DVD Rumos_ Brasil da Música - Antonio Vieira

Taciana Barros e Luciane Pisani
Projeto Gráfico coleção Cartografia Musical Brasileira
1
Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ
14/1/2008 · 155 · 10
 

Em 2003 escrevi por um breve período textos sobre artistas e Cds para o site www.dissonancia.com. A iniciativa foi muito construtiva, tive minhas primeiras experiências como produtor de conteúdo. Foram textos bem simples, sem pretensão alguma, um livre exercício de expressão. Por vários motivos, acabei parando de escrever.

Em dezembro de 2005, época de minha primeira viagem para Salvador, fazendo a produção executiva do grupo Bataclã FC (Porto Alegre/RS) no VI Mercado Cultural, tive contato com vários artistas e CDs independentes, como Ladston do Nascimento (Minas Gerais), Afonjah (Rio de Janeiro), Benjamin Taubkin (SP), Lucía Pulido (Colômbia), Fernando Tarrés (Argentina), Neto Lobo e a Cacimba (Salvador), Trio Manari (Pará), Ramiro Musotto (Argentina/Salvador), Afoxé Alafin Oyó (Pernambuco), entre outros. Então pensei que seria importante escrever sobre estes artistas, para dar mais visibilidade aos seus conteúdos, mas novamente fiquei só na vontade.

Em abril de 2006, ao participar da Feira da Música Independente de Brasília, recebi um Cd intitulado “Moqueca Musical”, uma coletânea com música produzida no estado do Espírito Santo. Fiquei impressionado com a quantidade de gêneros e grupos que eu desconhecia. E isso voltava a me fazer pensar: “quanta gente, como eu, não deve saber que isto está acontecendo no Espírito Santo”. A partir daí, passei a pensar seriamente em trabalhar para ampliar a visibilidade desta produção cultural. Só faltava um empurrãozinho para começar...

Em novembro de 2007 levei o empurrãozinho. Por ter sido o proponente do trabalho do grupo Pata de Elefante, um dos selecionados do Programa Rumos Itaú Cultural Música 2007, recebi uma coleção de DVDs e CDs da edição do Programa Rumos Música 2004-2005. Resolvi então partilhar observações e dicas sobre estes conteúdos, com o objetivo de que várias pessoas possam construir novos mapas de referências do que hoje é a nossa produção musical brasileira.

O que é o Programa Rumos ?

Em atividade desde 1997, o Rumos Itaú Cultural é um programa de apoio à produção artística e intelectual sintonizado com a criatividade brasileira. Rumos colabora para o fomento e o desenvolvimento de centenas de obras e de artistas das mais variadas expressões e regiões do país - de músicos e cineastas do Norte a escritores, coreógrafos e artistas plásticos do Sul; de jornalistas e pesquisadores do Nordeste a educadores do Sudeste.

O caráter nacional do programa mobiliza artistas, especialistas, pesquisadores e instituições parceiras, que fazem da cultura uma linguagem comum de fortalecimento da cidadania e das características múltiplas do povo brasileiro. Os produtos gerados pelo programa são distribuídos gratuitamente a instituições culturais e educacionais e disponibilizados para emissoras de TV parceiras e neste site.


Rumos Itaú Cultural Música 2004-005

Em sua edição 2004-005, o programa Rumos Itaú Cultural Música recebeu 1.410 inscrições de músicos de todo o Brasil. Uma comissão julgadora autônoma, formada por Alexandre Mathias, Elizah, Glacy Antunes, Heloisa Fischer, Kassin, Paulo Freire, Pedro Osmar, Rappin´Hood, Sérgio Oliveira, Vitor Ramil e Weber Lopes e por um representante do Itaú Cultural selecionou 50 inscritos (entre artistas-solo e grupos) para integrar, com duas músicas cada um, a coletânea de sete CDs Rumos_Brasil da Música.


