MATÉRIA REALIZADA EM 29/08/08 PARA DISCIPLINA PRODUÇÃO EDITORIAL - PUC MINAS
O Duelo de MCs reúne toda a cultura do hip hop em um espaço público, o que fez o movimento se tornar um ponto de encontro em BH.
Música, dança e artes plásticas. Os três elementos, impulsionados pela criatividade, já demonstraram ser uma mistura de sucesso devido ao movimento hip hop. E em Belo Horizonte, essa mistura não poderia render melhores frutos, como acontece no Duelo de MCs. Após um ano de existência, o duelo se consolidou no espaço urbano da cidade e já faz parte das opções de programas para quem quer se divertir sexta-feira à noite.
O movimento, como afirma Fernando Castilho, mais conhecido com Castilho, juiz e um dos organizadores do duelo, contabiliza mais de 60 sextas-feiras e aproximadamente 300 freqüentadores fiéis. Porém, Pedro Valentim, mais conhecido como PDR, um dos organizadores do movimento, afirma que nunca houve a divulgação do duelo a não ser em blog e orkut. Então, como se explica tamanho sucesso?
João Perdigão, jornalista, frequenta o duelo desde o seu início. A razão para isso é poder encontrar com os amigos. De acordo com o jornalista, “eu sei que eles [amigos] vão estar aqui pra eu trocar uma ideia”.
Não é somente para João que as amizades atraem a vinda para o movimento. Flávio de Abreu, o Renegado, também vai ao duelo porque “a geral [do hip hop] está aqui, desde o cara das antigas, até o cara da nova, os caras que vem só para curtir, reúne todo mundo”, diz o rapper, que há 12 anos se dedica à música.
PDR acredita que o freestyle, estilo de rap feito com rimas improvisadas praticado no duelo, “encanta” as pessoas. E não a apenas um tipo de gosto, porque ”hoje não é só militante do hip hop que vem ao duelo, tem gente de várias tribos, vem família, mãe, tio, vô, muita gente”, comenta PDR.
Jonathan Augusto, o MC Simpson, ainda completa. “Aqui [o duelo] é um ponto de encontro, né, sexta-feira não tem nada pra fazer, tem meus amigos, é de graça, sabe?”, comenta o MC.
O fato de ser uma opção gratuita e de qualidade também é um dos pontos fortes do movimento. Dagson Tertuliano, freqüentador do duelo e grafiteiro, explica que “quando a casa é paga, não rola porque é muito rap da moda, eu prefiro um rap de raiz, mais verdadeiro e tal”. Castilho confirma o ponto de vista de Dagson e diz que a idéia do duelo é “trazer um hip hop mais original, que não é esse negócio de hoje em dia, que é muito batalha de ego, e você vê isso na televisão, na rádio, em todo o lugar”.
Além disso, no duelo é possível vivenciar toda a cultura do hip hop porque “a proposta é justamente essa, juntar todos os elementos. Toda noite tem DJ [Disk Jokey], MC [Mestre de Cerimônia], b-boy, graffiti”, diz PDR. Por isso, “o duelo é a representação maior da cultura de rua mineira”, afirma Renegado. Porque “o hip hop é uma cultura de rua e ele [o duelo] vem para trazer o hip hop para a rua, tá ligado? Sem cobrar entrada, com alguém lucrando em cima do movimento”, diz o rapper.
A tomada do espaço urbano se torna importante no contexto da cultura de rua. “Acredito que eu, como cidadão, devo aproveitar o espaço público, né?”, afirma Dagson. E “a grande maioria das pessoas de Belo Horizonte não sabem disso, que esse palco, debaixo do viaduto Santa Tereza, foi criado pra gente e estava degradado”, comenta PDR.
Portanto, “uma das coisas que a gente explora [organizadores do duelo] é a revitalização desse espaço, e ele é nosso por direito e cabe a população ocupar e ocupá-lo de maneira digna, que é a gente saber aproveitar sem estragar nada e aproveitá-lo para que a geração de amanhã possa usufruir desse espaço também”, reflete PDR. Castilho acredita que isso é uma forma de “trazer para a cidade uma coisa que tá na cara de todo mundo, como o graffiti e, entre outras coisas, a arte urbana”.
