Duas vozes no exílio contra a ditadura.

Mirian Paglia
Yara e Daniella: juntas na resistência ao Golpe Militar de 1964.
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Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ
24/4/2007 · 97 · 8
 

Gostaria de chamar a atenção dos habitantes do Overmundo sobre um livro lançado em São Paulo e que, na próxima semana, será lançado em Brasília pela Editora Cultura, dirigida pela jornalista Mirian Paglia. Refiro-me a DUAS VOZES, escrito por Yara Gouvêa e Danielle Birck, que fala sobre o exílio e a militância política nos anos de chumbo. Convidado para ler e comentar o livro, confesso que me identifiquei e me comovi com o testemunho dessas duas amigas que atravessaram um período dramático da história do Brasil e do mundo e sobreviveram para nos lembrar – nessa época de tanto individualismo, cinismo e desilusão política – de um tempo em que se acreditava na possibilidade de se fazer História e sacudir o mundo com idéias e sonhos.

O livro vale ser lido por revelar verdades sabidas sobre a História recente do país e outras não tão conhecidas sobre os bastidores da resistência, além dos conflitos e contradições experimentados por uma geração de jovens que ousou enfrentar a ditadura e dizer, alto e bom som: não passarão! Mesmo à custa de sacrificarem parte de sua juventude e, muitas vezes, a própria vida. As contradições no interior das organizações de esquerda, os dramas e inseguranças que muitos não conheciam são revelados por DUAS VOZES femininas, duas mulheres que ousaram resistir e denunciar as atrocidades do regime, quando o mais sensato, do ponto de vista da própria sobrevivência, seria aceitar, calar. E que por isso pagaram um alto preço: o exílio.

Adriana, Eunice, Roman, Raimundo, Antônio, Daniel, Japa, Bacuri, Bicho, Padre Jean são alguns dos personagens que se entrecruzam no caminho das autoras e, de uma forma ou de outra, teceram uma história de luta e resistência. Um grupo de jovens que acreditava na possibilidade de mudar o mundo, mudar o comportamento, mudar a si mesmo, tudo ao mesmo tempo. E que mesmo no exílio não abriram mão de seus sonhos, de seus ideiais. Ainda que não tenha sido fácil. Afinal, o exílio é uma experiência que, não raro, conflita-se com valores, crenças e identidades pessoais, obrigando os que o vivem a uma redefinição existencial, a uma reconstrução de seus próprios valores e identidades como forma de sobreviverem lúcidos em meio ao caos, à desorientação, ao medo, à angústia, ao vazio e à possibilidade da loucura e da morte, mesmo que simbólica, no estrangeiro. É sobre esssa experiência ao mesmo tempo intensa, sofrida e fascinante que este livro trata.

DUAS VOZES deve ser leitura obrigatória não só pelo exemplo de luta e resistência, mas pela memória de um tempo que não pode ser esquecido por quem hoje vive com liberdade e democracia no Brasil. Ao fim e ao cabo, vale lembrar o poema Aos que vierem depois de nós, de Bertolt Brecht, poeta e dramaturgo alemão, que termina com um apelo que bem podeia ser estendido aos que lerem este livro, especialmente os jovens:

(...)

Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.

Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.

E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.


As autoras

Yara Gouvêa, brasileira, codinome Sônia, foi importante quadro no exílio, representando as organizações da resistência à ditadura diante dos organismos internacionais a partir de Genebra e, depois, em Argel, encarregada da publicação do boletim da Frente Brasileira de Informação (cuja sigla, repleta de ironia, é FBI), criada para denunciar prisões, tortura e mortes aos organismos de direitos humanos. Formada em Letras e com pós-graduação na Sorbonne (Universidade de Paris), dedicou vários anos de sua vida profissional ao ensino universitário (Argélia e Marrocos) e ao ensino fundamental, criando uma escola bilíngüe na qual introduziu experiências pedagógicas inovadoras. Trabalhou na Embaixada do Brasil em Marrocos. Colabora com a Fundação João Mangabeira do Partido Socialista Brasileiro (PSB) na organização de seus seminários de capacitação.

Danielle Birck, francesa, codinome Cécile (foi também Rachel na Argélia, quando da chegada dos 70 brasileiros banidos lá), é jornalista na Rádio França Internacional. Formou-se em filosofia e em português, tendo lecionado alguns anos antes de se tornar jornalista na Rádio França Internacional. Traduziu para o francês Carnaval, malandros e heróis, do antropólogo brasileiro Roberto DaMatta, e colaborou em várias obras publicadas em Portugal. Seu testemunho, neste livro, fortalece os laços que a ligam ao Brasil.

O livro já está à venda. Mas quem mora em Brasília e quiser conhecer as autoras, elas vieram de Paris especialmente para lançamento de DUAS VOZES (176 páginas, com caderno de fotos) que será lançado no dia 15/04/2007, na Livraria Cultura do Shopping Casa Park, em Brasília. Vale a pena conferir.


TRECHO DO LIVRO:

“Quando Roman reaparece, fala dos horrores que lhe contaram os outros companheiros. A acreditar que a maioria tinha enlouquecido. Santiago, naquele momento, abriga a quase totalidade dos exilados brasileiros. Inclusive muitos dos que haviam chegado a Argel lá estão,vivendo a experiência socialista de Salvador Allende.

Roman pede para Sônia acompanhá-lo em visita a Darcy Ribeiro e Maria da Conceição Tavares, aos quais falam do movimento das mulheres. Recebem em troca uma grande gargalhada da professora e economista.

A volta a Paris é feita por Roman e Sônia, sem Onofre. Nas trinta longas horas de viagem, não trocam palavra alguma sobre a Organização, nem sobre política em geral. Roman fica em Paris com Julieta; Sônia volta para Argel, não antes de desabafar com Ada, a quem apresentaabertamente todas suas impressões.

