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DUPLA TRAGÉDIA - CRÍTICA DE "THE SECRETS OF PENIS"
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Carlos Bonow, Iran Malfitano e Marcelo Laham: espetáculo sem sentido
DUPLA “TRAGÉDIA”
Uma crítica da peça “Os segredos que só os homens têm” (ou “The secrets of penis), de Evandro Mesquita
Na Grécia Antiga, berço do teatro, os espetáculos tinham uma finalidade nobre: provocar nos espectadores a reflexão crítica da sociedade, ou a menos uma reflexão. Qualquer. Mas era uma reflexão que mexia com os pensamentos e com os paradigmas do público. Pois bem. Saí de casa para assistir à peça “Os Dois Cavalheiros de Verona”, clássico de William Shakespeare. Sabia que aquele domingo não seria uma viagem à Grécia ou à Inglaterra, mas tinha a certeza - ou quase – de que faria um bom programa cultural. E mais: de que ao voltar para casa, eu não seria o mesmo, porém um ser pensante mais inteligente, informado ou crítico. Acontece que aquele domingo era final de campeonato entre Flamengo e Botafogo, no Maracanã. E a peça do maior dramaturgo de todos os tempos era no Teatro do Sesi (Centro), às 19h30, minutos depois da comemoração dos torcedores do time rubro-negro. Já era. Avenidas abarrotadas de carros. Tráfego congestionado. Flamengo campeão e noite sem emoção - pelo menos para mim porque, além de o meu time ter perdido, chegar ao teatro a tempo tornara-se impossível.
Corri para o outro lado da cidade: Shopping da Gávea. Em alguma daquelas quatro salas de teatro deveria haver uma peça interessante. No Teatro dos Quatro “Corações Encaixotados”. Não. No Teatro das Artes a peça “Autofalante”, com atuação do excelente ator Pedro Cardoso, e no Clara Nunes “Não sou feliz, mas tenho marido”, com a atriz Zezé Polessa. E ainda sem me esquecer do musical “Renato Russo”, que conta a vida do cantor e compositor. Poderia assistir a uma dessas três últimas, porém, no relógio marcavam 21h e todos estes espetáculos já haviam começado. Virei a cabeça para o lado e li no cartaz estampado ao lado da bilheteria do Teatro Vanucci: “Os segredos que só os homens têm, domingo, às 22h”. Tomei coragem e fui. Instantes depois, minha noite de domingo, antes comparada a uma viagem à Grécia ou à Inglaterra, tornou-se uma “tragédia”. Infelizmente, não uma “tragédia” grega mesmo, no sentido original, mas uma dessas tragédias com sentido mais moderno, que quer dizer “catástrofe”, “desastre”.
Primeiro, segundo e terceiro sinais. “Os segredos que só os homens têm” -com vinte minutos de atraso - começou.
O início até parecia interessante. Com a ajuda de efeitos audiovisuais do telão atrás do palco, dias e noites passam rápida e sucessivamente. Os três atores simulam situações que os homens vivem no cotidiano. Lendo jornal no vagão lotado do trem, os assuntos rotineiros e os esbarrões que um dá no outro. As tradicionais conversas sobre mulher e futebol e a correria para o trabalho. Seria uma crítica à maneira como nós, homens, nos comportamos?
Não. A partir da segunda cena, o “grande espetáculo” se transforma em chacota e vulgaridade. Os atores passam a relatar os traumas e as experiências sexuais de forma explícita e repugnante e os espectadores tornam-se aliados, ora como “platéia” em si, que aplaude constantemente, ora como alvo de piadas e brincadeiras humilhantes. Que o diga Sofia e uma senhora, decerto com mais de 60 anos, que estava na primeira fila. Para a primeira, que estava acompanhada do namorado, o ator insinuou que ela havia feito “sexo oral” nele – para não dizer a expressão correta que foi utilizada. Para a outra espectadora foi ainda pior. Durante uma cena em que o ator simulava a ereção com um protótipo de pênis de tamanho fora do comum, um líquido que veio do objeto foi jogado em cima da senhora, que não ficou constrangida, mas caiu na gargalhada.
