DUDU SANTOS 'FOREVER'

Dudu Santos
Dudu Santos artista plástico - Entrevista
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Cintia Thome · São Paulo, SP
11/9/2011 · 9 · 6
 



Esperando há meses a data da próxima exposição do artista plástico Dudu Santos, pois poucas vezes pude visitar uma exposição individual dele nesses anos, apenas vendo em galerias e espaços de arte, livros, catálogos, uma ou outra obra com a maior admiração e inquietação. Como acontecerá dia 10 de setembro, em São Paulo, a individual de Dudu, intitulada “Forever”, com apresentação do Poeta Paulo Bomfim e Mário Gioia, não me contive em que o artista me concedesse uma entrevista. No início dos anos 80, logo após uma viagem que fiz aos USA, conheci o trabalho do artista Dudu Santos na Galeria Documenta em São Paulo. Dudu pintor, performático (o primeiro já nos anos 60), cenógrafo, ilustrador, curador, professor.Um artista contemporâneo sério e completo.Estudou ou conviveu com grande parte da arte contemporânea Brasileira, renomados como Eduardo Sued, Mário Gruber, Yolanda Mohalyi, Nelson Nóbrega, Renina Katz, Joaquim Rocha Ferreira, Marcelo Grassmann , Darel e Caciporé Torres. Assim nas galerias americanas eu já havia ficado entusiasmada pelos artistas que faziam ‘happenings’ ou usavam suportes com uma linguagem expressionista com a mistura do abstrato e figurativo. Há no seu trabalho, em minha opinião, uma identificação com a vanguarda européia das pinceladas em seus negros, cinzas e até nos vermelhos e azuis de Berlim. Todas as vezes que me deparei com a arte de Dudu Santos me transpõe a dois artistas: o artista plástico, ex-beatle, o jovem Stuart Sutcliffe que teve uma influencia dos parisienses e britânicos na abstração e no expressionismo americano e do carioca Jorge Guinle Filho, Geração 80, que era adepto da ‘action art’. Mas Dudu, apesar de ter sua obra única, não se curvou a ‘pop art’ como Guinle. Por essa identificação nunca mais esqueci Dudu Santos.
A obra de Dudu é inquietante, pois carregada de traços fortes em suas figuras e sua maneira gestual, dinâmica, provocante e poética. Da alegria ao sofrimento. A comunicação é imediata entre obra e expectador, sua vibração é imensa e nos conecta a luz Primordial, a luz única de Deus e seu Criador: aquela que é só dada a poucos. Assim a cada olhar nas obras ‘vivas’ de Dudu me convenço que ele carrega essa luz própria.




1-Como iniciou esse amor pela arte (trajetória)? E como classifica sua obra no atual contexto da arte?

Comecei a pintar em função de um raio. Nadando no Clube de Campo São Paulo com 11 anos num dia de chuva, estava no trampolim da piscina tomei uma descarga elétrica de um raio, fiquei 1 ano de cama praticamente paralisado, um dos exercícios de terapia era tentar desenhar... ai descobri minha vocação.Com 16 anos entrei para a Fundação Armando Álvares Penteado onde me formei, tive grandes mestres como Marcello Grassmann, Yolanda Mohaly, Darel, Gruber, Eduardo Sued, Caciporé Torres, etc Minha obra tomou uma identidade própria a partir de 1991/92, descobri que era um artista que faria uma arte gestual fundamentada em assuntos(pelo menos como Start) existenciais cotidianos e na sensualidade.Esta é a razão de ter feito no período de 1992 a 1999 mais de duzentas performances ao vivo ,pintando com bailarinas,músicos e modelos.

2-Fala-me um pouco sobre você, o que atualmente faz além de pintar, músicas, teatro, cinema, livros...

Hoje sou um homem mais reservado, saio pouco e gosto da minha solidão... vou ao cinema(só se for uma grande filme), leio muito e faço corridas diárias para manter a saúde...tomo vinho todo dia e gosto de uma boa mesa com um bom papo.(já esta convidada)

3-Você fez parte de um grupo? Qual foi a sua convivência com a geração 70? O que contribuiu com esse relacionamento para suas obras?

Não faço parte de grupos, tenho luz própria, mas conheço todos eles e me dou muito bem com o pessoal da década 70 e 80 e também com todos os pintores modernos que tive o privilégio de conviver já que minha mãe foi à primeira diretora do Clube dos Artistas e Amigos da Arte em 1949, nasci no meio de todos os mestres e participei um pouco da suas histórias. Portanto todos contribuíram para minha arte, bebi nesta fonte..e ainda estou com sede.

4-Produz seus quadros/obras livremente ou parte de projetos pré determinados? Esboços para se chegar a obra final?

Sou um intelectual, parto sempre de alguma idéia, muitas vezes faço esboços e muitas vezes são estes esboços que se tornam definitivos, como é o caso da série estudos que te mandei,era projeto para telas grandes, mas...

5-Considera seus trabalhos só para colecionadores, entendidos em arte, estudiosos ou a vê como popular? Pode classificar o perfil do comprador de suas obras?

Confesso que já fui um artista de uma leitura mais fácil, de 1961 a 1991 vendi, mas de 2000 mil obras, pior que considero toda esta obra (com algumas exceções) muito ruim, hoje sou um artista mais completo e não pinto mais “enfeites”, em compensação tenho mais dificuldade de ser entendido. Não sou contra quem faça uma arte decorativa até acho que tem bons valores e de extremo sucesso como é o caso de Beatriz Milhazes.