Coletânea “Cartografia Musical Brasileira”

Além do registro sonoro, todos realizaram apresentações ao vivo, na Sala Itaú Cultural, em São Paulo. Os shows foram gravados em áudio e vídeo digital, o que resultou em um kit com seis DVDs, com parte das apresentações e entrevistas de cada um dos selecionados legendadas em inglês, francês e espanhol, para possibilitar a difusão internacional desses conteúdos.

Os DVDs, os CDs e dois CD-ROMs de mp3 constituem a coletânea “Cartografia Musical Brasileira .


Artistas do DVD 001_ Rumos_ Brasil da Música

O primeiro DVD desta cartografia musical apresenta os artistas Antonio Vieira, Renata Rosa, o duo João Luiz e Douglas Lora, Grupo Amaranto, Trio Curupira, Mombojó, Péri e Tião Carvalho.

Vamos começar conhecendo o trabalho de Antonio Vieira

Olhar sorrateiro, sorrisos e conversa gesticulada. Assim começam os primeiras imagens do mestre Antonio Vieira. Nascido em São Luís (MA) em 1920, cantor e compositor com mais de 60 anos de carreira e obra sólida, Mestre Antonio expressa suas raízes, ritmos populares do Maranhão como bumba-meu-boi e o tambor-de-crioula e a poesia do cotidiano com humor e delicadeza.

Ao iniciar sua apresentação, saúda aos presentes: “boa noite meus amigos, estou aqui para cantar, só espero nesta hora, conseguir vos agradar”.

Na seqüência, o artista canta “Na cabecinha da Dora”, composição sua com Pedro Giusti. Após esta música, Mestre Antônio conta como ficou conhecido. Na versão oficial contada por ele, isso se deu pelo fato de uma vez ter vencido um festival no Maranhão: tirou primeiro lugar com a música “Papagaio de Papel” e segundo lugar com “Menino Travesso”. Na versão fictícia que me vem à mente, a explicação é cantada por ele na próxima música intitulada “Cocada”, onde convida “mulatas e louras, morenas e negras pra dar uma provada”!

Interessante a visão que Mestre Antonio tem da vida. Os sabores das comidas de sua terra, a sensualidade, o prazer, tudo em equilíbrio na expressão de sua música. Do alto dos seus 85 anos, ele aconselha: “para se viver muito é preciso não ter vícios. É a minha receita. Segundo: não comer muita gordura. Eu se puder comer vegetal, eu não como gordura de maneira nenhuma. E depois cuidar um bocadinho do corpo”.

Por fim, ele fala de sua relação com artistas como Rita Ribeiro (que veio descobrir o trabalho do mestre quando foi para o sul) e Zeca Baleiro, com quem fez um show em um teatro em São Paulo. “Enchemos o teatro. Nesse dia eu dei autógrafo por mais de uma hora de relógio!” conta rindo o querido compositor.

E para que não fique dúvida da sabedoria popular que Antonio Vieira acumulou em sua trajetória de vida, ele encerra sua participação no DVD cantando “Banho Cheiroso”, sobre o qual diz:

você sente uma moleza, sem ter doença nenhuma,
tem a vida atrapalhada, não consegue coisa alguma,
então ouça meu conselho, que é muito valoroso,
e não perca mais seu tempo,
tome um banho cheiroso
”.

Espero conhecê-lo pessoalmente. É uma pessoa muito carismática.

Mais informações sobre ele podem ser encontradas aqui.


Foram utilizadas também informações extraídas da cartilha Rumos Itaú Cultural Música 2007-2009 e DVD 001_Rumos_Brasil da Música.