E assim vai até o final da peça. É incontável o número de palavrões, gestos e termos vulgares ditos no espetáculo. Os filmes “Noviça Rebelde” e “Jornada nas Estrelas” ganharam novos nomes, segundo os atores: “Roliça Rebelde” e “Jorrada nas Estrelas”. O ato sexual é imitado de forma jocosa. E até um xingamento é proferido a um rapaz da platéia: “vai tomar ..%#@@!”.
Foi então que me dei conta de que de “segredo”, conforme anunciado no cartaz, não havia nada. A peça era apenas uma paródia vulgar da vida sexual masculina.
O inacreditável é que o público lotou a sala – cada um pagou 40 reais - e no final do espetáculo todos aplaudiram de pé, sem contar com as constantes interrupções com as gargalhadas durante a peça. Parece que realmente é esse o tipo de teatro que faz sucesso no Brasil. Se Shakespeare e outros grandes dramaturgos como Moliere e Bretch estivessem vivos, sentiriam-se inúteis.
O problema não são os palavrões e os gestos obscenos, mas o conteúdo da peça. Se o espetáculo provocasse a reação crítica do público e acrescentasse alguma coisa, tudo bem. O fracasso da peça (na minha opinião) também não é devido ao tema do espetáculo. É possível falar de sexo, mas desde que sirva para quebrar tabus e preconceitos e abrir uma discussão sobre o assunto.
O demérito também não é para os atores que, aliás, se saíram muito bem. Principalmente Marcelo Laham. Ele realmente incorporou um personagem – de repente o personagem imitou o próprio ator – e se entregou a cada cena. Se o objetivo de um grande dramaturgo é promover a comunicação com todos os tipos de público, o ator é peça fundamental. E Laham cumpriu o seu dever. Em cada aparição, apesar do texto sem conteúdo, o ator prendeu a atenção dos espectadores.
Na última cena da peça, para encerrar com “chave de ouro” – nada mais clichê – os atores, fantasiados de pênis, em uníssono, gritam para a platéia descontrolada em gargalhada: “Que não falte ‘pênis’ para ninguém”. É mole?
(Lendo uma matéria sobre a peça no site globo.com – www.oglobo.globo.com/cultura/plantao/2006/03/09/192204606.asp - descobri que “Os segredos que só os homens têm” é uma adaptação do espetáculo inglês “The secrets of pênis”. Agora está explicado.)
tags: Rio de Janeiro RJ artes-cenicas teatro critica peca secrets penis
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hmmm eu assiti a essa peça. É muita baixaria!
Rafael Biancardine · Rio de Janeiro (RJ) · 9/5/2007 18:24
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Rafael, comentei sé que foi no seu login...Como eu apago?
Rafael Biancardine · Rio de Janeiro (RJ) · 9/5/2007 18:27
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Tô achando muito bacana ver que cada vez há mais críticas de teatro no Overblog. Valeu, Rafael. Só não entendi uma coisa: a adaptação que é do Evandro Mesquita, e não a autoria da peça, é isso?
Queria te fazer uma sugestão de edição: a foto ficou meio estranha, não acha? O que será que houve? É preciso ter pelo menos 600 px pra ficar legal... Pelo que parece, essa foto era menor e ficou esticada assim. Enquanto estiver na fila de edição você pode tentar mudar. Abraço
Helena Aragão · Rio de Janeiro (RJ) · 10/5/2007 11:07
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Também acho bacana o aumento de críticas de teatro. Coisa boa mesmo! :)
Lembro-me de ter visto esta peça em cartaz, mas não fiquei nem um pouco tentado a assistí-la. Preferi ir a um boteco beber e falar besteiras com amigos, pois isso é mais "autêntico" do que a dramatização estapafúrdia descrita pelo nosso caro Rafael. :)
heheheeh
Abraços do Verde.
Daniel Duende · Brasília (DF) · 10/5/2007 15:20
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Helena,
É isso mesmo. A peça original se chama "The secrets os penis" e o Evandro Mesquita a adaptou com uma modificação significativa no título: de "The secrets of penis" passou para "Os segredos que só os homens tem".
Quanto a foto, ficou ruim mesmo hehe
vlw pelos comentários!
Rafael Biancardine · Rio de Janeiro (RJ) · 11/5/2007 19:51
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