Pela primeira vez, Sônia sente ruírem os alicerces da esperança. As brincadeiras tinham ido longe demais. Ela tem agora certeza absoluta do fim da utopia da guerrilha urbana, do foco, das pseudovanguardas. Só que o ônus de suas ilusões é pesado, imensamente pesado. O risco de voltar ao Brasil é grande demais, seu envolvimento foi longe demais. No meio de tanta desesperança, ela ouve de Antônio a pergunta que nunca lhe deveria ser feita. Ele quer saber se ela está disposta a matar sem sentir nenhum remorso.

“Matar quem?”, pergunta uma Sônia atônita.
“Matar em nome do socialismo internacional. Atacar o inimigo em sua casa. Fazer atos terroristas”, diz ele.
“Não, Antônio, não estou disposta”, responde Sônia com poucas palavras e dolorosos pensamentos.

Não tínhamos dado conta do recado em nosso país e queríamos dar lições ao mundo, matando sem sentir remorso!”

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FILIPE MAMEDE
 

Com certeza deve ser um excelente relato. Outro livro bacana, é Jornalismo de Guerrilha, de Rivaldo Chinem. O livro fala sobre a mídia alternativa na época da ditadura e conta algumas história pouco conhecidas pelo grande público. Abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 24/4/2007 10:05
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Nivaldo Lemos
 

Oi, Filipe,
Gostaria de adquirir Jornalismo de Guerrilha, ele pode ser encontrado em qualquer livraria?
Abraço

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 24/4/2007 11:00
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pagliacosta
 

pagliacosta · São Paulo, SP 25/4/2007 10:52
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pagliacosta
 

excelente. obrigada pelo apoio. como editora, sei que esses depoimentos são necessários – conhecer o que aconteceu para reajustar os meios e evitar os erros cometidos é essencial. temos vários depoimentos de tom heróico, mas poucos que proponham uma revisão sincera, por mais doloroso que seja esse olhar retrospectivo. é o caso de "Duas Vozes". como foi o livro do Gabeira "O que é isso, companheiro?". daí a importância desse tipo de obra.

pagliacosta · São Paulo, SP 25/4/2007 10:56
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Nivaldo Lemos
 

Você tem razão, Mirian. Daí o meu interesse. O livro é um testemunho sincero de duas mulheres, e amigas, diretamente envolvida com aquele momento histórico. Um depoimento honesto e doloroso de quem viveu a história. Um abraço.

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 25/4/2007 11:03
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Andre Pessego
 

- A republica, nossa, a cada 20 anos, pouco menos se refunda, nunca demos um passo no construir a nação. A "ditadura" é ação recorrente, no fim de cada período intelectuais, com raras excessão, se dizem aliviados, falam em nome da Pátria (e nao de Nação), depois se juntam, montam suas planilhas indenizatórias, re-dividem, re-loteiam o Estado, se empanzinam etc. E a Nação continua rigorosamente igual. Meia duzia de felizardos puderam se exilar, num conluio com a própria ditatadura. E o resto? Tudo quanto aconteceu "nos porões da ditadura" acontece hoje e sempre com a parte da Nação que paga impostos e nao se nutrem de Estado, 90% a 80% do povo brasileiro. (visitem cadeias de periferia em fins de semana e voces vão ver tortura).
- Ainda assim acho louvável para a História... como um processo... mas nao vamos nos dar por felizes, a Nação continua como que vítima do tempo. Todos se indenizaram e o NEGRO DO BRASIL? A História do Brasil se confunde com indenização: E o negro brasileiro?
- Vamos nos DIGNAR, não esta tolice de indignação em proveito próprio.
- Ainda ssim acho louvável: Foi no exílio que Roberto Freire acordou para a situação do negro e iniciou Casa Grande e...
Que Fernando Henrique e Florestar começaram a desnudar o 13 de Maio; que Darcy Ribeiro iniciou "O Povo Brasileiro", etc. até mesmo Nina Rodrigues, começou a tratar do negro no "exilio do prestígio"; Artur Ramos, idem, mas senhores:
- Só que fora do CONDENADO NINA, ninguém apresentou uma proposta. Ninguém! Chega de condenação (condenar o que está do mesmo jeito). Vamos nos movibilizar e iniciar a construir esta Nação. A Europa desde o Séc. V absorveu todas as raças com quem conviveu, invadida ou invadindo. O espírito europeu nao absorveu o negro do Mundo. Nós não podemos continuar "durmindo o sono infantil da indiferença, deitados sobre o abismo e vulcão deixados pela escravidão", nos pediu Perdigão Malheiros, esquecido de todos nós.
Desculpem se acaso fui indelicado, Andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 27/4/2007 06:59
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Nivaldo Lemos
 

André,
compreendo sua revolta, mas acho que você está um pouco confuso. Não entendi, mas agradeço sua opinião. Espero que o livro o ajude também a formar uma opinião sobre o assunto. Um abraço.

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 27/4/2007 11:19
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mjdias
 

Quanto mais avanço na leitura de 2VOZES mais me convenço da importancia - aqui e agora, do depoimento dessas duas jovens Yara e Danielle. Sobreviveram para hoje prestarem, a bem da verdade e justiça, o devido testemunho. Duas mulheres que merecem nosso respeito e admiraçao. E junto, a Miriam Paglia, editora da cultura e diretora da col.Brasil Memoria, com sua sensibilidade e perceçao materializa esses acontecimentos , esses sonhos, essas vontades que rompem as barreiras da ignorancia.

mjdias · Pirenópolis, GO 28/4/2007 12:45
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