Na primeira semana desse mês, se apresentou aqui em Teresina o espetáculo Desmundos, de Luis Ferron, uma produção patrocinada pelo Programa Rumos Itaú Cultural Dança. Só hoje, praticamente metade do mês, recuperado o fôlego, é que paro para comentar sobre.
Esse texto não tem como fim fazer uma crítica que vá servir para o grande público. Vou dizer aqui sobre minha impressão pessoal, sobre o que ficou em mim depois do espetáculo.
Naquela noite meu plano era ir ao shopping fugir do calor 37º, mas já na porta da rua surgiu a lembrança da apresentação. Sem muita esperança de pegar o espetáculo antes do inicio, segui para o Teatro Municipal João Paulo II.
Não tão atrasada como imaginei, ainda deu tempo de bater um papinho com conhecidos enquanto esperávamos a permissão para a entrada do público [pequeno, por sinal] na sala. Lá fora, todos compartilhavam da mesma opinião de que o que veríamos naquela noite seria algo diferente do que já vimos em palcos piauienses. E foi.
Quando as portas se abriram e o público pode, enfim, entrar, encontrou a sala escura, com os bailarinos já posicionados. Um amontoado de corpos nus no chão, impossível até distinguir a quem pertencia cada braço e perna que, aos poucos e vagarosamente em silêncio, se arrastavam até o outro lado do palco.
Dois bailarinos de perfeitos corpos e outros dois de corpos “imperfeitos”. Mas aí, à medida que o espetáculo foi acontecendo, todo o seu conceito de perfeito e imperfeito, normal e anormal, passa por uma transformação, por uma balança. Você perde a noção do que é e do que não é perfeição ou normalidade.
Enquanto os dois homens ditos perfeitos fazem [aí entra uma impressão muito, muito pessoal sobre dança moderna] movimentos desconexos, os dois que chamaríamos de imperfeitos se desdobram num jogo de quebra de barreiras das suas próprias limitações. E eu ali, atenta aquelas pernas sem vontade própria que interagiam com aquelas outras que faziam movimentos precisos, pensava o quanto esse nosso corpo é só uma mera capa. Um invólucro de algo muito maior chamado, talvez, de consciência. Essa desconstrução do corpo como algo de suma importância [esqueci de mencionar que no fundo do palco eram projetadas imagens de uma autópsia] me transportou não só para o pensamento filosófico do corpo como embalagem, mas também para o conceito, enraizado culturalmente, da oração. Do calar, voltar a mente para algo maior e agradecer. Agradecer por minhas pernas, pés, dedos, braços, mãos, movimentos, todos, todos funcionando em harmonia entre si. Me bateu também um sentimento de culpa, uma sensação de egoísmo ao achar que devo agradecer por isso. Devo? O que me faz melhor que aquelas pessoas diferentes de mim que estavam ali dançando? O movimento correto [correto?] das pernas e braços é essencial? Qual o real conceito de normalidade? E do corpo, o que dizer? Durma-se com essa.
Dormi, acordei e continuo. Acho que depois de Desmundos nunca mais verei perfeições e imperfeições do corpo com os mesmo olhos. Dar valor as perfeições e imperfeições da alma talvez, esse sim, seja o grande lance.
Ficha Técnica
Direção e concepção: Luis Ferron
Treinamento corporal: Luis Ferron
Intérpretes Criadores: Hélio Feitosa, Ivan Bernardelli, Luis Ferron, Mufid Hauache.
Trilha sonora: Rebello Alvarenga
Voz em Off: Elaine Éco
Concepção de Luz: André Boll
Adaptador e operador: Ari Bucciones
Vídeo: Carlos Magno
Adereços Circenses: Marcio Costa
Figurino: Rosemeire Sabri
Oi Aline. Bacana teu texto. Acho que em geral espetáculos de dança acabam sendo pouco comentados (em sites, jornais, blogs) porque, ainda que causem reações, parece que ninguém se sente muito à vontade de comentar sem ter conhecimento mais profundo sobre esta arte. Por isso gostei do tom do teu texto, informal e informativo ao mesmo tempo. Abraço
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 18/10/2007 16:52
Oi menina bonita,
destes o ar da graça, andas fazendo o que? falta contar.
um abraço, andre.
line, só agora que eu vi...
ja tinha gostado, hehe
e to triste de nao ter ido la assistir contigo
Hei, Aline... só agora vi teu texto, meses depois. Raro ver impressões tão bem expressas---sensíveis e diretas.
Desmundos atordoa mesmo, e seu texto me fez (positivamente) baqueada de novo.
Te intimo agora a escrever mais e publicar tbém nos blogs do teatro e do núcleo:
www.teatrojp2.blogspot.com e
www.nucleodecriacaododirceu.blogspot.com
ps: Natasha, perdeu mesmo!
Olá Aline!
Fico feliz por ter captado o teor dramaturgico na sua integra. Esse foi o objeto de estudo desde o inicio, "desmundar", romper os mundos, quem é quem, o q é belo a merce de paradigmas sócio-culturais? o q é belo de fato? E muito bem observado, naquela bancada de aço inox (autópsia) o q nos resta de fato, o que somos, quem somos e enfim, para que, ou para quem somos?? Na verdade esse comentário vai pela mera felicidade de parecer estar escutando meus próprios pensamentos no inicio das minhas pesquisas e reflexões.....
Sensibilidade e imparcialidade, características fundamentais para escritores de qualidade.... se possível, continue apreciando e colaborando com a dança através dos seus comentários.
grande abraço, Luis Ferron.
oi Aline
não concordo de jeito nenhum com a sua consideração de que o corpo é apenas um invólucro, uma capa. Por que voce agradeceu tanto por estar com o seu "invólucro" harmonico? Se é apenas uma capa, não teria tanta importancia. Outra questão: voce já foi assistir a um espetáculo onde só haviam consciencias dançando? Ou um espetáculo com mortos dançando? Claro que não, isso não existe. Estamos vivos porque temos corpo, somos nossos corpos, nada mais. A consciencia pode se manifestar porque nosso corpo está vivo. O intelecto pode se expressar porque o corpo está vivo, pulsando. Perfeito, imperfeito, são conceitos furados no que se refere à vida. A vida não é perfeita nem imperfeita. Não tive oportunidade de assistir ao espetáculo, mas sem dúvida o que voce assistiu foram pessoas vivas dançando. Corpos em movimento.
Desculpe meu tom contundente nas palavras. É que fico indignado com este tão antigo conceito de que a consciencia é mais importante do que o corpo.
abraço
Lourenço
Lourenço, obrigada pelo comentário. Não imaginei que depois de tanto tempo ainda fosse lida por aqui.
Bom, sugiro que você assista ao Desmundos, depois releia o texto e o comentário logo acima do seu, do próprio idealizador de Desmundos, Luís Ferron. Ele diz: “Fico feliz por ter captado o teor dramatúrgico na sua integra.” Alguma coisa isso deve significar.
Aparece por aqui mais vezes! Grande abraço
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