Duas dramaturgas escreveram duas histórias encenadas por dois atores e duas atrizes. Isso é o que está por trás de Atos de Violência, com textos de Marici Salomão (Shangrilá) e Beatriz Carolina Gonçalves (Umzé), direção de Hélio Cícero, em cartaz até 06/06 no Espaço dos Satyros 1, na tão conhecida Praça Roosevelt. Essa praça, pra quem ainda não ouviu falar, é o principal foco da especulação imobiliária em São Paulo o que começa a preocupar as autoridades sanitárias mais do que os focos de dengue da cidade. Porque você, querido leitor, deve saber que especulação imobiliária pega e nem precisa de mosquito.
Imenso parêntese de lado, a montagem tem todos os traços da falta de recursos. Extrema simplicidade no cenário, que, engana-se quem o chama versátil, é na verdade duplo. Cada peça ocupa prioritariamente um pedaço do proscênio. Shangrilá é a primeira história e se passa na frente, Umzé se passa atrás. A luz, como a trilha parecem não terem sido pesquisadas com o afinco necessário para nos transportar para esse universo de um Brasil radicalmente violento. O Brasil do amanhã. Por sorte contaram com grandes atores para fazerem sumir os problemas técnicos.
A Shangrilá de Marici Salomão, diferente daquela de James Hilton em Horizontes Perdidos, é irônica. Nela, a paz só acontece através de ainda mais violência. Pelo menos é isso que os dois justiceiros da trama querem nos provar. Tudo se passa nos momentos posteriores ao primeiro assassinato que a dupla comete. Apesar de bem escritos (a la Mário Bortolotto), os diálogos parecem ainda não chegarem ao ponto necessário para que enxerguemos as diversas vozes que falam através personagens da favela tão distante. Os dois vestidos de pastores, falando o texto muitas vezes de bíblia na mão, dão somente um sentido para história. Há que se ressaltar, no entanto, o mérito da cena não realizada, mas sugerida, da mãe que encontra o filho justiceiro na frente da TV.
Umzé é a história de uma dupla improvável de detentas numa cela qualquer da cidade. Xaxá é ruiva, magra, bonita, alfabetizada, mãe e tem o institinto do colonizador. Umzé (não a peça, mas a personagem) é morena, analfabeta, bem mais mal-tratada, bruta, sem carinho e chupa chupeta. Essa, aliás, uma das imagens mais bem construídas da peça, escorre ralo abaixo, momentos depois quando a personagem explica (e fecha) o sentido da cena. Umzé é a história de amor obrigatório entre duas presas e da forma como enxergamos essa relação. Mais uma vez a TV aparece. Mais uma vez ela tem o melhor espaço da peça. A boa nova é que não vemos uma cena sequer na TV.
Ficam, de todo o esforço do espetáculo, sobretudo o esforço dos textos, algumas imagens cheias de sentidos, as quais parecem até terem sido feitas sem propósito, de tantas rebarbas que a peça apresenta. Tendo ou não propósito, vale atentar para a forma como a televisão aparece em ambas as representações. Talvez no teatro, o sentido não seja muito claro, mas certamente a peça se aproxima da vídeo-arte ao incluir esse objeto famigerado, de formas tão criativas em cena.
Publicado originalmente na Revista Bacante.
Fabrício Muriana · São Paulo, SP 27/5/2007 13:57
Valeu a dica, Egeu.
Pela primeira vez usei o recurso de múltiplas fotos.
Não são exatamente as imagems que eu teria do espetáculo, mas trazem pelo menos mais uma referência.
Abraço.
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