Escola de Mcs
O Duelo de MCs também ensina. É o que aponta a história de Vinícius Silva, o Vinição. Com apenas 16 anos e mais de um quarto das vitórias, Vinição é o recordista do duelo. Antes de freqüentar o movimento, há cerca de 10 meses, ele compunha músicas em casa, mas não tinha pra quem mostrar. “Eu ficava ensaiando dentro de casa e ficava eu e eu, né? E agora eu já posso demonstrar o pouco que eu tenho no Duelo”,diz Vinição. De acordo com o MC, desde quando começou a fazer o freestyle, se tornou mais articulado e menos tímido e ganhou também amigos. “Pra mim tudo que tem aqui me inspira, tanto dj, b-boy, grafiteiro, então eu gosto de estar num lugar que me sinto bem. Nem sempre é o hip hop que me atrai aqui, tem coisas que melhoram minha vida, vários parceiros já me deram ideias de altas paradas”, conta.
Os juízes do duelo ajudam os MCs com as críticas, de acordo com Castilho. Para o juiz, a forma como o julgamento é feito e os toques que ele dá nos concorrentes, os ajuda a melhorar o desempenho. “Chamar os MCs e mostrar o que eu vou notando, por exemplo, ajuda melhorar no conteúdo, no flow, é uma forma de incentivar”, acredita.
O esforço do Família de Rua
Mas para fazer com que o duelo seja bem sucedido como ele é, requer muito esforço por parte do pessoal que o organiza sem ganhar um centavo com isso. O grupo Família de Rua, composto por aproximadamente 10 pessoas, de acordo com PDR, “carrega o som, liga, desliga, anota, faz a inscrição”.
Leonardo Cezário, mais conhecido como Leo, um dos componentes do grupo, conta que o nome Família de Rua se originou numa brincadeira entre amigos. Mas à medida que as pessoas se reuniram para organizar o duelo, surgiu a necessidade de uma identificação dessas pessoas, explica Leo. Além disso, o nascimento do grupo se deu na rua. “Todo mundo se conheceu na rua, ninguém era amigo de escola, do trabalho e as coisas também foram acontecendo na rua”, diz Leo.
A recompensa para tanto esforço, segundo PDR, é ver a cena do hip hop se movimentar em Belo Horizonte, que de acordo com ele, “estava meio parada antes do duelo“. “A gente faz com a intenção de ver acontecer mesmo, sem esperar resultado nenhum. Fazemos porque as pessoas vão embora daqui satisfeitas, como a gente sai. Não é para aparecer para ninguém, não é para mostrar, e sim, mostrar que Belo Horizonte tem hip-hop, e esse está sendo o ponto de hip-hop da cidade”, diz PDR.
No futuro, o Família de Rua pretende formar uma associação cultural. “É trampo porque ninguém ganha um real com isso, a gente quer estruturar a associação, quer que o Família de Rua seja uma associação cultural, até a gente conseguir viver disso daqui a um tempo, se isso é possível, lógico”, comenta PDR.
Como funciona o Duelo?
Todas as semanas, oito MCs ou oito duplas de MCs duelam em quatro rounds de 45 segundos. O vencedor é decidido pelo público e por mais dois juízes. E antes da final do duelo, há a apresentação dos b-boys e b-girls, ou seja, dançarinos da modalidade break, diretamente ligada ao surgimento do hip hop. Nos intervalos do duelo, também acontece um pequeno show com algum rapper ou banda da cidade ou que está na cidade naquele momento. E durante esses acontecimentos, um grafiteiro de BH faz o seu trabalho em tapumes cedidos pela organização do duelo.
Como surgiu o Duelo?
De acordo como MC Simpson, o Duelo de MCs se parece com “Batalha do Real”, surgida no Rio de Janeiro. Ele conta que na disputa do Rio de Janeiro, as pessoas apostam um real e duelam. “Quem ganha leva tudo”,diz o MC. Como resultado disso, foi formada a “Liga dos MCs” e no ano passado, houve uma competição realizada em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Pernambuco e Rio Grande do Sul. E a partir da competição em Belo Horizonte, “uma semana depois, a galera quis fazer uma coisa aqui, para trazer o hip-hop de BH de novo para a rua”, afirma PDR. Então, foi através de um encontro informal na Praça da Estação com apenas 30 participantes, um MP3 player e duas caixinhas de som que surgiu o Duelo.
Muito bom saber que o modelo da Batalha do Real está vingando também em BH. No Overmundo, já tivemos essa dica bacana do João Xavi sobre a cena no Rio. Agora, em BH, essa boa novidade. Bom artigo, Carol! :)
Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 19/6/2010 11:28
Oi Viktor, tudo bom?
Hj, o Duelo de MCs aqui em BH é o principal evento de hip hop. A maioria das pessoas envolvidas com o movimento está lá toda sexta-feira. É muito bacana! Gostaria de conhecer a Batalha do Real aí no Rio tb...um abraço!!
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