Acabei de chegar do cinema e além de uma enorme e "brilhante" bagagem cultural, voltei também com um diploma honorífico de "Bocó" - logo eu que sempre fui metidinho a antigo, a conhecedor de tribos e tribais, nessa "mifu" e com extremo prazer - isso mesmo fui assisti Dzi Croquettes, sem saber exatamente do que se tratava, apenas por indicação de um colega, leitura de sinopses em folders de salas de artes e com uma vaga lembrança de já ter escutado esse nome em algum lugar, não sei onde, quando ou como, mas já havia ouvido ou visto aquele nome, pronúncia em algum lugar que não na padaria ou num boteco. O filme-documentário atinge ao ponto de perfeição de uma produção cinematográfica - não é à toa que já faturou dezenas de prêmios -, absolutamente completo sem a necessidade de pôr ou acrescentar absolutamente nada. Num formato dinâmico que envolve cenas da época (apresentações, memórias, vídeos caseiros etc.), depoimentos colhidos no Rio de Janeiro, Nova York e Paris de artistas influenciados, agregados e admiradores do grupo de uma forma que não soou nada falso como acontece em inúmeros documentários, todos os depoimentos trazem informação precisas, importantes, curiosas, no mínimo engraçadas e maximamente envoltas em carga positiva de emoções e saudades. Entre os depoentes estão: Liza Minnelli, Ron Lewis, Miguel Falabella, Nelson Motta, , Ney Mato-grosso, Betty Faria, Miéle, Marília Pêra, Elke Maravilha, Cláudia Raia, Maria Zil-da, Gilberto Gil, César Camargo Mariano, Lidoka, Pedro Cardoso, Norma Ben-gell, entre tantos outros que não são menos importantes e ainda os integrantes remanescente originais do grupo: Claudio Tovar, Ciro Barcelos, Bayard Tonelli, Rogério de Poly e Benedito Lacerda.
Dessa forma os diretores e roteirista Tatiana Issa (agregada consaguínea do grupo) e Raphael Alvarez fazem uma panorâmica altamente eficiente, contando o coito, gestação, nascimento em 1972 e desenvolvimento dessa família de machos barbudos, cabeludos, andrógenos e epicenos que não eram "nem homens, nem mulheres, só gente", de forma magistral, com fatos sequenciados e bem esquematizados que fazem até "Bocós" como eu compreender inteiramente a importância desse fenômeno para a cultura de um país, seus impactos e suas vivências. E não para por aí, o documentário faz um paralelo com a história do Brasil e do desmantelamento da cultura na época da ditadura, pois infelizmente como foi / é / e continuará a ser feito, a história do Brasil é contada (não deveria) sem citar evidências épicas da cultura como os Dzi Croquettes, mas o inverso é impossível, pois os esquecidos, temidos, gloriosos e sublimes da arte e cultura mesmo que na contramão geram abalos sísmicos cósmicos.
Sendo assim abstive-me de falar sobre o tema, pois conforme diplomação não seria adequado, mas posso dizer que devido a um filme excepcional passei a conhecer não um pouco, mas o substancial desse Cometa de Purpurina que passou pelo mundo. Se você viveu, conheceu, ouviu falar ou é diplomado como eu não perca em hipótese alguma esse documento da cultura brasileira.
Como poderia deixar de ser, mas não deixou, o documentário se finda com o "fim", de forma “emotivo-ético” e verdadeira, sem excessos ou omissões, mostrando o rompimento da família depois de energias "avisarem" o ocorrido, o retorno, inclusão de novos membros, o "câncer gay" e a grande despedida dos palcos e de parte dos Dzi Croquettes da vida. Do prato -palco - que antes traziam 13 croquettes, hoje restaram 5 que eram / são / e sempre serão Dzi croquettes, pois como cita Rogério de Poly: "não existe Ex-Dzi Croquettes". Despeço-me aqui com a impressão de que "só o amor constrói" - ou pelo menos construía - e de que "se somos todos ignorantes! Enlouqueçamos pois...", pois enquanto não tomarmos noção e "crençamento" de que a arte e o amor são essenciais para se viver, seremos apenas palitos de carne, "porque somos um croquete é só isso que somos, um palito de carne!" - e ainda assim, se algum dia tivermos essa sabedoria continuaremos a ser meros "croquetes", só que mas bem fritos, macios e felizes, prontos para ser devorados pela boca que chamam de Vida.
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