Dois Cães

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Mauro Paz · São Paulo, SP
25/8/2007 · 147 · 4
 

Certa vez li um comentário do Fabrício Carpinejar dizendo que o livro Até o dia em que o cão morreu (Daniel Galera) seria uma obra que definiria a geração dos anos noventa. Agora chega aos cinemas, com grande apelo da mídia, o filme Cão Sem Dono, gravado com direção de Beto Brant.
Respeito muito o trabalho do Galera, no entanto, Até o dia em que o cão morreu, assim como o filme Cão Sem Dono (Brasil/2007), não passa perto de definir a geração de noventa. A narrativa do romance retrata a visão limitada de um jovem de classe média e da falta de um sentido para sua vida, a solução para o problema é a proposta de viagem para o exterior apresentada pela personagem Marcela ao final da história.
Contrapondo o filme ao livro, percebi o filme ainda mais vago que a história original. O cachorro Churras, ícone fundamental da história escrita, é meramente um figurante na versão da película. Momentos de reflexão do protagonista são deixados de lado, diálogos apresentados de forma simplória e a excelente cena do passeio noturno de moto foi descartada.
Em entrevista à TVERS, escutei um representante do Clube do Silêncio (Co-Produtora de Cão Sem Dono) afirmar que se trata de um filme seco, assim como a narrativa do livro. Bem, não podemos confundir seco com largado. Numa das cenas iniciais, a personagem Marcela diz: “Vou deixar meu telefone aqui. Se estiver afim, liga.”. Não se deixa passar um “estiver” assim, quando estamos tratando da fala de Porto Alegre. Quanto mais seco – entenda-se por seco: sem elementos extras, como efeitos de luz, som e etc.. – mais devem ser cuidados detalhes de representação, pois é nisso que o público foca a atenção. O filme de Beto Brant conta com algumas cenas de representações lamentáveis como as em que aparece Luiz Carlos V. Coelho – porteiro Elomar.
Na sua Crônica Falada (Programa Talk Radio – Rádio Ipanema) Cardoso comparou a importância para o cinema brasileiro do personagem Ciro de Cão Sem Dono ao Lorenço, protagonista de O Cheiro do Ralo (Brasil/2007), vivido por Selton Mello. Comparação infeliz. Selton Melo realmente consegue dar sentido para a expressão “filme seco”. O Cheiro do Ralo também é um filme com poucos recursos de som e luz, no entanto todos os atores representam muito bem, até mesmo o ilustrador e autor da história Lourenço Mutarelli.
Retornando à questão de representação da geração dos anos noventa, vi um filme neste final de semana que realmente merece este crédito. Trata-se de outro cachorro, Alpha Dog (EUA/2007). O filme conta a história de como o traficante playboy Jesse James Hollywood saiu da sua tranqüila vida de adolescente classe média-alta para se tornar em um procurado pelo FBI. Poderia ser apenas mais uma história de traficantes americana, mas o diretor Nick Cassavetes, consegue retratar o ritmo de uma juventude sem limites e ingênua a ponto de achar que um seqüestro não é nada de mais.
Destaco a cena da morte do “refém” – que se torna amigo dos seqüestradores. Neste momento é notável a falta de rumos e limites da geração de noventa, pois, sem saber ao certo o motivo, dois adolescentes matam o rapaz de apenas quinze anos com o qual se identificavam.
Gostaria de observar que na sou um profundo admirador do cinema americano, mas temos que perder a mania porto-alegrense de achar que podemos fazer arte de qualquer jeito e sempre nos considerarmos melhores. Mesmo Beto Brant e sua produtora sendo de São Paulo, sabemos que Cão Sem Dono tem essência porto-alegrense na produção.

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FILIPE MAMEDE
 

Mauro, seria legal destacar de alguma forma os nomes dos filmes por exemplo. (Negrito ou Itálico)

Um abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 23/8/2007 08:39
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Mauro Paz
 

Obrigado,
Como é a primeira vez que posto, não percebi que os detalhes de formatação tinha se perdido.

Abraço,

Mauro Paz · São Paulo, SP 23/8/2007 11:51
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Inês Nin
 

bom texto, mas achei um tanto estranha a conclusão. o que seria um essência porto-alegrense? (para o caso de acreditarmos em uma "essência"?)

não acho que cão sem dono defina geração alguma, eu achei o filme bom, mas é um longa com alma de curta. (para o caso de acreditarmos em "alma", haha!). isso mesmo tendo o tempo na medida. um mérito relacionado ao seu texto ele certamente tem, além de toda a estrutura minimalista: apresenta uns tantos silêncios e espaços vazios, que poderiam, sim, fazer muito sentido no que diz respeito à geração 90. e à atual.

alpha dog não, vi, mas estou devendo.

Inês Nin · Rio de Janeiro, RJ 28/8/2007 20:05
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Cintia Thome
 

Bom , Mauro. Interessante e texto perfeito
abçs...votei

Cintia Thome · São Paulo, SP 21/9/2007 12:56
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