Há pouco mais de uma década, as grandes gravadoras mandavam e desmandavam na indústria fonográfica. Na época, gravar um CD-R ainda engatinhava no quesito popularidade, o VHS dominava as prateleiras de videolocadoras, a internet era um luxo discado para poucos e celular só em ficção científica ou no MIT.
Espremido entre limitações tecnológicas e a prepotência das majors (Sony, Warner, Universal), o mercado dos games corria por fora na conquista de mais espaço dentro da cadeia econômica mundial. Quem está na casa dos 30 anos, certamente passou pelo telejogo e assistiu de camarote à febre do console da Atari. Depois, em progressão geométrica, viu os vídeogames embarcarem num turbilhão de sucessivos avanços tecnológicos até atingirem um patamar que hoje dita muita regra de ordem comercial e, principalmente, comportamental.
O antes e o depois
Bem, esse blá-blá-blá todo é para chamar atenção ao seguinte detalhe: antes, a empresa que quisesse incluir uma música (devidamente controlada pelas 'megagravadoras') em um jogo tinha que rebolar muito para não pagar rios de dinheiro pelo uso/direitos autorais. A luta era desigual e sempre favorecia as poderosas da indústria fonográfica.
O tempo passou voando, as relações comerciais se inverteram, a internet está aí, as majors perderam terreno para a pirataria e, sobretudo, às iniciativas independentes que passaram a se beneficiar com as facilidades de gravação e distribuição de áudio. Enquanto isso, as empresas criadoras de games - mesmo com a versão pirata nas esquinas – nunca lucraram tanto.
Hoje a conversa é outra, há fila de artistas querendo ceder gratuitamente os direitos de músicas para integrar a trilha sonora de um game de sucesso. Hoje em dia é loucura 'jogar areia' para tentar impedir, ou mesmo cobrar pela inclusão de uma composição em um jogo como o 2006 FIFA World Cup (Copa do Mundo 2006), da Eletronic Arts – uma das gigantes do setor. O alcance de um jogo desses, ainda mais em ano de campeonato mundial de futebol, sem falar na possibilidade da carreira de um artista estourar internacionalmente, faz qualquer artista (compositor/intérprete/banda) sair no tapa para garantir uma vaga nesse seleto grupo.
Dos games às paradas de sucesso
No caso da banda potiguar DuSouto, que funde música eletrônica com rock e ritmos regionais nordestinos, a sorte literalmente bateu à porta. Recém contratada pela gravadora carioca Nikita Music, capitaneada por Felipe Llerena, a banda recebeu a notícia com ar de surpresa... assim de sopetão. “A ficha demorou a cair”, lembra o baixista e vocalista Paulo Souto. Destaque no último Festival Música Alimento da Alma (Mada), em Natal, e no Rec Beat, do Recife (PE), o DuSouto também é formado por Gabriel Souto (DJ), Gustavo Lamartine (guitarra e voz) e Joolio Castro (VJ) – o contato com a Eletronic Arts foi todo feito pela Nikita.
O quarteto papa-jerimum e o figura carimbada Sérgio Mendes (há decadas radicado nos Estados Unidos) são os únicos brasileiros escalados na seleção do game (que roda em consoles da Sony, da Nintendo e da Microsoft, mais os PCs). Mendes emplacou a velha conhecida “Mas que nada”, de Jorge Ben Jor, e os nordestinos marcaram um gol de placa com “Iê Mãe Jah”, mistura eletrônica com toque africano – na verdade um sincretismo que une sonoridade modernosa a pontos de Candomblé.
Em maio último, durante a realização do Festival Mada, Llerena passou ao quarteto os primeiros consoles do Brasil com o novo jogo. “Ainda não sei o que nos espera daqui pra frente, mas tenho certeza que meu sobrinho vai curtir o jogo”, brinca Paulo, ainda sem uma noção exata da dimensão que a oportunidade pode oferecer e quem sabe catapultar a carreira internacional da banda.
Enquanto aguardamos os próximos capítulos, vale uma partida de 2006 FIFA World Cup só para conferirmos a trilha.
Vale lembrar que a industria de videogames é hoje maior até que a de armas. Uma das maiores do mundo... então, emplacar um hit no Fifa cria um eco maior que qualquer rádio, qualquer tv, qualquer link na Internet! =)
Bruno Nogueira · Recife, PE 25/5/2006 09:16É verdade mesmo. Algumas bandas eu conheci jogando Winning Eleven. Essa história me fez lembrar do acontecido com uma banda capixaba (Kasaca, se não me engano), que teve sua música tocada no despertar da sonda em Marte. Antes, eu nunca tinha ouvido falar da banda. Realmente, uma bocada das grandes também.
Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 25/5/2006 13:02
Bela oportunidade, com certeza.
Mas o poder de catapultar hits da série Fifa já tem tempo. Lembro que na distante versão de 1998 o game contribuiu - e muito - para Song 2, do Blur, tocar até no radinho de vendedor de mariola.
Há alguns anos, houve um concerto no Japão só com versões orquestradas das canções de Final Fantasy - popular série de RPG japonesa - e os ingressos esgotaram rapidamente.
O inverso também acontece.
Saulo, como deixei claro no texto era uma realidade há mais de uma década, sem dúvida aquela do Blur (em 1998, há 8 anos portanto) foi o estopim que todos esperavam e pagaram para ver. Tb não tenho dúvida do tamanho do alcance e influência global dos games.
A questão é o mérito da banda e da Nikita que conseguiram abrir esse canal, e garanto que o Llerena não vá dar o mapinha da mina assim de mão beijada. Só achei que o Sérgio Mendes poderia dar espaço à um artista 100% brazuca.... mas são coisas da vida. gde abraço,
É isso aí. Trilha sonora de videogame bomba tem muio tempo. Começou com o Mario e hoje é o Katamari. A história é longa. Seria interessante se alguns jogos como Winning Eleven, que costumam lançar uma versão piratona "Campeonato Brasileiro", tivesse algum jeito de colocar só bandas brasileiras, mudar completamente a trilha sonora do jogo... Eu acho que esse tipo de coisa não tá longe de acontecer. Aliás, no xbox já dá para cada um montar a sua própria trilha.
Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 30/5/2006 09:11Putz! Essa plataforma piratona de campeonato brasileiro é muito boa. Além de música nacional, traz também placas de publicidade de empresas brasileiras e gritos das torcidas daqui. Ah! Sem contar que ainda vem com quase todos os grandes times do Brasil.
Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 30/5/2006 15:18Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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