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Helena Aragão
 

Bacana a iniciativa, Alê! Pelo que entendi este é o primeiro texto de uma série, certo? Muito legal, pois há tanta coisa no Rumos que alguém que chame atenção para certas obras sempre ajuda a direcionar o olhar (e o ouvido). Bacana também ver você contando sobre o Antonio Vieira. Fiz resenha em 2001 sobre o disco produzido pelo Zeca Baleiro e depois, em 2004, pude entrevistá-lo aqui no Rio. Foi tão legal vê-lo falando alegre com a carreira, viajando por conta do trabalho (era um projeto sobre sambas de várias partes do país)... Por isso foi bom ler suas declarações de novo. Bom, estou curiosa com os próximos textos! Abraço

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 10/1/2008 13:08
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Lu&Arte
 

Ótimo texto! E como ter acesso a esses DVDs? Conhecemos muito pouco da cultura brasileira, não sabia nada sobre o artista. Sou de Porto Alegre e agora é que estou começando a conhecer o Overmundo.

Lu&Arte · Porto Alegre, RS 10/1/2008 17:34
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Cintia Thome
 

Alê. Fiquei encantada com os links, com o projeto. Como a gente está tão fora de ritmos que tem conteúdo na mídia! Volto e espero outros textos.Bom te ler.abç

Cintia Thome · São Paulo, SP 10/1/2008 20:23
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Alê Barreto
 

Oi Helena, obrigado, a idéia é comentar um pouco de artista. Este texto acabou ficando mais longo. Os outro serão um pouco mais suscintos. Não é uma crítica ou resenha, mas como você mesmo diz, algumas declarações, impressões, dicas.

Lu, eu também sou de Porto Alegre. Acho que no site www.itaucultural.org.br deve haver o contato para saber para que locais em Porto Alegre eles enviaram. Daí é só ir e ouvir.

Cíntia, obrigado pelas generosas palavras. Eu quero aprender a escrever pra valer, quem sabe direcionar até todo o meu potencial para isso e o Overmundo está sendo uma grande escola. E vocês colegas construtivos e criativos. Mas sempre me digam no que posso melhorar. Bjs!

Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 10/1/2008 23:47
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
dMart
 

bacanaço, Alê!

o que se cria neste país é algo impressionante. e quanto a gente desconhece sobre a nosas própria cultura... muito já debatemos sobre isso. fico feliz em ver o amigo pondo a mão na massa. há muitos Brasis pra gente descobrir.

baita abraço!

dMart · Porto Alegre, RS 11/1/2008 11:36
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Alê Barreto
 

Estou devagarinho aprendendo este importante ofício da escrita. Você como músico, ao escutar o Antonio Vieira, perceberá que ele é uma importante referência da cultura popular. Na linha do Casca e Gonçalves...

Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 11/1/2008 11:56
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Cintia Thome
 

voto e amei Neto Lobo e a Cacimba, os links são demais Alê.
Parabens ok?
abç

Cintia Thome · São Paulo, SP 13/1/2008 17:00
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Alê Barreto
 

Obrigado Cíntia, o trabalho do Neto é muito legal. Ele na verdade não é de Salvador, ele vem do interior da Bahia. Então o trabalho dele traz muito sotaque do interior baiano junto com as influências contemporâneas.

Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 14/1/2008 09:44
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Adroaldo Bauer
 

Alê,
Que bonito esse teu trabalho escrito e apresentando assim lindamente um povo que cria música de modo nosso. Vamos aprendendo a produzir e a ouvir contigo,que tens repartido solidário o teu conhecimento conosco aqui.Sobre aprender a escrever, como dizes, tem essaboa fórmulaque descotinas aí... escrevendo e lendo e escrevendo. Outras também existem, mas essa que já trilhas é uma boa estrada. E trilhas bem, sapecando aqui eali na descrição uns temperos bem peculiares do modo de serteu e daspessoas e coisas de que falas. Um estilo em construção, então.
Abraço, tchê.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 14/1/2008 19:10
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Alê Barreto
 

Adroaldo, obrigado, é interessante que é esta fórmula que mencionas que descortino aqui é a seguinte: fazer. E me surpreendo como a gente vai descobrindo caminhos com as pessoas e pessoas com os caminhos.

Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 14/1/2008 22:56
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