6-Você teve no percurso de sua vida artística uma influencia mais latente, ou seja, um artista ou alguém, uma referencia?

Sim tive influencia de muitos artistas, mas o que virou minha cabeça e até me ajudou a conceituar minha obra atual é Willem De Kooning. Sou um expressionista abstrato/figurativo.

7-Você foi um dos primeiros a fazer performances. Como vê o uso dela hoje?

Fui o primeiro artista a fazer uma performance pública em 1960 numa boate “Ela Cravo e Canela” pintei um nu com uma bailarina num pequeno palco com fundo de música sacra. Porem este mérito ficou com Aguilar na década de 70 e com o Granato um pouco mais para cá, eles tinham mídia e eram mais entrosados com a turma da época, eu fiquei conhecido com as performances a partir de 1993. Performance é um instrumento de soltura para o artista,ao mesmo tempo em que promove sua obra.

8-O que acha das instalações hoje? E a arte digital, acha válida, permanece?

Tudo é válido quando a alma não é pequena... porém tem muita mediocridade por ai...

9-O que acha da street art invadir as galerias, museus? Afinal é quase sempre uma arte sem formação acadêmica?E a fotografia como você a vê? Arte ou documento? E o valor dado a elas competindo com a pintura de suporte, com a escultura?

Gosto dos grafiteiros são livres e tem uma linguagem direta, porém acho que eles estão perdendo a identidade e se tornando ‘fashion”, gosto de fotos jornalísticas que clicam um momento único, acho fotografia uma arte difícil, tem que ter um olho muito agudo e muito inteligente.. senão tudo vira um simples registro doméstico e vulgar.Quanto ao mercado, bom o mercado é invenção de alguém muito hábil..tudo se vende quando é transformado em moda...tudo também é descartável em minutos, faço parte de uma construção mais sólida...um dia só....serei alguma coisa só...


10-O que acha da arte conceitual, a vanguarda existe ainda?

Conceito sempre existiu, só muda a forma de expor... não sou contra nada, só acho que arte tem que ter inteligência atrás do seu suporte ou não suporte. Vanguarda é quem da um passo para frente, tenho visto poucos passos para frente, mas tenho visto muitos passos para trás, muito artista se apropriando de “vanguardas passadas”, isto é triste e cansativo.


11-Você acha que existe ainda bons críticos de arte, ou hoje prevalece só a força da mídia-mercado?

Tem bons críticos? Acho que tem gente que escreve bons textos com 10% de idéias próprias e 90% de citações de outros intelectuais. Se isto é bom...então tem bons críticos.

12-Sua obra em algum momento foi de engajamento político/social ou seu discurso é mais filosófico, psicanalítico, sobre o homem e suas angustias (ou não)?

Mais filosófico, psicanalítico e muito sobre angústia e solidão.


13-Essa exposição que será inaugurada no dia 10 de setembro, intitulada ‘Forever’porque esse título? Fez obras especiais para exposição? É o seu momento? Você podia falar um pouco sobre ela?

Sim esta é uma exposição especial, brinco com o “para sempre”, falo do amor, do preconceito dos contos de fada... Tudo na verdade, nunca é para sempre, mas transformo estes conceitos em obra de arte e ai elas viram “Fo rever”. A escultura objeto “A morte do príncipe” é feita com brinquedos descartáveis da minha filha, jogou fora o príncipe e seus cavalos...criei então a revolta destes cavalinhos de contos de fadas que cansados de tanto servir os príncipes acabam matando seus montadores, assim como fez minha filha que jogou tudo no lixo.....mesmo que estes brinquedos foram retratados de uma forma dramática...são eternos..FOREVER!!!Transformados em arte.





Entrevista concedida a
Cíntia Thomé
28.08.2011


Dia 10 de Setembro - Vernissage "Forever" de DUDU SANTOS
a Galeria Jaqueline Martins
das 11,00hs até 20,00 hs
Rua Dr. Virgilio Carvalho Pinto,74 Pinheiros, São Paulo/SP

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joe_brazuca
 

artistas entrevistam outros artistas !

Fantástico, Cintia !...não conhecia esta veia jornalística sua !

voce é COMPLETAMENTE completa !

bjs

joe_brazuca · São Paulo, SP 9/9/2011 21:45
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Vasqs
 

Tinha visto no seu post do Face. Fiquei no mínimo muito curioso e já botei na minha agenda. O problema é a compulsão que me dá de levar pra casa, um perigo! ... rs
bj

Vasqs · São Paulo, SP 12/9/2011 13:45
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ayruman
 

Maravilha Cintia!!!
Quando alguém consegue trabalhar de dentro para fora, vive num estado de constante renascimento. É uma reconstrução diária de si mesmo... (Kahlil Gibram).


Tenha um bom dia.

ayruman · Cuiabá, MT 12/9/2011 13:58
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kfarias
 

Muito bom, sensacional, após ler imagino o sucesso que sera essa exposição.
Parabéns pela divulgação, entrevista e por poder lá estar.ç

kfarias · Águas de Lindóia, SP 12/9/2011 20:29
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Zezito de Oliveira
 

Cintia,

Beleza!! Dei uma olhada rápida e gostei das perguntas e do perfil do artista. Vou marcar o post como favorito e ler mais tarde.

Abraço,

Zezito de Oliveira · Aracaju, SE 13/9/2011 06:58
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

parabéns, gostei dos seus trabalhos, abraçosssss

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 26/9/2011 16:12
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