parar!"
parabéns a kemla pela idealização do projeto e a daniel pelo belo olhar posto em prática no doc.

sheyla ventura.

sheyla ventura · Recife, PE 13/12/2006 17:42
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Jr. Black
 

É isso aí, Kemla! Ações como essa formam o mozaico da real memória artística do Brasil, aquele feito por pessoas anônimas, que convivem com a arte de maneira simples e trespassada em seus hábitos, por que a arte está personalizada neles mesmos.
Um cheiro!

Jr. Black · Garanhuns, PE 13/12/2006 19:09
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Jr. Black
 

"Porque" juntos, obviamente... hehehe! Cheiro de novo.

Jr. Black · Garanhuns, PE 13/12/2006 19:11
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tau
 

bem, tenho uma curiosidade em saber um pouco das tradições do janga em relação ao coco!
"eu fui na praia do janga pra ver a ciranda do meu cirandá, o mar estava tão belo e um peixe amarelo eu vi navegar..."

alguém ajuda? muito bom o texto!

tau · Olinda, PE 9/5/2009 15:14
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Andre Pessego
 

Ai, meu Deus, posso lhes afirmar, também me vi ali, e tam bém terminei de ler emocionado, com lágrimas nos olhos e felicidade na alma
abraço
andre

Andre Pessego · São Paulo, SP 9/5/2009 18:16
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Andre Pessego
 

Ainda sugeriria no futuro postar uma resenha aqui, e me avisar,
abraço
andre

Andre Pessego · São Paulo, SP 9/5/2009 18:22
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